sábado, 26 de abril de 2014

Um Aleph aleijado



Esses dias me deparei com um dos programas do Chacrinha na tv paga, e, sério, foi uma experiência psicológica aterrorizante. Só não gritei porque o conforto da distância temporal me assegurava que não se deve fazer isso quando uma lembrança demasiadamente ruim volta para nos assombrar. E ver o Chacrinha, um velho vestido de palhaço espacial, com ceroulas e bermuda prateada, falando e falando e ninguém escutando_ ninguém ouvindo sua caquética voz anciã_, enquanto alguém da plateia erguia um cartaz pago escrito “Deixem o Sarney trabalhar. Ele é amigo do Brasil”, me fez ter uma pane psíquica. Senti um enorme desejo de deitar no colo da minha esposa, ou voltar para a casa da minha mãe para que fizesse isso com ela, e ser consolado. “Calma, Charlles! Foi só um sonho ruim. Passou”. Revi as salas escuras da minha infância, senti subindo de novo pela espinha a burrice centenária sacralizada pelos esquemas da pátria, a estupidez ufanista que me mantinha sempre de cabeça baixa e sem horizontes, sempre à espera da latente ordem de fracasso que me abateria em minha vida adulta. Como fugir desse regramento? Como escapar do mais latino-americano dos países latino-americanos? Como colocar a cabeça por sobre a superfície e… RESPIRAR? Ver os Titãs no Chacrinha, o Leo Jaime magrinho sem camisa, cantando sua parcela paga de alienação e todo mundo aceitando gratificado como se ele fosse os Beatles. Um mundo sem concorrência, sem diversidade, um mundo falso em que o pior do pior em matéria de entretenimento era jogado sem piedade em cima de nós, a ponto de colocarem um velho_ um velho! (parece revolucionário em seu nonsense, mas em se tratando do Brasil de 1980, era apenas a mais intrancedente das gambiarras), para nos distrair nas tardes de domingo, nas sagradas tardes de tédio cósmico dos domingos. Só um brasileiro médio da minha idade, no universo todo, sabe plenamente o quanto um domingo pode ser metafisicamente triste. O quanto a televisão é um Aleph aleijado que foca unica e exclusivamente um mesmo ponto em toda a infinitude, e declara, como o arauto de Joseph K., que aquele ponto está aberto para mim e mesmo assim, essa pobreza toda, está destinada a me expulsar um dia.

Olhando o Chacrinha, eu confirmei o que acontece. O que mudou em nossa vida psíquica de brasileiro? Para boa parte de nós estarmos, mesmo que retoricamente (porque jamais os militares retornarão ao poder, para grande alívio), brincando com uma nostalgia da ditadura? Para mim, ouso diagnosticar, é porque ainda estamos em uma espécie de infância nacional. Olha só o que fizemos quando fomos 120 mil na Rio Branco: nada! Tivemos toda a estrutura flamejante da mudança em mãos (com a rede Globo pedindo desculpas ao vivo no JN, e os políticos cogitando criar um parágrafo na lei em que a corrupção seria crime hediondo!), e a deixamos perder. Como um cão que corre atrás de um carro, e que quando o carro para olha constrangido para o vazio com uma imensa vergonha de não saber qual o gigantesco passo adiante que deveria dar. Tenho pena dos que falam a sério sobre uma ditadura como salvação para o Brasil. O Brasil não tem salvação. Simplesmente isso. Vamos afundar, e afundar, e afundar cada vez mais, até que algo além de nós aconteça, algo que não depende da benevolência ou maldição de nenhum deus, mas de uma configuração matemática. Quando o estado brasileiro sucumbir de vez diante tanta hipocrisia e prostituição moral de toda as mais distorcidas formas, a equação atingirá seu zero de retorno ao início. Pode ser que esse dia seja um dia glorioso de sol, ou mais um desses domingos cinzas de irretocável tristeza. O bom é que eu já não estarei mais aqui. O guardião da porta já terá me expulsado há muito tempo.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nietzsche, de Onfray-Le Roy



Já tentei ler um livro de Michel Onfray sem que obtivesse sucesso. Não me lembro nem do título. Lembro que começava falando sobre a fábrica de queijo em que o Onfray criança trabalhava, a mesma fábrica que permitira à sua família sobreviver às custas de muita indignidade e exploração. Onfray cresce e consegue ganhar sua dignidade e liberdade dos aguilhões capitalistas entrando para o meio acadêmico. O livro me pareceu anacrônico e ingênuo em seu ultra-niilismo datado, e nada me pareceu mais francês, na pior interpretação do termo, do que Onfray. Um autor que existe apenas para manter adiante a tradição francesa do decadentismo e aquelas coisas todas que devem pensar os esnobes intelectuais superiores. Quando eu era adolescente e lia Nietzsche, havia uma eletricidade, uma promessa de recompensa, um quê de felicidade em uma revelação que seria dada e me manteria em vantagem visionária por sobre a malta de indivíduos comuns; depois, como é saudável acontecer, eu cresci e vi que se tratava de mais uma das propagandas cosméticas destinadas à parte etária mais influenciável da vida humana, ainda que uma propaganda em um grau mais sofisticado que as de tênis. De maneiras que levo Nietzsche, o filósofo, pouco a sério, e mantive meu amor pelo Nietzsche poeta e sinfônico. Já Onfray é um imaturo vivendo repetidamente sua adolescência, uma cria fanatizada pelo que há de pior e ultrapassado em Nietzsche, um continuador de uma escola obsoleta que pretende falar de um mundo psíquico restringido à primeira metade do século passado. A criança da fábrica de queijo se tornou um adulto que brinca que é um filósofo dizendo algo perigosamente novo e cataclísmico para um mundo exaurido de arautos de uma inédita verdade.

