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terça-feira, 24 de maio de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
Relendo O fiasco
"A minha mão, livre sobre a superfície do papel, lisa como espelho, teria disparado loucamente sobre os patins da minha caneta esferográfica. Teria escrito, como se quisesse evitar alguma catástrofe_ obviamente a catástrofe de eu não escrever. Teria, portanto, escrito, porque Deus me livre se não escrevesse; teria escrito, para que a cada minuto pudesse amarfanhar o tempo debaixo de mim e me esquecesse do que sou: o produto final de determinações, o náufrago dos acasos, o dependente da eletrônica biológica, o surpreendido displicente do meu próprio caráter." (O fiasco, Imre Kertész, editora Planeta, na tradução do húngaro de Ildikó Sütö.)
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Fome, de Knut Hamsun
Creio que nunca fiz isso nestes cinco anos de blog, nunca recomendei que os frequentadores desse espaço comprassem determinado livro, por mais que eu demonstre meu amor por alguns autores e algumas obras. Desmoderadamente, agora: se eu fosse vocês, compraria imediatamente a nova edição de Fome, de Knut Hamsun. Não vou falar nada absolutamente sobre ele, apenas que é uma das experiências mais sublimes de leitura que já tive. A capa parece de livro espírita, mas a tradução é válida pelas mãos do Drummond. Vai passar batido pela imprensa cultural, por ser de uma editora desconhecida e por ser de um autor que nada tem a ver com as tendências modernas da escrita cool institucionalizada, e provavelmente ninguém mais vai falar dele. Para conter um pouquinho só dessa enorme injustiça, aqui vai literalmente meu conselho: deixem tudo que estão fazendo, e vão fixar esse livro dentro de um oásis de eternidade em suas vidas.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Semana santa
Programei ler A busca pela imortalidade, de John Gray, neste feriado de semana santa. Ensaiei uma degustação hoje, e acabei lendo mais da metade, tendo ao fundo uma magistral trilha sonora. O livro é excepcional. Uma leitura extremamente envolvente e prazerosa. O autor é de uma maturidade, lucidez e contenção que pouco se vê no campo de assuntos que trata o livro. Dispensa todos os irritantes lugares comuns dos livros sobre ateísmo e sobre a cósmica solidão da espécie; não há ironia, complacência ou pedantismo científico, nem tons bombásticos de drama niilista. Trata-se de uma análise sobre o psiquismo e as procuras por evidências da vida após a morte partindo da classe erudita intelectual da América e da Rússia, nos fins do século XIX até pouco antes de meados do século passado. Fala de gente como H. G. Wells e Máximo Górki, William James e George Elliot, entre vários outros. É inevitável o assombro compensador em descobrir nesta obra uma peça literária de primeira grandeza, o que me fez lembrar de O leilão do lote 49_ a inesquecível parte da cronologia histórica sobre o surgimento do sistema de correios. As histórias contadas por Gray são tão arrebatadoras que parecem romances, só que é a mais pura verdade. O chato é que amanhã pela manhã já terei acabado a leitura.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Três monstros
Não se pode condenar o tom apologético de Melville em Moby Dick. O evangelismo primitivo desse livro não é mero ornamento inevitável vindo das crenças pessoais do autor, mas sua própria base de sustentação. Dizer "evangelismo" em referência a uma obra composta na mais alta esfera esotérica é incorrer no risco de cair no esteriótipo de estupidez massificada que tal termo com toda razão possui nos dias de hoje. Moby Dick tem a mesma visceralidade sensual que os grandes pastores de almas tinham no tempo em que foi escrito; tem essa mesma ingenuidade poderosa que expressa uma lucidez ilimitada que Borges disse ser o mote dos fundadores de religiões, tais como Whitman e Emerson, Blake e Swedenborg se aproximam de serem fundadores de religiões. Há tanta exultação adâmica em Moby Dick que é impossível ao bom leitor que este ainda fique atolado com os pés na realidade cínica e ultra-material corrente; é impossível que ele não seja abduzido pelo supremo convencimento dos símbolos e da loucura do livro. D. H. Laurence, no ensaio que acompanha minha edição de MD, condena o Melville humano com seus pecadilhos de afetação e sua seriedade pedante que hora e outra submerge o artista pleno, e diz que quando essa parte humana desaparece e ressurge com toda força o artista magnífico ninguém é páreo para Melville. O artista magnífico já nos arrebata na primeira página, seguindo adiante nas tantas anedotas e retratos de homens que vivem em uma dimensão peripatética contrária a toda sociologia; o artista Melville se mostra de forma solitariamente precoce sua localização em um tempo muito à frente dos outros grandes escritores do período, em sua decisão chocante de tratar do tema fundamental utilizando um quase infantil enfoque em um monstro marinho. Pode-se mesmo ouvir as consciências críticas que menosprezaram MD durante quase meio século se justificando pela desfaçatez de Melville em tentar arrombar o tema fundamental não pelas portas usuais e mais prementes, não pelas revoluções ou guerras, ou pelos vícios urbanos, ou pelos assassinatos, pelos adultérios e a decadência de grandes famílias, mas, inusitadamente, através da figura colossal da baleia branca e de seu universo náutico específico. Melville antecipa os célebres escritores autistas ao colocar na boca de seu narrador o desejo de que fosse aceito no navio baleeiro apenas para ficar em seu canto pensando em nada, divagando sobre os significados filosóficos da vida, imolado da escala produtiva e tolerado com saudável indiferença. Melville viu tão mais peculiarmente longe que seus compatriotas das terras espirituais da escrita que foi o fundador de uma forma de dissipação preguiçosa que teria sua importância política impactante na imagem da nulidade humana do século XX na opção pela não-coaptação. Em sua época, ficou para trás do caos urgente e das incendiárias insurgências na literatura das transformações políticas que se viam em Stendhal e Dostoiévski, apenas para sair de sua hibernação anos depois para ser um tipo de criador moderno que sobrepôs-se a todos os outros com seu ineditismo em criar a baleia e, de forma mais revolucionária, esse personagem de profundidade inaudita que é o escriturário Bartleby. D. H. Laurence está enganado, pois quem criou uma figura como Bartleby jamais poderia falar do púlpito a não ser no idioma elevado de Emerson e Whitman.
Por isso Moby Dick tem um evangelismo transbordante de felicidade, a felicidade do louco de deus que abandona as convenções de uma sociedade em franca atrofia para confrontar o terror divino. Surpreendi-me por nunca ter lido esse termo antes, terror divino, que contudo parece tão óbvio. A baleia é a forma como esse terror divino, que por centenas de páginas vinha sendo abordado pela tangência, se corporifica na nudez da linguagem, e, para exorcizar o perigo do cinismo, daí a preparação toda de Melville em utilizar de um tom talmúdico grandiloquente. Sua grandiloquência não tem cinismo, mas tampouco tem a moral da visão evangélica de Tolstói. Laurence aceita a generosidade de que Moby Dick atinja todos os símbolos profundos de representação; aceita que a baleia seja Jesus, sem contudo abalizar com uma mera observação os riscos simplistas de apanhar a coisa somente por aí. Pois a presciência do criador de Bartleby nos dá também na imagem da baleia os símbolos inevitáveis do frenesi dos que pertenciam à grande nação americana quando ela arrebanhava em êxtase as características mais melífluas do império futuro, oferecendo a inspiração de perceber a queda. A baleia, vinda da mesma mente capaz de escrever sobre Bartleby (esse superior personagem que paira diretamente sobre Kafka, Musil, Joyce, Faulkner e Walser), traz a insinuação aráutica do monstro que está no final da estrada de todos os sonhos, da deformidade imperceptível mas frutificante que serve de sustento para todas as telas da liberdade. Talvez por isso o monstro seja durante todo o romance uma prefiguração, uma música indistinta escutada sempre ao longe, nunca palpável, nunca manifesta em suas linhas reais terrenas, nunca abarcável. Por isso o tom místico e sonhador, que vem por detrás de todas as tendências doutrinárias da voz de pastor de Ishmael, seja o personagem verdadeiro de Moby Dick. Por isso a tolice da leitura lânguida dos que acham que os diversos capítulos preparatórios sejam chatos e vagantes, infelizes surdos à retumbante poesia de Melville, à sua canção angustiada de tanta necessidade pura de enlevação. O monstro de Melville é o terror divino em estado puro, devastador em sua infinita indiferença que perdura por sobre todas as pequenas intenções humanas, mesmo as transvestidas com os contornos trágicos seculares da vingança, e sendo essa indiferença a raiz do motivo de todo o romance ser contaminado com essa alegria de um suicídio sagrado, de uma emancipação através de uma forma do Nada jamais passível de definição.
O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.
Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.
Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.
O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.
Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.
Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Um insulto a Leonardo Padura
Que a wikipédia é um propagador de mentiras e sérios erros de informação é o tipo de conhecimento que se tornou um clichê, e como todo clichê se beneficia do estado anestésico em que não se analisa sua verdade prática. Ontem, pesquisando sobre as possibilidades de adquirir os excertos não traduzidos no Brasil de O homem sem qualidades, em inglês e espanhol, me deparei com a página da wikipédia referente a esse romance do Musil. Por mais que não deveria ficar surpreso, confesso que vi pela primeira vez o que existe no fundo da tautologia aceita inercialmente mas não analisada sobre a estupidez desse site. Todas as informações sobre o livro estão erradas, fruto de pessoas que não o leram ou de uma terrível tradução. Cito apenas dois exemplos colossais:
- "A falta de qualquer profundidade e a flexibilidade como guia à vida (de Ulrich, o personagem principal) são suas principais características." Diz a wikipédia. Digo eu: pois se Ulrich é um dos mais profundos e inteligentes personagens da literatura do século XX! E sua "flexibilidade" é justo o oposto, já que sua convicção inabalável em não se enquadrar aos esquemas sociais, políticos e intelectuais do mundo, é um sério posicionamento diante a vida.
- "e a esposa neurótica de seu amigo Walter, Clarisse, cuja recusa em ter uma existência comum leva Walter à insanidade. " Diz a wikipédia. Digo eu: um dos aspectos mais difundidos desse romance é o progressivo enlouquecimento de Clarisse; um amigo me mostrou textos de uma socióloga brasileira_ que não recordo o nome_ que fala sobre Clarisse, e há um ensaio em Alfabetos em que Magris cita a loucura de Clarisse. Quem fica louco no livro é Clarisse, não Walter.
Me assombra quando vejo escritores como Michel Houellebecq agradecendo a wikipédia por ser uma das fontes de pesquisa de seu livro O mapa e o território (e não é ironia da parte dele), e quando vejo trabalhos acadêmicos citando a wikipédia em suas bibliografias. Nem falo dos diversos sites, em diversos graus de sofisticação cultural, que usam links em seus textos que remetem a páginas dessa grande enciclopédia virtual dos tolos, esse grande exercício de epicurismo da ralé.
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Não vi ninguém falando sobre isso, e tentei passar batido. Mas não dá, lá vai. Fiquei muito incomodado com a tolice que a Boitempo fez em sua edição de O homem que amava os cachorros. Não dá para não sentir a obtusa hipocrisia da Boitempo, sua gritante estupidez e brutal falta de respeito pelo enorme sofrimento do livro, durante os tantos dias que se leva para ler um livro de quase 600 páginas. Cada vez que apoiava o volume para retornar à leitura, o desassossego voltava. O livro físico é uma apologia a Trótski e a Lenin, em oposição grotesca ao que o grande livro de Leonardo Padura representa em mostrar quantas vidas, quantas histórias pessoais, foram extirpadas graças a Trótski e a Lenin. O livro que empacota a terrível história contada é uma franca traição a ela. Não sei os tramites que levaram à publicação de O homem que amava os cachorros pela Boitempo, já que a editora que publicou outros livros de Padura é a Companhia das Letras. Foi erro de visão da Companhia em dispensar de seu catálogo o melhor livro do autor e um best-seller mundial? Foi uma jogada inconscientemente inteligente da Boitempo ao ver que o tema do romance se encaixava em sua visão esquerdista anacrônica de fazer certa apologia aos heróis de 1917? Digo "inconscientemente inteligente" porque a estratégia de edição usada é, como já disse, uma contradição total ao conteúdo do livro. Padura fala do sofrimento do narrador do romance, purgando uma vida miserável em Cuba, passando por privações perenes de alimentos, medicamentos e a mínima dignidade humana. O primeiro capítulo começa com o enterro da mulher do narrador, morta de um câncer ósseo originário da doença da falta de nutrientes básicos na dieta de toda uma vida passada na Cuba de Fidel, a mesma doença reportada nos prisioneiros de Auschwitz (diz o narrador). Padura não adoça a pílula ao falar dos outros personagens do livro: Tróstki é apontado como um assassino, responsável pelo primeiro massacre, o ponto zero dos crimes soviéticos, ao dizimar um motim de mineiros em Kronstadt ordenando matar mais de mil homens, mulheres e crianças; e Ramón Mercader, o assassino de Trótski, é mostrado com um homem esvaziado pelo partido e transformado em um tolo útil, um homem que no final da vida tem uma amarga consciência de ter vivido em função de nada. Padura, obviamente, enxerga os poderes intelectuais de Trótski e o fascínio que exercia, mas põe o ponto final em qualquer especulação de empatia afora do meramente funcional com a parte final da narrativa, em que um segundo narrador olha o manuscrito e se pergunta qual o propósito de gastar tanto tempo e paciência com um franco e desapiedado assassino. Quem lê O homem que amava os cachorros tem que ter mais que um simples jogo de cintura para defender Cuba, para defender Trótski, para defender Lenin, para defender qualquer sistema de socialismo aplicado até hoje. Padura é a voz de um inimigo claro de tudo isso. Mas, frente a um conteúdo e um ódio tão comburente, o que faz a Boitempo? Panfleteia o volume com fotos de Tróstki jovem vestido com seu uniforme de comandante do Exército Vermelho, de Trótski ternamente com sua criação de coelhos (que no livro ele fala que são animais estúpidos), com Trótski em sua vida doméstica sentado junto à sua esposa; coloca na capa um Trótski simpático, com uma enxada nos ombros, à busca de seus cactos nas planícies do México. Chama um doutor de uma das faculdades brasileiras para, adivinhem o quê?, escrever um panegírico sobre Trótski como estudo introdutório. E, cúmulo dos cúmulos, inventa de colocar em uma folha final uma foto de Lenin abraçado a um gatinho, com os seguintes dizeres embaixo: "Publicado em dezembro de 2013, às vésperas dos 90 anos da morte do líder bolchevique V. I. Lenin (um homem que amava os gatos)." A edição da Boitempo é um desrespeito aos leitores inteligentes e um insulto a Leonardo Padura, que cada vez mais está certo em sua declaração de que gostaria, simplesmente, de ser o Paul Auster de Cuba.
domingo, 23 de novembro de 2014
Dias de chuva
A chuva é maravilhosa. Chove ininterruptamente aqui há 4 dias. Uma atmosfera que combina com a soturnidade confortável da casa e o prazer da leitura. Passei estes dias envolvido intimamente com Robert Musil; o vício era tanto que cheguei a cogitar em uma lista alternativa dos meus melhores livros e colocá-lo lá entre os cinco primeiros.
Entremeando esta leitura, li alguns contos desse volume magnífico da Antologia da literatura fantástica editado pela Cosac Naify, cujas assinaturas de Borges e Bioy Casares o torna menos imprescindível que mítico e cultuado. Esse livro tem uma inteligência fina por detrás, que o situa além da quase previsibilidade de seus títulos. Tem o Pata de macaco, um conto que eu amo durante muito tempo e que ainda não o tinha na minha biblioteca, e que me pareceu ainda mais desamparado agora do que quando o li na juventude_ mas com um toque vulgar que não tinha reparado antes, uma certa insuficiência que, em contrapartida, tornam ainda mais humanos esses leitores inveterados que foram Borges e Casares. Há uma gema preciosa de autoria de Casares, A lula opta por sua tinta, que é pura inteligência e humor finíssimo. Há um conto de Maupassant que não figura entre seus melhores, e nem talvez entre os segundos melhores, mas que corrobora com o intuito de que essa antologia se presta à correspondência idiossincrática da personalidade de seus organizadores, o que o torna mais genuíno do que se em seu lugar houvesse um Maupassant mais puro. Há uma série de excertos curtos, de três linhas, que são absolutamente deliciosos. E há, o que confirmei com renovado espanto há poucas horas, essa diatribe inclassificável que se adéqua a todas as expectativas da sublimidade literária, intitulada Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. Esse é o conto mais extraordinário, genialmente bem escrito e maravilhoso que já li. Chega a ser algo próximo à loucura, literalmente. Li esse conto várias e várias vezes, desde que ele provocou aquele assombro majestoso e profundo de quando o li pela primeira vez lá pelos meus 15 anos. A sua primeira página é de uma leveza e ardilosidade que só pode ser definida pelo adjetivo multi-simbólico de borgeano. Borges o escreveu, com absoluta certeza, em um estágio de alteridade de consciência que me faz correlacionar com uma definição de felicidade de Nietzsche: um conto escrito com a leveza de uma borboleta ou de bolhas de sabão. Vou transcrever agora o início da parte 2 desse breve conto, uma das páginas mais engraçadas e arrebatadoras da literatura; notem a traquinagem de como foi escrito, a sua alegria satânica e sua laconicidade paradoxal de onde partem infinitas insinuações deduções multifocais (Martin Amis foi de uma obviedade correta ao confessar seu deslumbramento pelos contos de Borges, nos quais cada página equivalia a romances inteiros). Lá vai:
Alguma lembrança limitada e minguante de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida sofreu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático e sua cansada barba retangular já fora ruiva. Acho que era viúvo, sem filhos. De tempos em tempos ia para a Inglaterra: visitar (presumo, por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. Meu pai tinha estreitado com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo. Costumavam fazer um intercâmbio de livros e revistas; costumavam bater-se no xadrez, taciturnamente... Lembro-o no corredor do hotel, com um livro de matemática na mão, olhando vez por outra as cores irrecuperáveis do céu. Uma tarde, conversamos sobre o sistema duodecimal de numeração (no qual doze se escreve dez). Acrescentou que esse trabalho lhe fora encomendado por um norueguês: no Rio Grande do Sul. Há oito anos que o conhecíamos e ele nunca mencionara sua estada nessa região... Falamos de vida pastoril, de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns velhos uruguaios ainda pronunciam gaúcho) e nada mais se disse_ Deus me perdoe_ sobre funções duodecimais. Em setembro de 1937 (nós não estávamos no hotel) Herbert Ashe faleceu devido ao rompimento de um aneurisma. Dias antes, ele recebera do Brasil um pacote selado e registrado. Era um livro in-oitavo maior. Ashe deixou-o no bar, onde_ meses depois_ eu o encontrei. Comecei a folheá-lo e senti uma vertigem assombrada e ligeira que não vou descrever, porque esta não é a história de minhas emoções e sim a de Uqbar e Tlön e Orbis Tertius. Numa noite do Islã chamada a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, não sentiria o que senti nessa tarde.
