quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Anamnese



Ele leu no excepcional romance VALIS, assinado por Philip K. Dick, que o universo é irracional, moldado pela selvageria violenta, mas que a partir de determinado ponto na história, uma côncava deterioração na ordem deu espaço a uma gota de racionalidade. Ocorreu uma invasão da racionalidade no universo. Ele leu essas palavras com êxtase, como costuma fazer sempre que se depara com as tantas intrusões de percepção ao absoluto que vê na arte, na ciência, nas conversas cotidianas, na religião informal, ou mesmo_ ou, principalmente_, naquilo que é conveniente chamar de loucura. Philip K. Dick, ao que parece e é imediatamente entendível, estava louco quando escreveu VALIS, ou se curava paulatinamente dos sintomas mais graves de sua loucura. Para todos os efeitos, o romance é uma auto-biografia dos anos em que Dick esteve declaradamente louco, deportado da realidade a um nível paranoico em que sua mente inusitadamente criativa confeccionou uma cosmogonia própria. Ele sempre foi fascinado pela loucura. Não nesse lance de querer ser psiquiatra, mas sempre foi fascinado pela loucura não sistematizada pela ortodoxia acadêmica, os loucos que são mais eremitas refugiados em seus mundos privados internos, não os loucos que são explicados no resumo deploravelmente pobre da escatologia do recalque de seus orifícios biológicos. Sheridan Le Fanu, Robert Walser, William Blake, Daniel Schreber, Arthur Bispo do Rosário, Swedenborg. Ele colocaria nesta lista de grandes notáveis, ainda, Kafka e Beethoven, que, na sua concepção, só não foram declarados loucos porque o poder visionário do primeiro só foi deflagrado postumamente em um mundo com seus eufemismos racionais já devastados, e o segundo porque a música salvaguarda para o bem ou para o mal seus criadores em uma categoria em que a loucura não aparece com tantos deméritos sociais. Nunca ouvira falar sobre a loucura de Mussorgski, por exemplo, naquele quarto invernal em que escreveu seus mais terríveis pesadelos, enquanto Le Fanu é tido como um pobre pinel indefeso escutando atrás de si na vida real os passos das entidades invisíveis sobre as quais escreveu seus contos.

Por isso na noite de natal, quando todos estavam dormindo, ele se trancou na biblioteca, já um pouco alto pelo espumante espanhol que sua irmã trouxera, e uma garrafa de seu fiel Gato Negro, e pôs-se a ler VALIS. Ouvia a casa reverberando no silêncio da madrugada, imaginou a respiração de sua mãe, de sua filha, de sua esposa, e da irmã, naquele estereofônico cósmico sofisticado que é a noite em uma casa fechada, e seguia na leitura do livro. Acontecera uma coisa, como sempre. Muitas coisas. Se estava lendo aquele livro, que sequer pensara em Philip K. Dick há anos e não nutria nenhum interesse especial por esse autor, era porque a imprescindibilidade inesperada de suas leituras não programadas agia mais uma vez. Em um mundo onde o esoterismo desaparece nas frestas do cotidiano, a olhos vistos, ter essa impressão de uma mensagem direcionada de algum lugar para compor sua lista de leituras, era um agarrar terno à sua dose de incorreção à lógica. O que acontecera, pela ordem do mais brutal ao mais terno, era: primeiro, seu vizinho de frente, o advogado milionário dono de dez lotéricas e que desde 4 anos mantêm diariamente o contrato de um grupo de pedreiros na construção de um bunker faraônico, sofreu um grave acidente de carro, na noite do domingo antes do natal. Ele fora buscar no aeroporto da capital sua filha de 17 anos, que cursa medicina em Minas Gerais, e há 50 quilômetros antes de chegar na cidade, deparou-se com dois cavalos soltos na estrada. Estavam no carro mais a outra filha de 7 anos, e uma amiga da família, que junto a ele sofreram escoriações leves. Todo o impacto da batida caiu sobre a sua filha mais velha. Ele ficara sem saber sobre a gravidade da tragédia; sabiam que a casa, o bunker, com seus altos muros indevassáveis, está deserta e sem sinal de qualquer movimento, as luzes de neon do escritório de advocacia de frente apagadas. Sabiam que pelo facebook solicitaram doações de sangue. Só quando foram à livraria da lotérica, que sua esposa perguntou à funcionária notícias sobre a menina. Sua esposa lhe contou e ambos ficaram um longo momento em silêncio. A funcionária disse que a menina passara por duas cirurgias no rosto, iria passar por mais outra no maxilar; quebrara todos os dentes; não fora retirada da sedação; que os médicos disseram que não sabiam se ela iria andar novamente. Ele ficou quieto diante o volante, ao ouvir a esposa contar. Ficou analisando o quanto deveria se sentir mal com isso, o quanto deveria se sentir chocado. Em vez de grande indignação e reconhecimento humano, ele sentiu um vazio sensorial. Vasculhou com toda sinceridade que devia para com a menina, para ver se detectava em si algum indício de alívio, ainda bem que não foi comigo. Lembrou do personagem em Ruído branco que diz ao outro com um enorme câncer de fígado: não vou mentir para você que eu penso que melhor isso ter acontecido com você do que comigo; é perfeitamente humano pensar assim, por isso você não deve me recriminar. Mas não viu esse alívio em nenhum lugar dentro de si, ainda que tais coisas, dentre as armadilhas ilesas à auto-avaliação, sejam as mais impenetráveis.

