segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre vacas pichadas e o hino nacional



Nunca fui um leitor diletante. Não via no fato de gostar de ler nem o mais leve sinal de que deveria propagar o gosto pelos livros nas outras pessoas. Eu sempre soube que a leitura deixa a inteligência turbinada e proporciona novos ângulos de visão, e a fazia em meu canto, recolhidamente. Pelo contrário do que algumas pessoas achavam, eu sentia era uma espécie de vergonha quando me viam com livros (e me veem toda hora com livros); quase comprei um leitor digital para que pudesse, assim, ler em filas de bancos e em praças públicas sem despertar a impressão de que eu era um alienígena ou um esnobe. Certa vez, no campus da universidade, eu estava deitado num banco no bosque, durante o horário de almoço, e fui flagrado lendo "Visível escuridão", do William Golding. Meu colega pegou o livro e o revirou nas mãos, caçando o segredo da funcionalidade daquilo, e me devolveu com um ar de pânico_ depois disso seu comportamento comigo mudou em definitivo; ele me evitava, falava comigo como se eu fosse um idiota ou uma criança. Meus ambientes na vida nunca foram literários ou intelectuais: esse colega, um japonês, era o primeiro da classe de veterinária, e refletia milimetricamente a impermeabilidade a toda coisa que não fosse a doutrina da produção e aquisição de dinheiro e status social. No curso de veterinária eu via o martírio inglório que era para um velho espanhol ter sido incumbido de dar aulas de filosofia e deontologia; era como ensinar sutilezas para feras cujos hormônios da discórdia, do tédio e do deboche estivessem no auge. Ele fingia que não via os ares gerais de que aquilo era papo de afrescalhados e levava a obrigação com astúcia, deixando que colassem deliberadamente nas provas e evitando o máximo de profundidades possíveis. Eu mantenho até hoje a convicção sem fundamento de que aquele professor era uma espécie de párea na universidade, cujo pagamento por algum obscuro crime administrativo impôs que ele enfrentasse aquele inferno. Pode parecer que gente como eu, afrescalhada e meditativa, tenha sofrido no curso, mas não. Desde muito cedo eu me decidi que não iria seguir a carreira acadêmica e nem o humanismo ortodoxo: a leitura para mim é indissociável ao prazer, e como eu sou um leitor inveterado que leva o vício aos extremos do sagrado, seria uma tortura ter que me ocupar de títulos de autores que não me diziam nada, mas que aos quais teria que entregar a vida para ter êxito profissional. Sendo assim, eu me mantinha bem em meu núcleo de observação segregado. Quando aguentava, eu ria com eles e os acompanhava em festas, quando não, apenas observava. Uma vez picharam com mata-bicheiras uma vaca doente, escreveram palavrões, apelidos, no corpo dela. O professor, um sujeito caricaturalmente doutoral que ensinava cirurgia em grandes animais, que pegava alunas e venerava como a um bezerro de ouro os alunos que chegavam em grandes caminhonetas, ria com aquilo, em silêncio. Era o fruto do deboche com a deontologia. Eu ficava pensando onde esses colegas estariam dali alguns anos; se seus sonhos fanatizados acalentados em uma instável segurança fervida no banho-maria do desespero seriam concretizados. Uma vez vimos o professor de equinocultura chegar à faculdade em um fusca, e um dos que estavam do meu lado se arrepiou em uma comoção mística; seus olhos se arregalaram de tal maneira como se um ponto dimensional tivesse se aberto diante deles, e ele proferiu em tom de reza devota: eu não estou estudando para isso. Muitos anos depois, quando precisei ir ao prédio da faculdade pegar um xerox de um histórico colegial para que pudesse me matricular no curso de história, encontrei um dos machos alfa da turma, parado com sua camisa xadrez e seus jeans da cultura sertaneja diante a porta de entrada. Ele me deu um cutucão e me estendeu a mão, mas eu demorei reconhecê-lo. Estava com uma calvície esplêndida que se ajuntava à transformação física total em identificá-lo com o fenótipo de um grande fazendeiro: sua materialidade transbordava pelos botões da camisa, sua pele tinha a lisura juvenil inchada do uísque; mas ele estava bem mais doce do que o portento sexual que subira em um dos bancos em certa tarde e declamara para uma garota uma poesia improvisada da qual me lembrava por ele tê-la comparado à "sétima sinfonia". Eu apertei-lhe a mão embasbacado, pensava que a natureza não deveria ter feito isso, que era um insulto tal deformação em um cara que era muito bonito, uma espécie de Rick Martin viril e Dennis Quaid infalível, sem pompas e brutalmente elegante. Seus olhos mostravam a rendição, o quanto se tornara bovinamente maduro. Não estava em uma caminhonete, mas em um carro popular. Era vendedor de produtos agropecuários e rodava o estado todo. Ficamos conversando um tempo; quando lhe disse que meu propósito ali era pegar documentos para cursar história, ele concordou com a cabeça e me disse sinceramente que era uma excelente coisa. Voltei a ver alguns colegas pessoalmente, e pelo Facebook. Nada aconteceu com eles que sugerisse o extraordinário. O japonês se casou com uma colega nossa de sala, e posta fotos com cãezinhos em algum lugar do sul, onde trabalham em uma empresa de nutrição animal.

