segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sobre vacas pichadas e o hino nacional



Nunca fui um leitor diletante. Não via no fato de gostar de ler nem o mais leve sinal de que deveria propagar o gosto pelos livros nas outras pessoas. Eu sempre soube que a leitura deixa a inteligência turbinada e proporciona novos ângulos de visão, e a fazia em meu canto, recolhidamente. Pelo contrário do que algumas pessoas achavam, eu sentia era uma espécie de vergonha quando me viam com livros (e me veem toda hora com livros); quase comprei um leitor digital para que pudesse, assim, ler em filas de bancos e em praças públicas sem despertar a impressão de que eu era um alienígena ou um esnobe. Certa vez, no campus da universidade, eu estava deitado num banco no bosque, durante o horário de almoço, e fui flagrado lendo "Visível escuridão", do William Golding. Meu colega pegou o livro e o revirou nas mãos, caçando o segredo da funcionalidade daquilo, e me devolveu com um ar de pânico_ depois disso seu comportamento comigo mudou em definitivo; ele me evitava, falava comigo como se eu fosse um idiota ou uma criança. Meus ambientes na vida nunca foram literários ou intelectuais: esse colega, um japonês, era o primeiro da classe de veterinária, e refletia milimetricamente a impermeabilidade a toda coisa que não fosse a doutrina da produção e aquisição de dinheiro e status social. No curso de veterinária eu via o martírio inglório que era para um velho espanhol ter sido incumbido de dar aulas de filosofia e deontologia; era como ensinar sutilezas para feras cujos hormônios da discórdia, do tédio e do deboche estivessem no auge. Ele fingia que não via os ares gerais de que aquilo era papo de afrescalhados e levava a obrigação com astúcia, deixando que colassem deliberadamente nas provas e evitando o máximo de profundidades possíveis. Eu mantenho até hoje a convicção sem fundamento de que aquele professor era uma espécie de párea na universidade, cujo pagamento por algum obscuro crime administrativo impôs que ele enfrentasse aquele inferno. Pode parecer que gente como eu, afrescalhada e meditativa, tenha sofrido no curso, mas não. Desde muito cedo eu me decidi que não iria seguir a carreira acadêmica e nem o humanismo ortodoxo: a leitura para mim é indissociável ao prazer, e como eu sou um leitor inveterado que leva o vício aos extremos do sagrado, seria uma tortura ter que me ocupar de títulos de autores que não me diziam nada, mas que aos quais teria que entregar a vida para ter êxito profissional. Sendo assim, eu me mantinha bem em meu núcleo de observação segregado. Quando aguentava, eu ria com eles e os acompanhava em festas, quando não, apenas observava. Uma vez picharam com mata-bicheiras uma vaca doente, escreveram palavrões, apelidos, no corpo dela. O professor, um sujeito caricaturalmente doutoral que ensinava cirurgia em grandes animais, que pegava alunas e venerava como a um bezerro de ouro os alunos que chegavam em grandes caminhonetas, ria com aquilo, em silêncio. Era o fruto do deboche com a deontologia. Eu ficava pensando onde esses colegas estariam dali alguns anos; se seus sonhos fanatizados acalentados em uma instável segurança fervida no banho-maria do desespero seriam concretizados. Uma vez vimos o professor de equinocultura chegar à faculdade em um fusca, e um dos que estavam do meu lado se arrepiou em uma comoção mística; seus olhos se arregalaram de tal maneira como se um ponto dimensional tivesse se aberto diante deles, e ele proferiu em tom de reza devota: eu não estou estudando para isso. Muitos anos depois, quando precisei ir ao prédio da faculdade pegar um xerox de um histórico colegial para que pudesse me matricular no curso de história, encontrei um dos machos alfa da turma, parado com sua camisa xadrez e seus jeans da cultura sertaneja diante a porta de entrada. Ele me deu um cutucão e me estendeu a mão, mas eu demorei reconhecê-lo. Estava com uma calvície esplêndida que se ajuntava à transformação física total em identificá-lo com o fenótipo de um grande fazendeiro: sua materialidade transbordava pelos botões da camisa, sua pele tinha a lisura juvenil inchada do uísque; mas ele estava bem mais doce do que o portento sexual que subira em um dos bancos em certa tarde e declamara para uma garota uma poesia improvisada da qual me lembrava por ele tê-la comparado à "sétima sinfonia". Eu apertei-lhe a mão embasbacado, pensava que a natureza não deveria ter feito isso, que era um insulto tal deformação em um cara que era muito bonito, uma espécie de Rick Martin viril e Dennis Quaid infalível, sem pompas e brutalmente elegante. Seus olhos mostravam a rendição, o quanto se tornara bovinamente maduro. Não estava em uma caminhonete, mas em um carro popular. Era vendedor de produtos agropecuários e rodava o estado todo. Ficamos conversando um tempo; quando lhe disse que meu propósito ali era pegar documentos para cursar história, ele concordou com a cabeça e me disse sinceramente que era uma excelente coisa. Voltei a ver alguns colegas pessoalmente, e pelo Facebook. Nada aconteceu com eles que sugerisse o extraordinário. O japonês se casou com uma colega nossa de sala, e posta fotos com cãezinhos em algum lugar do sul, onde trabalham em uma empresa de nutrição animal.

