sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nesta noite de sexta-feira desterrada do infinito


52 comentários:

  1. João Antonio Guerra7 de julho de 2013 13:22

    Aproveitando a postagem:

    Charlles, recentemente ouvi o álbum novo dos Swans, chamado The Seer. Foi uma das maiores experiências que o rock me proporcionou. O álbum foi catapultado pro meio dos meus favoritos, lá entre o Who's next e o Starless and Bible Black.

    Por acaso, na mesma época em que ouvi The Seer passeei pela sua postagem sobre capas de álbuns antológicos, lendo sobre a do Unknown Pleasures; também lembrei vagamente de um comentário seu que fazia referência à linha de baixo inicial da música Shadowplay. No fim, achei que suas descrições caiam igualmente bem na obra dos Swans. E eis que ontem uma amiga minha ouviu The Seer e comentou que a banda era "Joy Division pra genocidas". É capaz de você gostar.

    Ao menos a capa é foda: http://louderthanwar.com/wp-content/uploads/Album-Art-Swans-The-Seer-front-copy.jpg

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    1. João, ainda não conheço o Swans. Vi lá na allmusic, e o álbum a que se refere está muito bem cotado. Fiquei ansioso por ouvi-lo, ainda mais que os álbuns do Who e do Crimson dos quais você fala estão também entre meus preferidos.

      Ontem, na caminhada de final de tarde em torno da represa, fui ouvindo pelo fone o primeiro álbum ao vivo do Van der Graaf generator, e o extraordinário Selling England by the pound, mas senti que estou um quanto cansado das mesmas coisas, insatisfeito, e querendo algo novo. Cheguei em casa e repus Coltrane, e a coisa meio que funcionou: Crescent e Giant Steps.

      Obrigado pela dica.

      P.S.: baixei pelo torrent, há uns oito meses, a discografia completa do Robert Fripp, e tem muitas maravilhas nela, inclusive a surpreendente música chamada "ambiente" que ele produziu.

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    2. João Antonio Guerra7 de julho de 2013 20:31

      Conheci Swans quando dei de ouvir a lista que o Kurt Cobain fez de seus cinquenta álbuns favoritos. O último da lista era Raping a slave, do Swans (escrito errado pelo Kurt: o nome verdadeiro é Young God). Desde então, Michael Gira tem sido uma divindade particular.

      Van der Graaf Generator foi um tesourinho meu: dos poucos amigos que gostavam de King Crimson, ninguém conhecia os caras. E eu tinha feito justamente o caminho inverso, conhecendo Van der Graaf primeiro, ouvindo as participações do Fripp e só então enveredando no que mais tarde se tornou a minha banda favorita.

      Ah!, ainda lembro da primeira vez que ouvi a introdução de The Night Watch, lá no Starless and Bible Black... Robert Fripp é um gênio. Tenho esse torrent também, acho; dezenove discos, não? Não ouvi todos ainda.

      --

      Quando a sensação se monotonia me vem, o meu Coltrane é Mingus. Mingus ou os ditos eruditos, no caso. O bom filho à casa torna, e eu sempre volto pra Gustav Mahler.

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    3. João Antonio Guerra7 de julho de 2013 20:33

      Ramirando: errata: "Quando a sensação DE monotonia".

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    4. Baixe, se ainda não o fez, o torrent da discografia de Peter Hammill, vocalista e gênio do Van der Graaf. Espetacular! VdGG é uma de minhas bandas preferidas. Tenho o Pawn Hearts em vinil, o que me enche de nostalgia. Peter Hammill é um herói na Inglaterra, influenciou o Lyndon e um bocado de gente boa.

      King Crimson sempre me deslumbra. Eles estão em um estágio único de excelência no rock, no mesmo patamar dos melhores jazzistas. Aquilo é música de primeiríssima e nunca me cansa, sempre me revela coisas novas. De forma que não é música para caminhadas. No torrent que baixei tem a maravilha de todos os boxs da banda; cada apresentação dos caras é algo único, em improvisos e sensibilidade. Tem um álbum duplo dos caras, chamado Night Watch, ao vivo, que é sensacional. Já notou o quanto o Radiohead deve aos caras?