Por isso, talvez, que Onfray coube com sucesso na forma literária dos quadrinhos. A graphic novel assinada por ele, Nietzsche, e desenhada por Maximilien Le Roy, tem seus méritos e vale a pena. Mostra um Onfray apaixonado pelo seu grande mestre, tratando-o com um inusitado carinho e com uma descomedida defesa contra as ideias pré-fabricadas que se costuma atribuir ao filósofo de Zaratustra. Onfray escreve aqui para um leitor em formação, o leitor ainda passivo da mágica negadora de Nietzsche; há um tom leve, um lirismo que espanta o excesso de seriedade e auto-importância de Onfray; o Nietzsche dos quadrinhos se torna um personagem de quadrinhos, um homem assolado por visões, incapaz de se adaptar a esse mundo e órfão de uma vislumbrada dimensão de poderes. Mas a elegância e a beleza desse livro está quase tudo nos belos desenhos de Le Roy, que equilibra os exageros didáticos do texto de Onfray. Há partes forçadas, em que Onfray exagera sua defesa de que Nietzsche não era antissemita_ quem leu a estupenda apologia à força racial do povo judeu no subcapítulo 251 de Além do bem e do mal sabe disso_, e toda defesa exagerada acaba por dar um tiro no pé revelando uma insegurança por detrás.

Esse livro foi lançado no Brasil pela editora Singular e já está na segunda edição. Eu o procurei várias vezes e minha perícia não conseguiu achá-lo para comprar. Um amigo que me trouxe um exemplar, tomado de empréstimo das estantes da escola pública onde leciona. A maior parte das escolas públicas do país recebeu um exemplar. Um grande mérito.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Valesca Popozuda



Parece que um dos mais complexos dilemas intelectuais do Brasil de hoje é saber o que quis dizer um professor de ensino médio quando resolveu colocar em sua prova de filosofia uma questão em que diz ser Valesca Popozuda uma grande pensadora. Eu não sabia quem era Valesca Popozuda até o advento dessa bombástica revelação, mas, pela amplitude que alcançou o ato enigmático do professor, está na cara que a dita tem mesmo o nível de Grande Pensadora Brasileira, ao menos pela forma em que molda o esteticismo de grande parte da população. Que há anos a ausência de argumentação nos debates intelectuais brasileiros é uma realidade entediante, isso é sabido por todos, mas o erro de interpretação_ ou, melhor dizendo, a má-fé_ desse gesto um tanto simbólico do tal professor revela um autismo por parte dos ditos formadores de opinião que fica claro pouco lhes interessar os benefícios para as massas que a Valesca Popozuda possa oferecer. Eu flano pelos sítios cibernéticos dos pensadores progressistas (visivelmente menos grandiosos e menos profundos que a Valesca), e vejo que agora eles se cumprimentam usando o refrão da música da Grande Pensadora: "beijinho no ombro". Aonde se vai, os catedráticos e os arremedos de alunos clubistas deles dizem um para o outro: "beijinho no ombro", e completam inventado um certo "recalque" que eles parecem ver na horda de seus inimigos, inimigos esses que estão solidamente calcados no esteriótipo de "burgueses", "classe média", "direita", "Globistas", "Vejaistas", etc, etc. Ou seja, todos que não sejam de algum nível apadrinhados por um universo imagético firmado nas mesmas apreensões do que era conhecida uma esquerda pré-século XXI nesse país (uma esquerda que descartou a sua história e o presente confeccionado por dez anos de traições, corrupção, assassinatos, conveniências de sociedades partidárias prostituídas até a medula, e finge absurdamente que nada aconteceu), são postos como recalcados, centrando em um arranjo improvisado sem a mínima consistência todo o preconceito e o recalque dessa classe em um repúdio destes contra Valesca Popozuda. Como se alguém, fora de um restrito nicho midiático ocupado com divulgação de música popular, algum dia tenha se preocupado com Valesca Popozuda. Na falta de situações intelectualmente interessantes, que há anos repete o mesmo tédio discursivo nacional, esses intelectuais investem Valesca Popozuda com a aura de mártir dos excluídos; inventam para ela uma atmosfera de perseguição e expurgo; por pouco o autismo deles não vai além em dizer sobre uma Valesca Popozuda presa e torturada, seviciada pelas armas dos ditadores abastados e retornada em glória para vingar de seus inimigos e levar a boa nova para o povo. E nesse Forte Apache e G.I. Joe em que brincam os progressistas, fica perdido de qualquer tentativa de análise contundente o que quis realmente dizer tal professor de filosofia, que desespero ou estoicismo humorado existe por detrás de sua questão, o que isso desanuvia sobre o crime que se comete todo dia contra a educação de milhões de jovens já antecipadamente abortados para os prazeres reais da cultura e do pensamento.

