quarta-feira, 26 de julho de 2017

Acordando no bairro árabe



O sr. Omeno Flibas, na manhã em que faltavam poucos dias para completar suas sete décadas e meia de existência por entre os eventos dessa terra, acordou no pequeno quarto que alugava no bairro árabe da cidade com a opressiva certeza de que era um escravo da verdade. Acordava sempre uma hora, ou mesmo duas horas antes que o horário programado a despertar no relógio sobre a escrivaninha ao lado da cama, e ficava em um pasmo mudo olhando as sombras que ora e outra flanavam através das intrujonas luzes eventuais que vinham de fora, produzidas por faróis de carros solitários ou por algum fogo-fátuo indefinido de alguma vida aleatória que passava por debaixo de suas janelas. Era um quarto pequeno em que cabiam apenas sua cama de solteiro, a escrivaninha, um armário de duas portas (que lhe lembrava com certa nostalgia a desprovidão aventureira dos seus distantes anos antes do casamento), e as cortinas duplas que atendiam à refratária sutileza cinematográfica das duas janelas instaladas em dois ângulos mortos de maneira em que quase eram perpendiculares em relação uma à outra. Aquelas janelas anômalas o cativaram de imediato quando seu filho o levou para analisar o quarto; havia algo nelas que despertara uma primordial e já muito esquecida fantasia bizantina, reforçada pelo charme fugidio de que aquele lhe fora anunciado como sendo o bairro árabe, o que fizera aflorar em seus sentidos todas as flagrâncias de um reino desaparecido de Averrós e becos mercantis atulhados de cestos e figuras de turbantes pintados em amarelo oleáceo que sua imaginação solta de livreiro aposentado desenvolvera em questão de segundos. A luz das cinco horas da tarde do dia de inverno, há dois anos, irradiava uma áurea dourada de elmo anacrônico que afundava a cabeça de seu filho em uma sombra despersonalizada na pose imóvel em que ficara olhando as reações de apresentação do cômodo ao pai, se espalhou por aqueles dois retângulos verticais alojados nas paredes calcinadas e enchera-lhe os olhos de uma pureza argêntea de recolhimento. Seu filho_ o rapagão moreno que era uma cordoalha de músculos e disciplina que lhe era cada vez mais estranho ter que se acostumar_, emitiu um ar de descrédito, os olhos severos escrutando por sobre o uniforme verde se o velho pai agora sucumbia a algum sinal demencial de humor farsesco, e a vontade do sr. Flibas, recompondo a lucidez de sua mente posta irritantemente posta em suspeição pelo advento organizado dos mais jovens, pensou em dizer: eu finjo que reconheço meu filho nessa figura ridícula de militar descerebrado em que você se tornou, se você continuar fingindo que reconhece o homem que tentou te incutir alguma liberdade de pensamento nesse velho que olha com um piedoso olhar infantil duas janelas em uma parede branca. Mas o sr. Flibas apenas dissera que ficaria com o quarto, se a locatária o aceitasse. Sabia muito bem que se pusesse a falar sobre túnicas, contas marroquinas e o cheiro de especiarias, tais coisas aumentariam ainda mais o desamparo em que ficavam as pessoas que conviviam com ele depois que se tornara mais contemplativo e pedantemente mais sensível. Por ora, calava-se, servindo-se da vantagem da velhice em impor sua decisão com um silêncio que não aceitava confrontos.
      De maneiras que ali estava, e ali acordava todas as noites quando todo o bairro árabe ainda dormia, embora as circunstâncias dessa íntima fantasia fossem desmentidas pela rede de múltiplos sons das atividades humanas que lhe chegavam pelas janelas. Seus ouvidos sempre foram o que tinha de melhor no aparato infiel de mecanismos corporais, embora naquela hora em que o mundo renascia das trevas a sensação de desbaratamento não lhe possibilitasse saber o que era real e o que eram pequenas alucinações sonoras: o escarro profundo do velho padeiro uma esquina abaixo era algo que estava autorizado a admitir a existência, ou os primeiros carros cujos pneus macios ralhavam em geometrias de meia lua o chão de pedras, mas as guinadas rapaces das bicicletas cujos sons lhe faziam imaginar jinriquixás ou carroções de bois eram coisas das quais ele procurava guardar para si afim de não aumentar com sua própria crítica o grupo de pessoas que tinham sua demência natural como evento incontestável. Era uma época de sua vida e uma organização cênica de um velho senhor insone de olhos esbugalhados de orfandade na cama que requeria a tão comum mea culpa de arrependimentos passados, e ele via claramente nos rostos das pessoas que elas tinham esse rito de passagem tardio como algo inegável que ele tinha que oferecer para elas. O tom de voz artificialmente amaneirado de seu filho demonstrava isso; e as tantas visitas incomuns que Anna, sua filha, passara a lhe fazer, também revelavam a mesma preocupação em dizer que eles não tinham nenhuma lembrança traumática, faziam um esforço verdadeiramente piedoso para aliviar a possível carga de reavaliação de si mesmo como mal pai que pudesse ter. A única pessoa que se conservava dura com ele, em sua demonstração constante do quanto suportara de vida para dispensar gestos retóricos e a estupidez de atos sociais vazios, era sua locatária, a senhora Dália, e ele se sentia profundamente grato por isso, pelos silêncios dela em que se reafirmava que nada havia, enfim, para o remorso. Era um grande engano, porém, de seus filhos: ele não se arrependia de nada; se o câncer fosse pensamentos represados, o lodo de sentimentos retraídos, ele estava imune para sempre. Mesmo o pleno reconhecimento dessa qualidade não o incomodava com o diabolismo que vinha nesses grandes gestos reclusos de egoísmo intuído. Ele sempre tivera, junto à audição fenomenal (certa vez, ouviu Anna engasgada com um pedaço de maçã da papinha, quando ela tinha três anos, cinco metros de distância entre a sala e a cozinha), uma capacidade de se auto localizar no julgamento alheio. Sua figurinha miúda, magra, erraticamente encontrando a cada passo contido sua postura de gentleman médio oriental com insinuante sabedoria angariada por alguma resposta a uma opressão histórica, algum advento político repressivo, dava às pessoas a certeza de uma fragilidade que ele não reconhecia. Seu rosto severo, que poderia ser fruto de uma íntima vaidade a procura que fazia diante um espelho pela raiz genealógica de tantos feixes étnicos possíveis, servia a que essa convalescença fosse coroada com uma reserva intelectual contemplativa, que seus filhos temiam ver nela algum traço esperado de um derradeiro desespero. Não tinham pelo que se preocupar, o sr. Flibas pensava, com um sorriso debaixo dos lençóis, não era a cara de um suicida. Ele jamais se enfileiraria entre os que a incompatibilidade com a vida gerara um distúrbio fisiológico severo nas taxas hormonais da permanência. Ele sempre conservara sua quantidade residual de leviandade. Olhando as janelas duplas de seu refúgio acolhedor contra o qual parecia enfim que nenhuma aleatoriedade do caos que reinava por sobre tudo se interessava em vir invadir, ele se deixava saber que sua única vantagem era o pouco tempo que lhe restava. Não que o caos não pudesse mais lhe incomodar, mas sua estimativa etária era minúscula para que julgasse possível uma dessincronia de frequências. Não poderia ter mais que dez anos ainda pela frente, na melhor das expectativas, e mesmo essas pareciam espantosas, arrazoadas. Queria muito a vida, em suas aparições mais puras que sobreviviam surpreendente e com inexorável potência por sob a urbanidade massiva a que tinha se transformado o dia, coisas importantes enxergadas como erraticamente ternas pelos que não tinham tanta carga de vida nas costas, como a suavidade da pronúncia de bairro árabe, como o sonho acordado de que lá fora existem carroções de bois, ou como a melodia silenciosa das janelas do quarto. Seu maior prazer, afora esses debates madrugadores com um toque de masoquismo, era caminhar; dava longas caminhadas pela cidade e por tudo que conseguia alcançar como sendo a não-cidade, e agradecia pela providência se mostrar suave pelo tanto ternura sensorial, odores, sons, riscos de presenças irracionais batendo asas pelo ar, silhuetas e marcas de expressão sobre as quais seus olhos pairavam e sua consciência depurativa o alertava contra os riscos sempre pueris de ser mal-entendido. 
           Era assim o despertar do sr. Omeno Flibas. Um ritual de um velho, com seu merecimento de relevância, mas que para os outros se tratava de assunto encerrado pelo diagnóstico de neurastenia e senilidade. Mas não tinha muito o que reclamar, baseado em seu histórico pessoal. Em nenhum momento de sua vida percebia a concessão de algo tão próximo à total liberdade quanto esses anos da velhice. Após o AVC, como em uma fábula contada sabe-se lá para o benefício moral de quem, notou que realmente angariara um benefício. Passara noites insones avaliando isso. Comparara essa degradação a tantas outras feridas de sua longa vida, e nenhuma se comparava com aquilo. Lembrou das convalescenças a que sua infância frágil o relegara, em uma época em que a vida em si era bem mais lenta ainda que não menos letal, e nem esse langor silencioso de cortinas imóveis e poeira se ombreava com sua derradeira derrocada. Mais ainda que na infância_ ou nas febres indeterminadas que lhe abatiam sem aviso no casamento, em que Mona lhe media a temperatura e lhe preparava infusões de ervas com mel que inebriavam seu incorrigível coração complacente_, na doença da velhice ele tivera todos os mimos da salvaguarda exagerada. Ou ao menos parecia exagerada para sua autocrítica retumbante e inquieta. Não podia negar, as pessoas que se preocupavam em diferentes graus e atendendo a diferentes burocracias filiais com ele, o trataram com o mais elevado enlevo. Se limitasse a compreensão da ocultada natureza humana a isso, de o quanto havia de benevolência real por debaixo da anestesia dos atos condicionados, já teria nisso uma lição. Mas havia bem mais a confrontar suas ideias sobre a distração e a maldade estática que imperam no mundo o forçando a ir além da zona de conforto do notoriamente aceito: havia a generosidade oferecida por pessoas que, apesar do parentesco ou da proximidade reativa, em nada tinham a obrigação de gastarem suas existências já atulhadas de ricos sofrimentos com ele. Não sabia até hoje quanto tempo ficara totalmente incapacitado; evitava o confronto direto com essas questões, e eles eram comedidos em não tocarem no assunto. Imaginava que fora bem mais tempo que suas íntimas suspeitas contabilizavam, e sempre que pensava nisso encolhia diante sua imensa nudez. Lembrava da filha o escorando nos ombros e apoiando com sua mão a mão do pai pela parede, enquanto descia as escadas. Lembrava o filho lendo os jornais à beira da sua cama, com sua voz forte e monocórdia, e o quanto o vazio reverberante dela o enchia de um estranho prazer. Pouco se atentava às notícias, deixando-se embalar pelo eco daquele muro de disciplina que exsudava poder. Lembrava como aquela disposição abnegada do filho acionava os neurônios para o retorno da funcionalidade de seu cérebro, as especulações que renasciam quando pensava sobre o por que aquela força soberba, aquela espiritualidade capaz dos mais elevados sacrifícios, era destinado apenas ao Estado. Se era essa a forma que seu filho encontrara ele mesmo para aquietar toda uma rede de angústias espirituais, em que ele estaria atrás da incompetência de seu pai de 70 anos na mesma procura. Por que um arrebatamento doado a uma instância pragmática como o Estado seria menos efetiva do que 70 anos dedicados à abstração pura e sem objetivos concretos? Eram esses seus pensamentos, levantados com uma timidez cambiante e combativa do interior de um encéfalo em vias de cicatrização após uma hemorragia provocada pelo rompimento de seus vasos.