      Mingus é uma recorrência também na minha vida. Me fez lembrar de uma cena do Rayuela, que penso ser bastante auto-reveladora de Cortázar, em que certo personagem vai meditando que tem a seu dispor o melhor que já se escreveu e as melhores músicas do mundo, e pensa "que bom! que bom!". Me ocorre agora o quanto invejava no tocante à música desse sujeito, mas estamos em 2013, na era do download de tudo que há de excepcional, enquanto Cortázar nos falava de antes de 63.

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    5. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 13:23

      Ainda não conheço nada do Hammill fora do Van der Graaf. Nadinha mesmo. Estou baixando, e junto com ele o torrent que, provavelmente, você baixou também: 13.5gb de Robert Fripp, e além King Crimso; nas pastas do meu hd externo, tenho duas discografias baixadas em torrents separados, uma pro Fripp e outra do KC, e juntas não somam 10 gb. Tem muita coisa pra ouvir ainda!

      Não tenho absolutamente nada de música em cd ou vinil. A mídia digital é falha, mas eu há muito tempo decidi que só gastaria meu dinheiro com livros e mais nada. Ano passado eu estava com tanta, mas tanta vontade de conhecer Pynchon, que passei a frequentar as aulas na minha faculdade incorporado pelo espírito de um Zizek cocainado (pleonasmo?), citando Shakespeare até quando o professor dava bom dia, dizendo com os olhos Por favor, Ser Supremo, fique impressionado e me chame pra Iniciação Científica e me dê dinheiro! Pouco tempo depois, lá estou eu com resto dos pagamentos de um estágio e uma iniciação no bolso; mais Mason & Dixon e Contra o dia, um em cada sovaco. Mas me prostituo assim só por livros.

      Night Watch é das coisas mais incríveis que já escutei. Subir num palco sabendo ser capaz de criar algo daquela magnitude... Não consigo imaginar.

      Faço vinte e um em novembro, cresci já tendo o mundo disponível para download. Lembro que baixei Jazz from Hell, do Zappa, sem nem saber saber o que diabos era jazz, e a partir daí nunca mais parei. O Lobão não é um camarada do qual eu goste muito, mas paguei pau quando ele respondeu aos choramingos de um entrevistador sobre o quão grandiosas eram as bandas brasileiras dos 80, em detrimento das de agora: o Lobão disse que o melhor momento da música brasileira era hoje, em que todos têm acesso a tudo o que produziram antes, das ferramentas à própria música. É claro que esse comentário não leva em conta a concorrência e o mercado (sobre os quais o próprio Lobão adora choramingar), mas foi um dos momentos em que parei pra dizer: taí, Lobão tem razão.

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    6. Esse torrent é extenso pois vem, além da de tudo do Crimson e do Fripp solo, as participações e bandas paralelas (muitas absolutamente desconhecidas) de Fripp. Por exemplo, vem um álbum do Talking Heads (mas, curioso, não vem Pawn Hearts, do VdGG, em que Fripp participa com a guitarra). É um deleite do começo ao fim.

      Taí, prostituição pela literatura. Pynchon também foi um sufoco para mim, na juventude. Meu primeiro dele, o Arco-Íris da Gravidade, eu fiquei meses e meses indo à livraria do shopping namorando-o, antes de conseguir comprá-lo. (Lembro que a vendedora o embrulhou para mim e juntou mais três funcionárias para me perguntarem, estarrecidas, se eu leria MESMO um livro tão grosso.)

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    7. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 13:52

      Verdade, esqueceram dele no Van der Graaf. Ele está também no H to He, mas é numa faixa só. Eu desconhecia que o Fripp tinha tocado no Talking Heads. Lembro só do Belew, das apresentações maravilhosas da época do Remain in light.

      Pynchon é caro, mas vale cada centavo. Pagar com ódio eu paguei as edições do Faulkner pela Cosac, que fez questão de manter a tradição da burrice editorial americana de chamar "If I forget thee, Jerusalem" de "Palmeiras selvagens". Sem contar o fato de que todos os livros, tendo duzentas ou quinhentas páginas (exceto aquele infantil, A árvore dos desejos) custarem a mesma coisa: 80 reais!