Eu quase chorei de rir ao reler e reler essa página hoje. Parece Monty Python. Que piedosa orfandade tinha esse sujeito Herbert Ashe, que criança solitária crescida era ele. Visitava um relógio de sol e uns carvalhos na Inglaterra. O pai de Borges estreitava um amizade com ele, verbo para a qual era excessivo. É delicioso isso. Isso é raro, não se vê muito nem entre a mais alta literatura. Uma dessas amizades inglesas que começam por excluir a confidência e que bem depressa omitem o diálogo_ que anedota sofisticada, e como Borges faz com que nos fiquemos completamente à vontade com sua genialidade, uma vez que reconhecemos a sutileza de seu amplo universo; e o reconhecemos com a morte da sisudez através do riso desbragado. Não me surpreende Vargas Llosa dizendo que um dos piores sofrimentos dos escritores latino-americanos era suplantar a vontade imperiosa de escrever como Borges. E nisso voltamos ao conto de Maupassant escolhido para a coletânea: lá pela página 291 encontramos as seguintes frases "o deserto cujo ar transparente e leve ignora, dia e noite, as obsessões", e "ao descer por uma rua inverossímil". A coletânea orgânica revela que sua consumação segue o roteiro pessoal de mostrar as influências que foram construindo os escritores Casares e, principalmente, Borges, pois essas frases maupassanteanas, repetindo o ensaio Kafka e seus precursores, são frases automaticamente assumidas como borgeanas. Talvez venha da impressão que teve Borges com esse conto parte do seu manejo artesão de adjetivos inusitados e inesperados, cujo inverossímil é bastante recorrente, e cuja quebra do período com seus usos muito particulares de apostos e vocativos é algo bem evidente para seus leitores.
Essa antologia, pois, é uma maravilha. Um belíssimo livro, que dificilmente algumas de suas outras edições pelo mundo superam essa edição primorosa da Cosac. O carinho da edição é tão atenta que, ao pegar meu volume das obras completas de Borges, editado pela Globo, para confirmar coisas sobre esse conto de Borges, minhas vistas doeram instantaneamente com a crueza da página branca da Globo. A impressão suave e a folha que absorve o excesso de luz ambiente da Cosac é só mais um mérito desse livro que parece que foi feito sob medida para mim_ o que cada leitor pensará o correspondente para si mesmo.
sábado, 15 de novembro de 2014
Lendo Musil
Meu leitor autônomo, esse ser que habita em mim e sobre o qual exerço bem pouco domínio, não consegue parar de ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Esse livro tem sido responsável pela fama de marido e pai excessivamente tolerante que a Dani diz que suas amigas passaram a me retribuir, pois é bem fácil e mesmo muito agradável ficar esperando a Dani e as crianças, seja o que for que elas façam e para onde elas vão, dentro do carro ou sentado em um banco de praça, ou escorado em alguma árvore, uma vez que esse romance esteja lá comigo para me entreter. Se a Dani vai para a cabeleireira, lá está o marido modelo dentro do carro, alvo dos olhares assombrados de todas as outras senhoras de família dentro do salão para as quais declaradamente seus maridos não tem nem 1% da disposição de espera; sem saberem, porque do ângulo de visão em que elas estão é impossível ver, que minha cabeça baixa não revela a atitude de um cochilo, mas a leitura de Musil. Semana passada, a Dani foi questionada por uma amiga, estando nós em um parque vigiando as crianças brincando, se eu estava estudando para prestar algum concurso público, já que eu passava pelo martírio de estar sentado ali distante, embrenhado na leitura de um livro, e para quem a Dani respondeu, com inevitável ar de jocosidade, que eu era assim mesmo, gostava de ler sem propósitos práticos imediatos nenhum. A mulher demorou, segundo relatou a Dani, a consertar o queixo de volta para o nível normal na linha do maxilar, já que essa sua peça anatômica teimava em permanecer decaída em estado de perplexidade.
Quando eu volto da academia de musculação, pela manhã, paro o carro na praça principal, e me sento em um dos bancos, com o Musil de três quilos na mão. A leitura desse livro é compulsiva, exige bem menos atenção do que eu previa (embora, claro, eu dê toda a atenção possível), e está sendo motivo de intenso deleite. Me dá uma baita vontade de voltar para a situação acadêmica de ter que escrever uma monografia, pois tenho o tema perfeito: as raízes de Rayuela em O homem sem qualidades. Assim como Faulkner está para Garcia Márquez, e o Sartre e Camus estão para o primeiro Vargas Llosa, Musil está para Cortázar. Isso é evidente e incontestável assim que se passa a ter intimidade com O homem sem qualidades. Dele Cortázar retirou as intensas cogitações filosóficas, enleivadas de iconoclastia e distorção das lógicas da ótica; retirou o espanto bem humorado de virar de ponta cabeça os conceitos arraigados pelos costumes, a sociologia e a história; retirou o excepcional domínio de enxergar a magia explosiva e oculta por detrás da mesmerização dos rituais cotidianos. O mesmo exílio voluntário de não-coaptação de Ulrich, o herói de Musil, se encontra nos heróis de Rayuela, e a Maga reflete os apelidos criados pelo herói de Musil para encobrir a mundanidade das grandes mulheres do livro, investindo-as de romantismo. E a voz de sofisticação que tanto me impressionou em Cortázar, vem toda de Musil, o que Cortázar destilou com o movimento surrealista e o non-sense latino-americano criado por ele. E é incrível ver a limitação dos estudiosos de Cortázar em nunca ter visto isso, pela culpa evidente de que Musil tem a má-fama de ser incompreensível ou germânico demais, ou simplesmente porque Musil é pouco conhecido em nosso continente. Mas Cortázar dá uma dica importante dessa influência, já que dedica um capítulo de seu grande romance em reproduzir um excerto de O homem sem qualidades.
Esse Musil tem 1273 páginas, na edição comemorativa dos 40 anos da Nova Fronteira. Estou para acabar a primeira parte do livro, que se encerra na página 704, e que é, propriamente, o romance lançado em 1930 e que teve enorme sucesso. As outras 500 páginas equivalem à continuação virtual inacabada sobre a qual Musil trabalhou até o final de sua vida, e que varia o número de páginas e a quantidade de capítulos aceitos ou não do espólio de rascunhos conforme as edições que o livro tem pelo mundo. No Brasil, dispomos dessa tradução, assinada pela Lya Luft (excelente tradutora) e Carlos Abbenseth, o que é um trabalho memorável. O que dá um pouco nos nervos é que essa edição tem mais erros de revisão do que seria desejável para uma obra dessa importância, mas..., relevemos. É um livro realmente magnífico, fundador (fácil ver também influências reconhecidas ou não em muitos outros escritores importantes), que exige um lápis sublinhador para acompanhar a leitura, e que provoca profundas e incontáveis perturbações. Musil tinha plena ciência do gigantismo que estava escrevendo, e sua extrema segurança o coloca entre os maiores escritores de todos os tempos. Como deveria de se esperar em se tratando de um livro pouco conhecido no país, esse livro custa muito caro; deixei de comprá-lo por várias vezes por causa disso, até que, há algumas semanas, o achei por 74 reais (frete grátis) na Amazon, o que equivale a praticamente metade do preço. Assim que terminar a primeira parte, retorno com uma análise sobre a obra, para os raros que se interessarem por algo desse tipo.
P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.
