terça-feira, 26 de abril de 2016

Relendo O fiasco






"A minha mão, livre sobre a superfície do papel, lisa como espelho, teria disparado loucamente sobre os patins da minha caneta esferográfica. Teria escrito, como se quisesse evitar alguma catástrofe_ obviamente a catástrofe de eu não escrever. Teria, portanto, escrito, porque Deus me livre se não escrevesse; teria escrito, para que a cada minuto pudesse amarfanhar o tempo debaixo de mim e me esquecesse do que sou: o produto final de determinações, o náufrago dos acasos, o dependente da eletrônica biológica, o surpreendido displicente do meu próprio caráter." (O fiasco, Imre Kertész, editora Planeta, na tradução do húngaro de Ildikó Sütö.)

22 comentários:

  1. Deus me livre de não ler Kertész. Estou novamente maravilhado com a leitura de O fisco. Que reflexões! Que altitude! Que dignidade de pensamento! Em tempos tão rasteiros, é um verdadeiro alívio ter esse livro novamente em mãos, que eu comprei há 4 anos por míseros 6 reais em um limpa de uma livraria de shopping que fechava as portas. Em um momento de tanto ódio pelas redes sociais, as palavras desse autor me consola e me enche de ânimo. Comprei todos os livros disponíveis dele pela Estante Virtual hoje. Seu livro mais aclamado, o Sem destino, semana passada, os três volumes que havia nesse referido site, estava por 250 reais cada. Não constam mais. Alguém comprou? Numa procura descrente, antes de desligar o note, achei uma edição em espanhol por um preço camarada, e comprei. Um grande escritor. O fiasco é excepcional! Convido os frequentadores deste local a lerem-no. Estão por 10 reais ou um tanto mais na EV. Garanto: uma obra transformadora, sublime, com a melhor escrita que se pode esperar.

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    1. Alguém me responda, por favor, quem é Ildikó Sütö (com dois tremas), nome do tradutor desse romance, que mais parece nome dos histriônicos tradutores inventados da editora Martin Claret. Não há nenhuma referência elucidativa sobre essa personalidade pelo Google. Pelo que pude depreender, parece ser uma mulher. Quem ler esse livro vai ver o quanto o trabalho dela é excepcional. Há um twitter com esse nome, que consta menos que 30 seguidores. É um tema para um conto de Bolaño, ou Henry James. Novamente digo: soa como coisa inventada, para condizer inteligentemente com o descansado ostracismo do personagem do livro. É como se provasse mais uma vez que a superioridade espiritual de uma obra é para poucos, modestamente poucos.

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    2. achei uma dissertação de mestrado da usp em que a mestranda agradece a essa tradutora e diz que conversou com ela sobre traduções em hungaro. então creio que ela existe

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    3. Encontrei isso: COMEMORAÇÃO DOS 35 ANOS DO GRUPO de danças "pántlika" e dos 15 anos do "sarkantyú", é parte de um periódico que foi escrito por ela. Parece ser uma confraternização dentro da comemoração do dia da Hungria no Brasil.

      BRAZÍLIAI MAGYAR SEGÉLYEGYLET
      mini - h í r a d ó
      5º ano / Nº 11 - Editora: Sra. Lilla Nagy / Assistente: Ildikó Sütö
      São Paulo, abril de 2004

      Também encontrei outro livro traduzido por ela: https://antroposofica.lojavirtualfc.com.br/lojas/00000472/prod/vc_g.jpg

      Bem, é isso.

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  2. Ela é um exemplo do quanto a altos níveis pode chegar a tradução no Brasil. E sua modéstia é eloquente.

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    1. Eu não conhecia essa tradutora, bom saber que temos mais um nome, eu só conhecia o Nelson Ascher(que só traduz poesia) e o Paulo Schiller que é o nome mais comum nas traduções húngaras atualmente, e antes tínhamos o Paulo Ronai.

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    2. Tiago, alguém desatento pode vir com a pergunta de como se pode saber se um tradutor é bom, não se sabendo húngaro. É uma resposta extremamente fácil. É notável o amor e a dedicação da Sütö nesse livro. A elegância do trabalho mostra alguém de avançado intelecto.

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    3. O fiasco me lembra muito O planeta do sr. Sammler, e suas reflexões tem o poder das melhores de O homem sem qualidades. Lembra também Arendt. Meu volume está sublinhado de alto a baixo. Alguns excertos:

      "Onde estariam as personalidades extraordinárias, de grande vulto, ainda que terríveis em suas índoles? Ricardo III fez promessa de se tornar um canalha; entretanto, os exterminadores de massas de um regime totalitário prestam juramento em prol da utilidade pública."

      Sobre a pavorosa nazista Ilse Koch:

      "Não é provável que lhe tenha passado pela cabeça o pensamento de que se não há Deus então tudo é permitido; pelo contrário, acima de tudo, ela tinha necessidade de deus_ mas de um deus que transformasse em mandamento tudo o que ele lhe permitia."

      "Poderia encará-la como uma sádica ordinária que havia encontrado seu lar em Bichenwald, onde, finalmente, ela pôde libertar seus instintos abomináveis. Mas poderia pensar também, se assim me agradasse, ter sido ela uma alma mais complicada: talvez procurasse ordenar sua situação inesperada e inconcebível por meio de gestos ou atitudes ainda mais inesperados e inconcebíveis, somente para torná-la, para si própria, mais aconchegante, mais habitável, e para que, dia a dia, pudesse ver com certeza: quão vivível é o invivível e quão natural o inacreditável."