Eu já fui professor por dez anos em escola pública, e sei o que quis dizer tal professor. Não foi um deboche, não foi uma ironia, não foi um desrespeito à Valesca Popozuda, não foi um ataque contra seus alunos, não foi tão pouco um desejo de fama. Embora o próprio professor, mantendo uma diplomacia exemplar que demonstra um leitor profissional de filosofia, tenha usado de uma ambiguidade em suas entrevistas aos jornais, lançando uma insinuação cordial e não afeita a mais polêmicas idiotas de que "por que Valesca Popozuda não pode ser uma grande pensadora?". Assim, ele volta tranquilo para seus exercícios de professor, e não desperta o foco dos progressistas contra ele_ ele que deve saber muito bem que nesse país nunca houve debate, mas só louvações ou condenações, e conheça bem a astúcia que se deve ter para a sobrevivência. E de quebra, ensina a seus colegas de profissão que o mundo midiático de hoje, com uma câmera de celular e com as redes sociais, transforma uma desmaiada bobeira em uma bandeira de guerra. O que ele quis dizer, retorno, é o que a maior parte dos professores dizem todos os dias ao estado filistino criminosamente omissivo e ao aluno zumbi que se senta diante ele nas aulas. Foi um gesto regrado de desistência, sem drama, sem reivindicações: apenas um gesto marcial de desistência que diz mais da preservação psicológica do professor que qualquer forma de ironia: é como essas escoras para se descansar as pernas, alongando-as por debaixo da mesa, que os funcionários de bancos tem afim de evitar o L.E.R.; essa questão da prova feita pelo professor é uma terapia inocente para evitar em si mesmo um L.E.R. mental a que os professores estão sujeitos diariamente. Eu mesmo como professor colocava várias dessas questões nonsense nas provas que eu dava para os alunos, e uma vez, chamado a ajudar um outro professor em uma aula de religião, transformei a aula em um culto evangélico em que, enquanto meu colega lia passagens na Bíblia, eu ia impondo a mão por sobre a testa dos alunos enfileirados e os próprios protótipos do capeta se lançavam ao chão encenando um exorcismo, estrebuchando e espumando pelas bocas. Daí os alunos se levantavam, gritavam um "Aleluia, Pastor!", e voltavam para suas carteiras com as malandras cabelas baixas redimidas de todo mal, purificadas de todo pecado. E daí meu colega anunciava que eu iria passar de carteira em carteira coletando o dízimo, ajuntando uma advertência de que quanto mais generosos fossem em encherem a sacolinha, mais a graça de Deus se voltaria para realizar seus objetivos santos de terem uma Hilux, uma tv de plasma, um celular de último modelo...,  e eu passava com uma sacola aberta de supermercado encontrada no lixo e eles depositavam, com caras compungidas, tiras de papel rasgadas dos cadernos no interior. A barulheira que fizemos contaminou toda a escola, e mais tarde ficamos sabendo que as coordenadoras e os outros professores não foram ver o que era porque, simplesmente, ficaram com medo. Essa frase, ficaram com medo, nunca me saiu da cabeça; com medo de quê? Considerei esse temor deles como um diagnóstico do imaginário de terror subjacente que domina tais profissionais; eles teriam pensado: enfim um professor não aguentou e está sucumbindo ao L.E.R; enfim o estoicismo que preserva por um triz nossa sanidade mental diante tanta coisa contra nós cedeu, e ele agora deve estar pegando as cabeças dos alunos e as arremessando contra as paredes, e seu colega deve estar arrastando pelos cabelos o pessoalzinho miúdo do fundão e dando-lhes chutes nos traseiros, e não seria nem um pouco conveniente que algum de nós vá lá interromper um momento sagrado de catarse, seja lá as consequências que isso vá ter.

O que eu percebi é que foi uma catarse para nós, professores, e para os alunos, submetidos ao positivismo idiota de regras religiosas implantadas nas escolas sem debates, com um cristianismo em ponto morto e cheio de uma rançosa piedade sem conteúdo. Nada contra o ensino religioso nas escolas_ pelo contrário, sou a favor_, mas da forma como é feito não foge em nada ao ensino de fachada, ao contar as horas e assinar pontos, ao preencher as estatísticas forjadas para benefícios políticos do governo. Esse contexto rico e carregado de uma urgente clemência pelo debate, os progressistas fingem não ver, por ser algo espinhoso demais, sem charme, incômodo demais. O que interessa a eles é a superfície glamorosa, a latência pelas palmas que tem o olhar maniqueísta puro, o eleger inimigos e combatê-los com hinos de guerra. Nós contra eles. Que a educação se foda diante esse arranjo simplório de usos pessoais. Que as vítimas continuem ouvindo Valesca Popozuda e ela as continue condicionando às suas vidas sem oportunidades, à hermética imobilidade social ditada pela rasura do aprendizado a como acessar o conhecimento. Que continuem a ser a antropológica massa de manobras pelas elites pensantes ególatras que só existem nesse país.

Postei esse comentário em um blog progressista, em um texto padrão sobre a Grande Pensadora:

Rapaz! Que texto! Exemplar de capenguice de tom e de clichês pomposos. A começar com essa forma epistolar querendo palmas e com a série de perguntas. Por isso que a esquerda brasileira está completamente desacreditada. Defendendo idiotices midiáticas como se fossem salvações espirituais para os “excluídos”, como se Valesca Popozuda fosse a única coisa em um universo de opções culturais que a “periferia” e os “desprivilegiados” tem para possuir. Como se em cada casa hoje não houvesse um computador ligado à internet, com uma reserva sem fim de música e arte em geral de primeira qualidade, a ser pego de graça. A esquerda deveria promover o fim dessa alienação em massa de novelas da Globo e funk apologético de prostituição e tráfico de drogas, e levar algo realmente construtivo para as massas. Mas vocês foram os primeiros a aplaudirem o tal beijo gay na tv, como se fosse uma revolução sem tamanho na expansão do intelecto brasileiro; uma cena unicamente mercadológica de uma empresa que por 40 anos tratou os gays como esteriótipos bizarros, como macacos de realejo. Mas… acontece que vocês estão longe de querer promover um debate verdadeiramente progressista, né. Todo mundo sabe disso. Os interesses da esquerda-oligarca brasileira estão vinculados a ganhos pessoais e a sonhos partidários de grandeza e poder. O ruim para vocês, é que não consiste mais em nenhum segredo. Não há um infeliz que não tenha pleno conhecimento disso.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Morre Garcia Marquez