Ele caiu em uma ciclo de negatividade. Não era supersticioso, mas às vezes se surpreendia de como as coisas passavam a não funcionar ou a quebrar em suas mãos, quando se tornava negativo. O máximo de controle que obtivera nesses anos de combate contra tais períodos foi o de não falar mais sobre eles. Antes saía por aí reclamando que não entendia, deus isso, deus aquilo. Agora, fica em silêncio, segue vivendo com absoluta normalidade, com o humor surpreendentemente mais apurado, mas sente que se um pássaro predispusesse a fazer o clichê clássico de pousar em sua mão, o bichinho iria encolher e sair assustado, trôpego pelo ar, até cair morto em alguma moita, ou quem sabe se a negatividade não teria nenhum pudor mais de se mostrar a todos ao fazer com que a avezinha se estrebuchasse no chão logo em seguida, no centro da praça e para o horror das crianças. O controle da tv a cabo não funciona em suas mãos, mas nas mãos dos outros da casa sim. A azaleia que sua esposa comprou murcha sem motivos, senão os que ele sabe sobre sua radioatividade. Seu notebook deu pau. Levou o note para o conserto, o rapaz ficou três dias com ele, usou um secador feminino (como chama aquele aparelho que as mulheres usam no cabelo?, o rapaz, no intuito de ressaltar seus esforços) para ver se a placa mãe não soldava, mas não teve jeito. A placa fundiu, o rapaz disse. Ele o olhou não tão de todo assustado, porque sabia que o único culpado era ele próprio por não ter sido previdente, e pensou nos tantos esboços e trabalhos literários nos quais trabalhava, gravados naquele computador torrado. Havia feito cópias em hds externos, não de tudo. Talvez a parte perdida não fosse tão importante. O rapaz lhe propôs pagar 150 reais pela carcaça do aparelho, ele respondeu que ia ver, conforme fosse, voltaria. Entrou numa loja e, ao fim de um dia de pesquisa, comprou por um preço aviltante outra máquina. Dólar alto, recessão acentuada em vista. Levou o novo computador para formatação, e o velho para casa. Ligou o velho por curiosidade, para ver que nível de ruído da origem do universo estaria aparecendo em sua tela fantasmal, e lá estavam, os arquivos restaurados, as fotos, os 180 cds do Mozart pela Phillips que levara uma semana toda para baixar e não fizera back-up, a discografia do Elvis Costello, as inúmeras páginas de Panorama 17 em várias variações de preguiça e desespero criativo, as primeiras 50 páginas de teste do romance que estava escrevendo. Tudo lá, funcionando que era uma beleza. E o carnê da prestação do novo notebook no porta-luvas do carro. Ele pensa em duas alternativas: ou o negativismo estava acabando, ou passara para outro avatar mais intrincado, em que o que era pervertido era a confiança das relações pessoais. O que ele estragara era a índole do rapaz do conserto, que queria lhe fazer crer que a placa mãe do aparelho se fundira, para comprá-lo por uma bagatela. Volta ao programador e ele diz que o note novo veio com um defeito na tecla "M", que às vezes se afunda acionando uma infinidade de mmmmmms histéricos na tela. Claro que ele não sistematizara essa teoria da negatividade e não pensava sobre ela a um nível racional durante esses momentos, senão teria se sentado na cadeira de frente ao homem e começado a chorar, solicitando em desespero que lhe trouxessem um pai de santo. Ele pensara nisso bem depois, ao se sentar já com o note novo em mãos e escrever sobre o assunto_ o note que ele levara de volta à loja, sob a proteção um tanto frágil do Código do Consumidor que estabelece a troca imediata do produto com defeito por um novo, e que lhe disseram para ele ir usando o aparelho defeituoso até sexta-feira, quando trariam um novo de outra loja e o reporiam. (Não tendo a resolução para o problema ocorrido nessa linearidade insofrível: o gerente, um cara amável e solícito em todas as outras ocasiões que lidara com ele, fora atingido por sua radiação, se mostrando misógino quanto à legitimidade de que um computador recém retirado da loja estivesse mesmo avariado, ao que ele precisou recorrer à parte simiesca de sua personalidade ao invocar processo, polícia e a perda inexorável que a loja teria de um cliente com um histórico de 15 anos de compras. Isso tudo para, depois, em casa, a letra "M" seguir dali para a frente sem a menor mácula de imperfeição.)

