quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Cerimônia Viking

Agora as fotos em todos os jornais e sites da internet estampam os rostos desconsolados e as atitudes ritualísticas religiosas dos fãs pelo mundo de Steve Jobs. Como todo amanhecer que advém da morte de um herói, o amanhecer que se abriu diante o mundo com a gritante ausência do criador da Apple também tem aquele matiz de cor de cinemascope que dá a impressão de que as mínimas labutas cotidianas foram suspensas, por um instante, para que os corações e as mentes se enchem de uma angústia deliciosamente nostálgica. O site do bol, ontem, um dia anterior ao da morte de Jobs, cobrava de mim que eu fosse o enérgico homem de libido inesgotável já às seis da manhã, quando, antes de ir ao trabalho, ao confirmar meus emails, as fotos da entrada mostravam as garotas de biquine dos times de futebol nacionais; hoje, nessa atmosfera sagrada de enterro viking, as fotos são de um garoto chorando diante uma coroa de flores, uma mulher acendendo velas, uma fila de adoradores olhando pro céu; o apelo, meu cérebro teve que entender de imediato, era completamente outro: exigem de mim um discreto grau de monasterismo, um quê de recato, nada de pegar pelas emoções mais baixas, hoje não, hoje vamos chorar O homem. Nada mais moralizante para as tendências intrínsecas ao individualismo latentemente pervertido do homem cibernético do que cortar-lhe o barato sexual autômato com a notícia que um grande homem morreu; ainda mais se o grande homem for, ele mesmo, um dos principais responsáveis por essa luxúria sexual, essa farra do isolamento condicional que numa catarse paradoxa nos oferece a impressão de conquistarmos a amostra grátis de todas as plenas sensações do convívio social. Pulo para meus blogs rotineiros de visita, e lá está: Jobs no silêncio reverente da Companhia das Letras; Jobs no site do NYT, nas notícias principais do Google. Logo Jobs vai me pegar de frente nos telejornais não só do restante do dia, mas da semana, do mês, da retrospectiva de final de ano.

Interessante o quanto a morte de Jobs é carregada artificiosamente de uma áurea de repentinidade dramática. Parece que a causa de seu desaparecimento vem das mesmas que abateu por sobre outros personagens ilustres dos últimos anos. O seu definhamento físico, que era algo consumado em suas tradicionais aparições públicas desde dois anos atrás, parece não ter sido apreendido pelo conhecimento dos milhões de usuários dos aparelhinhos de telas coloridas, que são os que, me parecem, mais o consideram um gênio e mais choram a sua partida. Bauman definiu os rebeldes urbanos dos protestos atuais na Inglaterra, como sendo "consumidores fracassados", atrás unicamente de seus direitos de cidadãos pós-ideológicos de consumação dos fetiches oferecidos pelo mercado; já os órfãos de Jobs parecem ser o oposto disso: os consumidores perfeitamente potencializados pelo absoluto sucesso de consumirem o que quiserem, daí a rede de superficialização em não terem tido a necessidade de fazerem o nexo cognitivo de que o criador do i-phone fosse alguém passível de mortalidade. Em O Labirinto da Solidão, Octávio Paz traça a diferença da visão frente a morte entre mexicanos e norte-americanos: esses últimos, ao contrário das festas naturalistas cínicas mexicanas da celebração da morte, vivem numa não aceitação frenética da finitude, conduzem seus planos de vida numa aleatoriedade quanto aos limites temporais e adotam dietas que não pressupõe o AVC na linha frequente de cafés-da-manhã com bacon e ovos fritos. Paz analisou isso na dura metade do século passado, onde os exílios virtuais eram inexistentes e a realidade só possuia como reparos anestésicos a tv e o rádio; os descendentes dessa geração que viu a cabeça de Kennedy se esfacelar pelas imagens do televisor de válvula, e o coma definitivo de Elvis pela imaginação propugnada nos noticiários, estão inalcançados pela ausência de filtro de que as telas mágicas e os bilhões de dólares, por mais que assinalem magnanimamente o contrário, não descartam que aconteça com seu beneficiado a mesma verdade última que acomete os que não são abençoados pela grande estrela. Daí que a morte de alguém como Jobs vem investida de uma pressuposição fortemente subliminada de que só foi possível que morresse através de uma tragédia, um tiro, uma overdose, um acidente automobilístico, algo tão alheio e determinante quanto a sua condição de natureza eterna. Não será para menos que nos obituários futuros, quem quiser saber a sua causa mortis terá que procurar muito nos bancos de dados, pois vai ser generalizada a verdade de que cumpriu sua estadia gloriosa sem que precise questionar escamoteados detalhes desconcertantemente terrenos_ assim como é oficialmente inconcebível supor que a beleza celestial de Ingrid Bergman foi abatida por um desfigurante câncer de útero. Se essa geração que compõe a quase maioria absoluta de indivíduos atuais, em termos de estatísticas de consumo (que é o que importa), fosse um tanto menos ególatra, um tanto mais liberada a alcançar um patamar de percepção do que poderia ser a vida além da técnica institucionalizada pela grande mídia, poderia até a passar a crer que os atributos das telas coloridas trarão Jobs de volta, numa reencarnação digna da mágica transcendental que ele criou.