      E isso que bem poderia ser um dos melhores aforismos de Kafka:

      "Mas ainda está para trás o segredo, a decifração do princípio de funcionamento do aparelho, que é demasiadamente simples e demasiadamente humilhante para ser ouvida: a verdade é que o aparelho aproveitaria como força propulsora para a perseguição a energia gerada pela corrida dos próprios perseguidos."

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    4. Tiago, há outros tradutores. Na própria coleção coordenada por Ascher temos Aleksandar Jovanovic e Ladislao Szabo (morto em 2007). Quem traduz Sandor Márai? Por sinal, já leram os ensaios sobre tradução e literatura húngara de Rónai?

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    5. A edição de As brasas da Cia não é traduzida direto do húngaro não. Não sei quanto aos outros títulos do Márai. Preciso ler com urgência esses outros húngaros. A Hungria é um selo de qualidade literária.

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    6. Acabei de conferir, e parece que todos os outros Márai são. Quero ler agora. Fiquei curioso pelo romance sobre Canudos.
      O nomes que mencionei são de tradutores de autores de nomes ainda mais complicados.

      Eu tenho uma teoria que explica porque os húngaros, poloneses, tchecos sejam tão bons. É que só nos chegam os melhores. Dá tanto trabalho investir numa tradução dessas línguas, que só editam o fino. Enquanto é muito fácil traduzir, publicar e vender um Paul Auster ou um Joel Dicker qualquer, um húngaro tem que ser um verdadeiro mestre pra conseguir sair de seu país. Os ruins que fiquem por lá mesmo.

      Seguindo a lógica, espero com ansiedade os holandeses que finalmente vão sair por aqui.

      Por sinal, já viu algum filme de István Szabó? Sunshine e Mephisto são Obras-primas.

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  3. Ramiro Conceiçāo28 de abril de 2016 22:33

    Ao Fiasco...

    PÉS
    by Ramiro Conceição

    Com quem andas
    torna-te os pés
    ao horizonte
    em que te vês.

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  4. O Sandor Marai é quase todo traduzido pelo Paulo Schiller, com exceção por "divórcio em Buda" que foi traduzido pelo Lasdislao Szabo e "as brasas" que é uma tradução indireta, agora o complicado é que ele já é um autor com a grande maioria dos títulos esgotados, e alguns já com os preços bem elevados na estante virtual, vide o "veredicto em Canudos" que já tem volumes custando acima de 100 reais, mas ainda é possível achar por um bom preço.

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  5. Eu tenho a ligeira impressão que a divulgação nesse blog é diretamente responsável pelo desaparecimento ou encarecimento de alguns livros na EV, hehehe. Só não encomendo agora mesmo meus desejados Márais porque, ironicamente, devo viajar pro GO na próxima semana, e não terei quem os receba em casa.

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    1. Faça como eu, alugue uma caixa postal. Você chega, e lá estão seus livros te esperando. Hoje me chegou o Corpos Divinos, do Cabrera Infante, um autor que admiro muito. Só que vai ser impossível lê-lo pelos próximos dias, tamanho meu envolvimento com Kertész (são climas bastante diferentes). Estou aguardando com ânsia os Kertész que me chegarão pela EV. (Cara, o Fiasco é um deleite; pretendo escrever um ensaio mais sério logo logo.)

      Que que cê vem fazer por essas bandas, meu chapa?

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    2. Eu já tenho uma fila enorme de livros na frente, para serem comprados, e eu estou fazendo o possível para não fura-la, falando em EV, tem sido um verdadeiro martírio as compras por lá, devido a demora, se bem que eu acho que a culpa é dos correios e não da EV.

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    3. Já reclamei algumas vezes aos administradores por causa desses atrasos, e da falta de comunicação de alguns livreiros com os clientes. Tão fácil você mandar um email informando que recebeu o pagamento, mas parece que eles estão ocupados de mais para isso. E mais de 3 vezes eu pedi o livro, paguei o boleto e, uns 5 dias depois, eles retornam dizendo que não tinham mais o livro no estoque. Eu fico puto da vida. Alguns são péssimos administradores. Certa vez, eu pedi o livro, não paguei (era antes do boleto; havia apenas a opção do depósito bancário), e me informaram que não havia ele nos estoques. Dois dias depois me vem um email dos mais canhestros da livraria, em um português deplorável, dizendo que eles tinham achado o livro, e me passavam o número de outra conta. Trambicagem de algum funcionário. Confesso que eu penso três vezes antes de comprar na EV. Só compro lá se não acho o livro na Amazon e na Livraria Cultura. Prefiro, com folga, pagar mais caro_ o que na verdade sai mais barato, devido ao profissionalismo e segurança que a Amazon e a LC oferecem.

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    4. Charlles, mas quase sempre é os correios mesmo que cometem as falhas, não me admira que eles estejam endividados, e que algumas empresas estrangeiras deixem de enviar produtos pro Brasil, por serem frequentes os "extravios".

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    5. No meu caso, nenhuma vez em se tratando da EV foi culpa dos correios. Os livros são enviados como mala registrada, o que reduz bastante as possibilidades de extraviamento.

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  6. O que tenho para reclamar da EV, fiz tudo aqui: https://raviere.wordpress.com/2015/05/20/a-decadencia-da-estante-virtual/

    Vou pro GO pescar. Luis Alves, na divisa com o MT.

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