Tergiverso. Pouco encontro leitores na vida real. Uma vez vi uma moça lendo Doze contos peregrinos no ônibus. Fiquei olhando-lhe os cabelos. Já vi um cara cruzar por mim com um Beckett na mão; voltei para vê-lo pelas costas. Uma vez eu fui surpreendido: desci do ônibus e fui seguido por uma moça sorumbática, loura e linda, que me abordou dizendo que sempre me observava porque eu era a cópia física de um ídolo dela. Perguntei quem? e ela me respondeu Robert Smith, do Cure. Eu ri e disse que lamentava por não ser o Dostoiévski, num ato de esnobismo ridículo e totalmente involuntário, do qual meu subconsciente em alerta decretou que eu havia destruído por completo qualquer possibilidade com ela. Na primeira conversa tu lhe tasca um Dostoiévski. ó ser deplorável. Daí, para minha extrema surpresa, ela começa e discorrer que eu teria que ter bem menos cabelos, uma barba rala, e um olhar destruído pela epilepsia para atingir meu objetivo. Foi um dia de sonho, frio, insípido e atonal, dos que são meus ambientes espirituais perfeitos, e eu estava andando com uma moça linda de olhos azuis que, pelo que tudo indicava, estava me cantando. Se ela lesse Dostoiévski, tudo estava perdido, eu não iria suportar. Eu nunca me dei bem com as mulheres, sempre me policiei pela tendência à ignobilidade e à síndrome do capacho. Perguntei, fremente, se ela lia Dostoiévski, e ela me respondeu sobre qual livro dele eu gostaria de falar. Eu deveria ter juntado as coisas: Robert Smith, Desintegration, existencialismo... Dostoiévski. Falamos durante o percurso sobre Crime e castigo, eu sentindo que ela maneirava a coisa para não me humilhar. Ela fazia música, piano. Sobrenaturalmente, morava a uma quadra de mim, mas eu nunca tinha visto ela. Cheguei em casa destruído, ciente que estava em um grau instantâneo de paixão irrecuperável. Ouvi o Desintegration, que na época era um dos meus álbuns preferidos, comprado o vinil nas Americanas, e fique horas no espelho notando que, porra, eu era mesmo a cara do Robert Smith e nunca tinha me dado conta disso. Pintei meus olhos com lápis preto, espetei os fartos e longos e desgrenhados cabelos que tinha na época e, porra, me parecia pra caralho. Ganhei a menina. Li avidamente o que eu tinha do Dostoiévski e no outro dia, assim como pelos outros dias, ficava a procurando no ônibus. Estava desconsolado e já desmotivado, quando, indo para o ponto, ela se aproxima pelas minhas costas e me dá um tapinha com um oi. Eu abro o maior sorriso infantil do mundo, destruindo as horas de treino em ser smithianamente taciturno, e lhe gaguejo uma série de frases sobre onde ela andava, que eu a tinha procurado, etc_ enfim, nada que Robert Smith diria. Falamos até quase chegarmos ao ponto, e ela abre uma pasta e me entrega uma partitura, dizendo que quando a tocava no piano lembrava sempre de mim. Pegamos ônibus diferentes, porque eu tinha que ir a uma aula na praça, e quando me sento vejo que a partitura é do hino brasileiro. De imediato me cai uma certeza terrível, que me revela o quanto nesse mundo diante a felicidade se ergue uma sequência atroz de barreiras: ela é louca. Analiso a evasão do seu olhar, sua incapacidade de sair da introspecção inteligente; a maneira como fala e não me ouve; um pulsante desespero submergido pela química que não a deixa ser natural. A encontro nos outros dias, e vejo claramente a confirmação de minhas suspeitas. Uma vez passo pela casa dela e uma moça muito parecida com ela mas cujas feições são dotadas de linhas bem menos sublimes, mais comezinhas e pragmáticas, me acompanha e me conta que sua irmã sofre de distúrbios mentais sérios, que ela está em tratamento, que ela realmente cursa música e é extremamente talentosa. Fala essas coisas com uma naturalidade de alguém acostumada com a realidade burlesca; também nisso deve ser um rascunho inverso da irmã, sem nenhum talento para a música e a leitura, alguém cujas contas de luz e a formação profissional suplanta qualquer perda de tempo com Dostoiévski. E ela não fala com a preocupação de que eu possa fazer algum mal à irmã, que eu seja sequioso e aproveitador, ou me alertando para que com pessoas como a irmã eu não deva me envolver emocionalmente. Vou com ela_ seu nome, a da moça linda e música que pensava em mim em momentos em que deveria se plantar em pé com a mão patrioticamente no peito, era, é, não sei, Inamar_, uma vez a uma reunião em que ela pleiteava uma bolsa para completar os estudos na Rússia. Depois desse dia, nunca mais a vi. Na verdade, eu evitava vê-la; me sentia muito sozinho ao lado dela; me sentia tão depressivo quanto ela deveria se sentir, quando fechava a tampa do piano à noite e era conduzida para o momento das pílulas pela mão prestimosa, severa e acolhedoramente terrena da irmã, e depois era colocada nocauteada na cama. Imaginava o quanto sua beleza deveria ficar destruída nesses momentos, o quanto a pele rósea deveria ter algo de paquiderme, de bicho atocaiado pelo medo; os murmúrios sem charme, a posição assináptica do corpo.

