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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Um dia mais e me expulsarás, talvez com zanga


Antes, como todo mundo, eu andava atrás de meus antigos e desaparecidos amigos pela net. Por ter obtido sucesso na procura eu parei com isso. Tenho uns 5 amigos que me eram fundamentais, provado isso pelos sonhos estranhos que eu passava a ter ansiando abraçá-los. Amigos que éramos tão gêmeos no humor, nos gostos, nas angústias, nas promessas, que minha alma sofria muito diante a nostalgia da juventude extraordinária que eles me proporcionaram. Com eles eu tive uma banda de rock, as mais pynchonianas aventuras de viagens e bebedeiras (e passa por aí minha paixão por Pynchon), os amores platônicos em que o bom era quebrarmos as caras para suportá-los mais intensos, as longas e madrugadinas conversas, os projetos mirabolantes, o deslumbre com a literatura. Tive uma juventude plenamente feliz com esses caras; eu tenho a sorte de ter uma estrela imantada que atrai esse tipo de gente. Um deles, desses meus amigos imortais, eu conheci quando pegava o ônibus para o colégio Objetivo; todo dia eu encontrava com seu sorriso ultra-simpático que me causava nojo e sua aproximação para conversarmos, e eu sempre fugia dele até que ele me conquistou. Esse aí é o Marlon, que, há dois anos, achei seu telefone e liguei para ele, com meu coração saindo pela boca, e quando ele atendeu eu fui tão irreverente, tentado recriar nosso ambiente, xingando-o de filho da puta por que sumiu de mim, e ele do outro lado em uma frieza monumental, quase me tratando por senhor. Despedi com um fiapo de voz e considerei que nossa amizade acabara, ou eu continuaria me referindo a ela no passado. Ele mora em uma cidade próxima daqui, algumas vezes pensei em ir lá de surpresa, mas eu tive tantos assombros diante o que o tempo e a vida comezinha fizera com esses meus antes radiantes amigos que desisti. Desses 5 amigos, apenas um conserva uma reserva suficiente do que era antes para que nós ainda possamos nos falar, o Fernando, que veio aqui em casa jantar conosco ontem. Os outros vou falar: encontrei com um no shopping há uns oito anos, e o cara tinha o olhar cheio de um espantoso rancor, o que percebi que ele tinha uma medo pavoroso de descobrir que eu me dera bem na vida, estava melhor que ele; quando nos despedimos no estacionamento, eu vi que ele desmoronava e me odiava para sempre ao ver o carro em que eu estava, e só não falei para ele não se preocupar porque era o carro da minha mãe porque eu estava em estado de choque. Eu fui embora remoendo o pensamento de se eu também me tornara tão babaca e previsível, se em mim todo o frescor e a poesia e a infantilidade de outrora havia sido exterminada e, diante os olhos dele, eu era um ser de uma boçalidade pesada.

Os outros: um virara um comerciante que o riso superficial que ele achara para suplantar o escândalo glótico que era antes sua demonstração diante o espetáculo incerto da vida me deixara em depressão por um bom tempo, reforçado pelo tapinha nas costas e pelo "vamos nos falar hein?, não vamos nos distanciar mais não, meu caro", que me deixou numa imensa broxada (e esse, porra, esse era o que eu mais amava). O outro, o outro apenas virou um pai de família, apenas murchou em seu nicho, com conforto se esvaziou de tudo, esvaziou-se tão hereticamente de toda e qualquer loucura, que me oferecia em sua sempre sinceridade descansada as opções progressivas de conversar sobre comida e o que se poderia fazer a níveis médicos para reduzir essa comida do calibre das veias. (Há dois outros: o Safatle, que me chamou para jantarmos juntos, e que um dia eu irei, e a Inamar, uma amiga minha com o qual eu dividia natais nos quais eu não tinha lugar para ir e passava em sua casa acolhedora, e que eu contava sobre meus planos de virar missionário na África, e ela me contava sobre seu sonho absurdo e meio ridículo, mas que eu a amava demais para nunca ser honesto com ela sobre isso, de ser apresentadora de um programa infantil televisivo. Depois de uns cinco anos a reencontro, quando eu passava minhas tardes de desempregado nos tristes cinemas do centro da cidade, e ela me chega pelas costas falando ortodoxamente (como se ela na época já soubesse de antemão o que o tempo destrói nas pessoas, e agisse com delicadeza comigo): oi, sou a Inamar, se lembra?; nós fomos sem graça tomar um açaí, nós que éramos os seres mais desbocados do mundo, e depois subimos uns quarteirões até sua casa nova, e ela me apresentou para sua irmã, o que foi uma apresentação estranha porque eu conhecia sua irmã mas sua irmã e eu, talvez fingindo, encenamos que não nos conhecíamos (você precisava ver o Charlles quando era novo, era