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  2. Este The Seer é realmente um assombro. Eu nunca fui fã de Swans, mas resolvi dar uma chance para este disco porque as resenhas que foram saindo eram tão entusiasmadas e elogiosas que fiquei curioso. Catei o disco em mp3 e botei para tocar. Nunca vou esquecer da sensação de desconcerto a medida que o lance ia rolando. Foi caro, mas tive que comprar o vinil. Álbum fantástico demais.

    Vejo que vocês falam muito de jazz por aqui; pois saibam que tem disco novo do Chick Corea na praça! Chama-se The Vigil. Vi um show dele no fim-de-semana e o velhinho ainda é muito mestre. Aliás, sabiam que ele é da igreja da cientologia aquela?

    Gostam de Medeski, Martin & Wood? Esses americanos ao vivo também destroem! É de chorar.

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    1. Estou já no segundo disco, depois do almoço. É muito bom ouvir algo tão de costas para as exigências fonográficas. Realmente o disco é, no mínimo, desconcertante. E fico rindo aqui com a percepção da amiga do João: "Joy Division para genocidas".

      O vinil deve ser quadruplo? Só a faixa título completaria um disco inteiro.

      Corea cientologista! Última coisa que vi dele foi o dvd de retorno do Return to Forever, e gostei muito.

      M,M&W são muito bons, assim como The Bad Plus.

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    2. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 13:36

      Medeski, Martin & Wood são excelentes, e The Bad Plus eu conheço pela versão da Sagração da Primavera que eles fizeram, aqui: http://pqpbach.sul21.com.br/2013/05/29/igor-stravinsky-1882-1971-a-sagracao-da-primavera-para-jazz-trio/

      A mesma amiga do Joy Division para genocidas disse também que, quando entrou aquela guitarra que mais parece um urro bestial na música Lunacy, teve de parar para ligar a luz do quarto.

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    3. Minha esposa, enquanto almoçávamos escutando o disco, perguntou se era trilha sonora para trem fantasma. Valeu pela informação, o disco é ótimo.

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    4. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 13:53

      Ela não poderia estar mais correta! De nada.

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    5. Charlles, exatamente, é quádruplo. Aliás, falaram na capa do disco aí em cima... Já viram como é a parte de trás? Segue aí uma tentativa de link: http://shop.miadoitodd.com/media/wysiwyg/backScreen_shot_2012-07-25_at_3.13.46_PM.jpg

      (Se não funcionar, procurem no Google "swans the seer back".)

      João: eu cresci comprando discos, e ainda tenho esse hábito, que para alguém da sua geração, realmente deve parecer uma loucura, não? [risos]

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    6. Pô! Que contra-capa! Hahahaha.

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    7. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 15:37

      Fabricio, eu não tinha nem ideia da parte trás do álbum. Eu te amo, Michael Gira!

      Não é tanta loucura não. Eu mesmo só não compro porque decidi gastar só com livros, como escrevi lá em cima. Sou um entusiasta dos ebooks - li mais deles do que de livros-livros - e ainda assim insisto em comprar as versões físicas dos que li e amei.

      Um dia, as gerações futuras, com suas impressoras 3d potentes o suficiente para baixar e imprimir a pica do Kafka em metal cor-de-rosa, lembrarão dos nossos livros e discos e dirão que éramos todos loucos.

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    8. Eu já penso que, nessa sua hipotética realidade, se alguém souber quem foi Kafka, vai falar que éramos loucos os que perdiam tempo com ele.

      Posso afirmar que ao menos uma certeza eu tenho: eu jamais lerei um e-book.

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    9. João Antonio Guerra8 de julho de 2013 23:11

      A minha hipotética realidade não tá tão distante assim: http://motherboard.vice.com/blog/scanning-the-future-of-3d-printed-sex-toys-nsfw

      Mas o pior mesmo é que a tua também não: http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2013/07/is-franz-kafka-overrated/309373/