Morre Gabriel Garcia Marquez. O que dizer? Aliás, precisa dizer alguma coisa? Precisa edulcorar mais ainda o que agora mesmo já está se fazendo em todo canto do mundo na mídia? Enfileiram-se os velhos soldados da opinião massificada, cada um de seu lado, cada um dando seu palpite pautado por cores ideológicas e novamente revigoradas visões políticas capengas. Foi um gênio burro, por defender Fidel; foi o mais lúcido romancista do século passado, por seja lá qual matiz de seu pensamento de esquerda. Não há como deixá-lo em paz agora; a sorte é que isso pouco importa, no alto de seu quase nonagenário, no âmbito em que está a certeza de que, cumprida sua última função fisiológica, xingamentos ou bajulações não tem mais os ouvidos destinatários para recebê-los. O que eu sinto vontade de escrever agora é que a morte dele me faz ainda mais velho, ainda mais voltado para a irrevogabilidade de que o tempo é a locomotiva cosmológica mais rápida do universo e que eu estou lá dentro, sentado na minha poltrona, à espera. Morre GGM. Porra, um dia eu vou morrer, não por ser uma obviedade, mas sim pela lembrança que me assola de que, aos 19 anos, eu vendi dois livros dele para ter grana para duas horas de motel com uma namorada. E existe um vínculo entre esses dois eventos no todo absolutamente indiferentes para o correr contínuo dos dias, mas que para mim parecem investidos de uma lógica pessoal inelutável: morre hoje o senhor que, em alguns dos meus mais felizes dias de animal jovem o suficiente para não pensar na morte, me proporcionou dinheiro para transar. Vendi em um sebo os dois volumes de Textos do Caribe, e fui, radiante, elétrico, carregado de poesia sensual iletrada, passar duas horas com uma namorada na imersão despudorada do incrível poder de nossas saúdes. Para um cara de 19 anos, isso era o cume do tesão: pesava-me na alma a traição ao meu maior autor, mas o peso era suplantado pela consciência dos tantos e tantos anos que eu tinha pela frente_ que nós tínhamos pela frente, GGM e eu. Eu entreguei os livros baratos, o preço suficiente para as duas horas no Hotel Chuí do centro da capital, mas me prometi que iria comprá-los assim que minha condição de estudante acabasse e eu me tornasse independente financeiramente. Não só esses livros, mas todos os outros que GGM viria a escrever no rastilho de sua própria juventude de senhor de 60 anos. (O hotel Chuí, com seus quartos sombrios mesmo às três horas da tarde, em frente a um depósito de gelo e do lado de um hospital; com sua recepcionista lésbica, uma gorda que era a cara da irmã da Margie Simpson, e que passava altas cantadas na minha namorada, "que menina linda você tem", e que nós subíamos pelo apreensivo elevador rindo da coisa toda, eu me vendo, em meus restos de culpa, como se vivendo em um livro de GGM). Eu comprei de novo vários livros de GGM. Li muito e muito de GGM. Ele é um dos amores da minha vida. E, no meio da inadvertida tristeza, só consigo por agora pensar nessa tarde em que vendi, esfuziante, seus livros para poder transar. Como fui imensamente feliz naquele dia, em que nada havia de certo e amparável em meu futuro, apenas os seios, os longos cabelos louros, as pernas torneadas que mantinham um quê delicioso de castidade, os odores. Para mim isso tem uma imensa rede de significados.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Desinibidas cordialidades selvagens



Há uma umidade impregnando os móveis, um cheiro de mar, um frio de prenúncios antigos que me faz encolher um pouco mais no conforto da poltrona, uma certa tendência ao desequilíbrio do mobiliário que se envolve nas sombras de um pequeno cômodo de madeira relegado ao movimento de ressaca. E há, acima dessas sinestesias de ataques aveludados que partem da leitura iniciada de Moby Dick, a impressão maior de uma irreprimível simpatia por tudo que é humano e falível, por tudo que não é cartorial e sedimentado nas leis do andamento cotidiano, por tudo que se sente mortal e festivamente atraído pela atrevida natureza exultante e pelas mais sutis e desinibidas cordialidades selvagens. As cem páginas lidas de Moby Dick me contagiam de uma felicidade armorial pelo gênero humano; e são páginas tão delicadas, tão explosivas em ternura e humor, tão ao mesmo tempo excessivamente viris e abnegadamente femininas (como são equilibradas no mais desconcertante contraste as grandes obras primas), que meu preconceito embutido de homem do século XXI hora e outra interrompe a leitura para procurar na fortuna crítica do livro se há uma revelação surpreendente que diga que Melville afinal não seria contemporâneo das mesmas percepções da verdade acelerada de nosso tempo e um reacionário plenamente dotado de conhecimento da modernidade para incorrer-se eruditamente contra ela; e não um autor afundado e apagado pelas hordas do classicismo de quase duzentos anos de idade, sequestrado pelos obsoletos professores das academias e transformado em emblema de uma obsolescência que só serve às efemérides institucionais. O primeiro parágrafo do livro, uma dessas aberturas sinfônicas carregadas de uma dor desesperada e de uma esperança de cura que só podem cultivar os espíritos que perderam tudo_ até mesmo as formas mais correntes de saúde que permitem a esperança_, dá ao leitor a identificação lacônica de que o narrador se chama Ishmael; informa-se ao leitor isso com um misto de intimidade e de distanciamento, de alguém que se encontra tão exaurido da vida urbana, adoentado no gosto pela desvanecente apreciação de velórios, que mesmo a menção à sua existência passada no rebanho de cumpridores de horários lhe cansa, lhe tira o ânimo da palavra. "Chamam-me Ishmael", não é só a primeira frase mais bela da literatura, mas todo o desentrelinhamento da história do livro; há um mundo aqui de intuições e previsões que nem as 700 páginas dedicadas de Melville à trama seriam suficientes para exprimir.