o menino mais lindo que eu já vira, a Inamar disse, atirando tudo na minha cara barbada e meu cansaço de peregrino que me destruía; aí eu me acendeu que isso poderia ser uma vingança, porque lembrei com um renovado constrangimento a vez em que ela me beijara inesperadamente na floresta do campus universitário e eu tive o descabimento de lhe dizer que foi como beijar minha irmã). E aí ela me pergunta se eu fui para a África e eu respondo que não, e ela se levanta, demora uns 3 minutos procurando uma caixa no raque da televisão, ergue a caixa com sofreguidão e leva para o sofá, e de dentro dela retira umas fitas VHS que ela põe para tocar no videocassete e eu vejo a coisa mais terna e assombrosa que me reabilita da tristeza, vejo ela vestida com roupas de homem, camisa bege e calças de brim largas, com um microfone na mão aparecendo na tela do televisor, apresentando um programa de televisão em que aparece cercada de crianças, um programa de extrema pobreza visual e orçamentária, e eu olho para ela com os olhos arregalados e já com a boca escancarada para morrer de rir e cair nos braços dela e ela me devolve um olhar de mãe diante seu filho mais querido, seu filho enjeitado com lábio leporino que ela mostra com orgulho e distribui fotos dele por toda a sala para que todos vejam, e daí aparece nas imagens a sua irmã, a irmã que eu conheço mas nós simulamos que não nos conhecíamos, vestida como o Xuxa, loura e desengonçada, que é a estrela da coisa, e nós rimos desbragadamente, na verdade isso me enche de uma adstringência que eu não consigo explicar, as gincanas, as músicas que elas mesmas compuseram e gravaram. Foram dez programas, ela me disse, com direito no último deles à despedida com choro. Ficamos até tarde da noite assistindo a todos eles.

E ontem o Fernando, o médico pediatra, com sua esposa, veio jantar conosco. Encontramo-nos há cerca de cinco anos, em um supermercado, ele que me gritou na fila, veio até mim e me deu um puta abraço, ele de branco e eu de jaleco todo cagado de bosta de vaca e sangue porque acabara de fazer uma cesariana numa vaca. Passamos meses só nos falando por telefone, querendo saber onde o outro morava, e nos encontrando esporadicamente em padarias e no hospital onde ele trabalha; como ele era novo na cidade, ele não sabia dizer com precisão seu endereço e, passado um tempo, por ironia, a Dani descobre que ele era nosso vizinho de esquina. Ele desistira da vida na capital, que estava acabando com sua saúde, e fizera o concurso público para médico da prefeitura da minha cidade, candidato único. Desistira de uma vida ensandecida que lhe dava 50 mil por mês, para passar com os 9 mil e quinhentos de seu cargo concursado mais uns atendimentos que ele faz em outra cidade vizinha. Era um leitor voraz e um poeta artesanal rigoroso na nossa juventude, e disso sobrou pouca coisa. Mas nossa conversa sempre é recheada de nonsense e desenvoltura. Ele, assim como todos os outro 4, eram convidados todos os anos, por minha mãe, para meu aniversário, como um ritual. Era sempre surpresa, mas todos nós já estávamos fartos de saber sobre a festa. Minha mãe encomendava o bolo, as comidas, os enfeites, no intuito explícito de me constranger, o cavalão de espinhas na cara e pêlos na mão com chapeuzinho de aniversário, o filhinho da mamãe. E todos davam corda para minha mãe curtindo ainda mais com a minha cara, exigindo que se cantasse a musiquinha e que eu soprasse a porra da vela do bolo, e minha mãe coroava a sangria me dando um beijo na frente de todos e me chamando pelo apelido de infância que ela nunca usava a não ser nessas ocasiões, Naninho isso, Naninho aquilo, e fazia parte da sagração todos se calarem para que ela recontasse os eventos mais diabólicos que o Naninho teve o descomedimento de cometer, a vez em que Naninho entrou no caminhão do pai, o acionou e o grande Mercedes Benz varou a cerca da casa lá embaixo da baixada, tendo-se a sorte de não ter matado e nem ferido ninguém, inclusive o próprio demônio porque Naninha havia pulado assim que percebera a miséria que estava fazendo, e todos caindo na gargalhada olhando para mim; a vez em que Naninho sumira da avó na catedral e fora descoberto na sacristia com o saco de hóstias na mão mandando um a um do corpo de Crista para a boca; a vez em que Naninho subira no sofá, retirara a sua porcaria para fora das calças e mijara na boca de seu tio Pedrinho que estava desmaiado deitado no sofá, e como a sua tia Tânia o protegera da sova da sua vida ao escondê-lo atrás dela para que o tio Pedrinho não o pegasse pela moleira. E assim ia, todas essas coisas relembradas pelo Fernando ontem, para uma Dani deliciada mas para a qual minha própria mãe já havia contado essas e outras histórias.

