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domingo, 28 de outubro de 2012

O Melhor Livro de Todos os Tempos para Charlles Campos



(Publicado hoje no Sul 21)

Eu cheguei a Homem Invisível através de uma dessas tantas listas dos dez melhores romances do século XX. Conhecia e havia lido boa parte dos outros títulos da lista, os Mann, os Kafka, os Faulkner, os Joyce, mas nunca nem ouvira falar do romance cujo título soava como os de ficção científica e era assinado por um tal de Ralph Ellison que me era um completo desconhecido. Na época, eu tinha lá os meus 25 anos e a onisciência disponibilizadora da internet ainda não era uma realidade, de forma que eu não tinha como obter mais informações sobre o livro além de rápidas notas em revistas desencavadas de caixas empoeiradas de bibliotecas públicas e uma coluna de reverência acadêmica de uma enciclopédia que ressaltava ser Ellison o maior escritor negro da América, e seu único romance um libelo contra a discriminação racial. Não eram informações que me despertavam maior interesse pela leitura da obra, devido o proselitismo e o acento de correção política que poderia nada ter de real valor literário; parecia uma concessão. A grande sorte é que eu já investira parte de meu tempo no conhecimento dos grandes escritores e sabia que nas mãos deles, até um panfleto se transformava em alta expressão espiritual, e me ajudava saber que a academia e a maçonaria dos professores de letras faziam seu papel de sistematizar ao extremo a leitura até torná-la uma substância temerosa e destituída de prazer, e suas catalogações insípidas de borboletas literárias não escondiam o mérito da obra por sua canonização pelo gosto de leitores sinceros. 

Comprei um exemplar de Homem Invisível, o último da livraria, publicado pela Marco Zero, em ótima tradução assinada por uma tal de Márcia Serra. Foi uma das raras aquisições em que a expectativa formada correspondeu milimetricamente ao que o livro tinha para oferecer. Há alguns anos eu dedicara uma semana de férias a devorar Os Possessos em uma biblioteca pública, o romance baluarte de Dostoiévski que era quase impossível de se encontrar no mercado editorial brasileiro (a tradução da editora 34 era uma ideia em formação em idos de 1995), e aquele volume duplo português encadernado em vermelho e com pranchas internas mostrando rascunhos do autor com  seus desenhos distraídos de mujiques barbudos na beirada das páginas, mesmo pessimamente traduzido, foi o equivalente a um ferro em brasa gravando em mim a beleza cruel que a ficção era incumbida de oferecer em sua elevada concepção da natureza humana, em nada bajuladora, e sua capacidade de ser ainda uma carreadora de primeiro nível da percepção profunda da História e da Filosofia. Então, eu esperava encontrar a mesma natureza sanguínea e violenta, o mesmo turbilhão de olho do furacão, em Homem Invisível, pois a ele era atribuído o panfletarismo libertário que outrora fora equivocadamente atribuído ao romance de Dostoiévski: e sendo que no russo eu descobrira algo desoladamente lúcido no lugar da propaganda oficial que se fazia deste seu romance. E lendo Homem Invisível, nos eufóricos três dias intensos em que não consegui fazer mais nada que me lançar nele, deparei-me ali com a mesma falta de pudor de Os Possessos, a mesma ausência absoluta de intenção em agradar, em ser digerível, em ser ameno.