Quem é Ishmael?, um professor, um cidadão culto vindo de uma casta abastada, um homem que traz um passado velado que tangencia uma culpa enorme, um crime atroz, uma afronta gravíssima contra si mesmo; alguém amaldiçoado pela falta de amor e de concordância social de todo tipo que fica claro, no meio de todas essas indefinições, que está além do que poderia causar o sofrimento provocado por uma mulher. Não aparecem mulheres nas primeiras cem páginas de Moby Dick, se descontarmos a esposa do estalajadeiro que ajuda ao narrador a desobstruir a porta do quarto onde está seu amigo canibal neozelandês; e provavelmente o livro segue assim. E nessas primeiras páginas há um ardiloso andamento de comédia de costumes, um terreno fértil para gargalhadas (eu mesmo fui tomado duas vezes rindo à solta, tanto que minha esposa veio ao quarto perguntando o que era_ e tive que explicar a ela sobre o carrinho de mão com a sacola de roupas que Queequeg lançou às costas), uma leveza que parece engrandecer a suspeita da terrível verdade existencial que Melville se prepara para nos dizer a seguir, da obsessão que virá nas próximas páginas, do inexpugnável demônio que saltará tanto na figura da baleia quanto do fanático marinheiro que a persegue. Ishmael, que é tão transparente quanto a seus pensamentos e sem outros esconderijos na alma, vai mostrando a progressiva cura quanto mais iminente está a sua fuga para a vida no mar, e assim o leitor é regalado pelas cenas de amizade entre Ishmael e o canibal neozelandês Queequeg, uma simpatia mútua tocante e desprovida do mínimo julgamento por parte do leitor. O homem de hoje, possuído pelo cinismo a tal ponto que tem seus sentimentos atrofiados pelos dois lados do devastador senso comum, veria tal amizade como uma aproximação apologética ao homossexualismo, um gracejo que traceja uma situação condenatória para a literatura moldada pelo conservadorismo de século 19; o leitor atual não se conteria em levantar toda uma série de castelos sociológicos em cima do direito e do dever de Melville em falar com palavras mais claras sobre homossexualismo e homossexualidade, tal qual critica acerbadamente que Guimarães Rosa não tenha feito seu romance ainda mais grandioso desistindo do disfarce dos gêneros. Daí, para mim que me sinto como uma criança diante as páginas desse livro maravilhoso, eu me vejo encarnado em Ishmael e o compreendo sem filtros, sem artimanhas. Que beleza whitmaniana (o que seria usar um sinônimo em cima daquilo que já o tem por legitimidade: melvilliana) o abraço de Ishmael e Queequeg, o dormir junto, o colocar cabeça de encontro gentilmente à cabeça do amigo, da promessa de que a vida de um fica vinculada inexoravelmente à vida do outro!; que círculo xamânico de liberdade os protege quando andam pelos portos e ruas infestadas de gente da cidade grande sob os olhares discriminadores e zombeteiros! O que Ishmael propõe é a fuga da literalidade ortodoxa do mundo em terra, das inúteis e burras batalhas, da rotina cancerígena, da brutalidade conformadamente mecânica e repetitiva que o mais inteligente ser do planeta fez como modus sagrado para reger a si mesmo; as tantas ideias comunais e procissões vulgares; as tantas afrontas para apagar o espírito; a multidão de palavras; as regras para não se ver. 





segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quatro minutos e dois segundos


Todo bom apreciador de música sabe ou deveria saber_ ou sabe reservadamente_ que há músicas pop que oferecem um grau de sublimidade tão elevado como a nona de Beethoven ou as sonatas de Bach. Músicas pop fazem parte de mim desde que eu me entendo como sujeito levado por uma intuição de que grande parte da vida está em um universo íntimo de imaginação emotiva. Até meus 20 anos, quando morava na casa da minha mãe, eu acordava aos finais de semana com uma seleção de músicas do Aphrodite´s Child tocando no velho som estéreo da Aiko que nós tínhamos na sala. Ontem ouvi uma coletânea do Aphrodite enquanto tomava meu vinho e aguardava que minha esposa me telefonasse para a hora de ir buscá-la e às crianças na igreja, e nada me pareceu tão belo quanto os clássicos It´s five o clock e Spring, summer winter & fall. Sentado no sofá, essas músicas ainda conservam uma grande capacidade de me fazer desvincular-me do mundo e flanar por sobre possibilidades não descartadas. Não é só o vínculo emocional de que eu as ouvia em uma época da juventude bastante impressionável com mistérios e orientalismos de fuga, e que remetem ao lençol preguiçoso da supervisão materna, mas tais músicas, sendo corajoso o suficiente para admitir isso à frente dos alertas de sarcasmo do niilismo inevitável da maturidade, me salvaram várias vezes. 

Há um desenho animado em que um urso feroz perde instantaneamente sua periculosidade quando o pica-pau ou seja lá qual personagem põe para tocar uma música clássica; o animal sofre uma implosão sensorial a ponto dos olhos se revirarem para cima e ele cair prostrado com uma cara diáfana de ter sido abduzido; algo proporcional às dimensões físicas terrenas acontece comigo quando ouço essas músicas, uma impressão de profunda e consoladora insuficiência, um desgaste primordial das grandes e falhas aptidões da certeza e da saúde competitiva, uma imunização a todo tipo de dor que possa vir dessa frequência da existência e não por estar acima dela, mas por ter a consciência não verbalizável de que não há necessidade de espanto diante a evidência de que ela é a nossa natureza. Como dizer... como se não houvesse distância alguma entre a minha vida de gabinete e a do capitão Ahab, tudo fizesse parte de uma mesma aventura. Há uma idade em que essas músicas entram na alma, e essa idade é a da infância e adolescência: ouso dizer que todo o requintado gosto musical que advêm do aprendizado se submete à procura da repetição de um determinado padrão obtido nessa época. Citei o Aphrodite não que essa banda represente algo mais para mim; eu pouco a ouço, fora dessas três ou quatro canções; e não tem a ver com genialidades demarcadas, mas com uma espécie de mensagem universal passada pelas canções populares e que se ampara especificamente no aspecto de serem mensagens desapegadas de assinaturas e egos. Time after time, como bem soube o Miles Davis tardio, vai perdurar por séculos, ainda que Cyndi Lauper possa não ser lembrada daqui a dez anos. 