Lembro de ter lido que quando Chaplin lançou Tempos Modernos, em meados da década de 1930, a magnífica sátira ao fordismo que retrata a escravização moderna do homem pela indústria de forma a transformá-lo num autômato compulsivamente repetitivo, o forte apelo denunciador do filme demorou para ser percebido pelas platéias. Mesmo sendo a mesma platéia composta de homens oriundos do meio industrial, funcionários ou ex-funcionários submetidos à distração do cinema para que tanto si próprios quanto o Estado fossem suavizados da dura (e reativa) percepção da realidade da crise _ nessa consonância dual que tem o bom cinema de ser ao mesmo tempo, veículo revolucionário de esclarecimento e arma pacificadora_, a única coisa que era explícita para ela era a comédia pura. Esses homens tinham a incapacidade cultivada de não se identificarem na tela; o miserável que era engolido pelas gigantescas roldanas da máquina era o palhaço eventual de um mundo que nada tinha a ver com o deles. Não é para menos que quando da morte de Ford, o cortejo fúnebre e as festas de veneração tenham tido o esplendor e a imperiosidade que a morte não conseguia tomar do Ford icônico posto como crendice sagrada ao cidadão acabrestado pela realidade criada pelos poderes dominantes.

Jobs representa a nova dinâmica industrial escravocrata do mundo contemporâneo, numa eficiência e absoluta persuasão de santidade hedonista que não é possível enxergar aos que estão nos escalões abaixo, na linha mediana da comunidade cibernética. O fordismo, ainda que impere sempreterno na base da produção, foi suplantado na auto-percepção e no imaginário do homem moderno pelo jobismo. O jobismo trouxe para finalizar o empreendimento hiper-astucioso do capitalismo global o que os projetos do socialismo pragmatizado não conseguiram descobrir em sua obtusidade rígida: o misticismo consolador da técnica aparentemente ilimitada. É como se ao fordismo, que comanda os braços e a libido sincronizada do proletário, afim de garantir o surgimento de novas frentes de trabalhadores, se juntasse a força de coalizão que faltava, que comanda o que antes se julgava inalcançável e insubmisso: o interior do coração humano. Jobs, assim como seus parceiros edênicos da Microsoft, do Facebook, do Google...são responsáveis pela pedra de consolidação que faltava ao capitalismo global: descobrir que no coração humano não existe nada; nenhum melindre ou força propulsiva vulcanizada que não possa ser persuadida por um celular de ponta, por conexões ultra-rápidas da internet, por comunicação bluetooth, por ter suas fotos familiares compartilhadas pelo mundo todo, para que vejam o quanto você é um consumidor bem sucedido. O grande mérito de Jobs foi ter descoberto que as mulheres semi-nuas que aparecem no portal da bol logo de manhã é tudo o que mora no fundo da filosofia do homem urbano.