Tergiverso. Pouco encontro leitores na vida real. Uma vez vi uma moça lendo Doze contos peregrinos no ônibus. Fiquei olhando-lhe os cabelos. Já vi um cara cruzar por mim com um Beckett na mão; voltei para vê-lo pelas costas. Uma vez eu fui surpreendido: desci do ônibus e fui seguido por uma moça sorumbática, loura e linda, que me abordou dizendo que sempre me observava porque eu era a cópia física de um ídolo dela. Perguntei quem? e ela me respondeu Robert Smith, do Cure. Eu ri e disse que lamentava por não ser o Dostoiévski, num ato de esnobismo ridículo e totalmente involuntário, do qual meu subconsciente em alerta decretou que eu havia destruído por completo qualquer possibilidade com ela. Na primeira conversa tu lhe tasca um Dostoiévski. ó ser deplorável. Daí, para minha extrema surpresa, ela começa e discorrer que eu teria que ter bem menos cabelos, uma barba rala, e um olhar destruído pela epilepsia para atingir meu objetivo. Foi um dia de sonho, frio, insípido e atonal, dos que são meus ambientes espirituais perfeitos, e eu estava andando com uma moça linda de olhos azuis que, pelo que tudo indicava, estava me cantando. Se ela lesse Dostoiévski, tudo estava perdido, eu não iria suportar. Eu nunca me dei bem com as mulheres, sempre me policiei pela tendência à ignobilidade e à síndrome do capacho. Perguntei, fremente, se ela lia Dostoiévski, e ela me respondeu sobre qual livro dele eu gostaria de falar. Eu deveria ter juntado as coisas: Robert Smith, Desintegration, existencialismo... Dostoiévski. Falamos durante o percurso sobre Crime e castigo, eu sentindo que ela maneirava a coisa para não me humilhar. Ela fazia música, piano. Sobrenaturalmente, morava a uma quadra de mim, mas eu nunca tinha visto ela. Cheguei em casa destruído, ciente que estava em um grau instantâneo de paixão irrecuperável. Ouvi o Desintegration, que na época era um dos meus álbuns preferidos, comprado o vinil nas Americanas, e fique horas no espelho notando que, porra, eu era mesmo a cara do Robert Smith e nunca tinha me dado conta disso. Pintei meus olhos com lápis preto, espetei os fartos e longos e desgrenhados cabelos que tinha na época e, porra, me parecia pra caralho. Ganhei a menina. Li avidamente o que eu tinha do Dostoiévski e no outro dia, assim como pelos outros dias, ficava a procurando no ônibus. Estava desconsolado e já desmotivado, quando, indo para o ponto, ela se aproxima pelas minhas costas e me dá um tapinha com um oi. Eu abro o maior sorriso infantil do mundo, destruindo as horas de treino em ser smithianamente taciturno, e lhe gaguejo uma série de frases sobre onde ela andava, que eu a tinha procurado, etc_ enfim, nada que Robert Smith diria. Falamos até quase chegarmos ao ponto, e ela abre uma pasta e me entrega uma partitura, dizendo que quando a tocava no piano lembrava sempre de mim. Pegamos ônibus diferentes, porque eu tinha que ir a uma aula na praça, e quando me sento vejo que a partitura é do hino brasileiro. De imediato me cai uma certeza terrível, que me revela o quanto nesse mundo diante a felicidade se ergue uma sequência atroz de barreiras: ela é louca. Analiso a evasão do seu olhar, sua incapacidade de sair da introspecção inteligente; a maneira como fala e não me ouve; um pulsante desespero submergido pela química que não a deixa ser natural. A encontro nos