Daí que depois da janta o Fernando me fala da nova séria de Globo, Justiça, que ele e sua esposa vinham acompanhando, e eu me entusiasmo, visto conhecer o gosto do Fernando para as coisas, mas isso é tema para um próximo post.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Trilhos


 

No trem para S., encostei-me à quina do banco com a janela, o rosto um pouco abaixado de encontro à gola da camisa do exército, com os olhos nivelados com a paisagem mutante lá fora. Os sons das rodas de ferro sendo alavancadas pelas barras de impulsão; a cabine cujos encaixes tremiam quando toda a máquina se recolhia em sua dimensão retilínea para poder passar pelas curvas dos trilhos; os vidros cedendo, de forma quase imperceptível, às leis da termodinâmica, sofrendo dentro das atribuições estudadas pelos engenheiros de construção a compressão dos encaixes metálicos_ tudo ia massageando meu ego destroçado, que só naqueles instantes de consciência que a brutalidade dos mecanismos do mundo envolvia tudo o mais que existia, as coisas delicadas e as coisas que respondiam às suas funções mais rígidas, compreendia que havia uma zona de equilíbrio para que a fragilidade pudesse sobreviver em relativa paz com a força absoluta. Halperin, Halperin_ uma voz dizia, balançando a cabeça sob a canção milenar da sabedoria expressa com resignação_ a sua jornada, no fundo, olhando com uma capacidade mais restringida para a admiração, talvez possa ser interrompida num estágio mais precoce, a procura apaziguada pela aceitação de que seu lugar seja entre os que se silenciaram sem medo diante os grandes enigmas. Talvez a nobreza verdadeira seja apenas o deixar-se ficar sonolentamente ao embalo das coisas milenares. Eu achava mesmo que essa voz agora dizia algo que enfim podia dar ouvidos, afinal o que diabos eu procurava? Não me pareceu que a revolução, nos moldes adotados pela turma de Ernesto e Libertad, justificasse a grande sede por propósitos que me dominava. Aliás, qualquer revolução, me parecia, era um enorme engodo, cujas motivações nunca eram as que propagavam nos ideários onde seus heroísmos de cartilha pensados sob eflúvios alcoólicos à noite eram impressos, mas suas turbinas se moviam por recalcadas ambições pessoais_ dominação, sexo (no caso de Libertad), falta do que fazer diante a pequenez do bípede a quem não foi dado a constituição própria para o vôo. Como estava cansado desses propósitos majestosos.