Zizek escreveu que o conceito de proletariado composto por Marx está defasado. Proletários somos todos nós, que nos submetemos ao sistema, alimentando-o com nossas horas diárias, retroalimentando-o doando tudo que nosso tempo conseguiu num consumo irrefreável; que vivemos em bolsões de exilio para não incomodar a corrente eterna dos que fazem a máquina girar, em nossas favelas, condomínios, bairros auto-vigiados, apartamentos, vilas. O capitalismo, segundo Zizek, adotou plenamente todas as táticas comunistas, apagando de vez qualquer mérito que pudesse ter o inimigo (desacreditando-o por completo), de modos que entramos numa fase evolutiva de biopolítica, em que tornamo-nos números manipulados. Nossa força espiritual, que Kant, em sua suprema inocência, tentou organizar em seu Paz Perpétua, se tornou estatistica pura e simples. Temos música de graça. Toda a cultura produzida pelo homem ao alcance de um download. O que Lênin, Stalin e Mao nunca conseguiram; aliás, o que eles mais temiam: o esclarecimento e a liberdade de opinião como um princípio elementar dado_ outorgado_ a nós pelo capitalismo cibernético. Jobs nos deu o que Adorno e Horkheimer intuiram estar na fase mais elevada do esclarecimento: o enfrentamento com o nada da saturação pela exposição ao conhecimento. Apenas que Jobs foi além do limitado alcance da filosofia: mostrou que a nós, os homo sacer, nós, os pós-políticos, poderíamos nos deleitar com a pacificação hedonista do nada. Jobs é um dos heróis da farsa do conhecimento através de um click, da exaustão excessiva através da impressão da aquisição, de outro avatar do capitalismo, o da relativização legal de direitos autorais de criação e da consecutiva extinção das patentes intelectuais que antes garantiam a produção de cultura e de ideias, em todos os campos humanos. Jobs, declarado gênio, foi genial apenas na visão estrita de tomar para si uma miríade de ideias surgidas de cabeças já não possuidoras de personalidades nomeáveis. Com o grupo de "criadores" de Jobs inaugura-se o socialismo da não propriedade intelectual em que o livre domínio só por milagre não decretará o fim da criatividade da mente humana, às custas dos bilhões ganhos pela corporação dos Zuckerberg, dos Gates, e dos Jobs, que lucrarão através do roubo instituído que será formalmente apresentado através das telas dos ipads, dos tablets, dos iphones. Com Jobs surge a espécie dos homo otarius denominada por Zizék. E esses heróis serão, à via de uma maior catarse, apresentados na derradeira versão poético-trágica cinematográfica em suas vidas solitárias de grandes visionários excêntricos. Não à toa há milhões que choram hoje a sua morte.

33 comentários:

  1. Chaplin fez a gente pensar. Jobs nos fez comprar, criou necessidades de consumo, gerou mercados do "nada". Ele traduziu tecnologia em gadgets, fabricados na China, de grande apelo comercial. É um ícone da atual geração.

    Tem uma publicitária canadense, Naomi Klein, que disseca boas informações no livro "Sem Logo". O comparativo de despesas da Nike em mão-de-obra (Indonésia) com seus gastos em publicidade observa grandezas pra lá de distintas. Klein analisa que a Nike não vende tênis ou roupas, mas trabalha para ser o próprio esporte. Sua logo está pintada nas quadras do Harlem, celeiro de talentos do basquete dos EUA e onde pouca gente tem condição real de comprar Nike.

    Eu não sei em que medida os CEOs da Nike, da Benetton ou da Levi's diferem de Steve Jobs. Ou da Zara, que produz roupas caríssimas a partir de costureiras bolivianas escravizadas em São Paulo. Talvez dê para parodiar um documentário intitulado "Inside Jobs"...

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  2. Embasbacado.

    "Talvez dê para parodiar um documentário intitulado 'Inside Jobs'..." - mas q bela ideia.

    Esses dias veio a Porto Alegre Kotler, um ÀS da administração aí, não fui vê-lo por já terem me bastado as chatas aulas sobre ele em alguma cadeira da facul. Mas vi uma frase q ele deixou em sua passagem, sobre as possibilidades do marketing, de q dever-se-ia apontar agora era para o espírito das pessoas, cujos corações já estavam dominados. Não li a ingenuidade na Paz Perpétua (talvez por não ter lido Paz Perpétua), mas consigo me frustrar um bocado com "a pacificação hedonista do nada". Falta ar aqui. Talvez o bastante pra não acompanhar o q se seguiu no texto: "a extinção das patentes intelectuais que antes garantiam a produção de cultura e de ideias". O problema não seria mais a falta de uma alternativa desta garantia do que propriamente aquela extinção (ideia que o capitalismo parece ter comprado de graça e vendido cara)?
    É dizer que o capitalismo inventa sua própria "revolução" para ser "o avião distribuindo alimentos para uma população que acabara de ser atacada por um bombardeio" (frase tirada da wikipédia para o homo sacer, que não conhecia), para ser todos os aviões, os de ataque e os de defesa?
    O mais triste é pensar nesse teu "pós-políticos", pois, sendo irreversível, como reverter?
    Me deixou a pensar muito.
    Abraço.