Homem Invisível está tão distante de ser um panfleto de luta racial quanto Os Possessos está de ser uma cartilha marxista sobre a revolução de classe. Ambos podem ser lidos em negativo de tudo que superficialmente são tidos como apologistas de determinados setores formados da exclusão. Homem Invisível, com aqueles primeiros parágrafos antológicos, de enorme beleza, começa por afrontar um tipo de exclusão espiritual que vai muito além das circunvoluções dos conflitos raciais dos Estados Unidos, afundando-se na ferida de que a discriminação violenta tida por sobre uma raça não a distingue como determinada à nobreza do estoicismo ou à dignidade dos mártires. O narrador, contudo, aponta sua invisibilidade social tanto devido à sua cor quanto ao atraso espiritual que o pior crime da discriminação racial determina: a inércia acomodada de ambos os lados da repressão, que gera a promiscuidade e o animalismo. E no contraste entre tema e tom da narrativa que está a força incomensurável desse livro: a prosa de Homem Invisível é a melhor, a mais bem composta, a mais elevada e nietzschiana, a mais bombástica e musical da exigente prosa norte-americana do século passado. Cada parágrafo é intenso de luz verbal, em uma história movimentada que apresenta dezenas de personagens e situações inusitadas desenhadas no cenário de submundo e de constantes e disparatados movimentos sociais norte-americanos. Dizer sobre o contexto político de uma obra é desmotivar a leitura dela: Homem Invisível é antes um romanção de primeira, de mexer com o leitor na poltrona, de não se conseguir despegá-lo até o fim da leitura, daqueles livros que verdadeiramente nos transformam, e isso nada tem a ver com uma visão específica sobre partidarismo político. Sua carga filosófica e sua acentuada verdade incondicional é o que sobressai da voz frenética e concentrada do narrador, e depois desta jornada que pouco se dá tempo para a respiração tranquila, o narrador encerra com a mesma poesia magnífica ao anunciar: "quem sabe se, em esferas mais baixas, eu não esteja falando sobre vocês?".

O mercado editorial nacional, um dos melhores e mais dedicados do mundo, vem cometendo uma grande injustiça com esse romance de Ellison, que deveria ter por aqui uma edição bonita, com ensaios sobre a obra feita por outros autores (o de Saul Bellow, por exemplo), e a promoção devida para diminuir o desconhecimento entre os leitores brasileiros dessa obra capital.

sábado, 30 de julho de 2011

Someone's knockin' at the door/ Somebody's ringin' the bell


"Ao penetrar na terra, fiz tábula rasa de tudo, menos da minha mente. Da minha mente. E a mente que concebe um projeto de vida não deve nunca perder de vista o caos que levou a tal projeto. Isto vale tanto para as sociedades como para os indivíduos. Assim, tendo tentado dar forma ao caos que mora no cerne de nossas certezas, devo agora sair, emergir. E ainda há um conflito dentro de mim: há uma metade de mim que afirma, junto com Louis Armstrong: "Abre a janela e deixe o ar viciado sair"; enquanto a outra afirma: "O milho era bonito de verde, antes da colheita". É claro que Louis estava brincando, ele próprio nunca deixaria sair o ar viciado, pois isso acabaria com a música e a dança, e a música que saía do ar viciado do seu pavilhão de ouro era música da boa; e isso é tudo que importa. O ar viciado está aí, na música e na dança, com a sua diversidade_ e eu estarei por aí, com a minha. E _ como já disse antes_ cheguei a uma decisão. Vou me desvencilhar de minha pele velha e deixá-la aqui, na minha toca. Vou sair por aí, embora nem por isso me torne menos invisível. Mas vou sair, mesmo assim. Acho que já não era sem tempo, pois, pensando bem, até na hibernação existe o risco do exagero. Talvez seja esse o meu maior crime social, o de ter prolongado demais o meu tempo de hibernação. Pois existe uma possibilidade de que mesmo um homem invisível tenha uma responsabilidade social a cumprir.

     _ Ah! já estou ouvindo vocês... Então foi tudo conversa fiada, tudo cascata...! Ele só queria era uma platéia cativa para os seus delírios!

      Mas isto só é verdade até certo ponto: invisível e sem substância, voz incorpórea, por assim dizer, que outra coisa me restava fazer? Que outra coisa, além de tentar lhes explicar o que acontecia comigo, nesse tempo todo em que vocês não me viam? Eis aqui o que realmente me assusta:

      Quem sabe se, nas frequências mais baixas, eu não falo também por vocês? "
                             
                  Ralph Ellison, Homem Invisível, tradução de Márcia Serra, editora Marco Zero, pp. 498-499