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terça-feira, 22 de abril de 2014

Nietzsche, de Onfray-Le Roy



Já tentei ler um livro de Michel Onfray sem que obtivesse sucesso. Não me lembro nem do título. Lembro que começava falando sobre a fábrica de queijo em que o Onfray criança trabalhava, a mesma fábrica que permitira à sua família sobreviver às custas de muita indignidade e exploração. Onfray cresce e consegue ganhar sua dignidade e liberdade dos aguilhões capitalistas entrando para o meio acadêmico. O livro me pareceu anacrônico e ingênuo em seu ultra-niilismo datado, e nada me pareceu mais francês, na pior interpretação do termo, do que Onfray. Um autor que existe apenas para manter adiante a tradição francesa do decadentismo e aquelas coisas todas que devem pensar os esnobes intelectuais superiores. Quando eu era adolescente e lia Nietzsche, havia uma eletricidade, uma promessa de recompensa, um quê de felicidade em uma revelação que seria dada e me manteria em vantagem visionária por sobre a malta de indivíduos comuns; depois, como é saudável acontecer, eu cresci e vi que se tratava de mais uma das propagandas cosméticas destinadas à parte etária mais influenciável da vida humana, ainda que uma propaganda em um grau mais sofisticado que as de tênis. De maneiras que levo Nietzsche, o filósofo, pouco a sério, e mantive meu amor pelo Nietzsche poeta e sinfônico. Já Onfray é um imaturo vivendo repetidamente sua adolescência, uma cria fanatizada pelo que há de pior e ultrapassado em Nietzsche, um continuador de uma escola obsoleta que pretende falar de um mundo psíquico restringido à primeira metade do século passado. A criança da fábrica de queijo se tornou um adulto que brinca que é um filósofo dizendo algo perigosamente novo e cataclísmico para um mundo exaurido de arautos de uma inédita verdade.

Por isso, talvez, que Onfray coube com sucesso na forma literária dos quadrinhos. A graphic novel assinada por ele, Nietzsche, e desenhada por Maximilien Le Roy, tem seus méritos e vale a pena. Mostra um Onfray apaixonado pelo seu grande mestre, tratando-o com um inusitado carinho e com uma descomedida defesa contra as ideias pré-fabricadas que se costuma atribuir ao filósofo de Zaratustra. Onfray escreve aqui para um leitor em formação, o leitor ainda passivo da mágica negadora de Nietzsche; há um tom leve, um lirismo que espanta o excesso de seriedade e auto-importância de Onfray; o Nietzsche dos quadrinhos se torna um personagem de quadrinhos, um homem assolado por visões, incapaz de se adaptar a esse mundo e órfão de uma vislumbrada dimensão de poderes. Mas a elegância e a beleza desse livro está quase tudo nos belos desenhos de Le Roy, que equilibra os exageros didáticos do texto de Onfray. Há partes forçadas, em que Onfray exagera sua defesa de que Nietzsche não era antissemita_ quem leu a estupenda apologia à força racial do povo judeu no subcapítulo 251 de Além do bem e do mal sabe disso_, e toda defesa exagerada acaba por dar um tiro no pé revelando uma insegurança por detrás.

Esse livro foi lançado no Brasil pela editora Singular e já está na segunda edição. Eu o procurei várias vezes e minha perícia não conseguiu achá-lo para comprar. Um amigo que me trouxe um exemplar, tomado de empréstimo das estantes da escola pública onde leciona. A maior parte das escolas públicas do país recebeu um exemplar. Um grande mérito.

domingo, 25 de agosto de 2013

Meus 20 livros preferidos de não-ficção (I)

Nesta lista entram biografias, livros de divulgação científica, história e ensaios de todos os tipos.

1- Origem, de Thomas Bernhard: 


Na verdade, a edição brasileira é uma compilação de 5 escritos auto-biográficos de Bernhard. É difícil escolher o número 1 desta lista, mas creio que não é de todo injusto que o espaço seja preenchido por este volume. Aqui Bernhard está no ápice de sua arte. Minha sequência de conhecimento do autor passou pela seguinte leitura: li O Náufrago sabendo que Extinção era ainda melhor; depois que li Extinção, eu estava convicto que não acharia nada melhor escrito por ele, até me deparar com Origem. Esta autobiografia é ácida, desencantada, acusadora, dessacralizante, e carregada de um elemento novo que não tem com muita frequência nos outros títulos bernhardianos, que é um lirismo que abre margem para um enternecimento para falar sobre esse grande personagem que é o avô de Bernhard. O livro é delicioso, um dos mais magníficos e fundamentais que li.

