segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quatro minutos e dois segundos


Todo bom apreciador de música sabe ou deveria saber_ ou sabe reservadamente_ que há músicas pop que oferecem um grau de sublimidade tão elevado como a nona de Beethoven ou as sonatas de Bach. Músicas pop fazem parte de mim desde que eu me entendo como sujeito levado por uma intuição de que grande parte da vida está em um universo íntimo de imaginação emotiva. Até meus 20 anos, quando morava na casa da minha mãe, eu acordava aos finais de semana com uma seleção de músicas do Aphrodite´s Child tocando no velho som estéreo da Aiko que nós tínhamos na sala. Ontem ouvi uma coletânea do Aphrodite enquanto tomava meu vinho e aguardava que minha esposa me telefonasse para a hora de ir buscá-la e às crianças na igreja, e nada me pareceu tão belo quanto os clássicos It´s five o clock e Spring, summer winter & fall. Sentado no sofá, essas músicas ainda conservam uma grande capacidade de me fazer desvincular-me do mundo e flanar por sobre possibilidades não descartadas. Não é só o vínculo emocional de que eu as ouvia em uma época da juventude bastante impressionável com mistérios e orientalismos de fuga, e que remetem ao lençol preguiçoso da supervisão materna, mas tais músicas, sendo corajoso o suficiente para admitir isso à frente dos alertas de sarcasmo do niilismo inevitável da maturidade, me salvaram várias vezes. 

Há um desenho animado em que um urso feroz perde instantaneamente sua periculosidade quando o pica-pau ou seja lá qual personagem põe para tocar uma música clássica; o animal sofre uma implosão sensorial a ponto dos olhos se revirarem para cima e ele cair prostrado com uma cara diáfana de ter sido abduzido; algo proporcional às dimensões físicas terrenas acontece comigo quando ouço essas músicas, uma impressão de profunda e consoladora insuficiência, um desgaste primordial das grandes e falhas aptidões da certeza e da saúde competitiva, uma imunização a todo tipo de dor que possa vir dessa frequência da existência e não por estar acima dela, mas por ter a consciência não verbalizável de que não há necessidade de espanto diante a evidência de que ela é a nossa natureza. Como dizer... como se não houvesse distância alguma entre a minha vida de gabinete e a do capitão Ahab, tudo fizesse parte de uma mesma aventura. Há uma idade em que essas músicas entram na alma, e essa idade é a da infância e adolescência: ouso dizer que todo o requintado gosto musical que advêm do aprendizado se submete à procura da repetição de um determinado padrão obtido nessa época. Citei o Aphrodite não que essa banda represente algo mais para mim; eu pouco a ouço, fora dessas três ou quatro canções; e não tem a ver com genialidades demarcadas, mas com uma espécie de mensagem universal passada pelas canções populares e que se ampara especificamente no aspecto de serem mensagens desapegadas de assinaturas e egos. Time after time, como bem soube o Miles Davis tardio, vai perdurar por séculos, ainda que Cyndi Lauper possa não ser lembrada daqui a dez anos. 

Assim, não há música que encolha tanto o meu espírito quanto Guantanamera, principalmente a cantada pelo Julio Iglesias. Se algum desvio surrealístico nas linhas previsíveis da minha vida me colocasse em uma situação de ódio extremista_ vamos supor: se algum site da internet conseguisse entremear-se pelas minhas sinapses cerebrais a ponto de limpá-las para me colocar com um cinturão de bombas a serem acionadas no congresso nacional, bastaria que alguém estivesse tocando Guantanamera em seu celular, ou em um carro de som do lado de fora, e pimba, toda a ação terrorista estaria jogada água abaixo. Eu seria transportado de volta para o antigo nicho esotérico situado em uma vila caribenha empoeirada, isolado do mundo em uma choupana com a moça esplêndida a qual nunca teve seu rosto revelado em todo o processo fermentativo com que ocupara a minha existência, a moça descalça de pele morena que me é tão íntima por estar atrás como peças atômicas avulsas de grande parte das minhas namoradas, tias, esposa, filha, formando coerentemente o contorno de seus rostos. Guantanamera para mim é um mundo; em três minutos me revela séculos de vivência compartilhada. A canção do corpo elétrico, como bradou pelos telhados do mundo o inigualável Whitman.