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    10. Eu tenho uma opinião bem consolidada sobre essa questão, João. Vou pelo que Adorno profetizou, que no futuro (o nosso futuro imediato e o vindouro) a única literatura relevante será a mimeografada. A literatura sempre será uma questão espiritual do ser humano, uma grande expressão da indignação. Não tem como fazer isso por e-books e telinhas coloridas, que dividam um texto do Dostoiévski com propagandas da Ricardo Eletro e de sites pornôs. Sempre haverão leitores originais, e para eles sempre existirá o livro (que, em contraposição a uma técnica de menos de dez anos de idade, se convenciona chamar de "livro físico", mas eu chamo de livro, essa ferramenta milenar que, como Millõr dizia, não quebra e não precisa formatar). Não consigo aceitar em um leitor verdadeiro que leia em e-book (isso não é provocação nem nada, apenas minha mais sincera opinião). Livro é uma comunhão cheia de sagradas e antigas idiossincrasias, que durará para sempre, nem que seja em exemplares raríssimos no mercado negro.

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    11. João Antonio Guerra9 de julho de 2013 00:21

      Chamo de poesia aquilo que você diz "livro", "uma comunhão cheia de sagradas e antigas idiossincrasias, que durará para sempre". Poesia, criação. Livro é papel, acidente, milagre. Não consigo esquecer que dos que foram grandes "escritores" prescindindo da escrita, como Homero ou Augusto dos Anjos. Homero você conhece, mas não sei se sabe do Augusto: ele foi a maior injustiça da literatura brasileira (e temos muitas), e compunha tudo mentalmente, raramente se sentando à mesa, sendo que seu único livro só foi escrito por insistência do irmão. E posso ir mais longe: Bach, que compunha coisa nova a cada domingo, e na segunda-feira usava o papel pra embrulhar carne; ou Guimarães Rosa, que ficou anos sem publicar, negando a chance de um trono precoce nas letras nacionais que lhe foi ofertada após a publicação de seu primeiro livro, Magma, mais tarde renegado, e que possui a maior parte da obra como publicações póstumas, porque criar era mais importante do que ter a criação publicada em livro.

      Em todos esses casos, o importante é a poesia advinda da poíesis grega, e não um livro, que é só um produto - um produto com um milagre dentro, mas um produto.

      Acredito que a tensão livro/ebook evoluirá até o nível da que hoje existe entre o vinil, o cd e os formatos digitais, mas não irá além. No meu caso, minha primeira leitura em ebook foi por falta de grana pra comprar o livro, e não parei mais. Como já disse, compro os livros que amo, como comprei ainda agora Desonra do Coetzee para ler da minha maneira direita, rabiscando no livro e nos meus cadernos.

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    12. João Antonio Guerra9 de julho de 2013 00:23

      Já erro logo no comecinho: 'Não consigo esquecer (aqui tinha um QUE que não existe) dos que foram grandes "escritores" prescindindo da escrita, como Homero ou Augusto dos Anjos'

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  3. Olha, eu leio e-books e "livros físicos", indiscriminadamente. Prefiro livros de papel, mas desconfio que seja só questão de costume, de pertencer a uma época. Se for conveniente (acho que não preciso especificar do que falo...), eu leio um e-book. Charlles, nos e-books não há propagandas da Ricardo Eletro e de sites pornôs. Entendo perfeitamente o seu amor pelo livro de papel -- eu também o tenho -- mas acho que se você estivesse nascendo hoje, daqui 20 anos serias o mesmo apaixonado pela literatura que és hoje, mas não odiarias os e-books; provavelmente você conviveria com eles na boa. É, afinal, apenas um suporte, um meio diferente, para a coisa que realmente importa, não? Ou sou um idealista? [risos] Se eu não me engano, o Jonathan Franzen tem um texto contundente contra os e-books, que passa por argumentos técnicos, passa pela biblioteca, etc... Bom, pode ser que existam outras coisas envolvidas, além daquelas relacionadas ao hábito. De todo modo, acho que essa discussão toda é só pelo prazer da coisa -- assim como a das mp3, vinis, etc -- pois no fim tudo se acomoda e vive meio que harmoniosamente, seguindo a demanda de seus fãs e nichos, não? Ou será que nisso também em breve nosso capitalismo irá falhar?

    (É uma "resposta" cheia de perguntas porque tirando o depoimento sobre minha relação amistosa com os e-books, sobre a qual eu tenho alguma convicção -- mas nem ela é 100%, preciso dizer [risos] -- o resto é tudo especulação.)