2- Trilogia autobiográfica de Elias Canetti:


Ao digitar a frase acima me veio um assomo de culpa: esses livros deveriam estar em primeiro lugar. Como tem outro Canetti mais abaixo, contudo, Bernhard ainda é válido na posição que está, ainda mais se considerar que eu, o autor desta lista, tenho a índole mais propensa ao iconoclastismo segregado de Bernhard, seu lado outsider, que não se compactua com nada e ninguém, sua metralhadora giratória apontada para todos os lados, do que com o elitismo soberbo da escrita de Canetti que conheceu parte dos principais intelectuais do século passado. Essa trilogia tem provocado uma sensação de mágica em muita gente que a leu, e que comprovo pelas resenhas que fizeram ou pelas opiniões de um ou dois amigos pessoais (uma das resenhas encontra-se em um dos posts do site da Cia das Letras da semana passada). Tenho a mesma sensação: li essa trilogia em sequência, sentindo a mesma nostalgia maravilhada de quando me iniciei na leitura e cada livro era um universo do qual eu não desejava sair. Um livro conseguir provocar esse mesmo envolvimento em um homem adulto de mais de 30 anos, é algo raro. Vamos ao que interessa: Canetti é um aristocrata, um escritor que firmou desde criança seu sistema de valorizações e foi fiel a ele até a morte: por exemplo, era avesso ao comércio e todo assunto sobre dinheiro, e vivia exclusivamente para a arte e o intelecto; precisa-se de muita determinação e coragem para isso. Assim, purgou a pobreza por muito tempo, sem nunca reclamar. Vivia invejavelmente em uma estratosfera muito acima da do homem comum. Escreveu um grande romance que só foi editado décadas depois, e passou o período mais conturbado da história do século XX isolado, escrevendo um insuspeito tratado sobre a dominação, o fanatismo e a condução descerebrada das massas. Escreveu como ninguém e era um gênio. Foi, a meu ver, o Beethoven das letras do século XX. Depois de sua imagem consolidada, escreveu esses três livros incríveis que sequestram o leitor para dentro de sua vida e o faz viver toda a intensa liberdade desses anos. A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos não é só literatura, é uma dessas experiências impagáveis que a vida recolhida nos reserva. Um aprendizado e um deleite.

3- Dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer:


Eu gostaria de saber alemão para ler esse livro em sua língua original. A linguagem deste livro é um portento, um fenômeno, uma revolução. Essa dupla, e, notavelmente Adorno, são os melhores escritores da filosofia. Eles vão mais longe, estilisticamente, que Nietzsche e qualquer outro. Eles são, primeiramente, mais responsáveis em seu método que Nietzsche e qualquer filósofo do século XX. Eles empregam uma concentradíssima combustão de significados por linha corrida, cada palavra remete a amplos sinais e reflexos da verdade. Eles conduzem a ambiguidade a uma categoria de percepção dialética inédita. Há uma parte aqui em que eles estudam sobre matadouros de animais e concluem que a existência de indústrias do massacre de outras espécies para a provisão de nosso nicho na cadeia alimentar já é uma evidência da capacidade humana para o genocídio nazista. Depois de confrontado o leitor com esse fato ineludível, eles perguntam: mas então devemos comer só verduras e leguminosas?, e respondem, ambiguamente, que a ciência desse mal já é um passo para a evolução que exija uma nova procura, um novo instrumental para a existência. E todo o livro é isso: a proposição de um limite impossível para uma nova forma de vida humana, colocando o homem contra a parede e forçando-o a não aceitar os milênios de adaptação errática e sedimentada. O livro sentencia que o esclarecimento determina a liberdade dos aguilhões que nos aprisionam aos costumes cotidianos, aos rituais suicidas da vida moderna, às nossas tendências contra as quais aprendemos a nunca resistirmos para o assassinato e múltiplas crueldades felizes, e que o estágio último do esclarecimento, quando alcançado, é um cósmico e opressivo niilismo diante o qual se exige um novo combate acirrado. Para margear essa sobreposição massacrante de bonecas russas da verdade existencial que Adorno e Horkheimer inventaram essa nova linguagem, essa nova gramática metafísica de alta poesia. O título dessa obra diz tudo. Adorno disse que sua convicção em escrever de maneira difícil era parte do dogma pessoal de não-coaptação a todo o vício que se estabelece para estancar as engenharias espirituais humanas, era um filtro e uma imunização para tentar passar para o outro lado, para ir a lugares da mente e das possibilidades nunca visitados antes, uma arma ainda mais necessária nessa época em que a sua tão decantada Indústria Cultural estabelecia um amolecimento conformador que transformava o pensamento em um produto vazio e codificado.

4- Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt:


Resenha uns posts abaixo.

5- Magia e técnica, arte e política, de Walter Benjamin:


Já escrevi muito sobre Benjamin e pode ser que eu soe repetitivo. Esse livro é uma compilação de alguns dos mais geniais e importantes textos de Benjamin, lançado pela Editora Brasiliense. Tem textos fundamentais sobre Kafka, Proust, Robert Walser. Tem a primeira versão do ensaio clássico "A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica", e os minitextos quase aforísticos do sensacional "Sobre o conceito da História". É impossível não amar Walter Benjamin. Lê-lo é um consolo, um êxtase, uma oração, uma expansão da mente. É um escritor único e inclassificável na história da literatura.

6- Reflexões sobre o exílio, de Edward Said:


Este livro é muito menos aclamado que os clássicos imediatos de Said, Orientalismo e Cultura e imperialismo, mas eu gosto mais dele pela variação de temas apresentados em seus ensaios. Aqui se mostra toda a beleza e versatilidade da escrita de Said, toda a sua erudição. Aqui ele escreve tanto um imprescindível ensaio em que compara Nietzsche e Conrad, textos críticos sobre Naipaul e Hobsbawn, até um surpreendente retrato de uma dançarina do ventre. Mas as cerejas do bolo são dois magníficos ensaios sobre música, no estilo que os leitores de Said já sabem_ que, em se tratando de Said, um ensaio comporta uma profunda averiguação sobre múltiplos temas dentro de um tema previsto_, são eles "Em busca de coisas tocadas: presença e memória na arte do pianista (sobre Glenn Gould)", e o monumental "Do silêncio à música e de volta ao silêncio: música, literatura e história". Este último é realmente uma das coisas mais magníficas que li em toda a minha vida: fala de política, colonialismo, e as paisagens de ruínas da música polifônica. Mas este volume traz muito mais, é de uma riqueza generosa. Lembro-me que eu fui visitar a casa dos pais da minha esposa, quando nós éramos namorados e ela morava com eles, e eu comprei este livro no shopping antes de pegar o ônibus que me levaria até a distante cidade; era a época em que eu estava descobrindo esses dois universos delicados, a obra de Said e a Dani, e a leitura do primeiro no balanço aprazível do ônibus, e o final de semana em companhia do segundo, solidificaram ambos em uma mesma percepção emotiva.

7- Tudo faz sentido, de Saul Bellow:


O livro de ensaios de Saul Bellow. Tem um ensaio clássico chamado "O público distraído". Tem uma seção só com retratos na escrita brilhante de Bellow, de John Cheever, Allan Bloom e outros. Há um ensaio sobre Mozart que me ensinou muito e deliciosas confissões de escritório, além de embates descrevendo convenções de grandes escritores na época que isso ainda acontecia. Para quem gosta de Bellow, se aprende muito sobre o autor e sobre como escrever bem neste livro indispensável.

8- Darwin, de Adrian Desmond & James Moore:


Essa é a melhor biografia que já li. É uma viagem. Pouco depois de tê-la lido, meu pai faleceu. A leitura das angústias do teólogo Darwin diante sua descoberta terrível me deixou deprimido. A depressão elevada, sem prostração, de dividir através de um texto sublime as reviravoltas existenciais de um homem confrontado com sua pequenez cosmológica. Me vi incapacitado de ver qualquer eufemização no desaparecimento de meu pai. O livro narra dores imensas, como a perda da filha de Darwin, que aniquilou de vez sua fé em um deus. Na mesma época li o ditirambo fanfarrão de Deus, um delírio, do qual saí com um acentuado ar de riso diante a rasura dessa comédia de Dawkins. Em contrapartida às paupérrimas modas ateístas, essa biografia é uma dessas leituras fundamentais que provoca, que nos deixa em abandono, que destrói convicções e atitudes movidas pela inércia da falta de pensamento. Casa com o que eu escrevi acima, sobre a obrigação de um novo combate de entendimento quando o esclarecimento é alcançado em seu estágio último, na concepção de Adorno, a procura de novos significados. Ainda sou cristão e a reavaliação que faço em meus estudos sobre as ideias de Darwin me deixou mais ligado a uma apreensão transcendente do universo, mais saudavelmente humilde e disposto a aceitar a beleza disso tudo em que estamos envolvidos. Pela primeira vez, um livro me levou a ter a visão plena de que somos parte do universo, somos um produto que o compõe, de forma inescapável, e que nossos pequenos sistemas de crença, feitos na maioria pelo medo e pela ignorância,  não influem em nada: e isso é libertador de uma maneira que nunca saberia explicar. Me fez recordar de meus estudos universitários em que é dito que as mitocôndrias são organismos de vida própria que, em um determinado estágio da evolução, atacaram as células e as parasitaram. Não há bem e mal na existência, e tudo tem sua importância e sua indispensabilidade. Darwin descobriu isso e naquela época ele não era capaz de se desatrelar do fardo das pre-concepções sociais para ver a enorme alegria libertária de sua teoria. Nossa vida é um mutualismo constante. Entender Darwin é um dever, para acabar com essas falácias estúpidas da apologia a um darwinismo social: a sobrevivência está na harmonia, e não na sobreposição do mais forte sobre o mais fraco. Tudo bem, tudo bem, chega de pregação_ me excedi. O livro, além disso, traz a atmosfera da época, os escritórios, os salões universitários, Galápagos, a visita ao Brasil, e um monte de coisas boas. Masquemos audaciosamente nossos chicletes, cruzemos as pernas por sobre a mesa, e vamos um urra: a vida continua!

9- A gaia ciência, de Fiedrich Nietzsche:



Há de se ter um Nietzsche entre os melhores livros. É uma obrigação e um respeito a esse escritor que, procurando hoje em minhas instâncias espirituais já não parece me dizer nada, não pela ausência, mas porque o eco de suas palavras e seu espectro estão em todos os quartos e em todas as salas, que já penso sobre a base fundadora de minhas leituras dele de maneira inevitável.

10- Massa e poder, de Elias Canetti:


Julgo ter escrito muito sobre este livro ao longo deste blog. É uma vacina. Quem o lê fica imunizado a toda forma de dominação social, política, econômica, partidária, biológica. É um dos livros superiores que na concepção do filósofo do item 9, acima, são escritos com sangue. Impossível falar sobre este livro sem um tom de reverência, embora uma de suas lições seja justamente o fim de toda propensão à idolatria e à reverência.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O Homem Mais Perigoso do Mundo

 
 
Há um conto de Saul Bellow intitulado Como Foi Seu Dia que trata da visão de uma simples dona de casa americana quanto ao grande portento intelectual e filósofo acadêmico do qual ela é amante. Esse pensador moderno, altamente graduado nos níveis universitários, conversava de igual para igual com Hannah Arendt, desenvolvera uma teoria de reinterpretação original dos escritos de Marx, fazia congressos pelo mundo inteiro e era um aficcionado por boas doses de whisky para encerrar o dia. Em suma, era um astro mundial das ideias, algo equivalente a um Mick Jagger cuja atração exercida sobre um extrato específico do mercado de entretenimento era proporcional ao que fazia alunas pós-adolescentes e mulheres de meia idade se curvarem diante a sua imanência sexual de crueza masculina subjacente à imagem consumível de cérebro infatigável. Bellow, com sua contumaz energia em tecer frases iniciais disfarçadas sob a mais insuspeita trivialidade, começa o conto assim: Assoberbada por dúvidas, seduzida por seu espírito inquieto, Katrina Goliger iniciou uma viagem que não deveria fazer. Tendo encerrado a jornada pelas quatrocentas e tantas páginas de Em Defesa das Causas Perdidas, me veio à mente a lembrança desse conto e a convicção de que Slavoj Zizek é o amante ultra-cerebral de Katrina Goliger. O auge do conto de Bellow é uma cena num avião em que os dois, Katrina e seu Zizek, passam bem próximos da morte. Por um momento, entre as descrições de uma vida milionária em vários sentidos (tanto financeira quanto a da quantidade de holofotes projetados), o conto nos mostra o significado fugidio e atordoador que surgiria caso a entidade fosse pulverizada por um acidente inesperado que só é factível acontecer com simples indivíduos. Se o grande pensador morresse na queda de um avião, quantas possibilidades redencionistas seriam abortadas para o futuro político do mundo, repetindo uma nota de rodapé no livro de Zizek que nos passa a dedução de que a realidade atual, em seus diversos niveis, surgiu das ideias escritas em quartos às vezes paupérrimos por homens isolados? Ou, apreendendo a lição de Conrad em O Coração das Trevas, quando Marlow falseia à noiva abandonada por Kurtz que as últimas palavras dele foram dirigidas a ela: o que isso importa?, os céus e a terra continuarão sem nunca terem percebido qualquer vã intrusão humana em sua eterna existência.

