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sábado, 14 de julho de 2012

Uma Proposta



Não há dúvida de que a densa selva congolesa é profunda, mas seu coração está em outro lugar: nos iluminados escritórios de nossos bancos e empresas de alta tecnologia. Para acordar realmente do "sonho dogmático" capitalista (como diria Kant) e ver esse outro verdadeiro coração das trevas, teríamos de aplicar a nossa situação a velha frase de Brecht em Ópera dos mendigos: "O que é um roubo de banco comparado   à fundação de um outro banco?". O que é roubar alguns milhares de dólares e ir para a cadeia, em comparação com a especulação financeira que priva milhões de pessoas de suas casas e de suas economias e depois é recompensada pela generosidade sublime da ajuda estatal? O que é um chefe guerreiro congolês, em comparação com o presidente-executivo de uma empresa ocidental esclarecido e sensível ao problema do meio ambiente? Talvez José Saramago estivesse certo quando propôs numa coluna de jornal que executivos de grandes bancos e outros responsáveis pela crise financeira fossem considerados culpados de crimes contra a humanidade, cujo lugar certo é o Tribunal de Haia. Talvez não devêssemos tratar essa proposta apenas como um exagero poético ao estilo de Jonathan Swift, mas levá-la muito a sério. (Slavoj Zizek, Vivendo no fim dos tempos)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Um Estranho na Terra


A verdade mais simples sobre o homem é que ele é um ser estranhíssimo, quase no sentido de ser um estranho na Terra. Com toda a sobriedade, ele tem muito mais a aparência externa de quem traz hábitos de outra terra do que de um simples desenvolvimento dela. Ele tem uma vantagem injusta e uma desvantagem injusta. Não pode dormir na própria pele; não pode confiar nos próprios instintos. É ao mesmo tempo um criador que move mãos e dedos milagrosos e quase um aleijado. Envolve-se em ataduras artificiais chamadas roupas; apoia-se em muletas artificiais chamadas mobílias. Sua mente tem as mesmas liberdades duvidosas e as mesmas limitações selvagens. Único entre os animais, é sacudido pela bela loucura chamada riso, como se entrevisse um segredo na forma mesma do universo, oculta do próprio universo. Único entre os animais, sente a necessidade de desviar o pensamento das realidades básicas de seu ser corporal, de escondê-las como na presença de alguma possibilidade mais elevada que cria o mistério da vergonha. Quer louvemos essas coisas como naturais ao homem, quer as vilipendiemos como artificiais na natureza, elas continuam, no mesmo sentido, únicas. (G. K. Chesterton)