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  4. (Puxa, me desculpem por ter publicado o comentário acima fora da thread que vocês estavam seguindo, foi trapalhada minha. Charlles, se der para arrumar aí, fica a vontade. E desculpem também se eu estiver prolongando um debate já meio que repetido demais por aí... Mas é realmente difícil escapar deles!)

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    1. Desculpo não. Foi ótimo o que disse. Mas vejo o e-book como um protótipo de um novo arranjo para a sobrevivência de escritores. Se os livros acabarem e ficar apenas essa mídia, que é passível em muito de existir a pirataria da obra, a minguada sobrevivência do escritor estará dependente de outras empreitadas que não a venda (que já não existirá, penso), daí a abertura para anúncios virtuais no canto da página. Mas tudo é especulação.

      Eu fico absolutamente tranquilo quanto à sobrevivência do livro, e e-books não me metem medo. Só me parece, o e-book, algo precocemente anacrônico. Quem gosta de livros, eu costumo dizer, é semelhante aos tabagistas, e o e-book seria o cigarro eletrônico. Acho difícil alguém ler as 3 mil páginas de Em busca do tempo perdido pelo kindle, pois trata-se de uma atividade sentimental e combativa, faz parte sentir o peso da obra nas mãos, ver quanto da jornada ainda resta pelas páginas a serem conquistadas. Todo grande leitor é um romântico.

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    2. Mas me desculpe, João. Eu que sou ranzinza nesse assunto. Há grandes leitores sim que leem e-books. Vejo em vários sites de literatura sobre isso. O Luiz Ribeiro mesmo é um deles. Apesar de não ser tão velho, faço parte do time do Vargas Llosa, que tem repúdio a essa mídia, o que pode dar tons mal humorados a meus comentários (o que não é verdade).

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    3. Misturando os assuntos, Zizék faz uma análise memorável dos filmes de Tarkóvski (não me recordo em qual livro,suponho que seja no "em defesa das causas impossíveis"), dizendo que as cenas características desse soberbo criador mostram uma pausa no capitalismo, regiões aonde o capitalismo não entra, o que gera uma beleza impactante os quartos de paredes calcinadas, os entulhos de ferro velho em beiradas de rios, etc. O livro também é uma região aonde o capitalismo não entra, tanto por vir antes dele quanto por ser o único portal eficiente para se abduzir dele; o livro tem essa qualidade sagrada de refúgio atemporal, uma fortaleza ideológica feita com uma biologia telúrica, árvores e cola e tinta, envolve cheiros, gordura das mãos, intimidade. O livro, para ser bem exagerado e próximo ao ridículo (mas penso mesmo assim), é um graal que nos retira desse mundo, à força de expandir nossa compreensão sobre ele, daí não funcionar nesse avatar mercadológico que o transforma em mais uma tela brilhante, em mais um joguinho virtual infantilizante. Penso que o e-book irá reduzir substancialmente o número de leitores, caso o livro fosse exterminado, pois a aquisição do gosto pela leitura vem do manuseio, da percepção serena e demorada de que a leitura é cúmplice da poeira e da sala silenciosa, do sol quieto passando pela janela aberta da biblioteca excluída da algaravia do mundo lá de fora. Vejo isso em meus filhos, que quando chega livros novos aqui, eles o cheiram profundamente e se sentam com eles nos colos, para pesquisar as imagens e ler as letras maiúsculas. Uma criança não irá perceber a diferença religiosa do livro em uma tela que a remete imediatamente ao computador e ao jogo eletrônico.

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    4. João Antonio Guerra9 de julho de 2013 23:02

      Conheço sua escrita e não confundo as coisas: sei que não há mal humor nos seus comentários. Pode ficar tranquilo, Charlles. Leio neles um debater-se contra o sequestro da aura da obra de arte - "Uma criança não irá perceber a diferença religiosa do livro em uma tela que a remete imediatamente ao computador e ao jogo eletrônico" é um ippon no caso, e com ele concordarei até morrer.