P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Os grandes temas
Não é que o romance esteja acabando, mas os romancistas é que definham. Discussão eficiente é aquela em que nosso opositor se revela com um desconcertante argumento que reverte a verdade para o lado dele. Assim, ao negar para Ernani Ssó que o que ele dizia sobre nenhum romance há 20 anos ter mais a capacidade de o entusiasmar, o que ele proclamou aos poucos se provava como um diagnóstico das minhas próprias leituras. Parei para pensar e tive que dar o braço a torcer: faz tempo que nenhuma obra de ficção me impacta. Respondi ao Ssó que de dois em dois meses eu me deixava arrebatar por um novo romance; e não que não seja verdade, mas em uma análise mais sucinta, os livros que eu leio não chegam a ser integrados ao montante de produções contemporâneas. Puxei pela memória, em um ato sistemático sincero, e dei por mim que o último romance atual que realmente me impressionou foi Os enamoramentos, publicado por volta de 2 anos atrás. Nesse quadro, entra, claro, as últimas produções de Philip Roth e Thomas Pynchon. Mas tudo o mais tem conseguido apelar apenas para minha esperança de encontrar uma nova luz frutificante nas letras, uma nova motivação e energia. Mas não é o que acontece: Franzen e Egan e Tartt, por exemplo, Gonçalo Tavares e, de modo geral, a nova ficção portuguesa, tem, trocando em miúdos, me enchido de tédio. O livro da Tartt me consumou três semanas para que eu conseguisse terminá-lo, e se eu o fiz, foi por um ato de obrigação. Para não me limitar à produção norte-americana, o citado Gonçalo Tavares nunca me pareceu realmente literatura; vejo, com todo respeito ao autor e a seus leitores, que os tantos elogios que se fazem a ele é uma transcodificação ibérica das frases puxa-saquistas que atulham as contra-capas dos romances estadunidenses, e considero o cúmulo da subserviência intelectual que Tavares aceite que o anunciem como "o Kafka português". Tavares me parece um mestre do exercício provinciano da literatura, que tem sua relevância graças ao tempo das vacas magras em que o espírito criativo passa.
Uma coisa só eu tomei de proveito da leitura de Vila-Matas: em seu romance O mal de Montano, não sei se um companheiro de escritório do corcunda narrador, ou outro personagem desse facilmente esquecível livro, diz que o último grande escritor foi Robert Musil. Isso me ficou reverberando na cabeça. Eu não conhecia Musil; eu nutria mesmo uma aversão à sub-grandiosidade de Musil, via sua estatura de grande escritor do século como uma propagação vinda do mercado negro das valorizações literárias. Respeito muito Elias Canetti, e na auto-biografia de Canetti, as tantas deliciosas páginas sobre a amizade do autor com Musil me encheram de dúvidas sobre Musil. Me parecia que Canetti confirmava meu preconceito de que o homem Musil era um reacionário intragável, e que sua obra-prima era para seletos leitores que ainda tinham no espírito a heráldica de decadentes orgulhos aristocráticos. Musil era um tratado enjoativo sobre maçonarias sociais emboscadas e mortas pela história, e só era apreciado por saudosistas anciães. Ou seja, o que eu jamais me interessaria por ler. Mas, a frase do Montano me fez comprar O homem sem qualidades. Três dias depois do calhamaço de 3 quilos me chegar, eu tive que reportar o fato ao Ssó, para completar o círculo psicológico de improváveis ideias cadenciadas: narrei o quanto Musil havia me pego de cheio, na armadilha de ler o livro no banheiro e não conseguir mais que a leitura atendesse apenas às instantaneidades distrativas da escatologias. O livro é ligeiro e muito engraçado, apesar de suas 1400 páginas, é facílimo de se ler, eu escrevi a Ssó. E Ssó me respondeu com algo que me surpreendeu, pois vi nisso que a corrente de causalidade de nossas conversas também agiam nele: ele disse que seria uma boa pedida, mas que ele havia reservado o verão para a leitura de Os demônios e Os irmãos Karamázov, esse último antes do primeiro. Eu que havia o martirizado sobre o quanto Dostoiévski era uma revitalização do deleite da leitura. E eis que ele estava a se programar para voltar ao Karamázov.
Pois bem, chego onde queria. Eu reli mês passado os Karamázov, enquanto lia concomitantemente Musil. Como é bom ler Dostoiévski! Foi um limpa em meu enfado de leitor, e uma bela nostalgia rediviva. Ler Franzen e Tartt era um sofrimento com certo deleite, que se acentuava mais a compensação da leitura por poder sair falando mal deles depois, por poder reforçar a consciência daquilo que Nietzsche dizia de que o excesso de conforto da sociedade de consumo atrofiaria os poderes do espírito no homem. Leio com alegria, na tradução fiel de Paulo Bezerra, a seguinte frase em os Karamázov: "tremendo toda trêmula" (p. 761). O tipo de frase que deixaria Ssó louco, se não fosse de Dostoiévski. O livro é recheado de defeitos assim do estilo de Dostoiévski (Bezerra e os demais tradutores do autor da editora 34 escreveram fartamente sobre o cuidado que tiveram de traduzir a linguagem de Dostoiévski com toda sua oralidade, vulgaridade e incorreção). A literatura franzeana ou tarttaniana moderna vai pelo outro caminho, do apuro estético, da excessiva eufonia ora e outra disfarçada de urbanidade lasciva, de arranjado rebolado de jovialidade iletrada. Escritores como Tartt e McEwan direto parecem que tentam suavizar o que se tornaria por demais erudito em sua escrita mascando um chiclete e comendo um x-burguer para o açúcar sofisticado da deleteriedade se incorpore em suas obras. McEwan, desde dez anos atrás, não produz nada que não seja um mascar de chicletes e um apanhar com as mãos aptas a aparecerem em propagandas de fast-food um x-burguer gordurento. Sábado, Solar, e não sei mais quantos romances que ele lançou de lá para cá estão tão incapacitados de dizerem alguma coisa genuína que a mídia cultural cumpre bem a sua inércia em apimentar o gosto dessas sensaborias com a grife do nome do autor. Se é McEwan, é bom. Em Liberdade, do Franzen, 500 páginas são gastas para costurar uma catarse do reencontro amoroso dos dois amantes que, durante todo o livro, se traem, se odeiam, se envelhecem, e talvez seja a única cena que realmente tem alguma fagulha de vida, com os dois, homem e mulher, debaixo da chuva, com fome, no frio, sentados em choro conjunto nas escadas do chalé abandonado no meio da floresta. Lembro que eu vi como Franzen escreveu essa página: com suor no rosto, quebrando a ponta do lápis e seguindo em frente em febre tirando o máximo que podia do cotoco de carbono; em êxtase. E o x da questão é que, Dostoiévski parece que sempre escreveu dessa maneira, sem concessões nem mesmo à noção européia muito em voga do beletrismo. Dostoiévski, que escreve com redundâncias excessivas, com desconexos aberradores (que tanto, é claro, devem soar maiores ainda em seu próprio idioma), rasgava seu espírito nas páginas. Não à toa que Nietzsche anunciava, apaixonado, em suas cartas, que o russo era o escritor que escrevia com o sangue.
Voltar a ler Dostoiévski para mim é voltar a me deixar possuir por um anacrônico sentimento de adstringência em respeito à humanidade. A mesma impressão que me possuiu ao assistir, ontem, um documentário pela rede Escola, sobre agro-floresta, em que um europeu que me pareceu ser a cara do Abraham Lincoln, que mora na Amazônia, pregava com uma sapiente simplicidade o contato com a natureza e a vida em respeito à natureza. Um homem de seus 50 anos, muito bonito em seu excesso de rugas, com um menininho de 3 anos, loiro, deitado em seu peito, enquanto ele fala com carregado sotaque sobre plantas e ventos, sobre o teor da terra a sobre a mata. Um leitor, um cara culto. E, em contrapartida geográfica, um caboclo de enorme inteligência, na caatinga, preenche a dicotomia do programa falando sobre sua luta para proteger o que resta de natureza na seca nordestina. Isso, essa relevância inexorável e imperiosa dos grandes temas, é que me enternece e me infla de fé com a leitura de Dostoiévski. Os escritores atuais, em suas deprimentes tentativas de realizarem o melhor, procuram os grandes temas, mas seus espíritos obnubilados não conseguem alcançar. Por isso essa nova escola de enxurrada de romancistas metalinguísticos: porque, de comum acordo, acharam falar sobre a morte do romance como a última tragédia de gabinete que simula com certo charme falar sobre os temas capitais humanos. Há um capítulo inteiro de os Karamázov, intitulado Os meninos, que por si mesmo já seria um amplo aprendizado para esses escritores voltarem a procurar o caminho certo para encontrarem o Enredo. Esse capítulo, absolutamente errático no livro, vem após o inquérito investigativo que uma comissão de procurador, promotor e comissário, faz sobre o parricídio supostamente praticado por Dmitri Karamázov. Estão o acusado e a comitiva e uma série de testemunhas, dentro de um hotel, em uma dessas províncias invisíveis anunciadas apenas por sua letra inicial, típicas nos livros do russo; há neve lá fora, a temperatura ambiente é de 20 graus negativos. Dmitri olha pela janela e vê a lama de uma estrada, e as miseráveis isbás do povoado. O capítulo do inquérito é arrastado, sufocante. Daí Dostoiévski, em sua mestria, colocar logo em seguida um capítulo carregado de graça, de diálogos do populacho, de certa leveza. E mesmo nesse capítulo_ o qual é fácil presumir que foi escrito com velocidade_ há os tantos grandes temas humanos, os quais Faulkner falou em seu discurso de recebimento do Nobel: há a proximidade da morte, o perdão, o ódio, o orgulho da fragilidade não reconhecida, a amizade.