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  3. Arbo, interessante, essa frase que você retirou da wikipédia é do livro "Bem-vindo ao Deserto do Real", do Slavoj Zizék. Não sei se a Wiki atribui a autoria. Se não, isso é um exemplo da apropriação intelectual a que me refiro, que, claro, não é uma ideia minha, mas a vi em Zizek e Bauman, principalmente.

    Não tenho tempo agora, mas há nos links do blog da Companhia das Letras um texto de um autor inglês em que ele acaba com qualquer esperança quanto ao futuro do livro e, sumariamente, com a existência de escritores. Como existirão estes se os tablets tornarão pirateados e gratuitos todos os livros? Não creio 100% nessa profecia, mas, como diz mesmo Zizék (parece que sou discipulo do cara, mas é que estou me embrenhando na leitura pormenorizada da obra dele), é através do apocalipsismo, da concepção não de que o fim está próximo, mas que já estamos nele, que poderemos tentar reverter a tragédia. Ou seja, através de um pessimismo ativista e engajado, sem eufemismos, que conseguiremos deter as correntes do mal do neoliberalismo desenfreado e da rarefação do espírito humano (pomposo, eu sei!).

    A falta de alternativas não é determinante o suficiente?

    Mas não é irreversível. Só que, para reverter essa onda, prevejo tempos interessantes pela frente, num futuro próximo. Uma nova provação globar para a espécie, talvez a pior, juntanto devastação ecológica, manipulação genética, burrice desenfreada, domínio absoluto das empresas, etc.

    A obra de Kant está longe de ser ingênua, mas soa assim por falar, em tempos niilistas, do Espírito.

    Abraço.

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  4. Fábio, me fez lembrar que estou atrás desse livro da Naomi Klein. Não consigo recordar onde li uma entrevista com ela, se foi na Caros Amigos ou em algum lugar da net.

    inside jobs é uma ótima sacada, mas creio que está muito cedo para alguém se aventurar a tal trabalho, numa época que a mistificação total dele está sendo criada agora.

    Estes dias assisti ao documentário O Mundo Segundo a Monsanto, e me lembrei dos descalabros dos quais falávamos alhures. Se não assistiu ainda, recomendo.

    Abraço.

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  5. Amei, Charlles Campos. Recomendei no meu facebook. Para ler, pensar e guardar.

    Abraço,

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  6. Charlles,
    Digno do mais examplar de Frankfurt. É por aí que segueria a análise da coisa se Adorno ou Marcuse ainda estivessem por aqui.
    E por falar na morte do Livro (e do Autor), me parece que a expressão "Deserto do Real" é na verdade de Jean Baudrillard. Um cara que precisa ser lido. Muito superior que Bauman, disso tenho certeza.

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  7. O, Luiz, o mundo virtual talvez não autorize sentimentalismos, mas, estava sentindo tua falta. Por acaso passou um tempo nos EUA? É que o sinalizador aqui apontou umas vizualizações de página vindas de lá.

    Vou procurar o Baudrillard ainda hoje. Já tinha lido sobre ele, e, já que suas indicações costumam ser essenciais...

    Zizek não cita Baudrillard no referido volume. Ele dá referências sobre o termo a Badiou, que, por sua vez, tomou-o do famigerado filme dos irmãos Wachowski.

    Abraço.

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  8. Chapa,

    Continuo lendo em silêncio seus ótimos ensaios. A libido anda baixa (já que Zizek tá na área).
    Os Wachowski diziam ter sido inspirados pelo "Simulacros e Simulações" do Baudrillard. Bobagem. Leram o francês na universidade e somaram a compreensão equivalente a um desses volumes "Buffy e a filosofia".
    Baudrillard vale à pena ser lido, se não pela obra tardia, principalmente pelos "Sistema dos Objetos" e "Sociedade de Consumo". Para mim esse é o maior herdeiro de Frankfurt.