      Em tempo: estou ouvindo The Night Watch agora (o álbum ao vivo, não a música de Starless and Bible Black), e descobri que, no arquivo que eu tinha anteriormente, não constava uma conversa do Robert Fripp com a plateia no final da faixa do The Book of Saturday. O arquivo saltava direto pra Fracture, ignorando uma frase maravilhosa e espantosamente espontânea do Fripp: "We shall now tune our mellotrons and attack culture once again". Fez meu dia.

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    5. hahaha. Frase espetacular! Me lembro de tê-la ouvido neste álbum fantástico.

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    6. Charlles, é sempre inspirador ler suas declarações de amor aos livros! (Sou seu leitor há algum tempo, mas só recente perdi a timidez de enviar comentários.) As intervenções do João e do Luiz também são ótimas. Compartilho com vocês todos desse amor pelo livro (o de verdade, de papel [risos]). De tudo que vocês citam apaixonadamente -- o peso, o manusear, o cheiro --, me é muito caro o cheiro. Em particular, o cheiro dos velhos livros do meu avô já falecido, cheiro de papel velho que me traz um mundo indescritível de lembranças da infância, de quando eu descobri a literatura, etc. Vez ou outra eu vou até minhas estantes pegar um desses velhos livros do meu avô -- geralmente, algum volume da linda coleção da obra completa do Conan Doyle, que ficou comigo -- apenas para abrir e me deixar inebriar por tudo aquilo que o aroma automaticamente me desperta. Nesse breve caminho até os livros, eu penso, "mas por que fazer isso, se eu já fiz milhões de vezes antes e sei exatamente o que me espera?". Mas eu sigo e é sempre uma revelação, uma alegria profunda, pois chego lá, abro o livro, sinto ele, leio uns trechos das aventuras de Holmes e Watson, aspiro o papel velho, e é muito, mas muito além daquilo que eu poderia antecipar antes de chegar lá, mesmo sendo tudo tão familiar. Às vezes acho até que cada vez é como se fosse a primeira, a primeira volta à infância depois de ter chegado à vida adulta.

      Nossa, que viagem, me desculpem [risos]. Mas é só uma historinha para ilustrar que também amo os livros reais como vocês (e-books nunca proporcionarão nada sequer vagamente parecido com isso!), e nunca poderei viver sem eles. [cont.]

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    7. [continuando] Mas permitam-me acrescentar uma coisa ou duas. Não como contraponto -- já falei antes estar mais especulando do que divergindo, certo? --, até porque não tenho a impressão de que vocês estejam preconizando o fim da literatura... Mas pelo menos um certo desprezo pelos e-books de repente eu consigo atenuar [risos].

      Conhecem aquela historinha de quando apareceram as primeiras gravações fonográficas? Eram peças de música clássica, acho. Houve então uma indignação geral, muitas pessoas acharam que era uma aberração querer empacotar a experiência mágica da música -- até então sempre vivenciada ao vivo -- num objeto físico vulgar, que a reproduziria igualmente eternamente, sem trazer a atmosfera da sala de concerto, da visão dos músicos etc. Pois é... passou um pouco de tempo, e hoje cá estamos nós preocupados justamente com o eventual fim desses objetos vulgares que empacotam a música [risos]. Desconfio que no futuro, quando o pessoal olhar para trás com essa mesma perspectiva histórica, nós aqui reclamando dos e-books não seremos muito diferentes do pessoal mais velho esse que reclamava das gravações de música. E, da mesma forma que a música continua existindo hoje e vai muito bem obrigado, a despeito das eternas convulsões e discussões acerca de formatos, mídias etc, a literatura lá para esse pessoal do futuro também continuará existindo e tendo o seu mesmo valor; e se por acaso tiver um pouco menos de valor (como muitos sustentam que a música tem menos hoje), acho que será por questões sócio-culturais outras diversas. Acho. Espero. Mas apostaria nisso, pois sou um eterno otimista com o futuro [risos]. [cont.]

