sábado, 15 de novembro de 2014

Lendo Musil



Meu leitor autônomo, esse ser que habita em mim e sobre o qual exerço bem pouco domínio, não consegue parar de ler O homem sem qualidades, de Robert Musil. Esse livro tem sido responsável pela fama de marido e pai excessivamente tolerante que a Dani diz que suas amigas passaram a me retribuir, pois é bem fácil e mesmo muito agradável ficar esperando a Dani e as crianças, seja o que for que elas façam e para onde elas vão, dentro do carro ou sentado em um banco de praça, ou escorado em alguma árvore, uma vez que esse romance esteja lá comigo para me entreter. Se a Dani vai para a cabeleireira, lá está o marido modelo dentro do carro, alvo dos olhares assombrados de todas as outras senhoras de família dentro do salão para as quais declaradamente seus maridos não tem nem 1% da disposição de espera; sem saberem, porque do ângulo de visão em que elas estão é impossível ver, que minha cabeça baixa não revela a atitude de um cochilo, mas a leitura de Musil. Semana passada, a Dani foi questionada por uma amiga, estando nós em um parque vigiando as crianças brincando, se eu estava estudando para prestar algum concurso público, já que eu passava pelo martírio de estar sentado ali distante, embrenhado na leitura de um livro, e para quem a Dani respondeu, com inevitável ar de jocosidade, que eu era assim mesmo, gostava de ler sem propósitos práticos imediatos nenhum. A mulher demorou, segundo relatou a Dani, a consertar o queixo de volta para o nível normal na linha do maxilar, já que essa sua peça anatômica teimava em permanecer decaída em estado de perplexidade.

Quando eu volto da academia de musculação, pela manhã, paro o carro na praça principal, e me sento em um dos bancos, com o Musil de três quilos na mão. A leitura desse livro é compulsiva, exige bem menos atenção do que eu previa (embora, claro, eu dê toda a atenção possível), e está sendo motivo de intenso deleite. Me dá uma baita vontade de voltar para a situação acadêmica de ter que escrever uma monografia, pois tenho o tema perfeito: as raízes de Rayuela em O homem sem qualidades. Assim como Faulkner está para Garcia Márquez, e o Sartre e Camus estão para o primeiro Vargas Llosa, Musil está para Cortázar. Isso é evidente e incontestável assim que se passa a ter intimidade com O homem sem qualidades. Dele Cortázar retirou as intensas cogitações filosóficas, enleivadas de iconoclastia e distorção das lógicas da ótica; retirou o espanto bem humorado de virar de ponta cabeça os conceitos arraigados pelos costumes, a sociologia e a história; retirou o excepcional domínio de enxergar a magia explosiva e oculta por detrás da mesmerização dos rituais cotidianos. O mesmo exílio voluntário de não-coaptação de Ulrich, o herói de Musil, se encontra nos heróis de Rayuela, e a Maga reflete os apelidos criados pelo herói de Musil para encobrir a mundanidade das grandes mulheres do livro, investindo-as de romantismo. E a voz de sofisticação que tanto me impressionou em Cortázar, vem toda de Musil, o que Cortázar destilou com o movimento surrealista e o non-sense latino-americano criado por ele. E é incrível ver a limitação dos estudiosos de Cortázar em nunca ter visto isso, pela culpa evidente de que Musil tem a má-fama de ser incompreensível ou germânico demais, ou simplesmente porque Musil é pouco conhecido em nosso continente. Mas Cortázar dá uma dica importante dessa influência, já que dedica um capítulo de seu grande romance em reproduzir um excerto de O homem sem qualidades.

