quarta-feira, 17 de julho de 2013

A hora de abandonar uma ideia



Eu valorizo muito o humor na literatura, a maior parte de minhas obras preferidas é de livros que tem um grau de hilaridade acentuadamente metafísica, e essa maioria fundamentou minha maneira de ver o mundo e agir comigo mesmo e com as pessoas. Mas descubro ao longo da maturidade que a seriedade vem sendo danosamente menosprezada. Há mesmo um preconceito em torno da seriedade. Quando eu penso em seriedade, essa palavra já demasiadamente feia, me vem à cabeça Jean-Paul Sartre, talvez o escritor mais bem situado no rol daqueles que jamais voltarei a ler, justamente porque sua seriedade excessiva me indispôs completamente com ele. Livros como O ser e o nada, parecem-me uma pedra de certezas que só pode ostentá-la os supremamente ignorantes, e junto a ele vem a trilogia ilógica que o filósofo do existencialismo compôs, de mais de mil páginas, sobre a vida de Flaubert, justo o mais conciso dos escritores. A seriedade sartreana me indispôs com os modelos recorrentes que aparecem para interpretar ora ou outra seja a economia, a política, e existência, a metafísica, a existência ou não de deus, ou seja lá o que for, de maneiras que, em negativo, Sartre sempre foi muito útil para mim, e sua anã branca de sisudez foi um denominador do humor libertário que está em direção oposta à sua escrita (o que dizer do humor de Sartre, que nunca existiu, ou só teve uma leve tentativa no primeiro conto de O muro, do qual não me recordo o nome, mas que causa aquele azedume das piadas sem graça quando vemos que o herói da narrativa é poupado da morte por seus carcereiros quando, mentindo sobre o local aonde estão escondidos seus companheiros do movimento dissidente, acaba por acertar involuntariamente, o que lhe garante a liberdade às custas da vida deles?; ou a história mais triste em torno de Sartre, a de seu tradutor brasileiro, que também não recordo o nome, mas que se preparou toda a vida, desde que confrontado pela sensação de burrice diante o calhamaço original de O ser e o nada, estudou a língua francesa e se profissionalizou nela, durante anos e anos, para poder voltar e traduzir por mais anos e anos o livro chave da filosofia de Sartre, esse mesmo O ser e o nada que se encontra solidamente esquecido no bastião das obras excêntricas pelo que tem de vazio e egolatricamente pomposo).

Mas, à medida que venho abrindo mais minha mente e procurando me destituir dos tantos fardos mentais que se acoplaram às minhas costas ao longo dos anos, a seriedade honesta tem me parecido mais benéfica e produtiva para os contingentes atuais do que o humor iconoclasta. O humor é maravilhoso, e talvez por sua sutileza (o nível mais excelente dele), o humor vem se tornando uma peça de contemplação agraciada por pessoas treinadas pela estética para perceberem o que tem de enorme adstringência. Mas isso acaba sendo apenas um placebo pelas estranhas exigências da mentalidade que vem dominando a esfera da comunicação atual. Recentemente escrevi nos comentários do blog do Milton Ribeiro, em referência a um post sobre sexo e livros, que eu tinha uma namorada que lia enquanto nós dois transávamos, e eu tinha que avisá-la que o exercício físico havia terminado, tamanho o envolvimento dela com a leitura_ e, a subliminaridade que deveria acionar a claque, a minha ineficiência total como amante_, mas eis que alguém comenta em resposta que se eu não conseguia satisfazê-la era porque eu era um péssimo amante. Não que esse meu humor seja exemplo de humor superior, o que definitivamente não é, mas não deixo de me assustar quando vejo essa prontidão à literariedade das pessoas que usam a net. Em outro post do Milton, eu escrevi que minha canastrice em ser contrário às ideias do dono do blog era o que me tornava interessante, ao que uma jovem muito bem afiada nos domínios do português me respondeu que era uma puta pretensão minha me considerar interessante, coisa que para os padrões dela eu não era em absoluto. Esses dois exemplos sobre o universo das interações da net, que logo logo estaremos abrangendo tal termo para o modo geral de interação entre as pessoas (cada vez mais relegadas à vida cibernética assepsiada pela ausência de contato físico recíproco), me revelam duas principais transformações assombrosas: a falta de percepção das nuances da leitura ou das riquezas da linguagem, e o desprezo contumaz para a humanidade de quem está lá do outro lado da tela. Quando eu me decretei interessante, eu ressaltava não uma vantagem genuína que fosse só minha, como a moça entendera, mas uma qualidade inerente a toda e qualquer pessoa, visto que eu acho interessante a velhinha da fila do banco com seu guarda-chuva, o homem de olhar atordoado por um evidente retardamento que vende picolés na praça, a moça de shorts jeans que masca chiclete com ar desoladoramente desafiador debaixo da árvore da escola, e mais não sei quantas outras: é mesmo impossível encontrar alguém que não seja interessante, o que este espécime raro já teria, paradoxalmente, algo de muitíssimo interessante (como Bartleby; ou como o primo de um amigo meu que foi fazer um certame de concurso público no Tocantins e conseguiu a proeza inigualável de não acertar nenhuma das questões da prova, o que eu esbravejei com a mais inconsciente seriedade de que ninguém mais do que ele dera mostras de mérito legítimo de ocupar o cargo, pois tirar a nota máxima era muito mais fácil que isso). 

Há uma tendência, que deveria ser avaliada com a devida ciência, da inteligência estar tomando um rumo errático pela vereda mais fácil, deixando as idiossincrasias e demoras re-avaliativas em segundo plano. Vejo no grande romance de Proust a seguinte frase: "Porque a minha inteligência deveria ser una, e quem sabe mesmo se não existe uma só inteligência de que todo mundo é co-locatário, uma inteligência para a qual cada um de nós, do fundo de seu corpo particular, dirige os seus olhares, como no teatro, onde cada qual tem o seu lugar e onde existe apenas um único palco". A julgar por essa teoria, estamos sofrendo uma severa contra-ofensiva de forças de dissuasão, vindas das frentes que convenciona-se atribuir a raiz de nossa festejada revolução tecnológica, e tais forças vem diminuindo o calibre do filtro que nos liga à essa inteligência universal signatária. Pois bem, diante essa constatação, não há muito o que se fazer, nada pode refrear o andamento da espécie e aprendemos nos bancos colegiais que toda a evolução é positiva, sempre caminha para a adaptação (e não para a melhora). Baseado nisso é que venho sofrendo uma elucidação em torno da importância da seriedade.

O que mais me chamou atenção em A morte do pai, romance de Karl Ove Knausgard, é como o autor sabe usar bem a seriedade. Knausgard é sério sem ser pedante, austero ou chato, sem a pretensão cósmica de sistematizar uma visão a partir de sua vivência pessoal. Mas ele é sério no sentido de respeitar o grande nível de interesse que tem seus pensamentos, sua personalidade, a velocidade de seu andante no tempo. Ele respeita sem qualquer constrangimento seu pleno direito de ser lento. E ele maneja muito bem seu direito de ser mais que uma entidade feliz e rasa da ausência de personalidade das redes sociais, virtuais ou não: ele se decreta alguém que tem uma voz e sua autenticidade de usá-la, sem que para isso use as armas de justificação e pedidos de desculpas da ironia e do humor suavizante. Knausgard é sério a uma altura desapegada da ortodoxia cansativa que a seriedade alcançou no século XX, com suas escoras na dramaticidade romântica de algum niilismo existencial; ele é sério de uma maneira quase pura ao se mostrar um pai de família lutando contra os amaneiramentos da rotina familiar para conseguir se tornar um escritor, e restituindo na escrita as lembranças perdidas do códice de sua vida. Ele contempla sem vergonha o material mais legítimo e rico que um escritor pode ter, a sua própria vida, com uma percuciência e cuidado instrumental do botânico que estuda minuciosamente os interstícios anelares de uma sequoia centenária. Ele se vê como alguém sagrado debaixo de todas as malhas da insignificância compulsória que a vida cotidiana se esforça massacrantemente para enterrá-lo. E a forma despida de vaidades comezinhas, a forma sincera e aplicada, com que faz isso, mostra para mim que essa atitude da escrita talvez seja a mais adequada para os tempos de hoje, não porque haja a necessidade de se converter os estúpidos, mas porque talvez o humor e a fábula já tenham dado tudo o que tinham para dar e tenha chegado a hora de deixar essas roupagens descansarem. O que Knausgard vem fazendo, e não só ele, mas Javier Marías e alguns outros, pode ser a nova revolução da literatura. Toda revolução é uma demarcação de uma re-valorização do passado, um acirramento, por isso esses escritores recorram aos esquemas de Montaigne e Proust. Numa era de rapidez e apagamento no fulgor das telinhas colorida, o que há de mais resistente e subversivo do que anunciarem-se como seres interessantes, com voz, recolhimento? Knausgard e Marías_ e Sebald e Nooteboom_ vem apontando a linha imortal da literatura, que é a da renitente afirmação do humanismo.

Essas reflexões sem cola e nexo, díspares, me vieram porque chegou a hora de abandonar uma ideia que eu vinha trabalhando ao longo desses últimos dois anos. Talvez tenha chegado a hora de ser mais desavergonhado, mais destemidamente sério. 

15 comentários:

  1. Bem disse um amigo meu, em resposta a um comentário que fiz sobre como é sisuda a esquerda:
    "É, mas rir de tudo é desespero"

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    1. Não concordo com a defesa exagerada que o Ernani Ssó faz do humor na literatura. Os textos dele são de gênero, eu sei, puramente humorísticos em sua coluna no Sul 21, mas ele muitas vezes parece desprezar livros por serem "sérios" (aspas devido ao resumo conceitual que é restringir o valor de algo pela balança meramente do humor).

      O erro gritante é confundir o humor profundo cheio de nuances de Kafka, por exemplo, com a rasa e que tudo perdoa da gracinha relativista.

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  2. Seu texto é um ótimo contraponto ao também ótimo comentário escrito pelo Ernani Ssó sobre o humor a uns poucos meses no Sul 21.
    Foi mais ou menos o que você disse que passava pela minha cabeça ao me deixar convencer pela defesa sem pudor do humor como categoria última de interpretar a vida. Eu pensava, "Ok, Ssó, bravo. Mas me parece que o humor enquanto categoria máxima de ver a vida não carece de defensores nem de seu lugar ao sol."

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    1. Pô, estávamos a pensar a mesma coisa no mesmo instante!

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    1. Eu estava escrevendo um romance picaresco, à lá Pynchon, cuja única certeza era de que esta seria a primeira página:

      http://charllescampos.blogspot.com.br/2011/08/panorama-17.html

      Estava obcecado pela ideia, que a mim parece muito boa, mas desde que inserida em 150 páginas; mas a coisa estava dispersa e envolveria o triplo desta estimativa, o que colocaria o resultado final em jogo. Vou partir para outra. Talvez meu destino seja o mesmo de Saramago, ser um escritor tardio. :-)

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  4. Pô, esse começo está muito legal. Me lembrou o Lot 49. Mas de fato é um ritmo difícil de manter por mais de 200 páginas (e um pouco difícil de se ler, talvez).

    Eu já comecei a escrever dois romances e parei antes da página 50, pois estavam bobos demais. Ainda pretendo um dia retornar a um deles, que também era picaresco, porém em uma pegada diferente (mais pra Augie March ou Cândido que pra Pynchon, que sequer tinha lido na época).

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    1. Eu iria limpá-lo um tanto. Aquela história de que o livro que vai se escrevendo por conta própria, e minha confiança me permitia ouvir dele que não estava certo. E foi por confrontá-lo com o Lote 49 que tudo ruiu. Mas também, né! Mas se houver um escritor em mim, ele jamais se permitiria se desanimar com essas comparações. Apenas que talvez seja uma ideia para um segundo livro, não o primeiro.