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    8. [continuando] Pra fechar. Estou de passagem por uma cidade de cultura livresca fascinante -- talvez seja a cidade literária por excelência. Ela está no título de livros de Kerouac, Vila-Matas e Hemingway. Escritores sonham em morar aqui. Por onde você anda, você cruza com livrarias abarrotadas de livros, lindas (sem sinal de decadência, como as do Canadá, conforme relatado pelo Luiz), que a experiência própria já me ensinou evitar de entrar se eu não estiver procurando por alguma coisa, caso contrário eu perco a noção de tempo e fico horas lá dentro. (Ontem eu não resisti e entrei numa, e foi com grande dificuldade que deixei de comprar um grande volume do Godard sobre a história do cinema, pois tenho tentado viajar com pouca bagagem.) Pois bem, eu morei aqui alguns anos atrás, antes do advento do Kindle, e sempre me fascinou ver como as pessoas lêem aqui. Nos parques, andando na rua, nos cafés, na boulangerie... Mas é no metrô que a coisa atinge níveis até hilários. A cada três parisienses, dois estão lendo, sempre. Nos horários de pico do fim de tarde, eles enfiam suas baguetes debaixo do braço, apóiam suas leituras nos ombros dos passageiros dos lados, fazem um tremendo esforço para compensar o balanço do metrô e permanecer de pé... mas não abrem mão de ler, sejam livros, revistas, Le Figaro, Le Monde, Le Canard que sei lá o que [risos]. Em um simples trecho de um ponto a outro, em um único vagão, eu vejo mais gente lendo do que em um ano de ônibus em Florianópolis, onde moro. É emocionante. Então, tá muito quente aqui, daí ontem fui passar umas horinhas ouvindo música (comentário correlato: toquei o Larks' Tongues in Aspic!) e lendo deitado na grama de um parque, e daí reparei na mesma enorme quantidade de gente tomando vinho e fumando e lendo, como sempre. Mas percebi também que pelo menos metade lia em um Kindle (ou similar). E não só jovens: muitos velhinhos também. É muito simples e conveniente, cabe no bolso de trás da calça. Nos metrôs também muita gente já utiliza. Pra mim, pelo menos nesse ambiente aqui, onde se lê de qualquer jeito e não apenas na biblioteca vendo o sol passar pela janela, é fácil então conseguir separar as coisas. Acho que a essência da literatura permanece, por mais que nossas experiências com os seus suportes físicos mudem de acordo com as circunstâncias de cada geração, de acordo com a técnica de cada época. Pode ser cruel para nós pensarmos nisso, apegados que somos aos livros reais de papel... mas também dá um certo alívio, não?

      Ufa, chega! Me desculpem o tantão que escrevi, e prometo não insistir mais [risos]. Agora vou nessa, fazer minha usual visitinha ao túmulo do Jim Morrison e -- me convenci enquanto escrevia tudo isso -- comprar o livro do Godard... Não tenho Kindle, então vai o tijolão de papel mesmo, que darei um jeito de enfiar na mochila!

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    9. Ótimo comentário, Fabio! Ótimo! Deu vontade aqui que você continuasse e continuasse a escrever...

      Vou para o trabalho agora, por isso não posso responder mais (e nem precisaria, né) ao que escreveu. Mas, mais tarde, retorno.

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    10. P.S.: só uma coisinha que o provocador em mim não quer ficar sem dizer: por que muita gente que conheço tem uma certa vergonha de falar que esteve ou está em Paris? Como se fosse uma culpa ou uma ostentação afirmar esse privilégio? :-))

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    11. Puxa, eu tenho a impressão contrária a sua: as pessoas adoram dizer e exibir fotos de que estão na cidade onde..., ops, digo, Paris! Você não deve utilizar Facebook e similares, certo? [risos]

      (Mas, ei, eu disse! Só que sendo este um blog sobre (entre outras coisas) literatura, achei mais legal dizer de forma indireta, através das referências que utilizei [risos].)

      E que bacana que você gostou dos comentários; temia ser desabonado publicamente pela falta de síntese, apesar de saber que você gosta dos livros caudalosos! Estou curioso para ler o que você tem a acrescentar... Sei que é uma discussão hoje em dia bastante repisada, mas gosto bastante de ler sobre isso. É como se procurasse por mais e mais argumentos e opiniões que possam fortalecer meu próprio amor pelos livros, num cenário cada vez mais desfavorável a eles (e que o meu lado racional, paradoxalmente, não consegue ver nisso uma grande catástrofe)...

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    12. Desculpe ter te chamado de Fabio, Fabricio. Sou dislexo com nomes e sempre passo por esse constrangimento.