(Minha mãe parece que já esqueceu todas essas músicas que ela indiretamente tocava para mim quando o apartamento ficava repleto delas. Quando ela vem passar dias aqui em casa, eu faço compilações das maiores canções do mundo e ponho para tocar, devolvendo de manhã essa intimidade insuspeita por ela mas que é um dos alicerces da minha forma de amá-la. A Dani vem até meu escritório e me traz a pergunta da minha mãe sobre qual música é esta, de que cantor, e se eu poderia gravá-las em um pen-drive e dar de presente para minha mãe. Na quarta agora minha mãe vem para passar o feriado conosco. Já está pronto o Knowing me, knowing you, Chiquitita, etc.)

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Li, embevecido, os contos de Stevenson em Clube dos Suicidios. Borges, Nabokov e Henry James não poderiam estar errados: as narrativas de Stevenson são formas de felicidade. Entretanto, precisa-se entender muito de literatura para poder apreciá-las. Não entender e ser calejado na leitura como se exige livros como Ulisses ou O arco-íris da gravidade. Precisa-se saber um tanto de cronologia da história da ficção, da mentalidade diferenciada do homem do século 19 e do homem do século XX, da degradação paulatina da ingenuidade humana (criando-se novas e eternas formas de outras ingenuidades, talvez mais perigosas), entender sobre os danos da ironia na visão moderna. Já vejo pessoas desamparadas de tais perspectivas necessárias dizendo o quanto os contos de Stevenson são fracos e rasos. A mesma linha de deficiência cognitiva de pessoas que alegam ser Shakespeare o mais taquilálico dos escritores. 

Mas vamos em frente: os contos desse volume da Cosac são mesmo deliciosamente inocentes. Eles são grandes justamente por isso. Um conto como O clube do suicídio é tão magistral e inesquecível quanto uma ótima canção pop (tá, todo o texto acima partiu dessa premissa). Os romances de Dostoiévski, por exemplo, são sinfonias filosóficas como as de Beethoven, enquanto escritores como Poe, Stevenson e Chesterton são compositores de imortais milongas a arrasta-pés que oferecem a mesma catarse por outros desvios. Ouve-se totalmente crédulo Cyndi Lauper dizer que estará lá para amparar seu amado em todas as horas, eternamente, ainda que tudo em nossa mente combalida pelo excesso de obviedades diga que jamais tal dedicação ocorrerá dessa determinada maneira. Mas enquanto se escuta os 4 minutos e 2 segundos de Time after time, ninguém tem o senso crítico ativado para dedicar outra coisa que uma certeza descansada e inabalável de que existe esse amor perene surgido na década de oitenta. Assim acontece com nossa fé ao não levantarmos nenhum impedimento moral na trama em que senhores da alta sociedade londrina formam um pequeno grupo de extermínio para caçar um líder de uma estranha comunidade filantrópica que promove o fim das dores desse mundo através do suicídio_ não acende nenhum impedimento enquanto nos regalamos do prazer da escrita de Stevenson. A estrutura dos contos de Stevenson são magnificamente levantadas para apagar nossa capacidade de desacreditar e de desatenção. Stevenson, como bem disse sobre seu enorme poder de convencimento o Nabokov de um dos ensaios que acompanham a edição da Cosac, faz uma tapeação sofisticada de tal forma que só depois de fechado o livro que nos damos conta de que suas histórias adotam um prisma oitocentista de elitismo social e filosofia positivista, no que tem de descartar as grandes intuições radicais que existem por detrás delas. Mas no momento em que a lemos, em que entramos nos ambientes de fog e frio e sombras dos becos londrinos, em que esfregamos um pé no outro de puro prazer e pigarreamos baixo ao virarmos uma página, somos totalmente seduzidos por tudo que Stevenson escreve.