Um jornal chegou a alegar sobre Zizek que ele "é o homem mais perigoso" sobre a face da Terra. Uma leitura mesmo leviana de seus textos não deixa prever a verdade de uma tal afirmação, não pela acurácia do leitor em se deixar levar pelo lado pop de suas referências entremeadas a filmes de Hollywood, que suavizam sua defesa condicional a Stalin e Mao, e não por se ficar apenas na apreciação retórica de sua afirmação de que o erro destes homens foi não terem sido radicais o suficiente, mas porque o mundo de hoje é absolutamente impermeável a se deixar se fundamentar por novos pensadores isolados em quartos paupérrimos. O livro de Zizek é sim ótimo; lê-lo é retornar um pouco à impressão de segurança que os textos de Nietzsche davam na juventude, quando se era possível participar de uma postura de reação sem precisar se auto-policiar contra o cinismo. Traz a mesma sensação de permanência que eu sentia ao atravessar todo o centro da cidade à pé, num fim de tarde de céu carregado de nuvens de chuva, enfebrecido pelas palavras impossíveis de A Gaia Ciência. Tirando a sua teorização às vezes pesada sobre Lacan, que condiz a uma das duas "causas perdidas" do título (ele que é abertamente freudo-marxista), seu texto pode ser lido com a mesma velocidade interessada que se lê um romance ou um ensaio de temática mais solta. Mas surge uma série de problemas para o leitor maduro, aquele mesmo que, após os 30 anos, se delicia mais com a música de Niet do que com o que ele verdadeiramente queria dizer, que já está emancipado (infelizmente, às vezes) das retóricas wagnerianas e das peregrinações por vales e montanhas atrás da Verdade_ que já está atolado pelas Verdades a ponto de olhar mais com piedade resignada do que com exaustão para as lombadas dos livros na estante. Para esse leitor, a música de Zizek, menos bela que a do alemão, não basta como teria bastado numa leitura de há vinte anos. Seria como a mesma incapacidade de se satisfazer com um espetáculo de malabarismos em que fica evidente demais para a platéia que as facas lançadas no ar podem tanto matar o artista quanto os espectadores nas arquibancadas. 
 