outros dias, e vejo claramente a confirmação de minhas suspeitas. Uma vez passo pela casa dela e uma moça muito parecida com ela mas cujas feições são dotadas de linhas bem menos sublimes, mais comezinhas e pragmáticas, me acompanha e me conta que sua irmã sofre de distúrbios mentais sérios, que ela está em tratamento, que ela realmente cursa música e é extremamente talentosa. Fala essas coisas com uma naturalidade de alguém acostumada com a realidade burlesca; também nisso deve ser um rascunho inverso da irmã, sem nenhum talento para a música e a leitura, alguém cujas contas de luz e a formação profissional suplanta qualquer perda de tempo com Dostoiévski. E ela não fala com a preocupação de que eu possa fazer algum mal à irmã, que eu seja sequioso e aproveitador, ou me alertando para que com pessoas como a irmã eu não deva me envolver emocionalmente. Vou com ela_ seu nome, a da moça linda e música que pensava em mim em momentos em que deveria se plantar em pé com a mão patrioticamente no peito, era, é, não sei, Inamar_, uma vez a uma reunião em que ela pleiteava uma bolsa para completar os estudos na Rússia. Depois desse dia, nunca mais a vi. Na verdade, eu evitava vê-la; me sentia muito sozinho ao lado dela; me sentia tão depressivo quanto ela deveria se sentir, quando fechava a tampa do piano à noite e era conduzida para o momento das pílulas pela mão prestimosa, severa e acolhedoramente terrena da irmã, e depois era colocada nocauteada na cama. Imaginava o quanto sua beleza deveria ficar destruída nesses momentos, o quanto a pele rósea deveria ter algo de paquiderme, de bicho atocaiado pelo medo; os murmúrios sem charme, a posição assináptica do corpo.

Na verdade não sei por que escrevi esse texto hoje. Perdi o sono às 3 da manhã. Tem temporadas que sofro de desespero noturno e perco o sono. De noite tudo me parece sem esperanças e sem propósitos, e vejo até as pessoas que não gosto com profunda piedade. Semana passada acordei de um sonho recorrente, o de que sou só. Suportei a solidão por muitos e muitos anos, e acho que perdi o jeito completo da coisa, não suportaria mais ser só. Acordo disposto a chorar como um garotinho desamparado desses sonhos, e a tristeza que sinto é horrível. Mas, o propósito desse texto, se é que ele tem algum, foi motivado pela alegria de ver leitores reais pelo universo cibernético. Hoje uma amiga me disse que ficou totalmente tocada pelo Origem, do Thomas Bernhard, livro que eu lhe indiquei. Ela chorou, riu, e se emocionou profundamente com esse livro único. Assim vamos, fragilidade; a arte está aí para mostrar o quanto somos frágeis e inadequados para a solidão. O quanto somos um coletivo, ainda que só nos encontremos com a identificação em efêmeros momentos aleatórios, dispersos pelo tempo e pelo espaço, e o quanto estamos de alguma forma seguros mesmo nessa sucessão deplorável de esperanças infundadas e desconexão espiritual. Me lembro agora do velho Nietzsche, quando disse que nossas naus, após tempestades e desencontros e infernos múltiplos, estão destinadas a se encontrarem, sempre e inexoravelmente estão destinadas e se encontrarem, em algum lugar em um futuro cósmico. Se até o mais ferrenho niilista apostava nisso, quem sou eu para discordar. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A pior tradução brasileira





A decepção foi enorme. Comprei uma série de livros na Fnac esse mês, entre Brecht, Kafka, Agatha Christie..., e juntei uma edição nacional de Oliver Twist no monte. Eu havia lido O adolescente e, como é de praxe nos inícios de ano, estava sedento por ler os autores do século XIX, que, nesse período do ano (e em vários outros também), me assola a certeza de que foram os melhores da literatura. Estava tão empolgado que meu senso crítico ficou suspenso, pois li que a tradução era de Machado de Assis, que em certa altura havia desistido dela, e completada pelo Ricardo Lísias. Outro erro terrível foi me deixar levar pela capa: o livro é lindo, em formato de bolso e com capa que faz honras ao universo de Dickens, com uma foto antiga de Londres, lançado aqui pela editora Hedra (uma editora digna, por sinal, que tem em seu catálogo coisas como o Diário de escritor de Dostoiévski). Foram erros porque me esqueci de fazer a pergunta capital: grandes escritores são bons tradutores? Se tivesse feito essa pergunta que todo leitor treinado tem obrigação de fazer quando detêm um volume desses em mãos, não teria caído no engodo. Alguém fala sobre as traduções que Borges fez de Faulkner (a maioria dos leitores de Borges sequer sabe disso)? Saul Bellow é conhecido pelas traduções do iídiche para o inglês que fez de Isaac Bashevis Singer? Dostoiévski é lembrado pelas traduções de clássicos juvenis franceses? A resposta é um fatídico e encerrado não, o que teria resolvido a questão sem traumas e teria me economizado uma bela grana.

Tendo-o comprado, de imediato meu subconsciente soou um alarme fraquinho mas contundente, e desde quando saí da livraria eu sabia que tinha feito besteira. Estava viajando sozinho e na lanchonete onde comi os pães de queijo, a 100 quilômetros para chegar em casa, me enganava prevendo as horas acolhedoras em que breve estaria com esse Dickens nas mãos, e no fundo aquela certeza tranquila de que seria algo inviável. Eu me ria calmamente de mim mesmo. Chegando em casa li o prefácio do Ricardo Lísias. Fui tomado por uma ira que me faltou jogar o livro bem longe, o que não fiz apenas porque isso daria uma importância desmedida ao objeto e porque o eu que se ria de mim mesmo balançou a cabeça me desobrigando de tal dramalhão, já que na verdade eu sabia desde o início o que fiz. Acho que foi 55 reais, foi isso. 55 reais jogados fora. Pensei em dar o livro para algum amigo, mas aí seria insultante e pouco ético. O que fazer com aquilo? Ao menos servia para consolidar duas certezas: ali estava o livro em minha biblioteca que eu poderia afirmar peremptoriamente que jamais leria; e de que ali estava, enfim, a pior tradução brasileira. Não se precisaria queimar a pestana, para ficarmos com uma expressão corriqueira da época saudosista na qual eu queria me afundar, com a questão de qual tradução feita no Brasil: era esta, a de Oliver Twist, feita pelo Machado de Assis e pelo Ricardo Lísias. (Restava agora ler Ricardo Lísias, para ver se ele entrou mesmo que erraticamente para o grupo dos grandes escritores com aquele rito da tradição em ter feito uma tradução que deveria ter sido definitivamente esquecida.) (E um adendo: a intenção da Hedra, pelo visto abortada, se firmava em uma nobreza ingênua e deletéria, que era justamente uma coleção de traduções feita por escritores relevantes!!!)

