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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Hamlet, William Shakespeare



Shakespeare é o caso mais eficiente desse constitutivo que ora e outra simulamos estar por esquecer ser um dos fundamentos da arte: o plágio. Parece uma ironia do destino_ que, firmando-se em seu propósito de coerência, plagia outras vertentes da realidade_ o tido como o maior escritor de todos os tempos ter roubado boa parte de suas obras de outros escritores. No ensaio de T.S.Eliot, lamentavelmente ligeiro mas relevante, que acompanha a nova edição de Hamlet recém lançada no país pela Companhia das Letras, vemos que Shakespeare não só copiou personagens, situações e o enredo de uma peça de Thomas Kyd para compor o seu Hamlet, mas, em alguns momentos, chegou simplesmente a revisar o texto de Kyd. E o detalhe mais impactante é que a peça de Kyd, longe de ser desconhecida, fora um sucesso de público apenas poucos anos antes de Shakespeare engrenar a sua empreitada. As informações oferecidas por Eliot vão além_ complementadas pelo prefácio do tradutor, que aponta ainda outros autores mais distantes no tempo como possíveis fontes do bardo_, comparando mesmo as similitudes de estilo entre Kyd e seu imortal copiador; e o que é pior: nos dizeres de Eliot, copiou-se fragilidades evidentes de estilo. 

Eliot faz uma atribuição contrária ao cânone: "Longe de ser uma obra-prima de Shakespeare, a peça é certamente um fracasso artístico". Não se trata, porém, de uma crítica original, visto que Tolstói e Bernard Shaw se anteciparam ao americano. E mesmo o mais ardente defensor de Hamlet, Harold Bloom, reconhece que toda a magistral grandeza da obra está em suas imperfeições: Hamlet é, segundo Bloom, o personagem mais inteligente da literatura. Hamlet é uma obra tão carregada de perigo por sua intensidade espiritual, que suplanta Shakespeare. Eliot chega a se espantar com a coragem de Shakespeare em tratar de um calabouço de verdades tão terríveis. Ainda que minha peça preferida de Shakespeare seja esse manual de sutileza pérfida sobre a manipulação política que é Júlio César, Hamlet é o que mais me instiga a me reaproximar do raio magnético do autor. A trama é tão complexa, a exuberância de pensamento tão arrebatadora e sobre-humana, que não é para menos que seja a mais imperfeita escrita de Shakespeare, e que seja o exemplar cabal de que a potência da mensagem prescinde do respeito pelas normas da compostura do que seja originalidade e primazia narrativa. Christopher Hitchens compara duas passagens importantes entre Augie March e Gatsby que deixa mais que sublinhado que Bellow copiou a música, o estilo e a visão esotérica de Fitzgerald. O caso de Shakespeare se distingue, além do mais, por o poder da obra com elementos plagiados ter feito sucumbir no esquecimento o modelo usado.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Leck mich im Arsch



Nos extras da edição em blu-ray dos 30 anos de O sentido da vida, há um vídeo de 1 hora de duração feito no ano passado em que os python fazem uma mesa redonda onde se dedicam a falar livremente sobre vários assuntos. Estão sentados em uma pequena sala em Londres, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto em um monitor de tv colocado ao centro aparece on-line um Eric Idle com os olhos inchados pelo fuso horário de ter que acordar às 3 da manhã em sua casa nos EUA. É uma dessas ocasiões em que se sente a nostalgia antecipada de estar vivendo talvez um último momento histórico promovido por esses artistas inigualáveis e intelectuais do humor para os quais chamá-los de revolucionários é recair em um clichê empobrecido. Ainda que essa tristeza que o expectador sente diante a impossibilidade de resgatar essa uma hora do efêmero parece não ser sentida pelos 5 septuagenários ali presentes, pois estes falam e contam piadas e relembram com um poder mental que não equivale ao prejulgamento de suas idades, e planejam fazer um filme com os sketches não filmados de O sentido da vida. O grupo fala que grande parte do que fizeram seria impossível de ser feito hoje em dia, devido ao politicamente correto. Cleese diz sobre seu espanto da primeira vez que lhe falaram que  o sketche Ministry of Silly Walks seria condenado por ser ofensivo aos deficientes físicos, ou de que a cena do papagaio morto seria uma apologia à violência contra animais. E Gilliam diz que o mundo atual padece de uma indeterminação, de um anuviamento, em que as pessoas, por terem somente noções indeterminadas de pre-conceitos, usam julgamentos exacerbados como escudo de prevenção contra a falta de conteúdos gerais.