Na porta do programador, ele encontra seu amigo Emerson, que acabava de pagar ao lado sua mensalidade da internet a rádio. É uma das raras, senão únicas ocasiões, em que ele tem a oportunidade de falar sobre assuntos elevados. Ao longo das semanas ele tem que se inteirar passivamente sobre a mesma trivialidade boçal sobre regras econômicas provincianas e modelos de carros, e sobre quem está ferrando quem em diversos graus de literariedade. Os assuntos falados nas rodas de seus conhecidos naquela cidade é o suprassumo do tédio e da imbecilidade consistente. Sua sorte é que ele tem essa veia palhaçal, quando percebe que um silêncio exagerado pode passar a imagem inadequada de sisudez, ele recorre ao histrionismo mais baixo. Com seu amigo Emerson, a tecla do diálogo é outra, uma eletricidade de temas possíveis alimentados durante a ausência um do outro faz com que muita coisa se perca da memória, que anteriormente ele tentara fazer exercícios mnemônicos para se lembrar quando o encontrasse. Tanto que, ao Emerson descer de sua velha bicicleta azul, eles ficarem um diante o outro na paradoxal atitude monossilábica dos que não tem nada a dizer. O músculo da interação entre eles vai relaxando e começam a aparecer as notícias culturais. Emerson acabou de ler o primeiro volume dos Karamázov, que ele recomendara; parece entusiasmado, tocado, enternecido. Muitas vezes ele se enraivecia pela aparente falta de emotividade de seu amigo por esses grandes livros. Dava vontade de dar-lhe um tapa imaginário na cara, ainda mais quando, diante um puta filme, ou um puta texto que ele lhe recomendava de determinado autor, e se preparava para desenrolar seu cordel de divagações, Emerson apenas lhe respondia: "Loco demais". O cara era o maior devorador de livros em um raio de dez mil quilômetros, e fazia questão de externar uma falsa idade mental espelhada pelos zumbis do segundo grau para quem dava aulas. Emerson costumava escrever textos de revolta primários contra o sistema, e afixava-os no mural da faculdade de história da cidade. Era uma emulação anacrônica e constrangedora de uma banda de rock nacional que ele gostava, e das tantas vezes em que Emerson lhe passava um desses textos, ele sentia as glândulas salivares encolherem abruptamente. Doía o pescoço. Ao menos ele não gosta de rimas, santo deus!, pensou. Em determinado momento em que a amizade entre os dois foi ficando mais intensa, e que ele viu que por um má interpretação inercial da intimidade por parte do amigo fazia com que tais textos fossem parar cada vez mais em suas mãos, ele escreveu em um dos textos no mural uma frase crítica. Falava sobre o infantiloidismo do texto, para que o autor variasse de assunto. Ele escreveu a frase com uma caneta tinteiro, olhando para os lados temeroso de ser flagrado, não só o teor como as circunstâncias do crime repetiam o descerebralismo plástico do amigo. Ele se arrependeu por ter feito tal coisa, pareceu uma traição. Os textos acabaram, nunca mais houve nenhum no mural. Talvez se ele tivesse tido a coragem de falar cara a cara, externasse o que era irritante na auto-limitação que o amigo se impunha, a crítica teria sido construtiva. Imaginou o amigo lendo, com choque, a frase, ao buscar a esposa na faculdade, coçar sua imensa barba marxiniana, e com puro desconsolo arrancar o texto e jogá-lo fora, julgando se trata de um outro adolescente que lhe respondia.