Vou explicar: Lísias diz, timtim por timtim, o que Machado cometeu. Machado usou uma versão francesa da obra; Machado cortou parágrafos e páginas inteiras do original; Machado resumiu parágrafos inteiros em toscas 3 frases; Machado incluiu de próprio punho frases explicativas no texto; Machado excluiu a ironia e o sarcasmo dickensianos, substituindo-os por composições retilíneas para, no que parecia sua intenção, tornar a coisa assimilável para o leitor brasileiro. E o pior disso tudo? O pior?? (Puta merda, me dá uma vontade de rasgar a desgraça do livrinho agora). O pior meus amigos... é que Lísias conta isso tudo como se esses crimes fossem primores da genialidade de Machado de Assis, o grande escritor brasileiro! Lísias faz um texto bonito, sério e bem acabadinho, em que firmemente diz que tais estupros machadianos são feitos que devem causar êxtase no leitor, por este estar de frente a uma peça histórica de evidência incontestável da genialidade do autor brasileiro. Lísias parece desconhecer, em um nonsense que beira Monty Python e uma versão inversa de Pierre Menard, que Oliver Twist foi escrito por um inglês chamado Charles John Huffam Dickens, e não pelo totêmico autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Todo o texto de Lísias é uma obra-prima do indutor do ódio no leitor que comprou o livro pela razão óbvia de querer ler Dickens, pois trata absurda e unicamente de Machado de Assis, com notas comparativas de que também Machado escreveu um romance de folhetim, e que Machado tal e tal coisa, e que Machado aquilo outro. Que lapso cerebral grave Lísias sofreu para achar que alguém iria comprar Dickens querendo ler Machado? E, para coroar a coisa, Lísias diz algo no estilo de que foi uma grande responsabilidade completar a tradução de Machado, mas que abriu oportunidade para também ele ser criativo na tradução (!!!!!). Minha ira era tanta que eu queria dizer essas verdades para o Lísias, e daí me veio a revelação que eu não estava mais na década de 1980 e podia fazer isso, que eu tinha um Facebook e inclusive tinha amigos ali que eram seguidores dele. Liguei a máquina e teci um texto longo, podado o máximo possível de paixões e equilibrado o máximo que minha etiqueta social permitia, e enviei para Lísias. Ele, horas depois, "aceitou minha solicitação de amizade". Que diabos era isso? Eu mandei uma mensagem para ele e em resposta ele aceita minha amizade? Devo ter feito algo de errado e a mensagem não chegou, porque eu sou muito burro em questão de Facebook e porque, acima de tudo, não havia as tais linhas quebradas no final do meu texto que indicavam que o receptor as recebera.

Machado de Assis mutilou o livro de Dickens porque achava que o brasileiro não compreenderia as sutilezas e ironias. O que se pode dizer sobre isso? O livro mais popular da época, traduzido em todo o mundo?

Uma obsessão da minha família, creio já ter dito isso antes, é a instrução. Minha mãe me colocou cedo no CCAA, assim como minha filha Júlia, de 6 anos, já está no terceiro semestre de inglês. Fiz oito anos de inglês; fiz um ano de francês e saí porque não suportava a língua. Aprendi espanhol lendo os autores espanhóis e hispano-americanos não traduzidos aqui. Li os principais romances de Bellow no original, após lê-los em tradução nacional. Li Conrad, e li The Pickwick Papers, e 3 dos meus livros preferidos de Faulkner, no original. Lia mais em inglês antes de me mudar para o interior e perder bastante a ginga para o idioma. Mas eu não gosto de ler em outra língua que não seja o português. Não é a mesma coisa. A coisa não flui, meu lado escritor não aprende se não for em português. Descobri que não existe tradução decente de Oliver Twist para o português. O texto mais acessado deste blog é o que trata das prostituições feitas nas traduções de Dostoiévski, mas vejo que Dickens foi bem mais mal tratado por aqui do que o russo. Isso de achar o leitor brasileiro inapto à compreensão parece ser um mal entre alguns tradutores. Recentemente li em uma tradução de um badalado romance norte-americano a letra de uma canção do Legião Urbana no diálogo entre dois personagens. Isso, para mim, é sinal de adulteração grave, de subestimação da inteligência do leitor. Uma das minhas constatações mais valiosas é de que no Brasil existe uma grande quantidade de ótimos leitores. O brasileiro padrão não lê, mas o brasileiro que lê é um engajado e lê bastante (se não fosse assim, não haveria explicação do por que o mercado editorial brasileiro é um dos mais ricos e atuantes do mundo). Não é o caso de cobrar respeito, porque temos ótimos tradutores, mas, talvez, o caso de cobrar humildade, e nenhum ufanismo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nabokov e Dostoiévski