Assim como recentemente vi em uma entrevista com o Mario Vargas Llosa, eles, como o escritor peruano, demonstram uma total indiferença quanto à morte, o que configura a todos uma tardia  e perpétua juventude na qual cabe uma série de planejamentos futuros. Eric Idle diz que espera não haver uma vida após a morte, com a qual se revelaria muito cansado; já Cleese, que parece ser o eterno enfant terrible do grupo, diz não descartar a hipótese, e põe-se a narrar, com uma erudição prodigiosa, sobre experiências científicas de consciência além do corpo, ao mesmo tempo que ridiculariza o ateísmo desesperadamente iconoclasta de gente como Richard Dawkins. Cada um dos python conserva uma inocência, uma predisposição ao assombro, um maravilhamento, de tal forma que parece que tentam controlar isso para que a espontaneidade do momento não sobressaia à astúcia de terem de se mostrar bem situados na maturidade. No final, um deles diz que seria bom tornarem a se encontrar todos juntos novamente, mas dessa vez sem as câmeras, ao que um outro, com uma ironia sempre provocadora, responde: "Mas daí qual seria o sentido?"

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Alguns tem dito sobre a grosseria das charges da Charlie Hebdo. São desenhos mesmo os mais grosseiros e muitas vezes sem a mínima calibragem de humor e bom gosto. Causariam repulsa se, ao mesmo tempo, não houvesse a clara evidência de serem deliberadamente idiotas e infantis. Uma charge* como a que acabo de ver, em que a trindade cristã é representada em uma atitude escatológica que parece ter nascido de uma criança de 7 anos paupérrima em saúde mental, só poderia suscitar discussões sérias a respeito se fosse um produto isolado, uma exceção. Acontece que toda a temática da Charlie Hebdo é essa: a da iconoclastia sem método, sem charme, sem compostura, sem sutileza, propositalmente sem inteligência. A infâmia pela infâmia. E aqui, os críticos que caem na relativização dos atentados ao colocarem a culpa no barbarismo iconoclasta dos chargistas, críticos estes que se julgam muito cultos e conhecedores do que é bom gosto em termos de cultura, revelam uma drástica limitação, pois parecem desconhecer a verdade de que a grosseria, o mau gosto, está na raiz não só da cultura, mas da alta cultura. Se a Charlie apresenta um personagem santo, ou o próprio deus, na situação inconcebível de ter o ânus penetrado seja por um triângulo de luz, seja por qual objeto for, a memória do douto defensor de que os desenhistas de uma tal descompostura fizeram por merecer o destino que tiveram, deveria se lembrar de James Joyce, Rabelais, Shakespeare, Mozart, Dostoiévski, Petrônio, Pynchon, Gunter Grass, e uma série interminável de outros criadores.

James Joyce, não só em suas cartas a Nora Barnacle, que talvez sejam pessoais demais para serem exemplos de "mau gosto", mas em várias passagens de Ulisses. Eu poderia citar vários exemplos de grosseria em Ulisses, mas me limito a uma mesma cena de penetração anal por uma leguminosa no capítulo final da parte 2, capítulo esse recheado de situações com o mínimo do mínimo de etiqueta e bom gosto. Rabelais, em um dos capítulos iniciais de Gargântua, faz seu gigante promover um longo discurso sobre qual a tecitura ideal para um limpador de bunda perfeito. Shakespeare é, conforme Tolstói disse em um saboroso ensaio a respeito, o exemplo talvez máximo das letras do que seja o mau gosto e a ausência de finesse. Mozart tem em seu catálogo, extenso em peças obscenas, um cânone para seis vozes intitulado Leck mich im Arsch (Lamba meu cu). Dostoiévski é povoado de personagens grosseiros, como os que promovem uma cena em O idiota de cuspes mútuos. Quem aguentar ler as primeiras páginas de Satyricon sem embrulhar o estômago merece um prêmio, principalmente as descrições de um banquete em que sobressaem vulvas de todos os gêneros cortadas e coladas por cima de porcos assados e sobremesas exuberantes; e Petrônio foi um dos escritores preferidos de Nietzsche. Pynchon escreveu uma das mais grotescas (e talvez única) cena de coprofagia da história da literatura, entre as tantas desfaçatezes que escreveu em seus livros. Gunter Grass nem se fala. Garcia Márquez nem se fala.

