quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nabokov e Dostoiévski



Em um vídeo sobre o álbum Bitches Brew, um músico de jazz depõe que achava estranho os críticos de jazz mais radicais, na época de seu lançamento, terem desprezado e condenado esse trabalho, pois, segundo esse músico, essa música já não era mais jazz, era algo novo, sob o qual não cabia mais o direito de ser criticado por um nicho específico. Essa é uma das minhas constatações corriqueiras quando li o leviano e excessivamente ácido texto que Nabokov fez sobre alguns dos principais romances de Dostoiévski. Como é de se imaginar, Nabokov destrói por completo qualquer possibilidade de que algum dia uma pessoa como Dostoiévski tenha tido talento literário. Tudo, aos olhos aristocráticos do autor de Ada ou ardor, perpetrado pelo autor de Os demônios, é grosseiro, infame, mal escrito e tosco. Das dezenas de páginas dedicadas em decantar Dostoiévski, as únicas que se ocupam com o que se pode chamar para os padrões nabokovianos de elogios são atribuídas a uma cena específica de Memórias do subsolo, nas quais o russo expatriado nos EUA reconhece justamente o que pouco é apontado: que Dostoiévski era uma grande comediante. Para firmar que realmente gostara apenas dessa cena, Nabokov a reproduz em toda sua extensão, o que ocupa 3 páginas do ensaio. No restante das avaliações_ que só se lê porque, afinal de contas, foram escritas por Nabokov, e porque para um leitor contumaz de literatura russa soam de uma desfaçatez e suprema arrogância divertida_, a impressão que se pretende passar é a de que Dostoiévski era algo assim como um sujeito pouco inteligente, desprovido da mínima capacidade de refinamento intelectual, e que é tão mau escritor e tão irrisório que sua imortalidade só se explica através da constatação óbvia de que a humanidade é uma ralé reflexa do autor. Nabokov chega à graça melíflua da bravata colegial de afirmar que a tese do assassinato e da vontade de potência por detrás de Crime e castigo é mal costurada e absurda, o que ele teria que rever toda a literatura do século XX que nela se embebedou à farta se alguém lhe confrontasse para se explicar (a questão limitante de todos esses textos, contidos no volume Lições sobre literatura russa, é que ele os escreveu para ministrara em obscuras aulas universitárias para alunos americanos, antes da fama).

Sim, Nabokov é um escritor extraordinário. Cometeu 3 obras primorosas, a autobiografia, Lolita e os Contos Reunidos. Também escreveu livros rasteiros e sem expressividade alguma. Mas no todo, Nabokov é algo um nível acima do excepcional virtuose estilista. Em sua autobiografia, Fala, memória, por exemplo, há páginas e páginas sobre espécimes de borboleta e sobre a personalidade de seus tutores educacionais, o que deveriam ser de uma chatice sem igual mas são absolutamente fascinantes. Há cenas de uma futilidade sublime em que ele se deleita em rememorar nostalgicamente os anos em que sua família era da aristocracia dos Románov; descreve o perfil nobiliárquico da mãe, o porte marcial do pai, os vestidos e roupas e detalhes sobre etiqueta. Descreve com minúcias a escrivaninha de seu gabinete de trabalho. E tudo é igualmente interessante e parece alimentar o leitor, ainda que Nabokov não esteja fazendo outra coisa que se vangloriando. Tudo nele é vaidade e exibicionismo. É por demais evidente que ele sabe que é um dos maiores estetas do século, e na delícia calma e onanista de se consumar em seus próprios poderes, ele acaba oferecendo isso aos leitores. Se formos estudar a fundo seus principais romances e contos, eles não dizem muita coisa: mas brilham com uma luz indizível. Lolita é uma caso patológico, aliás clinicamente não muito diferente do caso do Raskólnikov, que ele acusa de implausível, e que contêm uma história que, escoado o caráter equivocadamente erótico que serviu para potencializar sua fama, hoje soa banal. Seus contos são, quase todos, o que Picasso fazia: uma infindável exposição de genialidade artística que se afirma mais na metalinguagem e na anatomia estrutural da composição do que no enredo_ em um dos mais representativos, o personagem está viajando em um trem e o autor explora em 3 páginas as opções de que ele seja assassinado ou de ser inserido em algumas das formas clássicas da literatura.