      Comecei um picaresco à lá Augie March, inclusive o post do sr. Galheb é um excerto dele. Ele é bem mais livre e mais fácil de escrever, mas também parece que não é isso. Fico tentando não ouvir a vozinha em meu ouvido, dizendo: "O caminho é o realismo fantástico de Filhos da Meia-Noite e O Tambor; invente um personagem principal aleijado, ou com alguma deficiência específica, e se encorpore nele".

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    2. Ah...sobre o Panorama 17, a primeira frase é perigosamente longa para uma primeira frase, e isso sempre me tirava do sério. Tentei inserir pontos, quebras, mas a coisa gritava. Daí conheci o Javier Marías e descobri uma das coisas mais importantes da escrita, que um defeito pode se elevar a um prodígio de estilo. É como o Kipling diz mesmo, é um demônio interior, sem tirar nem por.

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  5. Uau, não imaginava tanto tempo e esforço investido num romance (em segredo). Mas deixa pra pensar no Pynchon quando o word estiver fechado! Se comparar com esses monstros faz mal pra saúde, hehehe.

    E antes de mergulhar na realização do Grande Romance Brasileiro do Século XXI você sempre pode tentar escrever até o fim uma novelinha tradicional ou um conto longo, algo como Bartleby ou Um Coração Simples, uma coisa mais leve.

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  6. "a falta de percepção das nuances da leitura ou das riquezas da linguagem, e o desprezo contumaz para a humanidade de quem está lá do outro lado da tela."

    É um terror notar amigos e colegas não conseguindo avançar em textos um pouquinho mais encorpados. Literatura nem se fala, não conseguem compreender o que está se passando nem o por quê. Não entendem "por que aqui tem a letra de ladinho, em itálico?", "por que ele não usou vírgulas?", e etc. Palmas para o MEC.

    Uma das coisas que mais me incomoda no mundo acadêmico, que torna tudo mais broxante, é a exigência de se fazer um texto basicão, sem nenhuma mísera inversão sequer nas frases, que, tirando o conteúdo, poderiam ser escritas por um bom aluno de português da 7 série. Frases diretas, tópico seguido de tópico, disfarçado em parágrafo. Poucos professores aceitam e influenciam a fazer algo superior a de um chimpanzé. A maioria é um, dois, três e quatro.


    Na internet o sujeito diz o que NA CARA do outro jamais diria. Ser rude é o padrão. Mas a mocinha foi bem leve contigo. Tenho vergonha de muita merda que escrevi dos 14 aos 18 anos na web. Sério, MUITA. God bless o "nome de usuário".


    Contente pela última frase.

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  7. CIRCO KINGSON
    by Ramiro Conceição
    .
    .
    Este mercado… é macabro!
    Empregaram pra bater punheta,
    no picadeiro do circo Kingson,
    velhinhos com mal de Parkson.

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  8. Concordo com o Matheus (veja a importância disso:): contente pela última frase. Que seja uma decisão séria e se leve adiante. Achei Panorama 17 muito bom: "De algum modo sua abstinência em agir era uma tensa condição de rebeldia de alguém cujo ultimato da mudança já fora promulgado para uma sentença da qual não poderia escapar." Porra, fechou muito bem o final, com a ideia dos sentenciados. E se tu não te identifica com Eme, o q não acho q ocorra, eu pego pra mim e visto com sinceridade.
    Gosto muito das tuas frases longas que se transformam em mil outras, até pelo q não escrevem; mas qdo decidir entremear com concisão tenho certeza de q fará isso muito bem. sério, deixe-se escrever.

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  9. Com tantas idas e vindas o que posso dizer é que a questão em si mesma é um tanto fútil; seriedade e humor não são antípodas, da mesma forma que a mente humana é o que é em si sendo o que tudo é ao mesmo tempo agora, conquanto se perca nesse matagal e termine sinceramente insana, que é mais ou menos o grau máximo da inteligência humana.

    O que quero mesmo saber agora é: com que dinheiro poderei pagar o cartão de crédito?

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