Por detrás de O clube dos suicídios e Dr. Jekyll & Mr. Hyde, há uma série de inspirações abrangedoras que extrapolam as circunstâncias em que estão amarradas e as desvirtuam, fazendo que elas retirem pé do comedido século 19 em que foram confeccionadas para aportarem com toda aptidão revolucionária no século 20, em que inspirou a imaginação de tantos outros ficcionistas. Talvez Stevenson mesmo não tenha visto isso, a volatilidade bombástica dessas duas narrativas geniais, não tenha tido a percepção correta para enxergar a grandiosidade subjacente à ingenuidade do que escreveu. Por exemplo, O clube centra-se em um grupo de aristocratas que se reúne sob o comando do mais datado dos personagens principescos, o príncipe Florizel, que, indignado quando toma contato com uma sociedade secreta de suicidas, não descansa enquanto não mata com as próprias mãos o chefe dessa sociedade. Notem bem: ninguém do clube obrigou o extremamente curioso príncipe Florizel a participar de sua reunião; ele o fez enganando os sócios do clube, em uma noite em que, vítima de um tédio colossal, o príncipe força seu assessor a acompanhá-lo em mais uma de suas aventuras de burguês que tem a ciência de que pode intrometer-se em tudo. Quando, mesmo depois de que seu assessor o aconselha de todas as formas a não continuar naquela farsa, a coisa complica colocando a vida do príncipe em risco, aí sim ele toma para um lado pessoal e se veste do emblema da vingança. E tudo segue o rumo moralista previsível: o príncipe e seu séquito de admiradores fidelíssimos afunila a perseguição até que o chefe do Clube é morto em um duelo de espadas, em uma casa de campo londrina ao lado do rio, em uma noite de ventos fortes e tempestade. A narrativa_ mais uma vez reforço, escrita com uma perícia infalível e invejável_ acaba com um tom de glória festiva, em que os bons sepultaram os maus para sempre, prometendo a guarda atenta sempre que o mau fizesse o menor movimento para evadir-se de sua sepultura.

Mas aqui entra a mente de um homem do século XX, século das guerras, do niilismo e cinismo e tudo mais que nos deu a maturidade novamente desnuda para novas roupagens conceituais que temos hoje_ o homem mais uma vez virginalizado pelo excesso, à espera de um novo iluminismo. E o que o leitor atual pensa diante o Clube é: mas o herói verdadeiro, o cara simpático e altruísta do conto não é o chefe do clube dos suicídios? E o cara antipático, riquinho mimado que sempre dá suas carteiradas do poder e é um prepotente intolerável sentado por cima de milhares de despossuídos prontos para a obrigação de louvá-lo, não é o príncipe Florizel? O chefe do Clube, mesmo que tivesse sido a intenção de Stevenson em mostrá-lo flagrantemente com as qualidades de um vilão, é um sujeito involuntariamente cativante, em seu enigma, em sua disposição de sacrificar a vida no esquema de poupar a dos outros através de suicídios programados e consentidos, de forma tal que para o fim da narrativa o autor parece ter tido o vislumbre de que faltava um elemento de macula maior, e ele envolve tal personagem da suspeita de estelionato. A visão historicamente restringida de Stevenson por sobre o príncipe Florizel (uma espécie de Sherlock Holmes que habita várias outras histórias do autor) o envolve do glamour da aristocracia e da regência, o pinta com a elegância dos salões e com a sabedoria genética dos nobres de sangue azul; em uma passagem, Stevenson o descreve como em ser acima da terra, se movendo com uma leveza infalível prodigiosa e sendo portador de uma inteligência e dignidade totêmica. Claro que é nítida a posição insofismável de Stevenson do lado dos bons e contra os maus, num maniqueísmo que fala muito de uma outra raça de homens em que tudo era mais simples. Já o século XX transformou a história do Clube em distorções mais profundas e relativizantes, como sua inspiração recente mais famosa, O clube da luta, que é uma versão de Stevenson após Camus, Dostoiévski, o existencialismo, Beckett e Karl Marx. A leitura de O clube é tão ampla que todo o século XX poderia ser contada a partir dela, e Stevenson jamais imaginaria, mesmo sendo detentor de uma imaginação tão poderosa, que criara o tipo de filósofo acima do bem e do mal e órfão legítimo da História em seu chefe do Clube, com uma consciência do fardo que é a adstringência dos remediadores sociais que conhecem em triste excesso o coração dos homens, alguém com a mesma maldição de uma reformador pragmático e não teórico como Piotr Stiépanovich; e, em contrapartida, destruiu para sempre seu príncipe Florizel, engolido pelas vagas da experiência que não aceita alguém tão raso e pueril.

Assim também, após reler a maravilhosa narrativa sobre Jekyll & Hyde, cogitei uma história em que toda uma cidade é transformada de seu comodismo alienado jekylliano para uma melifluidade satânica hydeana. Imaginei uma cidade em que as pessoas passariam de simples inocentes úteis nas mãos de políticos criminosos para assassinos e revolucionários destemidos que poriam a velha hierarquia de roubos de pernas para o alto. Imaginei velhos aposentados, donas de casa, adolescentes do funk, pais de família que podam a grama nos finais de semana, pendurando vereadores e prefeitos e doutores de gabinetes pelas pernas em altos mastros da frente do paço municipal, e empalando-os com cabos de vassouras. Fui me deliciando com a imaginação proporcionada pela história de Stevenson, até me dar conta que tal história já foi escrita: por detrás do positivismo moralista de Stevenson há o diabólico, imenso e prevenidor do câncer, O mestre e Margarida.