Esse Musil tem 1273 páginas, na edição comemorativa dos 40 anos da Nova Fronteira. Estou para acabar a primeira parte do livro, que se encerra na página 704, e que é, propriamente, o romance lançado em 1930 e que teve enorme sucesso. As outras 500 páginas equivalem à continuação virtual inacabada sobre a qual Musil trabalhou até o final de sua vida, e que varia o número de páginas e a quantidade de capítulos aceitos ou não do espólio de rascunhos conforme as edições que o livro tem pelo mundo. No Brasil, dispomos dessa tradução, assinada pela Lya Luft (excelente tradutora) e Carlos Abbenseth, o que é um trabalho memorável. O que dá um pouco nos nervos é que essa edição tem mais erros de revisão do que seria desejável para uma obra dessa importância, mas..., relevemos. É um livro realmente magnífico, fundador (fácil ver também influências reconhecidas ou não em muitos outros escritores importantes), que exige um lápis sublinhador para acompanhar a leitura, e que provoca profundas e incontáveis perturbações. Musil tinha plena ciência do gigantismo que estava escrevendo, e sua extrema segurança o coloca entre os maiores escritores de todos os tempos. Como deveria de se esperar em se tratando de um livro pouco conhecido no país, esse livro custa muito caro; deixei de comprá-lo por várias vezes por causa disso, até que, há algumas semanas, o achei por 74 reais (frete grátis) na Amazon, o que equivale a praticamente metade do preço. Assim que terminar a primeira parte, retorno com uma análise sobre a obra, para os raros que se interessarem por algo desse tipo.

P.S.: O homem sem qualidades é composto de capítulos pequenos, frenteados por títulos histriônicos, que se leem com agilidade de contos ou mesmo crônicas. Esse é um dos poderes da obra: as mais de mil páginas, e a linguagem sofisticada, imergem o leitor com uma fluidez deliciosa, sem experimentos vocabulares de um Ulysses. E a escrita de Musil é direta, às vezes dura, sem pomposidades, sem plasticidades acadêmicas. E as partes narrativas alcançam uma pureza invejável_ como no capítulo que trata da transferência do assassino de mulheres Moosbrugger para uma casa de detenção. Está aí também mais similitudes com Rayuela, já que se vê esses mesmos procedimentos neste Cortázar.

22 comentários:

  1. Charlles, o romance "A menina sem qualidades", da escritora alemã Juli Zeh, faz óbvia referência ao livro do Musil, que é mencionado na história e por isso o tradutor Marcelo Backes acabou optando por esse título, diferente no original Na adaptação que fizeram para a MTV brasileira, uma minissérie, o romance-chave passou a ser justamente "Rayuela".

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    1. Desconheço esse livro, Cassionei. Fiquei muito curioso. Não entendi bem: na adaptação usando Rayuela, fez-se isso por coincidência, ou porque algum produtor descobriu as semelhanças de Musil com Cortázar?

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  2. Escrevi uma resenha sobre outro romance dela na minha coluna no jornal, inclusive. Quanto à relação entre os romances, quem fez teria sido o Marcelo Backes, que colaborou com os roteiristas. No livro, um dos protagonistas é um professor polonês que vive na Alemanha. Na minissérie, que se passa no Brasil, optaram por um professor argentino, que dá aulas de espanhol e sobre "Rayuela".

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  3. http://cassionei.blogspot.com.br/2013/09/juli-zeh-no-tracando-livros-de-hoje.html

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    1. Eu que sou leitor de seu blog, e não conhecia esta sua resenha. Obrigado.

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    1. Essa edição da EV deve ser a primeira, em capa dura, já há muito esgotada.

      O homem sem qualidades foi escolhido pelos principais intelectuais e escritores alemães como o maior romance em alemão do século XX. O segundo lugar ficou para O processo, o terceiro para A montanha mágica (que o Marcelo Backes achou um absurdo, sei bem porquê. Backes me parece ser desses tradutores que contestam tudo, muitas vezes parecendo que só ele domina as secretas nuances desse idioma inacessível que é o idioma alemão; o que o permite cometer aqueles excessos de gordura da má tradução, como um mau hálito o qual sentem todos, menos seu portador, como propor que o romance mais conhecido de Grass fosse traduzido aqui como "O tambor (de lata)". Assim, compreende-se sua depreciação modística e esnobista do Montanha Mágica); e depois vir O tambor.

      Para os interessados em comprar esse livro por um bom preço, recomendo que se fique atento às variações de preços da Amazon. Ontem custava 96 reais, mas é só esperar e ficar ligado. Os irmãos karamázov, pela editora 34, por exemplo, chegou a 47 reais, menos da metade do preço de catálogo.

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  5. Esses dias perdi um comentário no blog de Ernani Ssó, e fiquei com raiva e com preguiça de reescrever. Farei aqui, porque tem a ver com esse seu último.