Não é para menos pensar que o escritor atual deixou de ser um aventureiro do espírito, um filósofo social (com tudo de profundos significados que isso tem), para ser um burguês vaidoso à procura de palmas, ou o que hoje em dia se arranja para encobrir a incorreção estúpida de não se poder mais utilizar palavras desgastadas como burguês e capitalismo. Ver uma escritora como Tartt gastar todo seu nítido talento em cabrioladas ridículas para agradar o suposto adolescente de 16 anos que é o alvo pretendido de seu livro, é mais que um sinal de deterioramento das antigas vitórias intelectuais e espirituais humanas. A arte se boçaliza. Estes livros, que são odiados de ante-mão pela visão estarrecedora de suas tantas páginas, são meus best-sellers, meus passatempos preferidos, meus filmes de ação e a mais poderosa de todas as drogas. Musil está repleto de grandes temas, e de uma sublime estética inigualável. Cada um de seus arejados mini-capítulos é um ensinamento e uma descoberta sem igual. Ele tem a capacidade de amplidão através de uma enganosa pequena-coisa que só tem páreo em Borges. Musil e Dostoiévski, cada qual a seu modo, utilizam como comburente de suas obras os mesmos e triviais assuntos que Faulkner disse ser o que compõe toda a grande literatura: eles falam das únicas coisas que tem mérito para que a cada dia se tenha o interesse de se levantar da cama e seguir adiante: o amor, a honra, a humildade, a defesa dos oprimidos, a justiça, a comunhão entre os homens, a luta contra o ódio. Em um entendimento que poucos tem a liberdade aos conceitos eventuais para compreender, toda a grande literatura é socialista.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
O embaraço das crinas
Li o último texto de Vladimir Safatle no site da Carta Capital ontem, logo após ter feito meu vasculhamento habitual no Facebook para a cata sistemática de notícias trivialescas. No Facebook, vi um diálogo entre duas mulheres da minha cidade, uma delas anunciando a necessidade de contratar um empregado, a outra oferecendo o filho para a vaga oferecida. Tal diálogo era, como o costume, um prodígio do autismo do analfabetismo funcional que se vê em 99% das ocorrência nas redes sociais. Ainda assim, era espantosamente difícil de entender o que as duas mulheres escreviam. Chamei minha esposa para ler, eu já estando quase chorando de tanto rir, e ela também caiu na gargalhada, logo após passar a incompreensão natural diante o cubismo da coisa. As palavras usadas pelas ditas cujas chegavam a ser involuntariamente quase obras de arte de uma ainda não de toda explorada forma de expressão verbal. De certa maneira dava uma estranha inveja por elas serem tão articuladas e conseguirem se entender tão bem. Passou pela minha mente uma fagulhar dúvida se elas não estavam de brincadeira, mas é claro que elas jamais ouviram falar do Monty Python _ talvez uma inversão da cena do carcereiro corcunda e do carcereiro magricela em A vida de Brian, que, às portas fechadas, discutiam eruditamente filosofia e altos assuntos, mas em suas atividades de algozes eram exemplarmente bestiais e onomatopeicos. O Facebook já não me alegra mais. Antes era um vício; acessava-o de hora em hora, mas não tanto nas esferas mais elevadas de um Milton Ribeiro e de um Idelber Avelar (que para a cultura as redes sociais não me servem em nada: o que não substitui o livro só me cativa por sua inerente patetice). Mas depois vira como todo espetáculo circense demorado: os palhaços perdem a graça, os bancos de madeira passam a pressionar o glúteos, os leões já se revelam gatos apalermados pela magreza e maus tratos, os malabaristas deixam de fascinar pelo talento de enganar a gravidade e passam a intuir tratados sociológicos sobre o sub-emprego; até os cavalos brancos, sobre os quais quase é impossível se quebrar a beleza plena de seus eufemismos, revelam aqui e ali nas crinas a certeza de que foi usado um shampoo inapropriado, comprado a preços promocionais em queima de estoque de loja veterinária. No Facebook (que me faz pensar esse emprego recorrente de um F, assim maiúsculo, para uma empresa que, ao contrário das coca-cola e das volkswagen, ou das kolinos e das durex, enfrentam uma renitência em se tornar realmente um adjetivo popular: esse F em caixa alta me assinala como a premonição de uma meteórica derrocada nesses tempos em que marcas bilionárias se orkuteam_ vai esse epitáfio para você, orkut, ou Orkut, olvidado que nunca utilizei), também a exposição demorada me cansou. Atualmente pouco ligo o computador, para falar a verdade, e o Facebook (nunca Face, para mim) já esgotou todo fetiche que tinha para me oferecer. Algumas vezes a Dani ainda me mostra algumas pérolas amarelecidas pela previsão, como um veterinário formado na mesma faculdade federal que eu, e dono de um pet-shop local, que perpetrou um texto em resposta a uma acusação postada na rede social de uma cliente inconformada por um cheque depositado antes da data, que melhor seria para a gramática e para a manutenção da já tão combalida imagem intelectual dos veterinários que ele pagasse os juros do cheque especial da cliente em vez de se lançar naquela aventura linguística (só para dar um gostinho, ele se referia, enraivecido, várias vezes sobre sua loja como "IMPRESSA", assim mesmo em maiúsculas, querendo dizer... (pasmo!), empresa_ toma agora as consequências do descaso mercurial contra as aulas de filosofia e português do primeiro ano, hijo de puta! [nosso professor de filosofia era um espanhol de elegante e inabalável estoicismo diante a inconsideração]).
O diabo é que faleceu João Ubaldo Ribeiro hoje. Nunca li nenhuma das ficções de Ubaldo, mas li um volume de crônicas jornalísticas dele, acho que chamado Sempre aos domingos (não sei de onde tirei que se chamava Outubro ou nada, mas que pesquisei no Google e vi que tal título é da banda Bidê ou Balde_ misturei com Ubaldo?). Neste livro há uma crônica que fala de sua ansiedade quando lançou seu grande romance, Viva o povo brasileiro, e de como ele atormentava seus amigos todos os dias na esperança de que eles já tivessem concluído a leitura da obra. Um deles lhe respondeu: "Mas Ubaldo, o livro é um calhamaço de 700 páginas, vai levar um tempo". A crônica me fez rir muito e pensar que Ubaldo era um grande escritor, e que eu deveria ler seu grande livro. Mas nunca li. Talvez o estalo surja, não devido à morte, mas por esses interesses repentinos que já me veio em ocasiões inesperadas e que sempre me faz ler coisas não programadas, sequer suspeitadas. Procurei na Carta Capital, antes de escrever isso aqui, a mesma Carta da crítica de Safatle sobre o crime tradicional milimetricamente mantido contra a educação nacional, e até então não vi qualquer menção à morte do que pode se dizer seja nosso maior escritor da última metade do século passado_ talvez assim que eu concluir esse post e voltar lá, a machete já esteja em letras garrafais, como um conserto súbito pelo inexplicável esquecimento. Espantei-me por ver que a Veja digital dedica o mesmo cabeçalho que dedicou aos dias da Copa a Ubaldo; até me enterneci com isso. (Recordei do Jô Soares contando a uma emocionada filha da Elis Regina como, ao chegar nas lojas de discos de Nova York, que todas tem uma estante dedicada exclusivamente a Elis_ coisa que, ele afirma, nunca viu no Brasil_ ele arrumava os cds da antiga amiga, recolocava em ordem alfabética ou de lançamento, alisava as capas dos vinis.)
