Gonçalo M. Tavares é um tipo curioso e essencial de escritor: aquele que se faz escritor contra toda a lógica da mídia livresca, da necessidade de talento altamente distintivo, do anacronismo da devoção literária no mundo moderno, do corporativismo das empresas da cultura. Numa má sorte de total ostracismo, ele seria um Fernando Pessoa, seguido por uma postumidade fiél e incontornável, ou um desses loucos em efervescência cujo sentido é dar um basta na vida de funcionário público e minguar de fome em cima da página em branco. Sorte de Portugal que tenha tido ao menos dois desse espécime num prazo de menos de meio século, o Saramago e o Tavares (considerando que Lobo Antunes teria como suprir a sobrevivência com a medicina). Então não é o caso de ter achado Jerusalém fragmentário, ou Aprender a Rezar na Era da Técnica um romance em interstícios significativos onde se perde os meandros do conflito. Gonçalo M. Tavares prescinde da conivência de leitores. Existe apenas por si mesmo, por seu monasterismo vocabular de regras e objetivos próprios solidamente fundamentados. O fato de ter leitores e não guardar seus rascunhos num baú com a etiqueta "posteridade", ou não ser um mendigo com papéis amassados nos bolsos da calça em frangalhos, é absolutamente irrelevante.
(comentário meu publicado no sempre ótimo blog da professora Rachel Nunes:
