A Júlia comprou hoje no shopping Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus. Assim que chegamos em casa, ela mergulhou no livro. Ela está fascinada. "Como ela escreve bem e é profunda, papai!", a Júlia disse. A Júlia conhece bem o que diz, pois desde muito pequena lê os grandes autores. Ela leu para mim, para que eu percebesse o tom erudito da autora. Mas, assim como eu, a Júlia se indignou com o que para ela é um sinal de racismo evidente: a manutenção dos erros gramaticais da Carolina. Na primeira notação do diário, a Carolina usa a palavra "abruir" _que eu nunca tinha ouvido ou lido na minha vida!_, e que fui ver que existe. Mas Carolina a usou de forma completamente fora de contexto. Até aí tudo bem a omissão de um editor, mas o texto é recheado de erros gramaticais. Eu achava que eu era a única pessoa do mundo que via o racismo nisso, mas a Júlia também viu. "É como se não levassem ela a sério", a Júlia disse, "como se ela fosse um rato de laboratório" (foi essa a frase que ela usou). E o pior é que no prefácio, uma estudiosa da obra aponta o preconceito de certas editoras que invertem o nome da autora, Maria vindo antes que Carolina. Mas não vê que repete o preconceito ao dispensar a ela o que todo escritor tem, uma boa revisão corretiva de gramática. Todos os escritores escrevem com erros de gramática. Dostoiévski preenchia páginas e páginas com erros. Então, por que preservar os erros da Carolina? Isso a diminui, a segrega, a vende como uma excentricidade amestrada.
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Que livro grandioso esse! Eu peguei só para ler os ótimos ensaios críticos, inclusive um do Alberto Moravia de extrema lucidez e entendimento sobre os deserdados do Brasil, mas quando menos percebi já estava na metade dos diários de Carolina. Ela me fez deixar o A montanha mágica de lado. A cada página a garganta se apertava e era inevitável ficar com os olhos cheios de lágrimas. Eu tinha muitas reservas quanto a esse livro, achava que se fazia concessão à condição social da autora. Mas não! Ela não tem diferença nenhuma de Knut Hamsun (Fome), e Faulkner (Desça, Moisés!). E por que seria de assustar comparar ela a esses dois? O cotidiano de fome e amargura e fé na escrita é o mesmo do escritor norueguês, e o recurso dela de exaustivamente mostrar quanto ganha e perde em dinheiro é o mesmo de Faulkner em traduzir o valor imposto à vida humana como o de uma mercadoria descartável. Eu até pude entender a manutenção dos erros de gramática_ ainda que eu continue não concordando com eles, e ainda que extrapole na vitrine de mostrar suas carências de educação formal. E o que mais me encanta nela é seu espírito aristocrático. Ela se compadece dos sofredores do mundo, mas também reconhece sua altivez intelectual, seu exclusivismo em não se misturar por ser filha da cultura, ser uma renascentista, ser um indivíduo cujo objetivo da existência é o esclarecimento. E ela é uma escritora completa, com vários níveis, que mostra sua crueza e suas vaidades fúteis ao mesmo tempo que sua profundidade. É tocante as vezes em que quer mostrar que é sexualmente atraente, escrevendo sobre a inveja das mulheres e o desejo dos homens por ela. Um livro único, de uma escritora verdadeira. Comprei hoje os outros três dela da Companhia das Letras.
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Carolina confirma minha convicção de que o grande escritor é um perceptivo pelo qual passam todas as profundas questões da existência, todos os símbolos, as imagens, as mônadas de significados sublimes. Ela escreve ideias que eu vejo terem sido compartilhadas com Kafka, Brecht, Faulkner e Shakespeare, embora ela nunca tenha lido esses autores antes de escrevê-las. Há trechos tão perfeitos e disruptivos em sua obra quanto os aforismos de Kafka, como a cena em que ela quer ser um homem para lutar para melhorar o país e pergunta à mãe como fazê-lo. Basta atravessar o arco íris, a mãe diz. Então ela corre em direção ao arco íris mas nunca o alcança. Isso é o mais puro Kafka, com a mesma elegância, a mesma concisa pureza quase infantil. E ela fala dos Palácios da cidade, com a mesma atmosfera de inacessibilidade burocrática que tem em O castelo e em Herzog. O grande escritor faz cair por terra as limitações sociais e as mazelas da educação, pois falam a mesma coisa, com a mesma elevação, o mesmo poder, a mesma beleza. E o estilo de Carolina? Ela consegue em um parágrafo o polimento que Hemingway suava por alcançar. Não estou idealizando Carolina. Mas é que o fator racial e geográfico impõe mais rótulos simplistas nela do que a intuição oposta de ver a sua real dimensão artística. Compará-la a Kafka faz muito mais sentido do que dizer que ela era uma simples catadora de papel colocada num ciclone de fama por piedade.
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Tem uma parte muito perturbadora em Quarto de Despejo em que Carolina fala que seu filho João, de 11 anos, tentou estuprar uma criança de dois anos. Ela leva o filho para o juiz para ser internado, mas como era feriado ela encontra o instituto fechado. No outro dia, dois fugitivos do instituto pedem ajuda em seu barraco. Ela dá roupas e quando os meninos vão embora, ela pega o feio e roto uniforme amarelo deles e cheira o suor deles. Depois, ela escreve um dos estudos sociológicos mais tocantes sobre a perda da infância e a sexualização doentia da criança, assim como descreve o pesadelo de abandono e criminalidade que são as casas de correção da infância e adolescência. Ela visita a rua do meretrício e, enquanto recebe uma resposta abjeta e violenta de uma das mulheres, ela vê a criança abandonada que resultou na prostituta. Aí então ela diz que finalmente conseguiu se comunicar com João, o mais intratável e revoltado dos seus filhos. Ela diz que o ensina, não mais falando o idioma da infância mas do adulto (já que, ela reconhece, ele perdeu a infância aos 11 anos), sobre as agruras da vida. E força ele a ler livros. É uma passagem tão visceral e crua quanto as melhores de A casa dos mortos, de Dostoiévski, e de qualquer livro de J. M. Coetzee. Hoje fui pesquisar sobre o destino de seus filhos, e vi um vídeo em que o João fala no funeral da mãe, em um português polido, correto, cortês. Até que ponto a dedicação de Carolina pela cultura salvou seu filho? João morreu em consequência da pobreza, logo depois de Carolina. Seu outro filho, José, do qual ela pouco fala, morreu atropelado, em situação de miséria profunda. Só Vera, a filha, que jurou se tornar professora, está viva, cuidando ativamente do espólio da escritora. Se tornou professora, e é uma mulher negra, culta, esclarecida.

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