Quando eu fiquei muito mal da covid, a ponto de se eu me apresentasse a um hospital eles me entubariam (e eu não estaria aqui agora), eu tive uma vivência profunda do tédio. Eu tinha me isolado na biblioteca e intimado a todos de não se aproximarem, mas a Júlia, o Eric e a Dani praticamente arrombaram a porta e se deitaram afrontosamente no colchão que eu tinha estendido lá, do meu lado. O resultado foi que todos se contaminaram, expressando sintomas brandos. Ruim mesmo ficou eu. Um dia eu tentei erguer meu braço e não consegui. Perdi oito quilos em uma semana. Enzimas do meu cérebro foram reduzidas quase a zero, a ponto de essa percepção me fulminar. Era um estágio de profunda depressão. Recordo que me sentei com o Eric para ver um desenho, e me marcou o quanto o urso do desenho sofria, se desgastava em uma vida sem sentido, lutando contra uns esquilinhos azuis que nasceram para atormentá-lo. Eu pensava: "Isso é uma síntese precisa demais da existência humana para ser um desenho infantil!" A revelação de que o tédio é o moto perpétuo da existência e a única força que move o universo foi a coisa mais importante que me aconteceu. Eu me recuperei. Parei de beber. Parei de ter compulsão pela comida. Perdi 25 quilos e mantenho meu peso ideal até hoje. Todas essas coisas, bebida, comida, eu as tinha para vencer o tédio. Todas as noites tinha a hora do rock n roll, em que eu bebia uma garrafa de vinho ouvindo música, e depois comia um nababesco jantar. Hoje eu como regradamente, o mínimo possível. O drible ao tédio foi embora, mas também foram a hipertensão, a gota, a gastrite, e a baixa estima. Mas voltemos ao tédio: eu constatei o seguinte, se o espírito for imortal, o tédio é a constante universal. Um amigo espiritualista me disse certa vez que Deus criara a reencarnação para enganarmos o tédio. Uma ideia que me pareceu estúpida. O tédio tem de ser confrontado, aceito, interiorizado, enlevado. Se tivesse outro nome, que não essa pecha de tédio, poderíamos compreendê-lo mais corretamente. Se chamasse, por exemplo, cafarnaum. E eis que me deparo com esse livro do Kierkegaard, O desespero humano, no qual ele fala sobre essa minha descoberta pessoal. O desespero só pode ser sentido pelo ser humano, e ele vem como algo positivo, pois é a limpeza de eufemismos quando o espírito se vê diante de deus. Como já disse antes, eu leio muito, demasiado até, mas não levo nada a sério do que leio. Como Borges falou a respeito de Tomás de Aquino, grande parte da filosofia e da ciência me parece apenas uma bem engendrada ficção. Mas levo as intuições a sério. Se somos imortais? Se deus existe? Eu recebo essas intuições com as mesmas reservas que recebo as opostas, de que tudo é o Átomo (o que me parece, devo dizer, uma tolice maior ainda!). Mas eu sei que, se a vida imortal existir, não será para todos. Gorenstein diz que deus pouco se importa com a caridade. O que importa no eterno é o enriquecimento espiritual, o que a caridade seria uma mera consequência, visto o mal sempre, sempre, sempre ser burro. E o enriquecimento espiritual nada mais é que a convivência ativa com o tédio e o desespero. Somente seres imortais e eternos sentem o desespero. Camus também escreveu sobre isso, quando disse que devemos ser fanaticamente lúcidos, lúcidos até beirarmos a insanidade.