Será que para isso eu nunca obterei a cura: o espanto de que uma simples lesão de um jogador de futebol brasileiro mereça dias e dias de acompanhamento em destaque em todas as mídias, mas a morte de alguém como Ubaldo passe pelo esquecimento, mesmo que momentâneo?
terça-feira, 24 de junho de 2014
Não tem nada
Não se pode condenar o tom apologético de Melville em Moby Dick. O evangelismo primitivo desse livro não é mero ornamento inevitável vindo das crenças pessoais do autor, mas sua própria base de sustentação. Dizer "evangelismo" em referência a uma obra composta na mais alta esfera esotérica é incorrer no risco de cair no esteriótipo de estupidez massificada que tal termo com toda razão possui nos dias de hoje. Moby Dick tem a mesma visceralidade sensual que os grandes pastores de almas tinham no tempo em que foi escrito; tem essa mesma ingenuidade poderosa que expressa uma lucidez ilimitada que Borges disse ser o mote dos fundadores de religiões, tais como Whitman e Emerson, Blake e Swedenborg se aproximam de serem fundadores de religiões. Há tanta exultação adâmica em Moby Dick que é impossível ao bom leitor que este ainda fique atolado com os pés na realidade cínica e ultra-material corrente; é impossível que ele não seja abduzido pelo supremo convencimento dos símbolos e da loucura do livro. D. H. Laurence, no ensaio que acompanha minha edição de MD, condena o Melville humano com seus pecadilhos de afetação e sua seriedade pedante que hora e outra submerge o artista pleno, e diz que quando essa parte humana desaparece e ressurge com toda força o artista magnífico ninguém é páreo para Melville. O artista magnífico já nos arrebata na primeira página, seguindo adiante nas tantas anedotas e retratos de homens que vivem em uma dimensão peripatética contrária a toda sociologia; o artista Melville se mostra de forma solitariamente precoce sua localização em um tempo muito à frente dos outros grandes escritores do período, em sua decisão chocante de tratar do tema fundamental utilizando um quase infantil enfoque em um monstro marinho. Pode-se mesmo ouvir as consciências críticas que menosprezaram por completo MD durante quase meio século se justificando pela desfaçatez de Melville em tentar arrombar o tema fundamental não pelas portas usuais e mais prementes, não pelas revoluções ou guerras, ou pelos vícios urbanos, ou pelos assassinatos, pelos adultérios e a decadência de grandes famílias, mas, inusitada e autisticamente, através da figura colossal da baleia branca e de seu universo náutico específico. Melville antecipa os célebres escritores autistas ao colocar na boca de seu narrador o desejo de que fosse aceito no navio baleeiro apenas para ficar em seu canto pensando em nada, divagando sobre os significados filosóficos da vida, imolado da escala produtiva e tolerado com saudável indiferença. Melville viu tão mais peculiarmente longe que seus compatriotas das terras espirituais da escrita que foi o fundador de uma forma de dissipação preguiçosa que teria sua importância política impactante na imagem da nulidade humana do século XX na opção pela não-coaptação. Em sua época, ficou para trás do caos urgente e das incendiárias insurgências na literatura das transformações políticas que se viam em Stendhal e Dostoiévski, apenas para sair de sua hibernação anos depois para ser um tipo de criador moderno que sobrepôs-se a todos os outros com seu ineditismo em criar a baleia e, de forma mais revolucionária, esse personagem de profundidade inaudita que é o escriturário Bartleby. D. H. Laurence está enganado, pois quem criou uma figura como Bartleby jamais poderia falar do púlpito a não ser no idioma elevado de Emerson e Whitman.
Por isso Moby Dick tem um evangelismo transbordante de felicidade, a felicidade do louco de deus que abandona as convenções de uma sociedade em franca atrofia para confrontar o terror divino. Surpreendi-me por nunca ter lido esse termo antes, terror divino, que contudo parece tão óbvio. A baleia é a forma como esse terror divino, que por centenas de páginas vinha sendo abordado pela tangência, se corporifica na nudez da linguagem, e, para exorcizar o perigo do cinismo, daí a preparação toda de Melville em utilizar de um tom talmúdico grandiloquente. Sua grandiloquência não tem cinismo, mas tampouco tem a moral da visão evangélica de Tolstói. Laurence aceita a generosidade de que Moby Dick atinja todos os símbolos profundos de representação; aceita que a baleia seja Jesus, sem contudo abalizar com uma mera observação os riscos simplistas de apanhar a coisa somente por aí. Pois a presciência do criador de Bartleby nos dá também na imagem da baleia os símbolos inevitáveis do frenesi dos que pertenciam à grande nação americana quando ela arrebanhava em êxtase as características mais melífluas do império futuro, oferecendo a inspiração de perceber a queda. A baleia, vinda da mesma mente capaz de escrever sobre Bartleby (esse superior personagem que paira diretamente sobre Kafka, Musil, Joyce, Faulkner e Walser), traz a insinuação aráutica do monstro que está no final da estrada de todos os sonhos, da deformidade imperceptível mas frutificante que serve de sustento para todas as telas da liberdade. Talvez por isso o monstro seja durante todo o romance uma prefiguração, uma música indistinta escutada sempre ao longe, nunca palpável, nunca manifesta em suas linhas reais terrenas, nunca abarcável. Por isso o tom místico e sonhador, que vem por detrás de todas as tendências doutrinárias da voz de pastor de Ishmael, seja o personagem verdadeiro de Moby Dick. Por isso a tolice da leitura lânguida dos que acham que os diversos capítulos preparatórios sejam chatos e vagantes, infelizes surdos à retumbante poesia de Melville, à sua canção angustiada de tanta necessidade pura de enlevação. O monstro de Melville é o terror divino em estado puro, devastador em sua infinita indiferença que perdura por sobre todas as pequenas intenções humanas, mesmo as transvestidas com os contornos trágicos seculares da vingança, e sendo essa indiferença a raiz do motivo de todo o romance ser contaminado com essa alegria de um suicídio sagrado, de uma emancipação através de uma forma do Nada jamais passível de definição.
O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.
Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.
Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.
O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.
Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.
Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.
domingo, 1 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
A Lasanha Perfeita
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| Silvia Viana: inteligente e bela |
Estou meio que sem tempo para escrever no blog, como está claro. Quando a fagulha surgir, retorno na produção de textos para cá. Muito trabalho aqui em casa, essas coisas. Mas sinto uma imensa vontade de ter umas cinco horas livres pela frente para falar de duas escritoras. A primeira_ e mais impressionante_ é a maior escritora brasileira do momento, deixando todas as outras no chinelo: a Silvia Viana. Estou relendo, ainda mais impressionado que a primeira vez com a sua inteligência, sua profundidade e sua capacidade de síntese e de construir frases soberbas (que nada ficam a dever a uma Hannah Arendt), o seu livro Rituais de Sofrimento. Antes eu o havia lido emprestado de um amigo, mas como acontece quando pego bons livros emprestados, eu fiquei formigando de vontade de comprá-lo. Pois o encontrei na capital e o comprei, e estou já na metade. Digo que Silvia Viana é a maior escritora brasileira do momento pois para mim o mais importante não é o qualificativo de gênero literário, mas a estatura real da inteligência e do talento do(a) escritor(a). Silvia Viana é um deslumbre da primeira à última página; cada linha deste livro é interessantíssimo, instigante, revelador e elegante. Peguemos uma escritora de ficção, como a Carol Bensimon, com sua necessidade de virtuosismo, seus cacoetes vaidosos de imitar referências e leituras, e seus pronunciamentos públicos toldados por um inamovível e involuntário classicismo e arrogância; a Silvia dispensa essa gratuidade, pois é uma pensadora potente antes de uma mera esteticista à busca de estrelato, e notavelmente é carregada de coisas genuínas e importantes para dizer. Esse livro é, em um primeiro plano simplista, um longo ensaio sobre reality shows (especificamente o Big Brother), mas sob essa linha há um verdadeiro estudo sobre a dominação da imagem, sobre a alienação e sobre os arquétipos de poder. E Silvia Viana mostra a grande leitora de literatura que é nas incomparáveis partes desta obra em que usa Kafka como correlação com o tema, além de ter respondido, recentemente, a um convite da revista Veja para que ela compusesse uma entrevista nas páginas amarelas da publicação com a frase bartlebyana "preferiria não" (que provavelmente o funcionário que recebeu tal resposta estava inapto de saber a sofisticada ironia nela impressa). Por isso, ela é a maior escritora brasileira do momento_ num país com uma vida intelectual boçal como o nosso, a Silvia Viana é mesmo algo difícil de acreditar.
A segunda escritora me provoca bem mais apreensões. Trata-se de Zadie Smith. Numa dessas distrações de quem viveu a maior parte de sua vida fora dos benefícios de aquisição da internet, só há duas semana caiu-me a ficha de que era coisa imensamente simples comprar um romance esgotado que há anos eu desejava ler. Acessei a Estante Virtual e pedi Dentes Brancos por meros 25 reais, e o livro me chegou em quatro dias. Que coisa!_ o vestígio do inacreditável em mim cobrando fetichismo do desejo do objeto impossível de dez anos atrás, quando a longa espera determinava a explosão de felicidade da coisa surpreendentemente encontrada. Pois o exemplar retirado do embrulho e folheado causou mesmo neste veterinário que aqui escreve, acostumado a dejetos e cheiros com a mais absoluta naturalidade, um embrulho no estômago. O livro traz carimbo de ter pertencido a uma locadora de livros (o romantismo disso também contribuiu para a nostalgia do velho fetichismo), e, ainda que bem conservado, traz atormentadores marcas de polegar impressos pelo que me parece ser cera de ouvido em diversas páginas. O leitor marcava as páginas em que parava a leitura com uma impressão digital nítida em explícito amarelo biológico, tanto que se fosse atualmente possível identificar o endereço pelas digitais em algum site da net, eu faria o favor de enviar pelos correios um pacote de cotonetes para o sujeito. Mas... como esperar que na descrição das condições físicas do livro no site da EV viesse a desconcertante frase: "com marcas de cera de ouvido por todo o volume". Me envolvi de mais musculatura estomacal e me pus a ler logo o livro da Smith, fazendo muito esforço para conter minha imaginação pulsante que queria me brindar com especulações sobre os outros escatologismos que alguém assim poderia oferecer em horas de leituras em banheiro, etc (aqui me sinto influenciado por uma das frases simpáticas recorrentes da Silvia Viana: "um longo etc").