Em um vídeo sobre o álbum Bitches Brew, um músico de jazz depõe que achava estranho os críticos de jazz mais radicais, na época de seu lançamento, terem desprezado e condenado esse trabalho, pois, segundo esse músico, essa música já não era mais jazz, era algo novo, sob o qual não cabia mais o direito de ser criticado por um nicho específico. Essa é uma das minhas constatações corriqueiras quando li o leviano e excessivamente ácido texto que Nabokov fez sobre alguns dos principais romances de Dostoiévski. Como é de se imaginar, Nabokov destrói por completo qualquer possibilidade de que algum dia uma pessoa como Dostoiévski tenha tido talento literário. Tudo, aos olhos aristocráticos do autor de Ada ou ardor, perpetrado pelo autor de Os demônios, é grosseiro, infame, mal escrito e tosco. Das dezenas de páginas dedicadas em decantar Dostoiévski, as únicas que se ocupam com o que se pode chamar para os padrões nabokovianos de elogios são atribuídas a uma cena específica de Memórias do subsolo, nas quais o russo expatriado nos EUA reconhece justamente o que pouco é apontado: que Dostoiévski era uma grande comediante. Para firmar que realmente gostara apenas dessa cena, Nabokov a reproduz em toda sua extensão, o que ocupa 3 páginas do ensaio. No restante das avaliações_ que só se lê porque, afinal de contas, foram escritas por Nabokov, e porque para um leitor contumaz de literatura russa soam de uma desfaçatez e suprema arrogância divertida_, a impressão que se pretende passar é a de que Dostoiévski era algo assim como um sujeito pouco inteligente, desprovido da mínima capacidade de refinamento intelectual, e que é tão mau escritor e tão irrisório que sua imortalidade só se explica através da constatação óbvia de que a humanidade é uma ralé reflexa do autor. Nabokov chega à graça melíflua da bravata colegial de afirmar que a tese do assassinato e da vontade de potência por detrás de Crime e castigo é mal costurada e absurda, o que ele teria que rever toda a literatura do século XX que nela se embebedou à farta se alguém lhe confrontasse para se explicar (a questão limitante de todos esses textos, contidos no volume Lições sobre literatura russa, é que ele os escreveu para ministrara em obscuras aulas universitárias para alunos americanos, antes da fama).

Sim, Nabokov é um escritor extraordinário. Cometeu 3 obras primorosas, a autobiografia, Lolita e os Contos Reunidos. Também escreveu livros rasteiros e sem expressividade alguma. Mas no todo, Nabokov é algo um nível acima do excepcional virtuose estilista. Em sua autobiografia, Fala, memória, por exemplo, há páginas e páginas sobre espécimes de borboleta e sobre a personalidade de seus tutores educacionais, o que deveriam ser de uma chatice sem igual mas são absolutamente fascinantes. Há cenas de uma futilidade sublime em que ele se deleita em rememorar nostalgicamente os anos em que sua família era da aristocracia dos Románov; descreve o perfil nobiliárquico da mãe, o porte marcial do pai, os vestidos e roupas e detalhes sobre etiqueta. Descreve com minúcias a escrivaninha de seu gabinete de trabalho. E tudo é igualmente interessante e parece alimentar o leitor, ainda que Nabokov não esteja fazendo outra coisa que se vangloriando. Tudo nele é vaidade e exibicionismo. É por demais evidente que ele sabe que é um dos maiores estetas do século, e na delícia calma e onanista de se consumar em seus próprios poderes, ele acaba oferecendo isso aos leitores. Se formos estudar a fundo seus principais romances e contos, eles não dizem muita coisa: mas brilham com uma luz indizível. Lolita é uma caso patológico, aliás clinicamente não muito diferente do caso do Raskólnikov, que ele acusa de implausível, e que contêm uma história que, escoado o caráter equivocadamente erótico que serviu para potencializar sua fama, hoje soa banal. Seus contos são, quase todos, o que Picasso fazia: uma infindável exposição de genialidade artística que se afirma mais na metalinguagem e na anatomia estrutural da composição do que no enredo_ em um dos mais representativos, o personagem está viajando em um trem e o autor explora em 3 páginas as opções de que ele seja assassinado ou de ser inserido em algumas das formas clássicas da literatura.