É uma desculpa à apologia ao terrorismo dizer que o mau gosto justifica o massacre. É tão grosseiro ver a gritante desumanidade de um argumentos destes, que a mente esclarecida passa a enxergar o quanto uma revista como a Charlie Hebdo é imprescindível. Gente como o cartunista Latuff, como alguns outros oportunistas que pegam carona para se promoverem com o fato, dizendo que jamais trabalharia na Charlie Hebdo, e expedindo um discurso pseudo-engajado cheio de tons pomposos. Personificam o islã como vítima ao mesmo tempo em que não veem a incoerência de representarem o islã nos terroristas ao relativizar-lhes a culpa. Não tem o bom senso de afirmarem que os que professam com seriedade a religião de Maomé nada tem a ver com esses terroristas, mas confundem ainda mais o discurso de suas cartilhas de correção política ao condenarem os cartunistas massacrados, porque eles mexeram indevidamente com o islã. Se fosse em um tribunal de júri, eles seriam as principais testemunhas de acusação contra o islã, e não seus defensores, como supõem. Em contraposição a essa pelica exagerada, a essa assepsia do toque, a essa intelectualidade de salão que vemos no Brasil, uma revista como a Charlie Hebdo é um soco no estômago desses esnobes oportunistas, esses carniceiros engajados em sobrepujarem a falta de talento com suas vozes de carpideiras solenes. O que sobra disso tudo é que a Charlie Hebdo passa a ser um ícone de genialidade, fundamentada pela prova de que o riso é muito mais perigoso do que a doença dos que não sabem rir e tem uma exagerada noção de suas importâncias; passa a ter a próxima tiragem, de uns poucos mil, para mais de um milhão, e reforça a até então indeterminada função exercida de ser o sub-consciente livre de uma sociedade cada vez mais obstruída pelo enrijecimento mental. É claro que alguém como o Latuff jamais trabalharia lá.

* Ao ver um desses cartuns da revista, me voltou na lembrança a época em que eu tinha verdadeiro horror diante a proibição taxativa na Bíblia de que o único pecado realmente sem perdão era blasfemar contra o espírito santo. Poderia-se fazer tudo, matar, desejar a mulher do próximo, traficar drogas, cometer um genocídio, que bastava pedir perdão à misericórdia divina e estaria tudo resolvido, mas se a mente incauta, ainda mais com o cérebro diabolicamente provocado pela sentença, resolvesse associar o espírito santo a um xingamento, aí seria só esperar o inferno para toda a eternidade. Passei por verdadeiros martírios com isso, pois por mais que vivesse me policiando, uma vozinha em meu interior debulhava um sem número de imagens inenarráveis em que o espírito santo aparecia metido em todo tipo de putaria e viadagens.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tolstói X Shakespeare


Sempre bom descobrir o quanto escritores canônicos podem ser extremamente engraçados. Quem teme a literatura não consegue conceber, por exemplo, que autores como Kafka são grandes humoristas, que por detrás da imagem fácil de que o homem de letras vive  em sérios debates sobre a alma existe um observador descompromissado tão loquaz e divertido quanto alguém que se oferece para uma fofoca na fila do pão da padaria. Tenho essa realidade como uma das mutilações a que sofre, inconscientemente, aquele que julga como entretenimento genuíno a novela global, o videogame, ou algum dos escapes da internet, e considera que a leitura é um tédio infinito.

Pois bem, não quero falar de Kafka, mas de um ensaio intitulado Sobre Shakespeare e o teatro (Um ensaio crítico), do qual ainda sinto o peito desobstruído pelas gargalhadas que estava tendo há pouco, quando o lia. Seu autor é, ninguém menos, que Liev Tolstói (ééé, os visitantes esporádicos do blog terão que ter paciência comigo), alguém do qual não me é surpreendente a sua veia cômica, já que sei de páginas em seus dois principais romances que não ficam devendo em nada a Thomas Pynchon ou Mark Twain (para citar apenas dois dos mais engraçados escritores). Esse ensaio consta da compilação de textos tardios de Tolstói, Os últimos dias, publicado pela Penguin Companhia. Em tal ensaio de 80 páginas, o célebre russo analisa as principais peças de Shakespeare com dedicação total, narrando enredos, citando sentenças, descrevendo detalhes cênicos, apontando idiossincrasias dos personagens e do autor inglês no ato de composição das obras. 

