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| Coates e seu filho Samori |
Estou no vácuo entre a leitura que se acabou e a nova que começou. Bloqueio de leitor existe: estou na centésima página de A história secreta, de Donna Tartt, mas sentindo que eu posso abandoná-lo a qualquer momento. Pego o livro e ele não me dá prazer; sento-me na biblioteca com o volume aberto nas mãos e tenho a sensação de que não estou lendo. Não me empolga. Falso demais, tudo bem que se pode aguentar, mas possui um americanismo juvenil quase insuportável por ser deslocado da imagem com que o romance é vendido. Ele é vendido como um calhamaço erudito, com inequívoco pendor à atmosfera inglesa, algo num estilo Henry James moderadamente pop. Mas é uma mentira descarada: trata-se apenas de um best-seller como qualquer outro, apenas com o requinte de ter entrado na lista de maneira inesperada. 10 milhões de exemplares vendidos. Devo esperar alguma coisa? Só encontro chatice juvenil e a prosa morna e ruim de sua autora, a qual já estou familiarizado com o também passável O pintassilgo. Vou ver no que dá, embora seja grande a chance de que vou atirá-lo para um canto, ainda mais se o novo Bellow chegar nessa semana.
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Caminho dez quilômetros todos os dias, religiosamente. Há uma represa próximo aqui de casa, cuja volta completa é de um quilômetro e cinquenta metros, e eu dou dez voltas nela, o que demora cerca de uma hora e quarenta minutos. Começo às seis da tarde. Já faz três meses que readquiri tal rotina, e hoje ela está tão solidificada que se tornou um vício. Só é possível graças a meu smartphone, para o qual achei uma segunda utilidade além de falar com a Dani quando estamos longe um do outro. Ouço música pelo fone, é esta a outra utilidade. As dez voltas passam ligeiras devido a isso. Conforme a música, meu passo se apressa: semana passada ouvi Asian Dub Foundation e Widespread Panic, ótimas trilhas sonoras para caminhadas, o que me fez atingir uma velocidade próxima à corrida. Ontem ouvi três álbuns do U2. Ouço constantemente a discografia do Led em uma semana de caminhada. O que percebo é que tais eventos assumiram um status de reavaliação de meu gosto musical. U2 me pareceu artificial, super-produzido e perecível. É ruim essa lucidez, e contra ela me impus escutar a banda para provar que eu estava errado. Um monte de gente caminha na represa também. É o ponto turístico da cidade. Nessa concentração por defender meu gosto da juventude contra mim mesmo, só na minha volta de número 8 percebi que quase todos haviam sumido de uma hora para outra. Olhei em torno à procura dos personagens habituais, que trocam cumprimentos comigo com a mesma celeridade dos peixes no aquário de O sentido da vida, e foi aí que vi o tumulto de carros, pessoas, sirenes e motos na avenida paralela à represa. Carros de polícia e ambulância. Movido pela curiosidade, fui ver o que era. Informaram-me que um motoqueiro havia caído da moto e tido sua cabeça esmagada por um caminhão de gado, há meia hora. Avancei pela multidão e vi a moto branca caída e o corpo coberto com uma lona negra; o caminhão parado a cem metros para frente. No dia anterior, um colega de caminhada me fez retirar o fone de ouvido para me dizer sobre o relógio de energia da represa que se aquecera demais e pegava fogo. Ontem, voltei e concluí minhas outras duas caminhadas. O rapaz da moto tinha 17 anos. Hoje vi seu facebook: os mesmos penduricalhos emotivos sem surpresa de fotos com bebidas, mulheres; os mesmos comentários de que "virou uma estrela" e "está num lugar muito melhor".
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Meu bloqueio de leitor me dá vantagem com as tantas Le Monde e Piauí com que estou atrasado. Não achando o clima para me envolver com os tantos livros que me esperam, procuro compromissos menos exigentes. Hoje mesmo li toda a última Piauí. Há um ensaio de Ta-Nehisi Coates que vem de encontro com minhas confabulações sobre o quanto não somos donos de nossos próprios corpos, fruto da influência de Günter Grass (aliás, a leitura compulsiva de livros sequenciados de autores como Grass é um perigo: tudo o mais depois fica parecendo um tanto tolo e vazio, e mesmo bizarro). Coates se perde em seu texto, procura usar a digressão de forma inteligente mas dá para ver a errada de mão. Mas tem bons lances em seu texto, boas reflexões e uma indignação honesta. Ele é negro, e fala, a título de conselhos para seu filho, da paisagem memorial inextinguível que enquadra o negro nos mesmos esteriótipos da escravidão e da execuções pelas forças do estado. Boa parte do texto é sangue puro, escrito em um nível elevado. Peca, como eu disse, pela dissipação. Ele centra sua demonstração de como o tempo não passou na prova de que os corpos dos negros não lhes pertencem em uma sociedade de massacres velados e maquiados pela mídia e pelos tribunais de juris como a sociedade dos EUA. Coates procura justiça pela execução de um amigo da faculdade, um negro de 1,90 metro de estatura, gentil e intelectual, cujo futuro no estudo de humanas era promissor, e que foi morto pelos tiros desferidos contra ele por um policial, este também negro. O final do texto é uma adstringência de força diante a sensaboria dos outros textos dessa edição da revista: Coates investe contra a sagração das vítimas do World Trade Center; manda à merda bombeiros, bandeiras e slogans. Fico com a vontade de ler Coates, e espero por novembro, quando o livro do qual faz parte o ensaio será lançado aqui pela Objetiva (o livro irá se chamar Entre o mundo e eu).