Já Dostoiévski é o contrário extremo de Nabokov. Neste mês li O adolescente da única forma que se pode ler Dostoiévski, concentradamente, em uma semana. E para recuperarmos a comparação não finalizada que inicia esse texto, Dostoiévski não pode ser alvo de uma crítica literária, pois o que ele fez vai além da literatura. Em O adolescente, romance soberbo que mostra de ângulos inusitados porque Dostoiévski é um gênio superior, já no início nos pega em uma das páginas mais magníficas em que o personagem do título confessa que é dominado por uma ideia; que por essa ideia sacrificou todos os outros referencias de sua vida, a ponto de voluntariamente passar fome. O narrador faz algo que Nabokov nem em delírios ousaria fazer: se admite um sujeito com pouca inteligência, que não sabe descrever as coisas e que purga a deficiência cognitiva natural de seu 22 anos. O que ele faz ali, tanto o autor quanto seu narrador, é confessar sem brios que não é literatura, numa sucessão de afirmações de que é incapaz_ ou são incapazes_, de dizerem minimamente o que pretendem dizer. Mas é justamente assim, nessas insuficiências e nessas declarações de astuciosa ingenuidade, que Dostoiévski transforma seu livro em algo impagável, em algo extraterreno e para o qual as formas de estilo se mostram incapazes e empobrecidas para emoldurar. Se Dostoiévski parece não cumprir a tarefa insinuada de transformar seu narrador em um monstro moral equiparável a outros de sua extensa legião de casos espirituais, já que ele se abstém ao longo da obra em ser o mega capitalista desalmado que freme de vontade infernal no início, o romance não perde em qualidade ao ser desviado para o estudo de caso sobre o alvo cabal que é a juventude em uma sociedade politicamente fragmentada. E é aí que Nabokov se engana, assim como se enganou ao afirmar que eram medíocres escritores como Mann, Cervantes e Faulkner. Dostoiévski é uma bomba cerebral tão seriamente engajada em sua missão exploratória sobre deus, a humanidade, a política, as aberrações e deformações a que nos prestamos sob o cotidiano, etc, etc, que sua estética é muito mais profunda e pretensiosa que o mero luminar linguístico. Ele é muito mais visceral como escritor que não se estaca nas regiões mais baixas do profissionalismo: não escrevia apenas pela arte. Em seus textos maravilhosos no Diário de um escritor (lançado aqui em uma edição indispensável da editora Hedras, da qual se espera o cumprimento da promessa de editarem os outros 5 volumes da coleção), vemos nitidamente seu método de trabalho, ao tratar temas como a libertação dos servos na Rússia imperial e a severidade das penas capitais aos crimes contra a vida por todos os lados possíveis, suscitando nos mais distraídos a impressão de incorreção política.

Não há como comparar Nabokov com Dostoiévski. Pode-se passar bem sem Nabokov, ainda que se sinta falta de suas proezas da mais alta prestidigitação estética, mas Dostoiévski é indispensável. Nabokov, mesmo em seus momentos mais delirantes, é o mais rigoroso controle. Dostoiévski, o que soa um clichê, é uma fúria deliberada, uma profusão de energia e vigor. Nabokov, em seu ponto-morto idiótico, diz que Crime e castigo é literatura juvenil rasteira, cuja frase que lhe marcou como sintoma da mediocridade da obra foi: "A vela bruxuleava no quarto miserável, iluminando precariamente o assassino e a prostituta, que liam juntos o livro eterno". Ele nada fala sobre Dostoiévski escrever os melhores diálogos da literatura; de ter trazido para a literatura os mais amplos questionamentos filosóficos, ou o de ter criado algumas das entidades mais definidoras do homem do século XX. O que soa como imperfeição e pieguismo para Nabokov, na verdade é a sinceridade nua e plena de um escritor que, para parafrasear Nietzsche (um admirador de Dostoiévski, por sinal), sempre escreveu com sangue. Nabokov não fundou uma literatura; Dostoiévski sim. 

9 comentários:

  1. Um extenso texto que li tendo em conta a admiração que tenho por Dostoiévski, curiosamente falta-me O Adolescente, pouco mais.
    Nunca li Nabokov, certo que vi duas adaptações cinematográficas de Lolita, e confesso que me senti chocado por aquela paixão pedófila doentia e por isso nunca mergulhei na obra escrita, mas o que mais me tem levado a recusar lê-lo foi precisamente um Preâmbulo que ele escreveu na minha versão de Ana Karenina, o homem admira de facto Tolstói, mas lá destila ódio a Dostoievski, gosto imenso do autor de Guerra e Paz, mas vibrar como vibrei com Os demónios, Crime e Castigo, O Idiota e os Irmãos Karamazov e depois ler Nabokov chamar-lhe hipócrita, mediano, foi repulsivo.
    Confesso que ainda alimento alguma curiosidade de um dia lê-lo e talvez os dois livros que citou sem ser Lolita pode ser a via para que eu lhe perdoo.
    Adorei este post.

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    1. Lolita tem essa imunidade das grandes obras em que o apelo criminoso de sua interpretação apressada, no caso a pedofilia, se esvai e o leitor quase que se esquece que se trata, superficialmente, disso. Como eu sempre digo, os grandes romances eróticos não falam sobre sexo, como é o caso de Lolita e O teatro de Sabbath, mas da degradação que vêm com a obsessão pelo sexo. Compensa lê-lo. Mas eu gosto muito mais da autobiografia e dos contos. Já Fogo Pálido, eu o achei bastante chato, assim como coisas como Ada e ardor e os romancinhos da mão-para-a-boca da juventude dele. Nabokov amava Tolstói; seus textos sobre ele são todos exortativos. Mas essas críticas que ele faz contra gente como Dostoiévski e Cervantes e Mann só se voltam contra ele. É evidente que ele perdeu muitos leitores com isso.
      Obrigado, Carlos.