Emerson está bem mais loquaz já faz um tempo. Se esforça para falar em suas conversas. Chega a traçar longas e interessantes reflexões. Na calçada da avenida onde conversam, com borracharias, carroças, carros de som falando com estridência descomunal sobre a queima de estoque de uma loja de sapatos para o ano novo, seu amigo relembra a reflexão de Ivan Karamázov sobre sua incompreensão irada pela indiferença do Ente Superior quanto ao sofrimento infantil. O garotinho que acerta uma pedra em um dos galgos do amo, e o amo faz com que os cães destrocem o menino ao colocá-lo como presa da caçada. Isso tudo diante os olhos da mãe do menino. Lembra a nota de rodapé dizendo que tal fato ocorrera na verdade, na época de Dostoiévski, gerando uma comoção social de certa relevância violenta. Ele responde ao amigo lembrando de várias passagens em Guerra e paz, Memórias de um caçador e nos Karamázov, que prefiguram a sombra do massacre da revolução. Há uma cena impressionante de caçada em Guerra e paz em que o mujique caçador não se contem diante a imperícia do amo em abater o animal caçado, e inclusive se nega a cumprimentá-lo no final. Essas coisas que formam a figura premonitória maior em um tapete.

Depois passam a falar sobre a menina acidentada. Ele se surpreende um pouco ao ver o sofisticado cérebro do amigo em suas reviravoltas retóricas tentar dizer com sutileza que talvez houvesse certo determinismo por detrás da tragédia. O pai da menina impunha um regime de quase escravidão aos funcionários da lotérica; a usura era um sinal característico da família. O que ele aceitou sem muitas reservas foi o fato comprovado de que o pai dirigia em alta velocidade. Um sujeito atarefado mesmo em uma noite de domingo. Ele meio que concorda com as coisas que o amigo diz, por hábito do diálogo, o que talvez não ia tão de contra o que bem no fundo ele se permitia pensar. Ele fala então de VALIS, sobre a teoria de que o universo é irracional mas que foi invadido por uma luz de racionalidade. Nunca o termo irracional foi-lhe tão revelador. O ser humano cada vez mais brutalizado é a afirmação de que a luz tinha muito caminho pela frente. Isso faz a gente pensar, ele disse, retornando ao assunto da menina, no que fazemos para nós mesmos merecermos uma compensação cósmica.

No capítulo final de True detectives, o detetive Rust diz algo colhido de Dick, de que, enquanto esteve em coma, ele entrou na profundidade plana do universo, no escuro incomensurável, e quando estava lá ele pôde sentir a força do amor de sua filha morta por debaixo disso tudo, e como foi ruim voltar à vida, como ele queria ficar naquele amor acolhedor que o abrangia e o protegia. O universo era escuro e irracional, mas foi invadido pela luz. E a luz, ao contrário do que parecia, estava ganhando.

No primeiro volume de José e seus irmãos, Thomas Mann cria uma cosmogonia. O homem foi moldado no barro de sucessivas metamorfoses, e em determinado ponto, o espírito foi insuflado na carne.