    Ssó falava algo sobre o excesso de notas de rodapé numa edição de Aristófanes. Estou lendo Os Miseráveis, que é enorme, então de vez em quando leio outros livros para dar um descanso, ainda mais porque no meio da narração tem uns ensaios longuíssimos sobre coisas diversas, como gírias, esgotos, a miséria, ou Waterloo. Peguei Os Bandoleiros, de Schiller, em edição da L&PM, cuja capa, curiosamente, é um recorte da mesma pintura de Delacroix, e que depois vi mencionado no Hugo.

    Os Miseráveis tem umas 1200 páginas (páginas grandes, vale dizer), prosa densa, muito name-droping, e umas 800 notas, a maioria sobre referências históricas obscuras da França, Grécia e Roma. Um despropósito justificável.

    Os Bandoleiros é uma peça, um pequeno livro de de bolso dumas 200 páginas. Com tradução (ótima, por sinal) e notas de Marcelo Backes. Mas é de lascar que sejam elas 180 (sim, 180 notas!!!) Algumas me subestimam, como as notas sobre Alexandre e Júlio César que me fazem pensar: "Schiller não é o primeiro escritor da vida de ninguém. Se alguém percorre qualquer caminho até ele, essa pessoa simplesmente SABE quem foram César e Alexandre". Mas o que me mata mesmo é a legião de notas explicando ou ressaltando o que estamos lendo, do tipo: "Note-se a mudança do tratamento, da segunda pessoa do plural para a segunda do singular, por isso e aquilo e etc.". Pô, deixa o cara ler a peça! Junta essas notas e faz um ensaio no final! E o pior é que eu lia os diabos das notas involuntariamente, eu tenho essa mania. Um despropósito injustificável.

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    1. Já falei sobre isso, em relação aos excessos de notas (que desprezam a inteligência do leitor) em uma das edições nacionais de Proust. A culpa, nesse caso específico, era da edição francesa, que pretendia ser anotada até às mais angustiantes minúcias.

      Li a excepcional autobiografia de Grass na tradução do Backes. Ele realmente é um ótimo tradutor, mas isso acaba sendo uma faca de dois gumes quando o ego do tradutor é grande o suficiente para ele delirar com virtuosismos. Me diga: será que se ele traduzisse O tambor, teria a coragem de colocar como título, realmente, "O tambor (de lata)"? Um título com parênteses de ressalva? Seria uma aberração. O cara faz isso só para chatear a vida do outro tradutor, que ele julga menor por sabe-se lá quais idiossincrasias próprias. Infelizmente, o Ssó às vezes demonstra a mesma Síndrome Delirante do Tradutor que se Julga uma Ilha (SDTJI).

      Tem um caso que é emblemático dessa questão tirânica do tradutor. Não sei se já comentei aqui. Tenho uma das primeiras edições do romance O outono do patriarca, publicada pela Record. O tradutor escreve uma diatribe no início do romance, intitulada "O peixe na mão", e o que acontece? O título da diatribe vem na capa, junto ao título do romance, como se a querer confundir o leitor incauto que se trata de um subtítulo partido da mão do Garcia Marquez. Desde quando vi isso achei um crime, e um desfavor decisivo contra o tradutor, já que não li nada que viesse assinado por ele depois disso.

      As edições do Nietzsche da Cia das Letras também me torram a paciência. Em cada parágrafo há de 3 a cinco notas de rodapé que enchem o saco, escritas pelo tradutor, a maioria sobre trivialidades sem qualquer interesse.

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    3. Às vezes penso que colocam essas notas para aquele aluno de graduação em letras que não lê. Ou o tradutor deve pensar que os 'apenas leitores' são idiotas.
      Esse exemplo do arbo, de Cesar e Alexandre, personagens históricos tão populares presentes em nosso cotidiano que não carecem de notas, é bem comum nos lançamentos mais recentes - não lembro de vê-las em edições antes dos anos 90. Podem vasculhar suas bibliotecas aí. Editores e tradutores receberam muitas reclamações ridículas, talvez; ou ,ainda, estejam levitando graças à sua suprema erudição que naturalmente os afasta do leitor-médio pequeno-burguês, os tomando como semi-ignorantes; ou simplesmente concordaram (e talvez estejam certos em concordar...) com o aparente emburrecimento de todo e qualquer brasileiro. Logo mais veremos 'O Engenhoso Fidalgo D. Quixote da Mancha, de Miguel de Cervantes'*, com uma nota explicando o asterisco (N.: Miguel de Cervantes é o nome do autor de Dom Quixote, e este era um fidalgo - título nobiliárquico - da região da Mancha, uma região da Espanha, que ,por sua vez, está localizada na Península Ibérica, Europa, ao lado de Portugal, entre a África e os Pirineus franceses, que...), por considerarem-nos incapazes de diferenciar autor de personagem-título.