3 comentários:

  1. João Antonio Guerra15 de abril de 2014 22:51

    Há um momento no ensaio do Nabokov sobre Jekyll & Hyde em que é apontado como a pudicícia vitoriana do Stevenson descarrilha para interpretações indesejadas e nem um pouco pudicas. Se não estou enganado, Nabokov pega a primeira suspeita do investigador da estória, que é a de que Hyde está chantageando Jekyll com "aventuras" passadas do doutor. O problema é que eu li Doutor Fausto, e vi o narrador Serenus Zeitbloom dando pinta com suas crises de ciúmes quanto à amizade de Adrian Leverkuhn e um violinista; antes mesmo desses ciuminhos, lá no primeiríssimo capítulo: "eu [Zeitbloom] o amei [o Leverkuhn], com horror, ternura, compadecimento e devota admiração, sem perguntar-me sequer se ele, por pouco que fosse, correspondia aos meus sentimentos. Não, não o fez." Acabou que foi inevitável a projeção de certas cenas atrás de meus olhos a cada menção da palavra "aventura" nos contos do Stevenson -- como Markheim chupando uma pica e se consolando, "Será a última vez, jamais chuparei duas", e seguindo assim até o fatídico dia em que está encarando um time de futebol inteiro e pensa, "Será a última vez; e pelo menos nunca matarei um homem assim!"

    Mas, apesar dessa pudicícia toda, senti que o o embate moral nas estórias de Stevenson adentra territórios mais intrincados; a autoconsciência inútil de seus personagens, ainda que pouco complexa, é um embrião para a dum David Lurie. Fui pegar minha edição para ver: o momento em que Florizel, ao mesmo tempo com horror e fascínio, decide retornar ao clube (páginas 81 e 82); o maravilhoso capítulo do relato completo de Jekyll, especialmente quando trazida a questão que motivou o doutor a realizar sua pesquisa (página 227); a totalidade do conto Markheim, em que o protagonista vai aos poucos se desvelando para si mesmo, assumindo que toda bondade que tentasse trazer para si acabaria revogada por uma razão ou por outra, e portanto a única bondade verdadeira seria uma bondade irrevogável: a jaula, decisão que o Tolstói de Ressuirreição de pronto revelaria estúpida e ingênua, mas que para Markheim, ele em sua simplicidade, é a única possível.

    Bulgákov é um buraco nas minhas leituras. Esse seu último parágrafo aqui me deixou com vontade de pegar o livro e ler agora -- está intocado na minha estante desde que comprei ele ano passado, e vai acabar permanecendo assim, que tenho mais coisas na fila. Ainda assim, não sei se a poção dividiria uma criatura em duas metades certinhas, uma de um "comodismo alienado", outra de uma "melifluidade satânica"; qualquer divisão bem sucedida significaria que o plano de Jekyll deu certo, e sabemos que não foi o caso. Além do mais, creio que uma nação de Hydes seria inútil, pois o ódio de Hyde não faz projetos, apenas dá impulsos -- o poder de empenhar-se, portanto, me parece ser coisa de Jekyll.

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    1. Você não deixa de estar certo em sua última frase, mas, ao ler Bulgákov, vai saber ao tipo de "impulso" que uma cidade de Hydes poderia produzir. Os demônios de Bulgákov são absolutamente a-morais, piores, muito piores, que Hyde. Claro que é interessante imaginar tal situação como exercício, seria uma realidade terrível. Se eu fosse você, abandonava tudo que está lendo e leria Bulgákov. Acho que não há conselho melhor que esse nesse blog.

      Chesterton é melhor que Stevenson. Me passava isso pela cabeça. Chesterton é um Stevenson mais inteligente, com mais, digamos, traquejos. Como seria bom se a Cosac fizesse uma edição com os contos do padre Brown completos.

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    2. Mas, apesar da incorreção do exagero de meu último parágrafo, O mestre e Margarida é uma releitura moderna e surrealística de Dr. Jekyll & Mr. Hyde. E amo ainda mais Bulgákov ao pensar que Stevenson estava preso a convenções inexoráveis da sociedade em que viveu, pleno dos benefícios confortáveis que tal época lhe garantia como escritor. Já Bulgákov vivia em um tempo muito mais sinistro, muito mais potencialmente deletério para sua sobrevivência tanto como artista como homem, e escreveu um livro tão devastador como O mestre.

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