sábado, 8 de julho de 2017

Fima, de Amós Oz






Fima é um livro escrito lentamente, quase revelando um certo despropósito e despretensão. Casa com a confissão de Oz de que ele trabalha com a escrita disciplinadamente, todas as madrugadas em seu escritório isolado no frio do deserto. Aliás, é isso que Fima mais tem: frio e isolamento. Aqui neste romance Oz consolida sua cidade literária, uma Jerusalém invernal, cercada por muros, com uma geografia urbana caótica e inóspita, mas mesmo assim tornada acolhedora. A originalidade de Oz é receber influências sem se deixar sucumbir por elas, transformando-as em uma assinatura serena e totalmente intimista: por isso, as fontes em que bebe para compor essa obra, que a mim parecem ser Kafka e o romance-ensaio no estilo de O planeta do sr. Sammler, transparecem mas não são afrontosas. O personagem homônimo dessa tradução brasileira anda pela cidade à noite, é um solitário que escolheu para si o fracasso e a segregação, e tem uma vida cerebral acidentada entre a intensidade e a sornice. Não há grandes começos em Oz, como se pode encontrar em excesso no estilo suntuoso de Bellow, e o símbolo que do cotidiano de uma região em constante guerra entre dois povos insolventes que em Kafka atingiria as instâncias de interpretação psicológicas-religiosas é contido pelo autor em sua primeira instância. Mas isso não quer dizer que sua prosa seja menos bela e sua mensagem menos profunda. Oz é um escritor para se conhecer tarde_ pelo menos para mim conhecê-lo depois de uma boa bagagem de suas possíveis influências me parece vantajoso. Oz é o escritor certo para o leitor extenuado, exausto de querer acompanhar um cânone antigo e defasado de gigantes. Por isso ler Fima foi um prazer tão genuíno, aumentado ainda mais pelas suas fraquezas e improvisos evidentes. Há uma inexplicável atração intelectual pelo desmazelo doméstico do personagem, por sua degradação adulta de se parecer com um meninão desamparado que começa a engordar; há a atmosfera gélida sempre cativante da Jerusalém inventada, um símile de Londres dickensiana e Paris dupiniana, em que se repete a cara tradição literária do peripatetismo por ruas estreitas e escuras. Não se pode dizer que se tem reservas quanto a um livro tão idiossincrático, mas a resolução que Oz arranjou para amortecer a infelicidade do herói nas páginas finais perde o compasso em sua aproximação involuntária com os enredos de novelas televisivas. Mas tudo o mais é entorpecidamente primoroso.