
Há dois dias estou me afundando na leitura de De Castelo em Castelo, de Louis-Ferdinand Céline. Fazia bem uns cinco anos desde a última incursão minha ao universo idiossincratissíssimo desse autor francês, quando li o ilimitado Viagem ao Fim da Noite. Em Castelo, o seu estilo cheio de reticências, cheio de exclamações, cheio de marginalidade coloquial, é levado ao extremo. Uma página lida em separado dá a impressão de algo retirado de uma caderneta de um chefe de gangue adolescente, ou dos desabafos de um verdureiro. Foi uma surpresa ver o quanto ele levou adiante a linguagem conceitualmente revolucionária de Viagem até esse nível avançado, e, nas primeiras páginas não escondi uma certa decepção. Viagem é um dos melhores livros que já li, um dos mais verdadeiros, enfurecidos, sublimes, arrebatadores. Só quem o leu sabe que não há um pingo de exagero nesses elogios. Não conheço ninguém que o tenha lido por inteiro que não compartilhe dessa veneração desavergonhada (há os que leram as primeiras cem páginas apenas e saem por aí maldizendo-o). Recordo que o capítulo em que o narrador alter-ego de Céline percebe, em sua viagem ao exílio para uma província além-mar, que a tripulação do navio armou um esquema para matá-lo, são as páginas mais engraçadas que já li. Sofri convulsões de riso diante a paranóia auto-depreciativa e a consciência da desgraça que são duas das qualidades valiosas que Céline trouxe para as letras do século passado.
O humor de Céline é um dos componentes formadores do grande paradoxo circundando a imagem desse que é o mais maldito dos escritores, e serve para dividir os que leram Céline dos que apenas leram sobre Céline. Os que leram sobre Céline tem o suficiente para se saírem bem numa conversa de "alto nível", são os que vão cair nos caminhos já exaustivamente trilhados de que é o autor dos três panfletos pérfidos defendendo a execução sistemática de judeus, o Bagatelles pour un massacre (1937), o L'École de cadavres (1938), o Les Beaux Draps (1941); que terão de se sair no auge da diplomacia da visão artística distanciada em considerarem que apesar disso, foi um dos escritores realmente indispensáveis do século XX ao escrever o Viagem; que mesmo autores judeus não escondem a apreciação de suas obras; que foi dele que saiu a geração beat, os minúsculos repetidores do calibre de Henry Miller e Burroughs, etc, etc. Já os que leram Céline tem o privilégio de reforçar por este lado a certeza dos esquemas obtusos dos academicismos literários e os rasos padrões de esteriótipos construídos para isolar um criador dentro de seu nicho burocrático de compreensão. Começa-se por se perguntar como um romancista tão libertário (nas palavras de um de seus ardentes admiradores, Philip Roth) pode ser julgado apenas pela convenção preguiçosa de ser um monstro moral; como um narrador que tem o potêncial único de nos limpar a alma através do riso desmedido_ não o risinho enrustido, mas a gargalhada enfática do Viagem_ é visto pelos manuais institucionalizados das universidades como um escritor que deve ser lido com cautela, com as antenas arriadas típica do contato com tratadistas do massacre, e não como um humorista soberbo do nível de Rabelais e Sterne.
Nesse sentido eu faria côro a Roger Nimier quando escreveu o artigo Dêem a Céline o prêmio Nobel, em 1956, quando o nome de Céline já era sinônimo por toda a Europa de colaboracionista traidor e antissemita. Claro que não se pode ignorar o imenso estigma do apoio de Céline aos alemães, de sua acirrada proximidade ao marechal Pétain a ao governo de Vichy, de seu pedantismo fronteriço de se apegar ao nazismo de maneira mais torpe e sem nem a relativizante razão de retorno a um Estado moralizador forte de Knut Hamsun e Ezra Pound. Numa olhada rápida e descomprometida, Céline realmente foi um monstro. Mas essa é a palavra-chave: descomprometida. Quando se lê Céline, o leitor perde o conforto da imparcialidade, é obrigado brutalmente a ver o que está abaixo da planificação do jogo de ideias que prevaleceu no século passado por ocasião das guerras, do nazismo, da Shoá, da formação hipócrita do politicamente correto daqueles que foram aceitos como heróis ao escamotearem seus pecados com astúcia. Céline, o médico que, segundo suas nada eufemísticas descrições da própria miséria, não era respeitado pelos vizinhos não por ser acusado de oferecer aos alemães os pontos estratégicos de passagem pela linha Maginot, mas por não ter um carro, indo visitar sua parca clientela a pé, não ter um terno decente, levar seu próprio lixo para a calçada, não ter uma empregada, é o escritor abnegado intrínseco, o verdadeiro homem das letras, o verdadeiro visitante das zonas de sombra, o que levou a escrita a níveis mais distantes de lucidez que foi preciso seu próprio sacrifício, o seu próprio massacre. É justo por ser o Céline público um monstro que o Céline criador é o mais valioso dos escritores, o mais soberbo.