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    4. Me lembrei de um texto do Umberto Eco na Entrelivros em que ele diz que, ao acessar a página da Wikipédia sobre O nome da rosa, encontrou a interessante informação de que o livro havia sido escrito pelo Sean Connery.

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    5. Olha, se o melhor Bond realmente tivesse escrito um livro, eu compraria.

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  6. o exemplo foi do caríssimo e exemplar Paulo, Matheus. Mas eu sei q desde os 4a1 eu não saio da tua cabeça hahaha

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  7. Eu tenho uns preconceitos. Por exemplo, se vejo um inglês sem qualquer ligação com o Brasil afirmar que leu Machado em português, pressuponho que ele domina antes, no mínimo, o francês e o espanhol. Da mesma maneira, penso que se alguém se dispõe a ler Proust, ele tem automaticamente uma noção básica da cultura ocidental, em especial da belle époque. Penso que o leitor brasileiro de Proust está avançado, assim como o leitor estrangeiro de Machado. Notas bestas em Proust podem fazer sentido lá, se o livro for obrigatório nas escolas (vai saber, depois do moleque de Um Sopro no Coração...), assim como Machado é aqui. Essas notas mais bestas só servem para adolescentes.

    Não conheço as traduções de Ssó, mas creio que se refira a um comentário que ele fez sobre a tradução de Santa Evita. Uma ninharia. Gosto do blog de Ssó, mas achei de uma maldade gratuita ele revisar seu comentário publicamente. Poderia manter a discussão com uma simples paráfrase e, pelo que entendi, no final você concordou com os argumentos dele, o que aumenta a gratuidade da coisa.

    Vixe, ainda por cima essas traduções de Nietzsche têm notas maiores que as de DFW. Hehehehe. E o tradutor é bom. Tenho um primo que é o maior entusiasta de Nietzsche, e toda vez em que o vejo, ele me pergunta do Zaratustra que me emprestou. Estou enganchado na primeira nota. Nesse ponto Backes tem o mérito de fazer suas 180 notas bem curtinhas, como convém a um livro de bolso.

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    1. Já vi o Ssó com certos rancores contra o Molina e o Brandão. E não estamos aqui "falando pelas costas", pois em resposta a uma alfinetada que ele me deu no blog do Milton, eu disse isso tudo a ele. Mas o Ssó é um grande cara, e não vi isso de ataque maldoso dele, ou talvez foi mesmo, mas não me senti ofendido.

      O tradutor do Nietzsche da Cia é excepcional. Algumas notas são fundamentais. Mas há o mesmo encanto em inchar as notas com a vaidade.

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    2. Conheci o Ssó pessoalmente numa oficina q ele deu na Feira do Livro sobre o Cortázar. Um cara bem humorado, com certos exageros no modo de falar, mas me pareceu exatamente porque, no bom sentido, pouco se leva a sério. Aí era falar dos tradutores, principalmente dos q passaram Cortázar, Borges, etc, pra nossa língua, para descascá-los. Ou Stephen King. Eu teria levado a gratuidade daqueles comentários menos a sério se ele não tivesse me parecido tbm "pouco ouvinte", ou com o ouvido meio apressado, o q achei estranho para um tradutor - meio fechado a outras interpretações q não a porção q consiste nas suas.
      Mas foi só uma primeira impressão em dois dias de contato breve.
      De resto, é um amante de Cortázar e definitivamente conseguiu nos impregnar deste amor. Ajudaram, é claro, as medialunas q o consulado argentino nos ofereceu.
      E isto aqui não é falar pelas costas. Ssó tinha a obrigação de ler o blog ehhee

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  8. 'O Urso', de William Faulkner

    http://www.ocampones.com/?p=13626

    =O =...(

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    1. Não concordo que essa versão seja melhor que a de Desça, Moisés. A deste livro é infinitamente superior.

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    2. Comprei 'Desça, Moisés' agorinha.

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