Assim, não há música que encolha tanto o meu espírito quanto Guantanamera, principalmente a cantada pelo Julio Iglesias. Se algum desvio surrealístico nas linhas previsíveis da minha vida me colocasse em uma situação de ódio extremista_ vamos supor: se algum site da internet conseguisse entremear-se pelas minhas sinapses cerebrais a ponto de limpá-las para me colocar com um cinturão de bombas a serem acionadas no congresso nacional, bastaria que alguém estivesse tocando Guantanamera em seu celular, ou em um carro de som do lado de fora, e pimba, toda a ação terrorista estaria jogada água abaixo. Eu seria transportado de volta para o antigo nicho esotérico situado em uma vila caribenha empoeirada, isolado do mundo em uma choupana com a moça esplêndida a qual nunca teve seu rosto revelado em todo o processo fermentativo com que ocupara a minha existência, a moça descalça de pele morena que me é tão íntima por estar atrás como peças atômicas avulsas de grande parte das minhas namoradas, tias, esposa, filha, formando coerentemente o contorno de seus rostos. Guantanamera para mim é um mundo; em três minutos me revela séculos de vivência compartilhada. A canção do corpo elétrico, como bradou pelos telhados do mundo o inigualável Whitman.

(Minha mãe parece que já esqueceu todas essas músicas que ela indiretamente tocava para mim quando o apartamento ficava repleto delas. Quando ela vem passar dias aqui em casa, eu faço compilações das maiores canções do mundo e ponho para tocar, devolvendo de manhã essa intimidade insuspeita por ela mas que é um dos alicerces da minha forma de amá-la. A Dani vem até meu escritório e me traz a pergunta da minha mãe sobre qual música é esta, de que cantor, e se eu poderia gravá-las em um pen-drive e dar de presente para minha mãe. Na quarta agora minha mãe vem para passar o feriado conosco. Já está pronto o Knowing me, knowing you, Chiquitita, etc.)

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Li, embevecido, os contos de Stevenson em Clube dos Suicidios. Borges, Nabokov e Henry James não poderiam estar errados: as narrativas de Stevenson são formas de felicidade. Entretanto, precisa-se entender muito de literatura para poder apreciá-las. Não entender e ser calejado na leitura como se exige livros como Ulisses ou O arco-íris da gravidade. Precisa-se saber um tanto de cronologia da história da ficção, da mentalidade diferenciada do homem do século 19 e do homem do século XX, da degradação paulatina da ingenuidade humana (criando-se novas e eternas formas de outras ingenuidades, talvez mais perigosas), entender sobre os danos da ironia na visão moderna. Já vejo pessoas desamparadas de tais perspectivas necessárias dizendo o quanto os contos de Stevenson são fracos e rasos. A mesma linha de deficiência cognitiva de pessoas que alegam ser Shakespeare o mais taquilálico dos escritores. 

Mas vamos em frente: os contos desse volume da Cosac são mesmo deliciosamente inocentes. Eles são grandes justamente por isso. Um conto como O clube do suicídio é tão magistral e inesquecível quanto uma ótima canção pop (tá, todo o texto acima partiu dessa premissa). Os romances de Dostoiévski, por exemplo, são sinfonias filosóficas como as de Beethoven, enquanto escritores como Poe, Stevenson e Chesterton são compositores de imortais milongas a arrasta-pés que oferecem a mesma catarse por outros desvios. Ouve-se totalmente crédulo Cyndi Lauper dizer que estará lá para amparar seu amado em todas as horas, eternamente, ainda que tudo em nossa mente combalida pelo excesso de obviedades diga que jamais tal dedicação ocorrerá dessa determinada maneira. Mas enquanto se escuta os 4 minutos e 2 segundos de Time after time, ninguém tem o senso crítico ativado para dedicar outra coisa que uma certeza descansada e inabalável de que existe esse amor perene surgido na década de oitenta. Assim acontece com nossa fé ao não levantarmos nenhum impedimento moral na trama em que senhores da alta sociedade londrina formam um pequeno grupo de extermínio para caçar um líder de uma estranha comunidade filantrópica que promove o fim das dores desse mundo através do suicídio_ não acende nenhum impedimento enquanto nos regalamos do prazer da escrita de Stevenson. A estrutura dos contos de Stevenson são magnificamente levantadas para apagar nossa capacidade de desacreditar e de desatenção. Stevenson, como bem disse sobre seu enorme poder de convencimento o Nabokov de um dos ensaios que acompanham a edição da Cosac, faz uma tapeação sofisticada de tal forma que só depois de fechado o livro que nos damos conta de que suas histórias adotam um prisma oitocentista de elitismo social e filosofia positivista, no que tem de descartar as grandes intuições radicais que existem por detrás delas. Mas no momento em que a lemos, em que entramos nos ambientes de fog e frio e sombras dos becos londrinos, em que esfregamos um pé no outro de puro prazer e pigarreamos baixo ao virarmos uma página, somos totalmente seduzidos por tudo que Stevenson escreve.

Por detrás de O clube dos suicídios e Dr. Jekyll & Mr. Hyde, há uma série de inspirações abrangedoras que extrapolam as circunstâncias em que estão amarradas e as desvirtuam, fazendo que elas retirem pé do comedido século 19 em que foram confeccionadas para aportarem com toda aptidão revolucionária no século 20, em que inspirou a imaginação de tantos outros ficcionistas. Talvez Stevenson mesmo não tenha visto isso, a volatilidade bombástica dessas duas narrativas geniais, não tenha tido a percepção correta para enxergar a grandiosidade subjacente à ingenuidade do que escreveu. Por exemplo, O clube centra-se em um grupo de aristocratas que se reúne sob o comando do mais datado dos personagens principescos, o príncipe Florizel, que, indignado quando toma contato com uma sociedade secreta de suicidas, não descansa enquanto não mata com as próprias mãos o chefe dessa sociedade. Notem bem: ninguém do clube obrigou o extremamente curioso príncipe Florizel a participar de sua reunião; ele o fez enganando os sócios do clube, em uma noite em que, vítima de um tédio colossal, o príncipe força seu assessor a acompanhá-lo em mais uma de suas aventuras de burguês que tem a ciência de que pode intrometer-se em tudo. Quando, mesmo depois de que seu assessor o aconselha de todas as formas a não continuar naquela farsa, a coisa complica colocando a vida do príncipe em risco, aí sim ele toma para um lado pessoal e se veste do emblema da vingança. E tudo segue o rumo moralista previsível: o príncipe e seu séquito de admiradores fidelíssimos afunila a perseguição até que o chefe do Clube é morto em um duelo de espadas, em uma casa de campo londrina ao lado do rio, em uma noite de ventos fortes e tempestade. A narrativa_ mais uma vez reforço, escrita com uma perícia infalível e invejável_ acaba com um tom de glória festiva, em que os bons sepultaram os maus para sempre, prometendo a guarda atenta sempre que o mau fizesse o menor movimento para evadir-se de sua sepultura.