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  2. Fala Charlles, aqui é o Heitor. Sou um profundo admirador de Nabokov. Li boa parte de sua obra e, ao contrário dos que o exortam deliberadamente, sua estética, ainda que indiscutivelmente genial, guarda uma parcela repleta de defeitos, fetiches corrosivos de escrita, submissão a própria vaidade. Lolita é um livro sensacional. Seus contos são muito bons com exceção, na minha opinião, a sua primeira organização em 13 contos. Soam completamente imaturos. Nunca li Ada e me parece ser um livro tão genial quanto imbecil. Fogo Pálido é, para mim e talvez somente para mim, uma obra genial, ontologicamente genial. Peco por ter lido apenas "Memórias do Subsolo" (uma obra prima extremamente dolorosa) que fundou o romance existencialista. Meu amor por Nabokov vai pela mão contrária ao que fala a maioria (um sentimento meu, portanto não será muito correspondido): Nabokov é um dos escritores mais autobiográficos da história da literatura: O romance "Pnin" é a prova crua disso. Existe uma visão autocrítica massiva na escrita dele... Seu auto desprezo é do tamanho da sua vaidade. O que se pode inferir dos seus romances/contos como sendo algo que alcança aquela instância da obra de arte é o seu conflito vaidade/auto desprezo. Vejo Nabokov no triste e desprezado Pnin. Vejo Nabokov no obcecado Humbert Humbert. Vejo Nabokov no maluco Charles Kinbote quando interpreta de forma totalmente incorreta o poema de Fogo Pálido. Seus personagens são egocêntricos, vaidosos e autopunitivos. Nabokov nos conta seu próprio conflito de uma forma velada e genial. Fala de si, mas fala de uma forma tão carnal e escondida sob a camada estética da sua prosa. Concordo sobre a virulência desnecessária que ele destila sobre Dostoiévski, Marx, Freud, Mann e companhia. Abraço.

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    1. Heitor, tocastes precisamente no ponto: alguém com tanta negatividade como Nabokov, só poderia ter um auto-desprezo evidente. Mas te recomendo a ler urgentemente mais de Dostoiévski, conhecendo o leitor que você é.

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  3. Na boa: o Adolescente é uma bosta. Deve ter sido escrito para ser publicado em fascículos, está repleto de ganchos narrativos fáceis e irritantes, além da radicalização do procedimento de construir personagens extremamente contraditórios, ambíguos e inverossímeis de dar raiva, além de prometer grandes tragédias e dramas e entregar uma novelinha das seis. Dostoiévski não deveria ter escrito essa bosta.

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    1. Todo grande escritor tem seu romance Quasimodo. O do Dostoiévski é este. É cheio de imperfeições, remendos, implausibilidade. Começa com uma ideia soberba, que logo é deixado de mão para um propósito mais improvisado. Contudo, é um grande livro. Um ótimo livro. Muito engraçado; tem um ritmo frenético que, sim, foi uma inovação (percebi traços dele em Augie March e Os filhos da meia-noite); e seus diálogos se enquadram entre os melhores diálogos do autor. Dostoiévski está em seu auge_ lembrando que ele o escreveu entre dois de seus maiores livros: depois de Os demônios e antes dos Karamázov (algo assim como sua oitava sinfonia beethoviana, centrada entre a sétima e a nona, suas maiores sinfonias). Então, é uma desfaçatez falar que o livro é uma bosta. Se trata aqui do Dostoiévski em seu período mais sublime. Mesmo sendo cheio de falhas, é um baita romance (vale mesmo que apenas para ver como ele vai dialogando com seu talento e imaginação, uma vez que se desmotiva de seguir a primeira motivação_ a história de um mega-capitalista sem escrúpulos_, e passa a falar sobre a alienação perigosa da juventude.)

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    2. Ahn... tudo bem, mas o livro é uma bosta.

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  4. Naquele ensaio sobre Tolstoi e Shakespeare, Orwell chega à conclusão que só damos alguma ousadia ao artigo em que russo esculhamba o inglês porque foi escrito pelo gênio criador de Guerra e Paz e Anna Kariênina. Talvez seja o caso aqui com Nabokov - suas opiniões só nos importam porque escritas por um ficcionista soberbo.

    E me lembro de um documentário que vi sobre Susan Sontag, em que ela - ensaísta muito mais relevante que Nabokov-, ao fim da vida, se arrepende por não ter deixado o romance que seu talento e erudição anunciaram a vida inteira. O que importa, afinal, é narrativa e poesia.

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    1. Não se pode nem dizer que Nabokov seja ensaísta, ainda que o Lições de literatura russa (presente generoso enviado pelo meu amigo Marcos_ não o Nunes_, leitor do blog) seja excelente.

      Dá muito o que pensar esse seu insight sobre a Sontag!

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