Na verdade não sei por que escrevi esse texto hoje. Perdi o sono às 3 da manhã. Tem temporadas que sofro de desespero noturno e perco o sono. De noite tudo me parece sem esperanças e sem propósitos, e vejo até as pessoas que não gosto com profunda piedade. Semana passada acordei de um sonho recorrente, o de que sou só. Suportei a solidão por muitos e muitos anos, e acho que perdi o jeito completo da coisa, não suportaria mais ser só. Acordo disposto a chorar como um garotinho desamparado desses sonhos, e a tristeza que sinto é horrível. Mas, o propósito desse texto, se é que ele tem algum, foi motivado pela alegria de ver leitores reais pelo universo cibernético. Hoje uma amiga me disse que ficou totalmente tocada pelo Origem, do Thomas Bernhard, livro que eu lhe indiquei. Ela chorou, riu, e se emocionou profundamente com esse livro único. Assim vamos, fragilidade; a arte está aí para mostrar o quanto somos frágeis e inadequados para a solidão. O quanto somos um coletivo, ainda que só nos encontremos com a identificação em efêmeros momentos aleatórios, dispersos pelo tempo e pelo espaço, e o quanto estamos de alguma forma seguros mesmo nessa sucessão deplorável de esperanças infundadas e desconexão espiritual. Me lembro agora do velho Nietzsche, quando disse que nossas naus, após tempestades e desencontros e infernos múltiplos, estão destinadas a se encontrarem, sempre e inexoravelmente estão destinadas e se encontrarem, em algum lugar em um futuro cósmico. Se até o mais ferrenho niilista apostava nisso, quem sou eu para discordar. 