A Experiência atrapalha bastante quando Zizek, carregado da mais elétrica batuta retórica para fazer sua orquestra tocar a sofisticação bombástica de seu concerto, relativiza Mao dizendo que Mao fôra "genial" ao instituir contra si mesmo a Revolução Cultural na China, num golpe de adstringir o regime e centralizar em astuta reviravolta o poder em suas mãos. Zizek poderia ser o homem mais perigoso do mundo se o mundo caísse no seu acentuado poder de sedução_ se o mundo fosse uma Katrina Goliger estupidificada, calmamente, como uma gata de raça refestelada no colo generoso do dono, diante a encarnação humana da plenipotência_, pois Zizek requer uma lucidez de analista de mercado por parte do leitor para que esse perceba a especulação feita num universo virtual que quer valorizar os objetos materiais às custas de suas representações subjetivas. Zizek ataca onde está a ferida, seguindo a técnica de conseguir legitimidade por ser o primeiro a apontar o cisco no próprio olho, aceitando que Mao fez morrer dez milhões de camponeses chineses na grande crise agrária de 1958-1961, mas aos poucos fazendo escorregar esse fato brutal para o ralo das estatísticas puristas lavadas de significados, e transformando, com sua simpatia de promover a distração textual através de interpolações cinematográficas e outras paradas no universo pop, esse dado numa recorrência logística da História, um dado que, se Mao tivesse sido mais radical, teria se justificado no futuro. Dez milhões de pessoas mortas da forma mais cruel imaginável (de fome!), que teriam alçadas ao escalão de mártires nacionais quando a etapa final do pesadelo fosse compensada na aportagem da sociedade igualitária perfeita. E quantas etapas seriam aceitas mais? E se o grande avatar mais radical de Mao cometesse uma pequena distração no arranjo cronológico para a Shangri-Lá verdadeira, e outras dez milhões de pessoas fosse necessário atirar no sacrifício? Ou outras vinte milhões? Imaginei várias vezes a vergonha que eu sentiria se, na Flip, eu dirigisse essas perguntas a Zizek, pois outra face de sua astúcia é o de, à força de sua inexorável teorização técnica, descartar com humor as investidas diretas e simplórias. Trazer todo o seu pensamento situado nas mais altas esferas do discurso psicanalítico e de teoria política, para esse horizonte colegial de nenhuma luz estroboscópica (apenas os 100 vatz que me serviram para ler suas palavras no quarto)?
 
Numa parte de seu livro, ele se dedica em trinta páginas a responder às críticas de Ernesto Laclau à suas ideias. Laclau escreveu que Zizek esperava a aparição de marcianos no cenário da história atual para refazer com mérito sobre-humano os descaminhos das versões pragmatizadas do marxismo. Ou seja, Laclau ironizou a leitura mais superficial de Zizek_ a da retomada do ponto zero, ou o ponto um, das intenções ainda imaculadas dos grandes reformistas socias da esquerda, Trotski, o jovem Stalin, Lenin, o jovem e o tardio Mao_, insinuando que a humanidade não faria aparecer nenhum elemento de seu comportamento fartamente padronizado de assassinos políticos que fosse virginal o suficiente para não ser engolido pelo mal do poder absoluto. Zizek usa de uma parafernália de termos do mais hermético vernáculo acadêmico para dizer que Laclau não soube ler seus livros, e que Laclau perverteu por completo os conceitos criados pelo seu mestre Lacan. Zizek se enfuna num linguagem tão maçônica, carregada de palavras copuladas (grande-Outro, negação determinada, diegético real, etc.) e termos específicos; lança-se num lago de Narciso particular tão velado, que dá a impressão ao leitor que deveria ter pulado aquelas páginas por não lhe serem dedicadas. Sai-se dessas páginas se conjugando à possível verdade da contra-acusação do autor de que Laclau não entendeu o que ele quis dizer, porque fica parecendo que o significado dessas passagens de Zizek é mesmo além do entendimento. São corpos linguísticos que deveriam ser assimilados osmoticamente, para avalizar em maior grau a importância do autor, que, olhem só, escreveu um livro com tantas outras páginas salutares e divertidas, tantas passagens anedóticas e engraçadas.

Um aspecto imprescindível para o entendimento de que Niet é o grande pensador que é, é a de que morreu louco. Sem a loucura, Niet não teria a estatura que tem hoje. Uma longa vida com uma morte pacífica teria relegado Niet a um simples autor provinciano, que em um momento patológico escreveu assombrações mentais cuja cura as converteram em excentricidades datadas. É pensando no Niet com o cérebro consumido pela sífilis que sabemos interpretar com uma carga incomensurável de beleza e fé numa distante humanidade do porvir sua aforística contrária à ralé germano-burguesa, sua poética de insistir cansadamente de que um dia, "irmão", nos encontraremos numa linha temporal em que a pureza conseguida pelos sofrimento nos autenticará como homens puros. É graças ao velho Niet que podemos acreditar que seria bom se a humanidade como a temos hoje desaparecesse em sacrifício imolador para o surgimento do Super Homem. (Também é graças à morte precoce de Bernhard que seus romances são tão iradamente essenciais.) Porque essa certeza determinada de que não existe mais quem proferiu essas incorreções políticas retirou tais textos da gravidade normativa dando-lhes um caráter de expurgo quase sagrado, de catarse acima do certo e do errado, transformou o que a saúde teria configurado como crime num diagnóstico de iluminado potencial premonitório. Sabendo que não existe uma personalidade à espera das compensações ordinárias ligadas à partidarização e à pertença grupal (Niet dizendo que a raça alemã era a fraca, e a judáica a que se fortalecia ainda mais por quanto mais agruras se submetia), fica estranhamente plausível aceitar o próprio fim para que chegue a época redentora (a cena final de Gran Torino). Tudo o mais que em nosso tempo, as forças da saúde consolidadas e das confortáveis posições de atos de ofício estabelecidas, fala sagazmente sobre extermínio, assassinatos, em nome da biopolítica, em nome da história futura em que os fins justificam os meios, soam o que realmente é: um pragmatismo alienado do sofrimento infligido ao outro desabrigado e desprotegido, para assinar a vaidade intelectual do que está abrigado e protegido pelas instituições oficiais do saber.