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  9. Eu não vi "O Mundo Segundo a Monsanto" ainda. Quero ver, mas tenho que estar num dia de fúria para babar diante do DVD, sair de casa com um cartaz de protesto e não deixar barato tudo isso que está aí.

    Tô numa fase meio bipolar: fiquei pensando na morte que chega aos 56 anos para um fulano adotado, sem canudo e que começou numa garagem. Achei meu comentário duro, desrespeitoso, sei lá. Continua a me incomodar a devoção, todavia, esse tratamento icônico do cara, que de (Mon)santo nada tinha.

    Por falar em descalabro, um lote de Toddynho, da Pepsico, foi envasado com detergente. Estava à venda no Rio Grande do Sul e algumas dezenas de pessoas passaram mal. E, vê que coisa, tem gente indignada e com nojinho de E. coli!

    Deixa eu ver se tomei minha dose de rispiridona hoje.

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  10. Fábio, desencana. Não vi dureza ou desrespeito algum. E mesmo que tivesse, seria bem vindo. Pode dizer, desabafar, tripudiar, etc., o que quiser. O espaço é livre.

    A palavra escrita tem uma certa angústia inerente. Na certa, se estivessemos conversando pessoalmente, as coisas teriam bem menos sombras.

    Consolo-me sempre com esse velho ditado judeu: "Tristeza, Senhor, é uma espécie de frivolidade."

    Ainda mais nos tempos de hoje.

    Vi essa coisa do Toddynho. Há três semanas, a vigilância sanitária recolheu toneladas de produtos vencidos com datas adulteradas nas prateleiras do Carrefour de Goiânia. Muitos, alimentícios. Aquilo que falávamos antes. Não foi a primeira apreensão. É porque a coisa tá correndo frouxo. Será que está chegando o tempo em que a e. coli vai ser vista, por exclusão, como o herói da história? A salmonelose, a mais beatífica das mortes?

    Mas...alegria, cara. Coloque o outro lado do bipolarismo pra funcionar. Hoje é início do final de semana.

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  11. Olha,

    Na minha época, eu não conheci nenhum fiscal que soubesse pesquisar salmonella do modo correto. Eu tinha 16, 17 anos e achava isso absurdo.

    A pesquisa demandava (não sei se hoje existem outros meios) pré-enriquecimento, enriquecimento seletivo, cultivo e bateria de provas bioquímicas. O SIF não usava Bactray (é caro, imagino), que é uma mão na roda para isso.

    Nem vou falar dos testes sorológicos, pois toda salmonella é patogênica. São vários dias de análise. Se não for bem feita, cuidadosa em todas as etapas, não pega - a menos que a contaminação estiver absurdamente alta.

    Pior.

    A exigência legal para e. coli também era falha. Havia duas alternativas admitidas pelo SIF: caldo e. coli a 44,5 graus (ok) ou cultivo em VRB com teste de Indol (não ok). O VRB pega coli total, mas o Indol é insuficiente para confirmar e.coli (segundo minha professora de microbiologia, que era ótima e eu devo tudo que sei a ela).

    Do IMVIC (Indol + Metil Red, Voges Proskauer + Citrato), o Indol é justamente o que pode dar falso positivo (ou falso negativo, ou ambos, não lembro direito dessa parte). Mas a lei exigia Indol e não IMVIC. Ou seja, a exigência legal para e. coli era meia boca. Para e. coli, hein. Imagine salmonella.

    E, rá, a rispiridona tá fazendo efeito. Vê que eu estou me atendo ao tema do post. Tá ficando multipolar a coisa.

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  12. /\
    ::
    ::

    Oh, Lord, de novo não!

    (Lembrei imediatamente de vocês quando começou essa história de Toddynho)

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  13. Fábio, quiçá o Brasil tivesse mais profissionais proficientes em sua área como você. Eu mesmo, que adorava a disciplina de laboratório de leite, esqueci quase tudo do que aprendi.

    Em respeito ao estômago da Caminhante, vou conter minha falação sobre o assunto.