Mas aqui entra a mente de um homem do século XX, século das guerras, do niilismo e cinismo e tudo mais que nos deu a maturidade novamente desnuda para novas roupagens conceituais que temos hoje_ o homem mais uma vez virginalizado pelo excesso, à espera de um novo iluminismo. E o que o leitor atual pensa diante o Clube é: mas o herói verdadeiro, o cara simpático e altruísta do conto não é o chefe do clube dos suicídios? E o cara antipático, riquinho mimado que sempre dá suas carteiradas do poder e é um prepotente intolerável sentado por cima de milhares de despossuídos prontos para a obrigação de louvá-lo, não é o príncipe Florizel? O chefe do Clube, mesmo que tivesse sido a intenção de Stevenson em mostrá-lo flagrantemente com as qualidades de um vilão, é um sujeito involuntariamente cativante, em seu enigma, em sua disposição de sacrificar a vida no esquema de poupar a dos outros através de suicídios programados e consentidos, de forma tal que para o fim da narrativa o autor parece ter tido o vislumbre de que faltava um elemento de macula maior, e ele envolve tal personagem da suspeita de estelionato. A visão historicamente restringida de Stevenson por sobre o príncipe Florizel (uma espécie de Sherlock Holmes que habita várias outras histórias do autor) o envolve do glamour da aristocracia e da regência, o pinta com a elegância dos salões e com a sabedoria genética dos nobres de sangue azul; em uma passagem, Stevenson o descreve como em ser acima da terra, se movendo com uma leveza infalível prodigiosa e sendo portador de uma inteligência e dignidade totêmica. Claro que é nítida a posição insofismável de Stevenson do lado dos bons e contra os maus, num maniqueísmo que fala muito de uma outra raça de homens em que tudo era mais simples. Já o século XX transformou a história do Clube em distorções mais profundas e relativizantes, como sua inspiração recente mais famosa, O clube da luta, que é uma versão de Stevenson após Camus, Dostoiévski, o existencialismo, Beckett e Karl Marx. A leitura de O clube é tão ampla que todo o século XX poderia ser contada a partir dela, e Stevenson jamais imaginaria, mesmo sendo detentor de uma imaginação tão poderosa, que criara o tipo de filósofo acima do bem e do mal e órfão legítimo da História em seu chefe do Clube, com uma consciência do fardo que é a adstringência dos remediadores sociais que conhecem em triste excesso o coração dos homens, alguém com a mesma maldição de uma reformador pragmático e não teórico como Piotr Stiépanovich; e, em contrapartida, destruiu para sempre seu príncipe Florizel, engolido pelas vagas da experiência que não aceita alguém tão raso e pueril.

Assim também, após reler a maravilhosa narrativa sobre Jekyll & Hyde, cogitei uma história em que toda uma cidade é transformada de seu comodismo alienado jekylliano para uma melifluidade satânica hydeana. Imaginei uma cidade em que as pessoas passariam de simples inocentes úteis nas mãos de políticos criminosos para assassinos e revolucionários destemidos que poriam a velha hierarquia de roubos de pernas para o alto. Imaginei velhos aposentados, donas de casa, adolescentes do funk, pais de família que podam a grama nos finais de semana, pendurando vereadores e prefeitos e doutores de gabinetes pelas pernas em altos mastros da frente do paço municipal, e empalando-os com cabos de vassouras. Fui me deliciando com a imaginação proporcionada pela história de Stevenson, até me dar conta que tal história já foi escrita: por detrás do positivismo moralista de Stevenson há o diabólico, imenso e prevenidor do câncer, O mestre e Margarida.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Batendo à porta do céu, de Lisa Randall



É uma tentação leviana dizer que Lisa Randall não é Carl Sagan. Mas era o que passava pela minha cabeça na maioria das partes do bom Batendo à porta do céu, livro da Randall que trata com prioridade sobre o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo (e que inevitavelmente fala também do maior fruto dessa faraônica obra científica, o bóson de Higgs, ainda que não com o foco central falseado pelo subtítulo da tradução brasileira). O livro é um meio termo em seu próprio desfavor entre um Carl Sagan e um Brian Greene, apelando pelo tom popular do primeiro e podando as arestas demasiadamente específicas do segundo, com isso incorrendo de forma involuntária em uma visível carência da erudição esotérica de Sagan (que decepciona a nós, amantes de literatura aficionados ao grande escritor que foi Sagan) e um certo comedimento em explorar um pouco mais a inteligência do leitor (coisa que Greene faz, apostando que do outro lado da página há um leitor um tanto mais sofisticado). Digamos que, se Batendo à porta do céu virasse série de televisão, dificilmente o tom de voz de Lisa Randall comportaria a trilha sonora reverenciosamente deslumbrante de Cosmos, com as paletas enfileiradas de Bach, Vivaldi e Vangelis.