O texto de Coates fica gigante perto dos ensaios de Michel Laub e Olavo Amaral, que estão na revista. O do Laub é melhor escrito, mas a o tema sobre a Legião Urbana é tão derrisório que se apequena diante a angústia humana legítima de Coates. Enquanto Coates fala de suas memórias juvenis, utilizando a imagem da descorporização, Laub perde quase o dobro de páginas falando sobre suas angústias médio-classistas de adolescente quando perdeu a virgindade e fumou seu primeiro cigarro de maconha. Repito: é um ensaio muito bem escrito, muito inteligente, e muito interessante, mas para mim assustador. Laub fala ali de mim; não há uma palavra que ele diz nesse texto que eu já não conheça profundamente e de antemão. Posso dizer que a mesma cultura e vivência que Laub teve, seus mesmos conflitos nacionais, eu os tive milimetricamente. Esse ensaio de Laub é o retrato de um vazio planificado, um vazio sério que deveria ser execrado e estudado com artimanha, um vazio político e uma segregação social etária sentida com enorme poder dentro do Brasil. E esse é o pecado, ou a extrema limitação do texto de Laub: o tema que ele usa tem a mesma intensa comburência do texto de Coates, fala de uma violência e opressão símiles, mas Laub desperdiça tudo contando sobre uma banda de rock datada e sua paixão pelo vocalista dela. Primeiro: a mim é taxativo que ouvir quaisquer das bandas de rock nacional fundadas nos anos oitenta, após os quarenta anos, é de um anacronismo e atraso sem tamanho. Com tantos sinais estridentes cobrando um mandar à merda de Laub, como fez Coates dos bezerros de ouro da opinião pública de seu país, e ele se restringir a um tolo artigo de fanzine, é algo profundamente lamentável. Eu vi o quanto minha juventude foi uma luta semi-consciente individual para fugir da opressão maior descambada pela mídia televisiva e fonográfica, eu que desde quando, em meu comportamento de rebanho, me vi esperando o radialista anunciar a canção Será para gravá-la em uma fita cassete, tinha a intuição de que cumpria meu papel de palhaço alienado desviado da crítica contundente quanto a um país construído para que eu não tivesse voz. Em determinado trecho do artigo de Coates, ele está sentado diante os degraus do prédio de subúrbio miserável onde morava no nascimento do filho, e ele se recorda que foi a última vez, antes do advento do download, em que ouviu certa canção popular. Passou vinte anos até que ele pode ouvi-la novamente. Aqui ele usa o entulho midiático como mais um promotor de reflexão sobre a complexa condição do negro na América. Laub se comporta apenas como um alvo fixo imutável desse entulho, ainda que ele tempere seu texto com os penduricalhos acadêmicos distintivos sobre escola de Frankfurt e beire aquele empolamento retórico proparoxítono tão cansativo e conhecido para dar maturidade ao menos estética ao que escreve.
O outro ensaio, do médico Olavo Amaral, é ainda mais em cima do muro e sanitizado pela compreensão irrestrita à indústria farmacêutica, embora seja vendido pela revista como um tempero contra a ganância que rege tal indústria. A "experiência" voluntária de um médico, que é o autor do texto, em participar de uma semana de exposição de stands de produtos medicinais de todos os tipos. Ao longo do artigo, Amaral colhe mais de oito quilos de brindes desses stands, e narra tal coisa com a mesma superficialidade apolítica e a-histórica de quem julga que a mera menção ao problema já satisfaz o discurso. O artigo é anunciado como matéria principal em letras maiores na capa, O lobby dos remédios, mas é tão somente um diário de um profissional que só simula ter alguma atitude crítica quanto ao conceito popular de como a medicina é exercida no Brasil, regida por interesses escusos que subjaz a saúde e o conforto dos doentes e composta por uma severamente vigilante restrição elitista. O médico nem sequer insinua a complexa subtração que está por debaixo dos panos da medicina brasileira, e no final do diário ainda faz uma conciliação nos moldes de as necessidades da indústria farmacêutica em ser assim para poder promover maior desenvolvimento científico na descoberta de novos remédios. Esse número da Piauí salienta o quão pobre está a crítica em todos os sentidos no país.
O outro ensaio, do médico Olavo Amaral, é ainda mais em cima do muro e sanitizado pela compreensão irrestrita à indústria farmacêutica, embora seja vendido pela revista como um tempero contra a ganância que rege tal indústria. A "experiência" voluntária de um médico, que é o autor do texto, em participar de uma semana de exposição de stands de produtos medicinais de todos os tipos. Ao longo do artigo, Amaral colhe mais de oito quilos de brindes desses stands, e narra tal coisa com a mesma superficialidade apolítica e a-histórica de quem julga que a mera menção ao problema já satisfaz o discurso. O artigo é anunciado como matéria principal em letras maiores na capa, O lobby dos remédios, mas é tão somente um diário de um profissional que só simula ter alguma atitude crítica quanto ao conceito popular de como a medicina é exercida no Brasil, regida por interesses escusos que subjaz a saúde e o conforto dos doentes e composta por uma severamente vigilante restrição elitista. O médico nem sequer insinua a complexa subtração que está por debaixo dos panos da medicina brasileira, e no final do diário ainda faz uma conciliação nos moldes de as necessidades da indústria farmacêutica em ser assim para poder promover maior desenvolvimento científico na descoberta de novos remédios. Esse número da Piauí salienta o quão pobre está a crítica em todos os sentidos no país.