Mas vamos ao que interessa: Smith é boa escritora. Escreveu uma obra de fôlego e a publicou aos 24 anos. Há diversas evidências de sua pouca idade no romance, e o irritante virtuosismo em cenas sem propósito algum além de suas prestações de contas com Dickens e com o inventário de seus narradores fundamentais (uma sorte para o leitor Joyce não estar no rolo). Há partes impagáveis, e outras nem tanto. É uma obra desigual, às vezes longa demais. Mas valeu a leitura. O que define seu estilo está bem descrito na contra-capa: Zadie Smith é "despojada". Me surgiu a comparação inevitável em linha menor com Jennifer Egan, e maior com Margareth Atwood. Já que estou em uma conversa passional de bar, Egan é o exemplo de prosa sintética desmotivadora, enquanto Atwood continua sendo para mim a maior romancista (mulher) em inglês viva. Pois bem, o despojamento de Smith é um ensinamento, tanto quanto sua enorme fé no que escreve. O que vale atravessar longas cenas gratuitas desse seu romance é justamente o brilho que ela coloca nelas, como se fosse a escrita que salvará o mundo. Produzir um livro de 600 páginas contando histórias domésticas é um exorbitante exercício de fé na literatura. E isso apenas já tornaria Smith a seu modo indispensável_ é muito bom estar em mãos tão crentes, tão devotas. E aqui entra o despojamento: ela destrói a possibilidade de grandes frases, propositadamente: quando se depara com o momento cabível em sua música interna de compor algo lapidar, ela vai lá e populariza a coisa, transforma a frase beethoveana em um desleixado e feliz foxtrot. Alguém mestre em fazer isso é Salman Rushdie. E isso é sensacional, dá um força incrível para a permanência do que escreve. Esse é seu despojamento, despojamento de uma escritora ainda jovem por demais, mas já apta a abraçar sua mestria no trabalho. E aqui entra Egan: enquanto Egan faz do despojamento uma forçação de barra, sendo possível ver a dificuldade que lhe custou ser tão aerada, Smith passa a impressão de que escreveu no ônibus, ou em um restaurante enquanto espera a mãe _ isso é possível, não é só uma figuração: Bellow escreveu Augie March assim.
Desde semana passada, ao ler Smith, estou brigando contra essa comparação, mas foda-se o mau gosto. Lá vai: li há pouco uma matéria gastronômica sobre a Lasanha Perfeita. Um repórter a encontrou no centro de São Paulo, se não me engano. E a foto parece mesmo ser a Lasanha Perfeita. Ele a descreve: não tem queijo em excesso, como acham que tem que ter a maioria dos cozinheiros; é resumida no tamanho, seca, com um raminho de alguma plantinha em cima. É despretensiosa em sua simplicidade arrogantemente cobradora de distinção elitista. Pois Egan é a Lasanha Perfeita. Egan escreve roteiros de séries americanas em forma de romance. Eu detestei A visita cruel do tempo, ainda que ele seja bastante divertido: mas é falso e esquemático em tudo. É trabalhosamente leve. É exaustivamente composto para não cansar. É despojado no pior sentido. Vi uma blogueira metida a besta dizendo com imenso enfado que tudo na literatura atual a cansa, é tedioso, e que teve um momento de total adstringência quando leu A visita cruel do tempo em uma praia em Ibiza. Esse é o retrato da literatura pastel, ou literatura Lasanha Perfeita. A lasanha perfeita para mim é a lasanha que minha tia Tânia faz, e que é um sucesso na família toda: tem excesso de queijo, gordura que sai pelas pontas da colher quando colocamos uma porção no prato; tem o cheio vindo da cozinha que atiça a fome ainda mais; tem um cordel de doces reminiscências da infância; tem todos os erros e imperfeições que só o poderiam ser para os de fora que nunca gostaram de lasanha, mas de empáfia na mesa. Pois bem: não sei ainda se Smith vai me afigurar futuramente no mesmo escalão de grande romancista como Margareth Atwood, mas uma coisa é certa: ela não é a Lasanha Perfeita; talvez por isso tenha me deixado tão prazerosamente desconcertado.
domingo, 11 de maio de 2014
Em que acreditam os escritores ( II )
Philip Roth: é uma torre sólida e indevassável de certeza de que tudo que existe de vida termina por aqui. Roth é um escritor realista do final do século XX, o que diz muita coisa e marca uma enorme diferença do realismo de outras épocas da literatura. Roth é cosmopolita, político, historiógrafo tanto do imaginário do seu país quanto das especulações sobre uma história de massacre alternativo, e é o suprassumo do escritor idiossincraticamente americano. Analista incansável da maior parte das vertentes mentais da América pós-1945, estudou todo o prisma da vida americana, ao mesmo tempo reforçando e desconstruindo o que sobrou da energia metafisica da América redencionista. Em sua bibliografia vemos a fase em que dialoga ironicamente com o freudianismo, usando a saúde sexual contestatória de sua própria juventude como comburente verbal e esotérico_ ler Complexo de Portnoy é dividir com Roth sua terrenidade lúbrica, sua mortalidade adiada em prol aos hinos à saúde corporal e mental. O Roth da juventude é um atleta sexual prenhe de vida, fascinado pela fama, situado a uma distância insofismável da morte e da deterioração: é um escritor que encarna o poder feérico dos Estados Unidos em sua ampla atmosfera de ser porto a todas as revoluções intelectuais, culturais e científicas. Roth se dava tão bem consigo mesmo, reconhecia sem o mínimo pudor a importância de seu egocentrismo, que produziu parte de sua obra falando única e exclusivamente em uma auto-referência explícita. Em Zuckerman acorrentado vemos um exemplo de prosa excepcional em que, em maior e menor grau de ficcionalização, Roth é seu próprio personagem, e seu tema é todo o fisiologismo correspondente a ele: talvez seja o único escritor que tenha feito uma obra relevante em torno da descrição de sua mialgia de postura e de sua paranoia de perseguição. Outra fase bem característica de Roth é seu ataque a toda forma de religião, em O avesso da vida e Operação Shylock, o primeiro incorrendo mesmo em um didatismo de viagem por Israel e pela Londres católica. Mas seu romance mais próximo do que poderia ser chamado de metafísica por uma procura além de significados para a existência é Teatro de Sabbath. Neste livro monumental encontramos a forma que o ultra-cerebral Roth adota para investigar a finitude: através da degradação paulatina de um shakespeariano na sociedade de excessivas aparências americana. É a obra mais notável e mais altiva de Roth; conserva similitudes simbólicas profundas com Rei Lear. Impossível de ascender-se para qualquer intuição de transcendência, o alter-ego do ególatra Roth, Mickey Sabbath, pena com sofrimento enorme o ter que se confrontar com seu envelhecimento. Aqui vemos a linha contínua de reflexo na escrita do que se passava na biografia do autor: não mais jovem, não mais podendo contar com sua incrível energia sexual e sua vaidade intelectual, Roth se analisa de forma extremamente solitária no mendigo Sabbath, em sua esposa alcoólatra velha, em sua aluna gorda com quem mantem esperança de alguma nostalgia erótica dos velhos tempos, na fornicação triste com as peças de fetichismo esvaziado do armário da filha de seu amigo que o acolhe em casa. Aqui vemos o Roth russo, ou russificado, o Roth dostoievskiano que começa a se voltar, obrigatoriamente, para fora de seu americanismo, de sua profusão festiva do grande gênio americano. Não à toa a última frase do romance reafirma seu materialismo, mas um materialismo que venera a sacralidade da decomposição e da degeneração irrevogável de tudo que outrora foi belo. Daí vemos a fase de análise crua das patologias humanas em seus livros sobre doenças e morte, sendo os mais sintomáticos o tocante relato da morte de seu pai, Patrimônio, e seu último romance, Nêmesis. Nesses, Roth resume toda sua filosofia conquistada: ele se transformou em um estoico amargurado, que mal suporta a visão da velhice. Se tivesse um caráter menos romano, teria se metido um balaço na cabeça, como fez Hemingway quando viu a rua sem volta da velhice. Mas Roth é vaidoso demais, centrado demais para fazer isso_ um escritor paranoico pela escrita, que não gosta de música e nem de nenhuma outra forma de expressão artística. Nêmesis é sua última grande obra, uma obra-prima sobre contenção e análise cerebral destituída de sentimentalismos ou cogitações paralelas, uma aula surpreendente de Roth de como escrever sobre a alteridade retirando toda a presença pessoal do escritor da escrita_ isso vindo do mais pessoal dos escritores. Roth, a meu ver, é o escritor mais materialista das últimas décadas, quiçá do século passado.