Como introdução, Tolstói declara que quando jovem,  lia muitas personalidades importantes falando do gênio absoluto, do inigualável conhecimento humano, e da poesia inalcançável de Shakespeare, mas que, ao começar a ler sua peças, não conseguiu de forma alguma perceber esses elogios e, indo mais longe, só via em tais trabalhos uma falta de talento, uma pobreza estética e um misto de arranjos sem lógica para costurar tramas de pontas soltas, que lhe provocava um peso de consciência e uma sensação de que lhe faltava os méritos devidos de leitor por ser cego a evidências tão nítidas à maioria quase unânime dos que glorificam o bardo inglês. Por essa impressão lhe causar bastante incômodo, Tolstói pôs-se a estudar a fundo a obra de Shakespeare. Leu-a em inglês, em alemão, em russo e em francês; leu todos os estudiosos de Shakespeare e todas as referências feitas a ele. Faz um pormenorizado arrebanhamento de citações da grandiosidade de Shakespeare na introdução para concluir que (aí entra a sua precisa noção do time-in do humor), agora, aos 75 anos, não consegue mais esconder as suas sólidas ideias sobre o que dá a entender ser o grande engodo da cultura ocidental em fundamentar a sua literatura num autor cheio de falhas gritantes.

Aí sim inicia-se uma deliciosa _ e gargalhante_ sequência de exames cuidadosos sobre as peças de Shakespeare. Tolstói não é o único a refutar a excelência de Shakespeare: Bernard Shaw o fez, mas de maneira paradoxalmente séria e ortodoxa para um comediante, utilizando o que para ele era a mais fraca das composições do autor, Hamlet_ Shaw utilizou, durante toda sua vida, a nomenclatura mutilada de "Shakespear", para demonstrar a noção de franca incompletude do criticado. Mas são nessas páginas do russo que o leitor se brinda do encontro de dois dos maiores escritores de todos os tempos, no exercício inédito de descanonização da parte de um deles, que, após uma vida de pesquisas e interação comprometida, se lança ao que, para qualquer outro, seria um desplante abominável. 

Pode-se discordar das invectivas de Tolstói, mas acompanhar a sua implosão de Rei Lear, por exemplo, é um convite a reler a peça com esse novo olhar. Tolstói assinala inconsistência a cada página, aponta erros, imposturas, despropósitos, puras besteiras para agradar a platéia, e assim vai. Já na primeira cena da peça, se pergunta como um rei que amava de forma especial à filha mais nova, Cordélia, e que tinha plena certeza do amor e dedicação desta, a renega peremptoriamente só porque não soube bajulá-lo da mesma forma que suas outras duas filhas, Goneril e Regana (tidas notoriamente por todo o reino como víboras), o que disso faz surgir toda a desgraça e destruição de si e de tudo que o cerca. Tolstói salienta como Shakespeare abortava qualquer força e convencimento das cenas por intercalar monólogos longuíssimos e sem sentido do velho Lear a todo momento. Descreve como todas as ações dos personagens não faz qualquer sentido e vão imediatamente de contra a qualquer lógica da convivência. O texto é recheado de análises como as que seguem abaixo:

"Nesse momento, por algum motivo, chega Lear, coberto de flores silvestres. Ele enlouqueceu e suas falas são ainda mais absurdas do que antes: discorre sobre cunhagem de dinheiro, sobre arco, entrega a alguém uma luva de ferro, depois grita que está vendo um rato, que quer atraí-lo com um pedaço de queijo, e em seguida, de repente, pergunta a senha para Edgar, e Edgar na mesma hora responde com as palavras 'manjerona doce'. Lear diz: Passe!_ o cego Gloucester, que não reconheceu nem o filho nem Kent, reconhece a voz do rei."

"Em seguida, Lear pronuncia um monólogo sobre injustiça nos tribunais que é de todo incoerente na boca de alguém enlouquecido. Depois disso, chega um cavalheiro com soldados, enviado por Cordélia para buscar Lear. O rei continua agindo como louco e sai correndo. O cavalheiro enviado à procura de Lear não corre atrás dele, mas por um longo tempo fala a Edgar sobre a disposição dos exércitos franceses e britânicos."

"Em seguida, entra Lear com Cordélia morta nos braços, apesar de ter mais de oitenta anos e estar doente. De novo começa um terrível delírio de Lear, que provoca vergonha com suas brincadeiras sem graça. Lear exige que todos uivem e ora pensa que Cordélia morreu, ora que está viva. 'Com vossa língua e olhos eu faria/ Ruir os céus.' Ele conta que matou o escravo que enforcou Cordélia, em seguida diz que os olhos dele enxergam mal e nesse instante reconhece Kent, que lhe passara despercebido o tempo todo."

As análises seguintes no ensaio são da mesma forma desconstrutivistas e altamente cômicas, o que faz dessa pequena obra de Tolstói uma das mais engraçadas da literatura.