Por isso a certa decepção que tive nas primeiras páginas de Castelo. Não há mais o humor anárquico e incapaz de constrangimento de Viagem, aquele riso inédito que não comporta nenhum pudor. Céline mesmo afirma isso no eterno lamento de sua miséria quando diz que o folclórico editor Gallimard (por ele chamado execravelmente de Achille) lhe cobrava mais romances engraçados, aos quais agora sua percepção do mundo não poderia dar. Castelo é uma obra anti-Tolstoi, no tocante a negar que a importância da poesia para a obtenção da verdade não existe. Para leitores não iniciados podem parecer tediosas as páginas iniciais em que Céline sublima o enredo para cair numa lamúria interminável, mas quando se entra nas cenas tocantes e terríveis do seu refúgio junto com a cúpula colaboracionista no castelo de Sigmaringen, mesmo a aparente gratuidade dessas páginas ganha um valor de contexto: o propósito exorcizante da poesia sui generis do autor em destruir todas as convenções da escrita e do pensamento corporificado, sua catarse em mostrar que a escrita foi a única coisa lhe destinada em vida, e daí o desbalde, a liberdade, o excesso. A poesia de Céline é indissociável à sua escrita, está em seu coloquialismo, em seus xingamentos, vai se tornando grandiosa em seu prosaísmo desconcertante, até o ponto em que ele desnuda a própria tradição literária como um estupidificante burguês, com uma eficiência talvez superior a Joyce. Céline mostra que não há nenhuma diferença moral entre ele e Sartre (um de seus mais ferozes condenadores_ citado no livro pela corruptela de Tartre), e tantos outros autores alavancados pelo mérito da aceitação pública e premiação acadêmica por meras manipulações geográficas e políticas (Céline escreve que se tivesse aceito o convite da União Soviética para morar na Rússia, à época do Viagem, estariam lhe dando o Nobel e estátuas no pátio das universidades em vez de querendo matá-lo).
A miséria, a negação como médico a aceitar o pagamento dos famélicos pacientes às consultas, a desgraça completa que indicava prematuramente o esquecimento público, servem à sua escrita como a crença na transcendência da alma serve aos religiosos, através dessa libertação a qualquer impostura em que emparelha todos no mesmo nível de abjeção e ódio, de culpa e hipocrisia; as descrições da miséria absoluta tanto física quanto espiritual do após guerra e da perseguição dos escolhidos como culpados pela História (entre estes, ele), inauguram uma nova escola da expressão, a qual não se pode sinonimizar como dantesca, apesar de ter a força equivalente. O que Céline escreve é celiniano, ele tem a vantagem rara de ser um fundador. Dele veio tanto os animaizinhos magros como Henry Miller, esse poltrão cínico que deve tudo a seu mestre, os mornos do primeiro andar como Salinger, os influenciados renitentes como Sartre, e os realmente fabulosos como Thomas Bernhard. Céline explora o mal incorporado à visão dos derrotados e dos previamente condenados do século passado. Ele não pede desculpas por nada, não tenta se explicar por nada, explicar-se a um defensor do assassino Mao como Sartre?, do militante das fileiras da grande genocida igreja católica como Mauriac?, aos gordos de bundas flácidas e papadas que semeam um câncer no cu e angiomas fatais no peito, como ele descreve os banqueiros e magnatas diretamente responsáveis por milhões de vidas chacinadas e que são os senhores da guerra? Quando fala dos panfletos antissemitas, chega a rememorar uma antiga senhora judia rica que o humilhou sobejamente, a ele e a seu pai, quando era criança, o que me fez recordar as razões do mal implantados no peito de Thomas Sutpen. Faço minhas as palavras de Philip Roth: na França, meu Proust é Céline.