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sexta-feira, 5 de abril de 2024
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
Insignificâncias
Eu antes desprezava psiquiatras. Achava que era coisa de rico vazio, etc, essas coisas. Daí com a pós-covid eu tive um quadro de depressão preocupante e minha irmã ligou para um amiga dela, psiquiatra em Brasília, e uma antiga amiga minha também de quando eu era estudante. Essa amiga me mandou um email marcando a data de uma consulta pelo zoom, em caráter de urgência e que ela não receberia um não como resposta. Isso me deixou com noites sem sono atormentado por aquela imposição ridícula e pelo desconforto de ter de ficar de frente a ela pelo computador falando o quê? Eu não sabia como deveria me comportar. Daí aconteceu, chegou o dia. Uma hora de consulta e eu tinha chorado e revelado coisas que nem eu sabia que tinha guardadas lá no fundo. Eu até brinquei dizendo que ela tinha que trabalhar era para a PF. Ela me passou a quetiapina, e mais um outro remédio para loucos brandos. Esse segundo remédio eu tomei por um mês e não senti efeito nenhum, a não ser a mudança da percepção das cores de algumas flores no quintal e a tendência de ficar falando para a Dani como a vida era maravilhosa. Olhei na bula para ver se tudo lá estava legalizado, vai se saber! A mulher era uma das minhas amigas da juventude! Eu fiquei satisfeito e feliz por me desobrigar daquilo com dignidade: eu havia chorado e tal mas havia a ética profissional, ela não iria me sacanear. Daí ela me manda um email por mês avisando que seria consultas mensais. Eu passo por todas, choro sempre, e descubro o quanto o ser humano é frágil. Cada movimento que fazemos, cada pensamento, está alicerçado numa coisa ruim por qual passamos. Eu pude falar da morte do meu melhor amigo de covid, que eu, numa reação estupidamente condicionada, fazia esforço por não me atingir tanto porque, afinal, eu era Homem (sim, se vocês caíram nessa balela de me acharem um sujeito culto, eis aí a matéria da qual eu sou feito). No final de cada sessão eu estava quase em posição fetal, entrado numa zona proibida tensa e sombria do meu espírito atormentado. Eu fui ficando liberto, sentava na mesa do café da manhã e falava com a Dani como nunca tinha falado antes, sem proteção, sem a crítica exagerada que eu colocava sobre mim mesmo. E tem o lance dos pesadelos: eu recorrentemente tenho um pesadelo horrível, de que estou só, absolutamente só, como se eu fosse um fantasma em vida. Neles, eu ando sem rumo pela grande cidade, à noite, sem nenhuma pessoa com quem conversar. Eu jamais imaginava possível confessar esse medo para alguém, e lá estava eu o destrinchando para a médica. Lembrei de escrever sobre isso nesse post hoje porque, depois de quase um ano de tratamento, voltei a ter esse pesadelo essa noite. Acordei angustiado, fui de cama em cama beijando a Dani (dormimos no mesmo quarto mas em camas separadas), a Júlia e a o Eric, para ter certeza de que eles estavam lá. Faz dois meses que não falo com minha médica. Cada consulta dela é o olho da cara, que ela se recusou terminantemente a cobrar. Pelo terceiro mês eu disse que não poderia continuar se ela não cobrasse, que isso seria motivo de um outro trauma e só ficaria pior pois eu teria que passar uma sessão inteira chorando para ela me livrar daquilo também, e só teria um jeito, se ela me cobrasse. Ela disse então que cobraria metade, o que, não tendo outro jeito, topei. Ela estava grávida e, durante uma das sessões, ela deu um gritinho porque a menininha havia lhe dado um chute por dentro. Nós rimos bastante e eu contei como havia sido maravilhoso quando a Júlia e o Eric faziam isso na barriga da Dani. Era a primeira gravidez dela. Há dois meses ela perdeu o pai e, há um mês, no último ultrassom que ela realizou para ver como estava o bebê, os médicos espantados demoraram nos exames recorrendo a todos os recursos e disseram a ela que sua menininha não tinha nenhum sinal vital, que eles teriam que fazer uma cesariana naquele exato momento. Ela estava no nono mês de gestação. Desde então ela desmarcou toda sua agenda profissional e está incomunicável. Não há como mandar nenhuma recado de pesar, e nem sei como seria isso, para alguém com quem eu descrevi com detalhes todos meus mais profundos horrores.
Todas a
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