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  14. Eu não vi (alguém viu?) nenhuma autoridade sanitária se manifestar. Nada. Portanto, a gente tem que engolir que a empresa sabia de tudo isso desde 23 de agosto - mas não avisou ninguém:

    "Mantendo sua política de transparência nas informações e ética no relacionamento com seus consumidores, a PepsiCo, detentora da marca TODDYNHO®, compartilha as ações que vem efetuando, desde a última semana, para confirmar as causas da irregularidade no produto.

    Com base nas avaliações realizadas, foi identificada uma alteração no conteúdo de embalagens de 200ml de TODDYNHO® Original, com numeração L4 32, produzido no dia 23 de agosto, no intervalo das 5h30 às 6h30, com validade até 19/02/2012 em Guarulhos, São Paulo, e que teve comercialização restrita ao estado do Rio Grande do Sul.

    A avaliação indica que durante o processo de higienização dos equipamentos, conforme rotina padrão, houve uma falha e uma das linhas envasou algumas embalagens de Toddynho com o produto usado para limpeza, à base de água e líquido detergente.

    A empresa recolheu imediatamente, ainda dentro das fábrica, as embalagens impróprias para o consumo, porém cerca de 80 delas chegaram ao mercado.

    Vale reforçar, portanto, que essa irregularidade não se deve a um problema na formulação do produto, que tem sua qualidade reconhecida em 30 anos no mercado brasileiro, mas de uma questão pontual no processo de envasamento.

    A empresa também mobilizou imediatamente sua força de vendas para recolher as unidades de Toddynho com numeração L4 32 das 5:30 às 6:30, com validade de 19/02/2012, que estavam no mercado. Podemos afirmar que a grande maioria das unidades do produto que estavam no mercado já foram recolhidas.

    Vale, no entanto, reforçar aos consumidores que caso tenham embalagens com a numeração citada acima em suas casas, não devem consumir o produto e entrar em contato com o SAC da empresa.

    Além de recolher essas unidades, a PepsiCo disponibilizou um médico para os consumidores que tiveram contato com o produto e procuraram a empresa por meio de seu Serviço de Atendimento ao Consumidor. A PepsiCo está acompanhando de perto a evolução dos casos, atuando em conjunto com a Vigilância Sanitária. Hoje o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS) do Rio Grande do Sul confirmou que das 23 amostras analisadas, somente aquelas com a numeração L4 32 das 5:30 às 6:30 estão com alteração de conteúdo e todos os demais lotes de produtos estão próprios para o consumo.

    Todos os demais sabores da linha TODDYNHO®, bem como aqueles que não têm numeração de L4 32 05:30 a 06:30, com validade de 19/02/2012, estão próprios para o consumo.

    A PepsiCo reafirma seu compromisso com os consumidores brasileiros e reforça que tomou imediatamente todas medidas cabíveis, sempre de forma transparente e responsável. A empresa permanece à disposição para eventuais esclarecimentos e conta com uma equipe de profissionais mobilizada para dar informações aos consumidores, pelo telefone 0800 703 2222.

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  15. Eu liguei para o SAC. "Nosso horário de atendimento é de segunda a sexta-feira, de 8 às 18 horas".

    Diz-se que será aplicada multa de 175 mil reais (vale a pena cagar na cabeça do consumidor), mas existem recursos para a empresa contestar a multa ou baixar o valor.

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  16. "A avaliação indica que durante o processo de higienização dos equipamentos, conforme rotina padrão, houve uma falha e uma das linhas envasou algumas embalagens de Toddynho com o produto usado para limpeza, à base de água e líquido detergente."

    Isso chega a ser cômico, Fabio!

    Em outra hora digo aqui pra você sobre um processo judicial por qual passei por uma coisa do gênero. Havia feito o meu trabalho, o que resultou por dar prejuízo financeiro a uma empresa alimentícia, a qual me processou. Ganhei a causa.

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  17. Diga mesmo, charlles, quem sabe um post sobre essas tuas experiências. a Caminhante que cerre os olhos, eu gostaria de saber. hehe

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  18. Às viúvas e aos viados de Steve Jobs…


    O JOGO
    by Ramiro Conceição


    Tenho uma ingenuidade
    que beira a estupidez.
    Por outro lado,
    já fui um excelente
    jogador de xadrez:
    é que gosto do jogo claro, da batalha declarada;
    quando é assim, não tenho qualquer escrúpulo:
    revelo-me um “vencedor” no tabuleiro da vida.
    Contudo,
    a questão fundamental
    é que tudo não é ganhar!
    Talvez,
    a vida deva ser alguma coisa além de blefar:
    algo que redima do trágico um novo Alekhine.