            De frente a mim, com as cabecinhas apoiadas no encosto do banco, havia um menino de uns oito anos e uma menina mais velha, talvez uns treze, que desde que o trem se colocara em movimento me estudavam com atenção. Meu olho roxo e minha aparência geral de destruição os deixavam impressionados. Eram loiros, sardentos, e seus pais, parecia ter-lhes adotado o estilo de criação de os deixarem à mercê da sujeira saudável para reforçar seus sistemas de defesa. A menina, de imediato, só de olhá-la, já se podia perceber ser a antípoda ativa do rapazinho, de cujo rosto partia uma total dependência dos humores da irmã. Se a menina sorria por nenhum motivo, sua cópia masculina e mais nova estendia a face num sorriso também sem explicação; se ela, por sua vez, balançava a cabeça ao embalo de uma melodia secreta, ele também passava a cantar, repetindo o ar de alheamento, sua canção particular. A menina tinha um olhar diabólico, parecia conhecer profundamente o estágio de torpor exausto dos pais_ um homem e uma mulher mirradinhos, com uma perfeita máscara de estupidificação nas caras_, e aproveitava com astúcia a liberdade involuntária que tinha. Minha presença arranjada pela benemérita providência divina, logo atrás de seu banco, era uma ocasião deslumbrante da qual ela tinha de demonstrar com todo afinco estar à altura do merecimento. Um ser que transparecia conotações ainda distantes de sua experiência, de que se situava num impreciso limite com o invisível, mexia com as considerações sobre bondade e medo que aquele casal simplório havia lhe inculcado. Seus olhinhos perversos procuravam algum indício de que eu fosse culpado por minha aparência, para então desembaraçar-se de qualquer remorso e ser também um instrumento para acentuar meu expurgo. Fazia-me caretas discretas, que pareciam dizer “não, bobo, não tenho tempo para você”, e retornava a estudar a composição de sua proeza vocálica, que apenas fazia fundo sonoro à procura por novas curiosidades oferecidas pelo ambiente. E o pequeno ser que lhe arremedava fazia o mesmo, revirando o pescocinho, com uma segurança de que aquele era o caminho certo para novas diversões. Então ela mostrou toda a potência de seu conceito sobre estranhos, me crivando um olhar onde a graduação de sua certeza era expressa pelo movimento das pálpebras_ quando se semi-fechavam, que era o que fazia então para manter toda sua concentração sobre mim, estava deixando claro que sabia o que eu representava. Não era tola para cair nos arranjos que os adultos demonstravam criar para submetê-la; reconhecia que muita coisa lhe passava batido pela condição de ainda ser criança_ esse termo que limitava sua vontade e contra a qual destinava toda sua rebeldia, inclusive o seu desprezo pelo irmão cuja estupidez era ainda maior por adotá-la como modelo, mas tinha um confiança em si mesmo que a tornava militante contra essa estupidez que lhe chegava de todos os cantos.
            Decidi confrontá-la, pois estas idéias todas aparecerem na minha mente e me vi tomado por uma súbita admiração por aquela menina. Oposição poderia ser verdadeira amizade, como já disse o velho Blake, e ela não iria querer que eu lhe viesse com a amolação de tratá-la como uma menina. Pus um ar de severidade nos olhos, resisti ao seu encaramento e disse, (não sei por que):
            _ Essas feridas eu as ganhei numa briga de trem, semana passada.
            Ela não mostrou nenhuma reação de empuxo contra ter-lhe dirigido a palavra. Seu olhar abrandou-se um pouco, não em sinal de começo de confiança, mas para avaliar o sentido daquilo. De súbito, passei a crer que ela fosse uma espécie de criança ultra precoce, que nada haveria de mais familiar a seu espírito centenário a realidade atroz dos trens, para a qual vagabundos e deserdados gerais faziam meio corrente para atravessar de canto a canto o país. Um traço de mulher madura, não de todo desprovido da feiúra temerosa das anormalidades, passava por seu rosto à medida que refletia. Então, ela recolocou os olhos em mim, carregados de faíscas opinativas como estavam há meio minuto, e me disse:
            _ Nada incomoda mais aos punhos do senhor Santiago do que vagabundos feito você.
            Sua voz era árida como cacos de vidro roçando uma parede, mas ainda assim bastante doce. Respirei aliviado. Não, não! Era uma criança como qualquer outra. Eu estava no planeta usual que a detivera de experiências alienígenas por esses anos todos. Olhei para ela por sobre o desnuviamento de meu sorriso, achando que se ela tivesse realmente os anos a mais que de primeiro achei ter, saberia que eu roubei a expressão de piedade terna pela arrogância inofensiva da inocência de algum filme americano de década de cinqüenta. Mas ela levava a coisa ainda bem a sério. Apostava nos protetores músculos desse seu herói das viagens, Santiago.