A outra coisa que aconteceu foi que ele obteve um contato inesperado de sua primeira namorada, uma mulher que anos atrás ele cometera o ato incauto de fazer um comentário no blog que ela escrevia. Naquela ocasião, ele digitara o nome completo dela no buscador da internet, e se deparou com um blog em rosa, absolutamente desconcertante no anacronismo dos textos publicados, em que uma mulher beirando os 40 anos rememorava antigos prodígios vaidosos da juventude. E como ele fora seu primeiro namorado por 4 anos, ele acabou encontrando uma menção a ele em uma lembrança que o descrevia com os pudores comedidos de se o marido dela resolvesse algum dia averiguar aquelas leviandades. O rapaz intelectual que não dava bola para nenhuma outra e que ela conquistou com sua beleza e sua bravura feminil, ele reconheceu com constrangimento, ser ele. Ele digitou uma resposta, algo que dizia em poucas linhas que o rapaz tímido agora era um senhor bem casado, e publicou. Na mesma hora em que viu a frase grudada na tarja branca dos comentários para todo mundo ver, ele se arrependeu, embora aparentemente ninguém frequentava o blog. A intenção fora essa?, ele pensou, sentindo-se um tremendo estúpido, que as matronas eventuais que dividiam o gabinete de trabalho dela e que por ventura fossem convidadas a visitar o blog, as antigas amigas daquela garota que se lembravam do frágil magricela com 16 anos, pudessem saber por uma incompreensível vingança a elas dirigidas, que aquele garoto havia sobrevivido bem da adolescência? Ela retirou o comentário, mas todos os dias ele visitava o site e lia os textos precários que ela escrevia. Receitas de beleza, uma dicotomia em que vaticinava que as mulheres deveriam aceitar a necessidade biológica de seus maridos por sexo fora do casamento, e mais um bocado de besteira. Ela atingira seu objetivo: na superfície, não envelhecera, congelando-se na atmosfera das revistas Capricho que assinava nos anos em que namoravam. E pelas fotos, ela ainda continuava com 20 anos, os traços faciais tendo recebido uma espécie de bóson de Higgs nas escoras que as zonas de luz dos músculos recebiam de sombras bem recortadas nas concavidades das bochechas e do pescoço, que realçavam a magreza cultivada contra a tendência evolutiva de acúmulo de gorduras da espécie, e que só poderiam revelar a degradação natural que avançava quando se olhava as fotos maldosamente desconsiderando a estética de olhares fatais e viradas de rosto estudadamente surpresos. Um dia uma leitora apareceu na caixa de comentários. Ele foi ler detectando em si mesmo a emoção do fanzine diante uma reviravolta na vida de seu ídolo. Alguém que não assinava o nome escrevera um texto longo com uma ira afiada, matematicamente calculada para destruir todo o castelo de vento da dona do blog. Vociferava contra sua vaidade vazia, o ridículo de suas afirmações de programa de entrevistas, da estética alienada, e sobretudo de sua total submissão ao direito do macho de se impor em todos os sentidos sobre a mulher. Ele releu várias vezes a resposta isolada na frequência das micro-pulsações imperceptíveis da tela, sentindo algo misto a uma revanche por ver ali expresso todos os seus piores pensamentos sobre o blog, e uma pena por ela, em seu universo imutável em que preservara seu quarto rosa naquela fáscia artificial na internet, ter que ler aquilo, ter que ser confrontada com aquilo. Era uma mensagem de alguém que tinha muito mais proeminência que ela na escrita e que articulava argumentos de refutação que soavam como evidente covardia. Ela havia expresso desde o começo de seus textos que a escrita deles servia a espairecer sua mente do estudo intensivo para prestar um concurso público no fórum de Brasília, onde morava com seu marido empresário e seus dois filhos pré-adolescentes. Ele pensou que se a pessoa que respondera também estivesse estudando, se fosse alguém do convívio dela e estivesse de olho no mesmo concurso, ela não teria chance alguma. Ela apareceu no final da tarde, e manteve o comentário. No dia seguinte ela deu sua resposta, no mesmo estilo vaticinado de menina que é líder de torcida, mas com uma educação que revelava enfim o que a idade lhe trouxera. De incorreção, só levantou a suspeita de que talvez quem escrevera aquilo não fosse uma mulher. Daí em seguida, ela interrompeu o blog. Passados uns cinco meses, ele retornara ao blog e viu uma última notícia, dizendo que ela tinha atingido o propósito de passar em um concurso forense.