Já Dostoiévski é o contrário extremo de Nabokov. Neste mês li O adolescente da única forma que se pode ler Dostoiévski, concentradamente, em uma semana. E para recuperarmos a comparação não finalizada que inicia esse texto, Dostoiévski não pode ser alvo de uma crítica literária, pois o que ele fez vai além da literatura. Em O adolescente, romance soberbo que mostra de ângulos inusitados porque Dostoiévski é um gênio superior, já no início nos pega em uma das páginas mais magníficas em que o personagem do título confessa que é dominado por uma ideia; que por essa ideia sacrificou todos os outros referencias de sua vida, a ponto de voluntariamente passar fome. O narrador faz algo que Nabokov nem em delírios ousaria fazer: se admite um sujeito com pouca inteligência, que não sabe descrever as coisas e que purga a deficiência cognitiva natural de seu 22 anos. O que ele faz ali, tanto o autor quanto seu narrador, é confessar sem brios que não é literatura, numa sucessão de afirmações de que é incapaz_ ou são incapazes_, de dizerem minimamente o que pretendem dizer. Mas é justamente assim, nessas insuficiências e nessas declarações de astuciosa ingenuidade, que Dostoiévski transforma seu livro em algo impagável, em algo extraterreno e para o qual as formas de estilo se mostram incapazes e empobrecidas para emoldurar. Se Dostoiévski parece não cumprir a tarefa insinuada de transformar seu narrador em um monstro moral equiparável a outros de sua extensa legião de casos espirituais, já que ele se abstém ao longo da obra em ser o mega capitalista desalmado que freme de vontade infernal no início, o romance não perde em qualidade ao ser desviado para o estudo de caso sobre o alvo cabal que é a juventude em uma sociedade politicamente fragmentada. E é aí que Nabokov se engana, assim como se enganou ao afirmar que eram medíocres escritores como Mann, Cervantes e Faulkner. Dostoiévski é uma bomba cerebral tão seriamente engajada em sua missão exploratória sobre deus, a humanidade, a política, as aberrações e deformações a que nos prestamos sob o cotidiano, etc, etc, que sua estética é muito mais profunda e pretensiosa que o mero luminar linguístico. Ele é muito mais visceral como escritor que não se estaca nas regiões mais baixas do profissionalismo: não escrevia apenas pela arte. Em seus textos maravilhosos no Diário de um escritor (lançado aqui em uma edição indispensável da editora Hedras, da qual se espera o cumprimento da promessa de editarem os outros 5 volumes da coleção), vemos nitidamente seu método de trabalho, ao tratar temas como a libertação dos servos na Rússia imperial e a severidade das penas capitais aos crimes contra a vida por todos os lados possíveis, suscitando nos mais distraídos a impressão de incorreção política.

Não há como comparar Nabokov com Dostoiévski. Pode-se passar bem sem Nabokov, ainda que se sinta falta de suas proezas da mais alta prestidigitação estética, mas Dostoiévski é indispensável. Nabokov, mesmo em seus momentos mais delirantes, é o mais rigoroso controle. Dostoiévski, o que soa um clichê, é uma fúria deliberada, uma profusão de energia e vigor. Nabokov, em seu ponto-morto idiótico, diz que Crime e castigo é literatura juvenil rasteira, cuja frase que lhe marcou como sintoma da mediocridade da obra foi: "A vela bruxuleava no quarto miserável, iluminando precariamente o assassino e a prostituta, que liam juntos o livro eterno". Ele nada fala sobre Dostoiévski escrever os melhores diálogos da literatura; de ter trazido para a literatura os mais amplos questionamentos filosóficos, ou o de ter criado algumas das entidades mais definidoras do homem do século XX. O que soa como imperfeição e pieguismo para Nabokov, na verdade é a sinceridade nua e plena de um escritor que, para parafrasear Nietzsche (um admirador de Dostoiévski, por sinal), sempre escreveu com sangue. Nabokov não fundou uma literatura; Dostoiévski sim.