    Por isso deixei o xadrez
    pra jogar um jogo novo
    não com os grandes mestres
    mas com qualquer pedestre
    porque a vida… merece.



    CORES DO MORTAL
    by Ramiro Conceição


    Lá, onde havia medo,
    um brinquedo… há.
    Cá, onde havia malícia,
    uma inocência… está.
    Filhos dão sentido ao caos:
    são as cores… do mortal.




    PS: Charlles, fiquei muitos dias impossibilitado de comentar em seu blog. Meus comentários simplesmente desapareciam, após a escolha do perfil. Aparecia em vermelho uma mensagem “não deixe a caixa de comentários em branco”. Repetia a operação e tudo se repetia… Um verdadeiro caos.

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  19. Chato saber disso, Ramiro. Eu sou um energúmeno digital e não sei como resolver isso. Com alguma frequência recebo via email tal reclamação. Talvez a solução seria comentar como anônimo e assinar, quando isso ocorrer.

    Eu estava esperando que o poeta do blog fosse o primeiro a comentar esse post.

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  20. Arbo, talvez essa história eu não tenha muito saco pra contar. Já a esbocei no blog do Milton. Muito terceiromundista, com presença de família de coronéis, tudo porque eu havia condenado algumas carcaças de vaca e decretado quarentena no matadouro. Eu poderia ter pedido uma indenização gorda quando a juíza decretou que eu estava legitimamante correto, mas queria encerrar o assunto com a cabeça erguida e com retratação oficial. Esta saiu em dois órgão de imprensa.

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  21. Errata: que o poeta do blog fosse comentar o post do poeta laureado.

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  22. Charlles, se te consola, quando o blogger dá desses paus que o Ramiro relata, não há nada que se possa fazer a não ser esperar...

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  23. Pois é, Charlles,

    Você brigou com coronéis em defesa da fiscalização que protege o consumidor. Mas tem gente supostamente competente que leu uma barbaridade dessas, que é pública e está no site da Pepsi Co, e se calou. Não vou conjecturar.

    Os consumidores estão, afinal, reféns do SAC. Não temos autoridade sanitária. E o SAC não atende no final de semana em que a merda, conhecida desde 23 de agosto, tornou-se pública.

    #nojinho.

    E mil perdões por contaminar teus posts com comentários off topic. Nem Jobs merece. Muito menos a Caminhante, que merece tomar seu leite em pó em paz.

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  24. Tô preocupado com a Caminhante.

    Porque ela se impressiona com esse papo de E. coli, tem certeza de que está comendo cocô. Ela tem alguma razão, mas eu quero tentar desmistificar algumas coisas nessa minha insônia de hoje - e Jobs, voilá, terá contribuído para uma boa causa.

    Existem zilhões de bactérias. Elas são importantes: o mundo estéril seria insosso e nada agradável. Algumas bactérias, todavia, são patogênicas, causam doenças. Há muito tempo, Pasteur desenvolveu técnica, até hoje segura, para nossa proteção.

    Parêntese bacana. É um erro comum acreditar no choque térmico como o X da questão da morte das bactérias. Bactéria não morre de resfriado. O que as mata é o aquecimento (72 graus por 15 segundos; fervura é over, hein!). E por que diabos Pasteur manda resfriar depois do aquecimento? Porque a maioria das bactérias tem temperatura ÓTIMA de crescimento em torno de 30 graus. O aquecimento do processo de pasteurização não as extermina: mata todas as patogênicas. Existe uma flora "banal", ou saprófita, que sobrevive ao aquecimento. As sobreviventes (tecnicamente, são saprófitas termodúricas) também fermentam, ou degradam, alimentos. Não vamos deixá-las passar pela temperatura ótima de crescimento, ora. Se queremos aumentar a durabilidade de um alimento perecível, devemos resfriar. Rapidamente, isto é, passar correndo, voando, pela casa dos 30 graus. Elas crescem bem a 20 graus. Precisamos baixar mais. O frio é, pois, um conservante natural. Algumas danadinhas crescem, ainda que mais lentamente, a 5 graus. Por isso o leite azeda, depois de um tempo, até se mantido geladeira. Fecha parêntese bacana.