            _ Pois não foi Santiago que fez isso a você. Santiago não deixa sobreviventes._ daí ela pôs a língua para fora, uma língua rosada de algum produto dulcicorado de mercado que seus pais omissos deveriam achar ser parte da força imunizadora do mundo livre, e me virou as costas, pulando sentada sobre seu banco e saindo de vista. O protótipo masculino seguiu-lhe o exemplo, lanceando a língua, embora de forma sedutoramente desprovida de conotações políticas quanto a conhecidos poderosos do ramo da segurança de trens, mas permaneceu olhando para mim com os olhos cheios de hilaridade vazia, sentida apenas pelo fato maravilhoso de estar vivo.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Bebê 59


Ah... algumas coisas ainda não se prestam ao riso. Um professor universitário disse em rede nacional que a vida é uma sucessão de agruras. Desde que nascemos somos afrontados progressivamente pelo mundo. Mas o que dizer dessa situação agravante de, assim que nascido, ser atirado na privada, revirar-se o pequeno corpo quase sem peso e quase sem visibilidade pelo tufão da água, descer túnel abaixo e sofrer o drama aparentemente irrevogável de ficar-se atolado no cano do esgoto? Tudo tem seu peso e sua visibilidade, afinal de contas. Isso não é forma de cumprir seu itinerário por esse mundo, por mais minúsculo e infenso que ele seja. Mesmo para essa sutileza complexa, essas pontas soltas de perversão  festiva, essa estaca cravada no zero absoluto da falta de dignidade, haverá que se impor um limite. Quem levará a sério que houve uma errática missão ali, mesmo a de se afigurar nas estatísticas dos que morrem antes de completarem o aniversário de um dia? Quem cogitará que houve envolvimento sensorial suficiente para tecer-se uma lembrança, o protótipo de um pesadelo desses que os bebês tem nos berços que os fazem acordar chorando, um pranto desesperado e selvático à busca de consolo, se falta a essa tragédia o mais ínfimo cenário, a mais efêmera contagem de tempo? Nascer e morrer em cinco minutos entre a porcelana com partículas de fezes na superfície da água e meio metro abaixo em um cano de nove centímetros de diâmetro. Nem Beckett pode com isso. Poderia-se criar gerações e gerações de roteiristas de desenhos animados americanos, dos mais politicamente incorretos, dos mais despudorados e chocantemente agressivos, que nem o mais genial deles conseguiria imprimir humor a isso. Ninguém riria, jamais!, por mais que sua cara, quando resgatado pelo grupo de bombeiros de dentro do cano, apareça achatada, branca, perdida entre as incompreensões geométricas da ótica de se saber se se trata de um anfíbio, uma fralda usada, um frango descongelado_ quem teria a disposição certa das retinas para adivinhar nisso um bebê? A cara que simula enfezamento pode parecer a de um palhaço em que lhe jogam uma torta cinematográfica, mas não há a atmosfera de fundo para que os espectadores riem. Quem sabe mais tarde, anos depois, consumadas as previsões clínicas, cada especialista neuromotor e cada autor dos ensaios psiquiátricos comportamentais tenham eles mesmo envelhecidos, em seus trinta, quarenta anos em que ele tenha testado a medida de muitas filosofias para ver se caberiam retroativamente com ele naqueles nove centímetros, alguém possa olhar as imagens e finalmente rir, "ah meu irmão, fizeram uma com você, hein?", "era você?", "fizeram-lhe uma brava". Mas agora não. Todos os rostos, sérios, olhando o frágil pedaço de carne atirado fora, o crânio quebrado, o pequeno pé torto, lacerado e vermelho. Agora não. Em uma sala a mulher que lhe retirou do útero e o fez cumprir a sentença pretendida de uma existência tubular, cujo destino seria nunca olhar a luz. Em outra sala, quilômetros de distância, ele, naquela solidão onde se constroem os futuros e mais terríveis sonhos claustrofóbicos, assistido de hora em hora por pessoas que também vão lhe abandonar, assim que desligado a câmera, assim que reportado sua comicidade seca e intransigente nos noticiários. A vida é uma sucessão de agruras e como ele é sério, como a impenetrabilidade a qualquer riso lhe faz indelevelmente injustificável.