E uns dias atrás, ele reencontra, pela mesma curiosidade de bisbilhoteiro, outro blog dela, que ela acabara de abrir. Agora ela tem mais que 40 anos, e revela uma tristeza que em nada parece superior à ingenuidade que tinha. Ele sente um enternecimento poderoso em relação a ela. Não escrevia mais sobre seu marido, o atleta lutador de karatê que aparecia nas fotos com uma barriga tanquinho e uma sunga de boneco do Falco, com óculos escuros diante uma praia, ou aparecia ao lado dela, ela com vestidos talhados na mesma impressão de seriedade social que lembrava-se de ver na adolescente cujo desejo de ascensão social era taxativo, mas que nunca lhe caía bem, deixando-a como uma boneca quadradona bonita mas encontrada inadvertidamente nos estoque de lembranças de uma tia velha, e ele com sua barba por fazer de empresário aventureiro, ambos dentro de um avião indo para o sul. Agora ela não escreve sobre o quanto era divertido andar na garupa da moto que ele comprou para eles andarem nas imediações do lago, não fala sobre quanto ela é presença importante para o bom desempenho dos negócios do marido. Ele lê e entende pela metade, como é notório o tipo de visão cubista que se tem de antigos conhecidos através das redes sociais cibernéticas. Esses espaços, essa vaguidão, é muito mais expressivo para ele, acostumado com esse conhecimento subliminar; ele é como aqueles labradores que detectam a depressão no amplo campo de incompreensão verbal entre duas espécies simbióticas ao sentir o cheiro da exanguidade que vem dos joelhos da dona. Pode ser tudo impressão, mas os indícios vão se casando em uma premonição reversa, em que o adivinhado vem do passado. Em seu blog anterior ela nem sequer escrevera sobre o suicídio de seu irmão, apenas dissera que sentia muita saudade, e reproduzira a letra de uma canção popular. O irmão se matara porque também era-lhe taxativo desde a infância a ascensão financeira, e no meio do caminho vertical seus gados e seu universo de chapéu de cowboy, caminhonetas e cerveja ruíram. Agora, no blog novo, ela escreve novamente para ninguém_ para ele_, sobre o quanto sofrera, o quanto tudo era uma enorme perda de tempo. Ele não se expressava nessas palavras; era bem outra coisa; falava sobre modelos de vestidos, o correto e o incorreto para se usar; falava de uma apresentadora da tv pública. Mas o labrador identificava a obsolescência e a perda da fé naquele imobiliário não mais irrepreensível. Ele se lembrou de um antigo filme que assistira em sua juventude de madrugada na tv, As sete faces do Dr. Lao. Uma mulher entra na tenda do dr. Lao, este utilizando a sua face de velho cego que prevê o futuro, e essa mulher, desconsoladoramente fútil e burguesa em seu vestido rosa e sua cara de empáfia, pergunta ao velho o que lhe espera o futuro, se muita riqueza e felicidade. O velho, com sua cara devastada pelos furos dos olhos, que tem algo de Rembrandt e demônio, diz à mulher que a única coisa que ela preservará do agora é sua empáfia e sua frieza em relação às outras pessoas, e lhe mostra a paulatina decomposição que a acompanhará em sua longa vida solitária até o envelhecimento e a sepultura. A mulher abandona a tenda aos prantos e correndo. Não que ela, sua antiga namorada, seja como a mulher, mas é como se ela houvesse tido a lucidez da farsa que era seus propósitos e sua vida bem arrumada, com suas concepções nunca refutadas em nenhum momento daqueles 40 anos, concepções implantadas em sua cabeça pela mãe misógina que havia vampirizado o marido, seu pai, até que ele morrera de câncer em um leito de hospital no começo dos anos 90. (Ele se recordava disso, de como ela chorara em seu ombro e ele, querendo consolá-la, disse que seu pai havia sido uma pessoa admirável, ao que ela respondera que ele nunca teve nada de admirável. E ele recordou de única foto que vira do pobre homem, aos vinte e poucos anos, na pose incompreensível para o mundo eternamente impermeável a seu calado direito de também ter ilusões da juventude, levemente encurvado para a frente com um mão como tapa-olho, uma truncada inspiração dos filmes de pirata que fracassava diante seu terninho de incipiente funcionário de banco, de olho no que o futuro lhe reservava, e mesmo nesse único demonstrativo de seu recolhimento havia o referencial em torno da megera com quem se casara, pois a foto fora-lhe apresentada como "olha só como papai era assim que se apaixonara pela mamãe". O futuro fora de uma vida insossa em um banco que lhe explorara até a medula, de uma família que lhe massacrara sem nunca lhe dar direito de voz, da única forma de evasão que conseguia vinda do tabagismo compulsivo, que lhe matara junto a todas essas primeiras coisas.)



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje, assim como qualquer outro dia



Por vários motivos, reedito este texto que escrevi por ocasião de uma data comemorativa para as mulheres que amo.