    Há uma família de bactérias chamada Enterobacteriacea. As salmonellas, perigosíssimas, fazem parte dessa família, assim como todos os chamados "coliformes" (tecnicamente, coliformes degradam lactose e glicose). Entre os coliformes totais, existe uma espécie, famosíssima, chamada Escherichia coli: é esta tem o nome VULGAR de "coliforme fecal".

    A E. coli é bactéria comum nos nossos intestinos. Noves fora recente notícia de um pepino alemão, que eu não entendi direito, OS COLIFORMES NÃO SÃO PATOGÊNICOS. Nenhum deles. MUITA E. coli talvez dê uma disenteria que, noves fora a exceção, não mata ninguém. E todos os coliformes são destruídos na pasteurização. Logo, também pela facilidade de pesquisá-los (a técnica é simples), tornou-se convenção considerá-los importantes indicadores de higiene e de segurança.

    Significa o seguinte: se tem coliforme, pode ter salmonella, pode ter bacilo de Koch (tuberculose), pode ter Coxiella burnetti (Febre Q), pode ter o diabo. Coliformes totais ou "fecais" são indicadores sanitários: esta é a convenção importante de ser compreendida. É vulgar (embora não totalmente descartável) a ideia de que se trata de alimento com cocô.

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  25. Ficamos pasmos por aqui com a celebração de Jobs como gênio da raça. Alguém que não fez mais do que extrair dos processos do capitalismo suas consequências mais imediatas e investir no jogo da obsolescência programada, mitigando a infelicidade da satisfação de consumo do último gadget pelo próximo versão 2.0, 3.0, 4.0 e assim por diante. Claro, é a imprensa mundial comemorando a "flexibilização" dos direitos autorais também, mas sobretudo impor como exemplo de virtude o que é justo o inverso.

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  26. Vistes a capa da Veja, Rachel? Que coisa ridícula! Jobs no céu, sentado numa nuvem na forma de maçã.

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  27. Ramiro Conceição11 de outubro de 2011 11:19

    Há algo de podre na maça de Jobs.
    http://www.techtudo.com.br/artigos/noticia/2011/10/wozniak-lasseter-johnathan-ive-confira-outros-genios-que-fizeram-parte-da-vida-de-steve-jobs.html
    Deixemos, por alguns instantes, que Jonathan Ive murmure a sua mágoa:
    “Ele tinha um jeito de examinar minhas idéias e dizer: “Isto é bom, isto não é muito bom, gosto disto”. E depois eu me sentava na platéia e ele falava daquilo como se fosse idéia sua.”
    Sou da academia e sei da profundidade de tal lamento… Conheci grandes canalhas que eram, são e serão competentes em uma única área da ciência: o roubo intelectual ou parafraseando Marx – espertos da mais-valia do conhecimento!

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  28. esse blog tá ficando cada vez melhor. juntam-se aos assíduos pessoas (e comentários como o mais acima - adorei) como o Fábio Carvalho, escrevendo livremente.

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  29. Sou obrigado a insistir num off topic. Depois de detergente no achocolatado, agora temos em Porto Alegre sorvete com caco de vidro.

    http://sul21.com.br/jornal/2011/10/vigilancia-sanitaria-de-porto-alegre-investiga-caso-de-sorvete-com-cacos-de-vidro/

    Exigimos qualquer contagem de Escherichia coli em todos os laticínios. Já!

    Fábio Carvalho

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  30. Merda,né? Pior, já que vc é da família: violaram a casa do meu vô (aquele que toca acordeon). Furtaram o microondas e a sanduicheira. Merda. A casa existe há mais de trocentos anos e nunca havia sido alvo de nada, nem de ninguém. Merda.

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  31. Fábio, sinal dos tempos ou uma grande graça? Aqui onde moro descobri ter uma parente, esposa do falecido irmão da minha avó. A casa dela também existe há muito tempo, mas entraram lá enquanto ela dormia e levaram antigas peças de cobre que valem uma fortuna. Os longos anos de sossego foram interrompidos.

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