Lendo Zizek, que é realmente uma leitura essencial para se compreender nossos dias, vejo o quanto há de contraditório nos lances de suas ideias. Ele trata de algo fundamental: a não aceitação pacífica de vitória total do capitalismo. Para afirmar a unanimidade capitalista, ele lembra de uma banalidade despercebida: há 30 anos não se usa mais a palavra "capitalismo". É difícil ver seu emprego nos textos correntes. Ele instiga à re-criação de uma nova esquerda, não essa que está aí que, como salienta sarcasticamente, "com essa esquerda não precisamos mais da direita." Sua proposta é de uma esquerda auto-elucidada ao extremo sobre seus imensos fracassos, e não escamoteadora de suas culpas; uma esquerda que antecipe as críticas da oposição expondo suas vilanias na cara. E é aqui que, para parafrasear T.S.Eliot, cai a sombra entre a intenção e a ação dos textos de Zizek. No meio da brilhante reificação das grandes utopias e das grandes ideias sociais, Zizek falha enormemente em se negar a voltar ao ponto zero para pular direto ao ponto um. Incapaz de sacrificar por inteiro os heróis dessa esquerda corporativa e auto-negligente que ele tão magnificamente condena, Zizek se encolhe no abraço aos seus ídolos juvenis, e tenta restabelecer Lenin, Stalin, Mao. Assim, ele cai na contra-produção da base de sua teoria, a de que os grandes sonhos de emancipação humana ainda são possíveis. Contradiz-se por mostrar flagrantemente que não sobrou nenhuma dogmatização no edifício icônico da esquerda, por isso tendo que disfarçar em milhares de palavras que Stalin, Mao, Lenin, Trotski, se prestam a serem os alvos religiosos de um novo caminho, desde que o assecla demonstre uma fé inquebrantável de dirigir suas orações às fácias virtuais desses santos quando eles ainda vestiam suas túnicas, antes de terem sido tentados e caídos na mais completa devassidão demoníaca. No fundo de sua estatura filosófica, Zizek não faz mais que cometer o pior pecado atribuível a um historiador: fazer a pergunta "e se?", cogitar da história hipotética. E se Lenin não tivesse morrido em 1924?; e se Stalin não tivesse subido ao poder?; e se Mao tivesse aberto a economia da China? Zizek mostra a grande preguiça ou insuficiência de se pensar em algo absolutamente novo, caindo assim numa mistificação perigosa. Numa determinada parte de seu livro ele relembra uma frase de Hegel, de que não é bom conhecermos demasiado. Uma advertência quanto ao excesso de esclarecimento (algo que Adorno também intuíra). Mas seu intelecto turbinado, seu excesso de conhecimento, o faz pouco auto-referente. Incrivelmente não vê que caiu na cegueira de que "o que é bom para os outros não o é para mim". Não vê que ele é o homem ultra-instruído, alguém que pode ficar confortavelmente fora da história, em sua casa refrigerada, em sua sala de professor de frente a um dos mais belos cenários do mundo em Liubliana, alguém que detêm o que milhões de vítimas do poder do século XX sequer sonhavam conseguir: a proeminência da palavra. Quer ser retrógrado na pesca do antigo iluminismo, mas perde de vista o "coração terno" do qual Checov falava.