A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. "Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração." Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada uma da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

De forma geral, só as mulheres da minha família são dignas e seres-humanos comprovados desde a raiz dos cabelos até à sola dos tamancos. Os homens, por outro lado, são os eternos amaldiçoados pela sina obrigatória de repetir incessantemente o vício do patriarca pelo orgulho forçado da fornicação. Meu avô teve 22 filhos oficiais com as sete esposas de seus sete casamentos ou amasiamentos concomitantes. Até anos depois que ele morreu, costumava aparecer todo ano mais um sujeito espigado, de ar desatento e a latente concupiscência do olhar, que comprovava que era mais um de seus filhos bastardos procurando um rumo no mundo. Eram morenos, brancos dos olhos azuis, negros, mas sempre com aquela reprodução genética seriada do porte alto e dos olhos de peão saliente que parecia ser uma janela na alma através da qual a presença do meu avô vigiava, atenta, se seria respeitado o prosseguimento obsessivo do espólio sexual que ele deixara. Todos os homens da minha família são infelizes e se parecem, e, só de uma geração para cá pode-se dizer: as mulheres, cada qual, são felizes à sua maneira. Só a geração das minhas primas, que estudaram e se tornaram independentes financeiramente, tanto que se eximiram da opção do casamento, é feliz; as minhas tias, pelo contrário, afundaram num oceano de péssimas escolhas amorosas que faz-me crer que isso não passa de mais um efeito colateral da idiotia dos homens da família, que as infundiram o mal exemplo.

Até os dez anos morei com cinco das mulheres infelizes que compensavam por bom tempo parte de suas agruras em dispensar amor para a única criança da casa. Morávamos em um enorme apartamento no centro da capital, em frente a uma catedral portentosa, que muito desgostava minha avó pentecostal que me falava do inferno. Minhas duas tias solteironas, minha mãe divorciada, e a Dezi, que trabalhou para a família nas atividades domésticas até se aposentar, não poupavam abraços e mimos comigo. Minha mãe sempre foi uma pessoa dura e defensiva, mas, assim como se pode angariar amor de narrações do inferno que culminavam em maçãs chilenas gigantes, eu retirava de seu amargor de batalhadora solitária para conseguir pagar minha escola e colocar o único bife na mesa de seis lugares em meu prato, nos tempos de recessão, como o seu sentimento incomensurável materno nas sobras de tempo entre o trabalho e a faculdade de Direito. Minhas duas tias tinham a aparência atarantada que a consciência da velocidade incontida do tempo lhes dava. Lembro o quanto eram bonitas, até na maturidade, quando, já morando longe delas, flertei com a tia Marta num ponto de ônibus quando ia para a minha faculdade, e só depois vi, constrangido, que era ela. Mas como ela e minha Tia Tércia, depois que o destino nos retirou do purgatório daquele sombrio apartamento aquecido pelas mais ternas apreensões, cada uma teve uma vida infeliz, maluca; cada uma cedeu à depressão de que jamais dariam conta do que se perdeu para sempre em suas infâncias e elas poderiam, enfim, parar de procurar, porque não iriam achar nunca. Minha tia Tércia dera entrada várias vezes no núcleo do Pronto-Socorro, com hematomas e escoriações múltiplas, até que teve a coragem de dar um basta no marido. E minha tia Marta foi retirada do quarto onde morava por seus outros irmãos, que receberam chamadas dos vizinhos sobre sua franca deterioração mental, suas orações de madrugada sentada na calçada, seu sofrimento pela vergonha de não conseguir parar a rotação das pupilas que o lítio administrado todos os dias causava.

As únicas dessas que suportaram bem seus fardos foram a Dezi, que é uma paraibana de língua dura que nunca deixava nada por menos, que perseguia ladrões que lhe arrancaram a bijuteria do pescoço e os atiravam de cima da bicicleta e lhes deferia chutes nas costelas; a minha avó Mirtes, que me ensinou muito sobre a vida em suas cartas do exílio em Boston; e minha mãe, que, em seu silêncio, em sua aspereza, me deu o que mais tenho de importante, educação e uma noção fundamentada de ser incorruptível. Minha esposa me diz, brincando, que ainda bem que eu fui o único homem que puxou o lado feminino da família, ao que eu cruzo as pernas e lhe tiro as mais deliciosas gargalhadas com minha imitação já clássica de um veado afrontoso: "Eu sou mulher, sua coisinha!" Não sou adepto desses dias espetaculosos em que se comemora a compensação por tanto sofrimento, como se isso fosse arrombar anos de martírio apenas pelas propagandas das lojas de perfumes e bolsas. Mas enquanto escrevo isso, são 16:41 da tarde, e minhas outras duas mulheres da minha vida estão para chegar aqui em casa, após uma ausência de uma semana , e não vou me negar, hoje e sempre, de dizer à minha filha e à minha esposa, o quanto, absurdamente, as amo.

Elas e eu