12 comentários:

  1. Tava com saudade desse tipo de texto.
    Ao contrário de Charlles, sinto um prazer ostensivo em ler em público. Assim como tem gente se exibe em seus camaros e hiluxes, eu tiro onda na praça com meus Cosacs e livros em língua estrangeira, hehehe.

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    1. Na verdade a inibição ou a vaidade contam pouco, pois eu não saio sem um livro. Me verem com um livro é algo inevitável. Aqui não surta qualquer efeito ostensivo me verem com um livro da Cosac, a não ser na moça dos Correios que, toda semana quando pego os livros em minha caixa postal, diz alguma brincadeirinha sobre eu dar-lhe o livro de presente ou que ela também gostaria de poder ter tantos livros. Mas, evidente, há o lado positivo nessa discriminação: muitas vezes se evita falar besteira para um leitor ou incomodar quem lê. Há um certo temor e respeito.

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    2. Não por ser da Cosac. Mesmo um leigo, diante de um, sabe que aquele é um livro especial, luxuoso, "diferenciado".

      Uma vez um amigo me viu lendo numa loja de roupas, cada um acompanhando uma pessoa. "Até aqui?" "Aqui é o melhor lugar pra ler". Ele ainda teria horas de tédio pela frente.

      Ahh, me lembrei de ler A Busca pela Imortalidade numa lanchonete e uma mulher vir interessadíssima, pensando ser um guia espírita.

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  2. Esse blog merece uma edição de capa dura. Belíssimo texto como sempre!

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  3. Deslumbrei com esse texto. Fiquei a pensar naquela moça dos olhos azuis, imaginando quantos leitores solitários não se assemelham a ela. Quantos depressivos, insones, cujo brilho da existência se ofusca pelo drama da solidão. A diferença é que os escassos leitores encontram no livros suas pílulas diárias de encontro o humano, pelo menos nas personagens que vivem nas páginas. Enfim, estou aqui pensando se essa tal moça loira realmente existiu ou se foi uma alucinação sua, rsrs.

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    1. Obrigado pela apreciação, Vivian. Eu estou longe de bater bem das bolas_ como, aliás, se vê_, mas essa moça e as circunstâncias desse texto são reais. Ela não se chamava Inamar, apenas_ não consigo me lembrar de seu nome, o que é uma lástima. Mas eu tenho uma fila de histórias reais obtidas das minhas experiências sobre pessoas exóticas, anti-sociais e depressivas. Anos depois, quando eu já estava findando o período da universidade e indo embora da casa da mãe, uma outra moça me bateu na porta, porque ouviu da janela do andar de cima o Jethro Tull que eu rolava no stereo. Era uma nordestina dessa vez, alta, quase da minha altura, magra e de rastafári. Seu divertimento maior era abrir com um grampo a porta da cobertura de serviços do prédio e ficar clandestinamente sentada em um lugar empoeirado e perigoso do qual se via o mundo lá embaixo. Fui com ela a um concerto e depois, nunca mais a vi. Agora que me pus a pensar na hipótese de que tudo isso possa realmente ser alucinação minha, porque minhas trivialidades são muito implausíveis.

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    2. Quando você reunir em livro os melhores textos deste blog, sugiro batizá-lo "Trivialidades implausíveis". Título genial para um livro de crônicas.

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