Também me passava pela cabeça que deve ser uma raridade entre mentes expressamente cientificistas e matemáticas ter uma inteligência panorâmica do calibre da de Sagan. Me vinha a recordação dos ensaios da revista Piauí, escritos pelo João Moreira Salles, sobre mega-cérebros da matemática. Virou uma fixação do Salles escrever sobre matemáticos, desde que ele foi a um rincão da Rússia tentar encontrar aquele matemático que recusou a medalha Fields para morar com a mãe (Grigori Perelman, não o nome da mãe, mas do filho amoroso). Depois disso, como se tivesse havido uma contaminação cruzada de um vírus da paranoia, Salles desenvolveu uma bússola particular que localiza em qualquer raio planetário algum adolescente cujos altos dotes cerebrais estejam associados de forma inconteste a expressões como conjectura de Poincaré e a hipótese de Riemann. Felizmente, Salles descobriu dois desses tipos aqui mesmo no Brasil, e é um deleite ler o quanto esses tipos são determinadamente compressados dentro de seus funis em que tudo em volta não passa de fórmulas numéricas. São confortavelmente limitados no interior de seus assustadores QIs. Um deles disse que, em uma viagem de avião, pegou certo romance clássico para ler (não sei se O retrato de Dorian Gray), mas o abandonou na trigésima página por intuir tudo o que viria a seguir da trama. O mesmo, na troca de e-mails com um colega, aproxima o problema matemático em que estavam lançados da estrutura da hemácia, mas conclui que não poderia avançar mais por desconhecer por completo mais informações sobre hemácias, coisa que se perguntasse qualquer dedicado estudante de segundo grau poderia responder com proficiência. O último artigo de Salles sobre essas entidades da alta abstração matemática conclui com um parecer de um professor, que diz que a matemática atual não tem nenhuma aplicação pragmática direta, que é como a poesia ou a música.

Seria muito esperar poesia e música da prosa de Lisa Randall? Acho que sim, e quem for ler seu livro não espera encontrar bem isso. Mas Randall percebe a sua própria limitação em se mostrar simpática às massas, e ela mesma usa das velhas técnicas em se fazer inteirada com as conexões da linguagem fora da academia científica. E isso soa falso, às vezes forçado. Se Greene faz uma referência à frase de Camus sobre o suicídio ser a mais capital das questões humanas, na famosa abertura de O tecido do cosmos, Randall pretende fazer as mesmas intersecções literárias citando Tennyson e Fielding, mas, ao contrário do uso relevante de Greene, Randall transparece nunca ter lido Tennyson e Fielding, aliás, transparece nunca ter se importado a mínima para literatura ou qualquer outra coisa fora a ciência. Daí, emulando as dissecções da superstição humana feitas por Carl Sagan em O mundo assombrado pelos demônios, Randall escreve um arrastado capítulo em que desmente a possibilidade apocalíptica de que o LHC venha a provocar o surgimento de buracos negros e com isso devore a Terra. Se limitasse à explicação satisfatória que introduz o capítulo, a coisa estaria em bom tamanho, mas aí, para assombro do leitor (que pensa, "mas ela está mesmo se lançando a uma argumentação didática tão capenga?"), Randall produz umas quase cinquenta páginas em que debate sobre as previsões catastróficas da economia mundial a partir de 2008, os efeitos deletérios da industrialização no clima, as guerras do Oriente Médio e a ameça nuclear. Com uma fixação em citar personalidades importantes com as quais se depara em suas tantas palestras e eventos sociais pelo mundo, Randall se aventura a uma chata aproximação de equivalências entre a bancarrota do banco Goldman Sachs e à empresa de seguros AIG e a previsão de danos do LHC à sobrevivência do planeta, tudo para fazer uma costura mal ajambrada em que insiste de maneira exagerada na afirmação de os buracos negros não são ameaças no LHC. O leitor do excepcional O mundo assombrado pelos demônios sabe que Sagan estuda a fundo as formações de círculos nos campos de trigo americanos, entre outros fenômenos da crença humana pelo fantástico, com um apuro e uma eloquência que situa tal livro tanto entre os de história como entre os de divulgação científica, usando amplas fontes bibliográficas e investigativas, enquanto Randall se baseia no mais crasso senso comum googleista para compor páginas que muito melhor seria se fossem reduzidas em 90% de tamanho.

Mas o livro compensa quando Randall faz o que sabe fazer, pela ótima parte inicial em que detalha tudo sobre o LHC, sobre o passo a passo de como foi feito, sobre a importância grandiosa do LHC para as futuras descobertas científicas, sobre os conceitos de comprimento de Planck e física de partículas. Uma parte notável é a que ela fala sobre a beleza estética do LHC, como uma das maiores obras de arte da engenhosidade humana. As últimas partes do livro (partes IV e V) são instigantes, as que tratam sobre o bóson de Higgs. E compensa também pela surpreendente humildade de Randall diante a enorme limitação em que simples trezentos anos de maturidade científica nos acondiciona.

Lisa Randall: boa quando não fala de política e economia.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Objeto mais belo

Eu ia escrever um longo texto aqui sobre o objeto livro. O livro_ o que sofreu um adendo explicativo em dizer "livro físico", mas que para mim sempre será puro e simplesmente livro. Mas aí me chega na caixa postal um pacote com quatro magníficos livros e eu fico que nem bobo, fascinado com o poder que emana deles. Eu mal entro em casa e já abro o grande e pesado caixote, retiro os plásticos bolhas, e lá estão. Me toma uma torrente de serotonina; eu os cheiro, os folheio, leio suas primeiras páginas, invado incautamente os prólogos e os estudos complementares como uma criança provando um doce de cada em uma festa. Não há objeto mais belo que um livro, e nem precisa ser estes de irreprováveis elegâncias que transformam meu dia em véspera de natal. Não há matéria inerte que eu ame mais nesse mundo que um livro. Daí que não precisa mais que eu escreva uma apologia pessoal do livro. Basta postar essas fotos de alegria infantil que só tangenciam minha situação de enamoramento.