Em que acreditam os escritores ( I )
Saul Bellow: foi um dos últimos escritores esotéricos norte-americanos. O que pega é que ele foi melhor e mais inteligente que todos os outros, daí não ser encorajador para ninguém analisar criticamente suas crenças espirituais. Ele acreditava em Deus e na prevalência do espírito além da carne, mas em um deus distante do homem, um deus que deveria ser alcançado em seu elevado padrão de comunicação através da melhora intelectual da espécie. Há uma parte memorável de Sr. Sammler em que ele imagina o homem daqui a bilhões de anos, e escreve: "será então que esse nosso irmão de espécie estaria apto a conversar com deus?". Em sua biografia romanceada de Allan Bloom, ele escreve que não acreditava que alguém como Bloom desaparecia para sempre após a morte. Bellow estava à frente dos modismos e das conjunções filosóficas de sua classe de intelectuais; o mais culto de todos os escritores (para se ombrear a ele, somente Borges, Cortázar e Anthony Burguess), ele simplesmente evitava falar a sério sobre deus, pois, na sua concepção, tratava-se do mais importante (ou talvez o único) assunto da literatura, mas que não era cabível tratar do tema de forma simplória. Uma de suas frases principais era que não acreditava em nada que a criação técnica do homem havia promovido, pois trezentos anos de ciência era um estágio de engatinhamento que não dava a ninguém o direito de supor que tudo já fora explicado. Em outra parte antológica, ele ouve um homem que fora ateu convicto durante toda a existência ter uma revelação em um metrô de Londres, e dizer: "Nada é absurdo o suficiente para existir; talvez, então, Deus exista!". Ele expressava todas essas ideias através de seus personagens.
Isaac Bashevis Singer: em uma entrevista, perguntado se ainda acreditava em Deus, Singer responde que sim, mas que, se tivesse oportunidade, faria um grande cartaz de indignação e esfregaria na cara de deus. Singer está para o judaísmo assim como Tolstói está para o cristianismo: ele foi um devoto assolado por dúvidas e por lapsos duradouros de niilismo, mas na maior parte de sua obra vemos a crença batalhada através de uma compreensão libertária sobre o flagelo humano. Vemos em sua ficção que a transcendência não é mero artifício literário, como o realismo fantástico dos escritores latino-americanos: o primitivismo conservado em que vive os últimos judeus tradicionais de seus contos remete à força da fé diante um mundo cuja aproximação arrasará essa fé de modo inexorável. Singer fez algo absolutamente inédito (e muito revolucionário em seu contexto) para um intelectual do século XX: se afundou cada vez mais em um universo avesso à modernidade em todos os sentidos, deu as costas deliberadamente para o século do esclarecimento niilista em que vivia. Mas não era, claro, um descerebrado anacrônico; em seus romances e contos nunca deixou de fazer um intercâmbio crítico com a futilidade da vida urbana americana (notavelmente em Sombras sobre o rio Hudson); em uma de suas novelas tardias, O penitente, ele mostra um narrador que foi empresário bem sucedido na megalópolis americana que abandona tudo para viver na tradição fechada do talmudismo aldeão em Jerusalém: e expõe todo o repúdio inicial diante uma sociedade minoritária religiosa também infestada pela ortodoxia vazia da busca por saciedade.
Albert Camus: não há como ler os diários de Camus sem intuir que, se Camus não tivesse morrido em um desastre de automóvel, provavelmente teria retirado a vida com as próprias mãos. Camus era um ateu que sentia uma enorme, colossal, orfandade de deus. Todos os seus livros tratam de deus, toda a sua vida era obcecada pela impossibilidade de viver sem a guarda de um deus. Ele trai uma nostalgia da simplicidade infantil em que toda a crença era possível em seus surpreendentes rasgos poéticos ao escrever sobre a natureza, mas era francês demais em seu colonialismo, era infestado pelo ultra-racionalismo de um exilado e de um apátrida que vivera as diásporas pós-coloniais do século para não ser outra coisa que um niilista. Mas não conseguia ser um niilista pleno: por detrás da doutrina filosófica de pensador moderno muito requerido, sua escrita traz uma série de contradições e pequenas mas relevantes auto-traições. Sua precocidade foi seu maior inimigo, e o fato de morrer ainda jovem sem que tivesse combatido o esteriótipo sofisticado de sua obra é um dos mais cruentos sarcasmos da literatura. O hipotético Camus velho, resguardado na segurança relativa de seu gabinete da manutenção do existencialismo como escola jovial para arrebatar adolescentes, teria se virado para uma cogitação menos defensiva, com menor cosmética dureza, rumo à possibilidade da transcendência. Teria feito como Bellow e Nooteboom: se preocuparia menos com esses terrores da alma. Em A peste, temos a mais pura posição de Camus quanto a isso (Camus foi um filósofo capenga, um bom ficcionista, mas um grande poeta e um ensaísta de mão cheia), na decisão dos dois personagens principais isolados na cidade contaminada, o médico e o fotógrafo, que se investem da qualidade de santos sem deus em darem suas vidas para a amortização da dor dos condenados e na premissa inevitável de que logo sucumbirão à morte pela doença. O ateísmo de Camus era algo que deveria ser conceituado e preenchido por ele; havia uma moral elevada, sobre-humana, quase religiosamente auto-martirizante em sua abdicação do mundo; havia uma nostalgia selvagem por alguma forma de compreensão desagrilhoada das filosofias e posturas congeladas, exigidas para se manter socialmente íntegro no século da destruição total. Camus em nada tinha a ver com Sartre; Sartre era um ateu político, detinha uma concepção segura da ausência de deus, era biologicamente imune a questões de sublimidade, era terreno até a medula e adaptado ao máximo aos confortos da cidade moderna; era um animal muito mais dotado de fatores de sobrevivência que seu companheiro de pensamento filosófico argelino; basta analisarmos naquilo na escrita em que os dois mais se aproximaram, seus volumes de contos, para percebermos o quanto eram diferentes e tornados semelhantes por uma convenção mercadológica editorial: em O exílio e o reino, de Camus, vemos a orfandade de personagens sem uma pátria definida, viajantes, passantes, turistas em países exóticos, pessoas à procura em meio à devassidão de um mundo que não oferece guarida; um livro escrito por um eterno exilado, que necessita criar para si um modo original de visão, desapegado dos valores políticos e espirituais do Império; já em O muro, livro de contos de Sartre, vemos todos os sagrados temas europeus escritos por um europeu consolidado por séculos de boa digestão: um assassino psicopata transitando por Paris; um intelectual sexualmente impotente partindo seu amargor com novas formas de carinho na regra matrimonial a ser mantida; prisioneiros de guerra que se traem em uma comédia de erros (a única manifestação de humor de Sartre). Camus era oriental, místico inconsciente e religioso, que morreu em uma lamentável precocidade.
Thomas Bernhard: o pragmatismo minimalista de Bernhard é algo assustador. Bernhard nunca escreveu sobre deus, sobre crer ou não crer, sobre a transcendência. Sua escrita é uma força natural de ódio concentrado, expurgador, asséptica. Ele fundou na catarse todo o motivo de sua obra: ler Bernhard é livrar-se das toxinas espirituais, dos envenenamentos crônicos que a história e a vida entre os homens nos impregna. Seus personagens estão todos no limite: no limite da estupidez consentida em seguir rebanhos, ou no limite da contravenção, da não-coaptação, da não aceitação. Na lápide do tio do personagem de Extinção, por exemplo, lemos "aqui jaz aquele que deixou os estúpidos para trás na hora certa". Bernhard, assim como na arte, foi um homem coerente: foi odiado por sua pátria, processado pelas igrejas institucionais, e pessoa respeitada mas non grata pelas academias (que ainda assim incorriam no erro de lhe outorgar prêmios e lhe dar motivos para ler "agradecimentos" ácidos que lhes faziam cair um tanto mais o reboco dos bustos de pensadores proeminentes). Em O náufrago, faz seu narrador dizer que era uma estultície viver até os 50 anos. Doente crônico, Bernhard viveu com a iminência da morte desde menino, mas sua convivência com a finitude é algo desprovido quase por completo de filosofia. Seu trato com a mortalidade é cheia de humor, de uma ternura nem sempre bem sublinhada mas fortemente percebida pelos excluídos e sofridos e renitentes. Seu único inimigo nunca foi a potestade ou o vazio de qualquer resposta quando se clama aos céus, mas a ignorância. Bernhard foi o irado e profundo contestador da ignorância e do atraso humano, investindo-se contra todas as formas seculares e institucionalizadas desse atraso. Foi o escritor mais bem equilibrado na realidade desse mundo, justamente por mostrar em cada frase seu inconformismo absoluto com ela. Não era ateu e nem um crente: era um radical reacionário em seu mais exímio e puro significado.
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