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    13. Tenho um amigo que colocou no face dele fotos de sua ida com a esposa a Paris. Comentei que as fotos ficaram muito boas, e ele pediu desculpas, disse que ia retirar as fotos, que era coisa da esposa. :-)

      Mas... estou no escritório, por isso tenho que ser ligeiro: penso que a questão dos livros é um tanto mais atípica que os tantos exemplos de supressão de mídias por outras, como o rádio pela tv, o teatro pelo cinema, e a música assistida ao vivo e o advento do vinil. O livro é uma das invenções fundamentais do homem, um catapultador da evolução cultural, científica, política, social e todos os afins. O conhecimento e o modo de pensar da humanidade estão condicionados à forma do livro. A supressão do livro envolve muito mais traumas que a simples reconfiguração do áudio para a imagem do tubo, muda-se a forma de pensar. Se pensarmos bem, o livro é a única das invenções centenárias que prescinde da eletrônica, e isso traz muitos nuances que estão por detrás do gosto da leitura, e a relação poeira da sala e cheiro da página, e os tantos espólios afetivos que nos vem dos avós e dos pais (lembrete para mim: escrever um texto sobre as coisas sentimentais que já encontrei em livros: asa de borboleta, recibo de compra de 50 anos, cabelos, marcas humanas, pequenas folhas de árvore: um amigo encontrou no lixo um livro anotado em que a ex-dona marca a data da descoberta de sua gravidez em uma página, e cem páginas adiante a marca sentida do aborto). Há muito para se dizer, mas acho que o diagnóstico não passa por uma simples reconfiguração de plataforma. E os livros continuarão a existir: há sempre um mesmo número de leitores verdadeiros pelo mundo, como uma conglomeração rosacruciana, e esse número irá se manter. Posso até considerar ler no Kindle um Dan Brown, ou um Stephen King, mas leitor verdadeiro jamais leria Dom Quixote, ou Saul Bellow, ou José Saramago ou Dostoiévski senão pelo livro.

      E se houvesse por aqui a acessibilidade a todos os cds que eu gostaria de ter, eu os compraria. Por exemplo a coleção do King Crimson (tenho o Aspic, e mais uns cinco), e comprei uma caixa de sete cds originais do Coltrane e os aguardo chegar. As coisas continuam, há uma harmonia mínima que permite a sobrevivência. Como Tagore afirmou um dia, é preciso muitas coisas para matar um homem. Seu comentário traz uma lastro adstringente de otimismo.

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    14. Só mais uma coisa: o livro sempre foi uma peça de resistência, um elemento de subversividade, um instrumento para quem anda na contramão e para suicidas ideologistas. Imagino como mudaria minha leitura de Extinção, do Bernhard, que é um dos livros capitais da minha vida, se eu o lesse no kindle. Não faz sentido. Ou pior: será que Bernhard o teria escrito em uma realidade em que só poderia o fazer para a publicação na telinha? E o sensacional excerto de O Castelo, que você publicou no tumbrl, existiria se Kafka não fosse a toupeira escrevendo para ninguém em sua gruta espiritual? A literatura, como eu sempre a percebi, é feita, na grande maioria das vezes, por fracassados, que são incompatíveis a esse mundo: Tolstói, Faulkner, Kafka, Proust, Joyce. Gente que poucos se importa para as higienes e condições instituídas da "vida que se exibe", da vida de vitrine. Isso é absolutamente incompatível com o e-book. Imagine o Tosltoi, que só vestia um bata rústica e deixava crescer um desgrenhada barba, escrevendo para uma telinha que é o suprassumo do mundo vendável e consumista que ele mais combateu? Não é uma simples questão de plataforma. Ou o místico Blake escrevendo para ser vizinho em redenção neônica a um anúncio da Coca-Cola?

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    15. Então só me resta dizer: vida longa ao livro de papel!

      Sem problemas quanto ao engano do Fabio/Fabricio. É muito comum trocarem meu nome, não sei bem porque... Mas geralmente é Maurício ou Francisco -- Fabio acho que foi inédito!

      Ah, deixa só eu dizer: curioso você citar o Dostoiévski. Certa vez comecei a ler um livro dele em e-book (não tenho o Kindle, mas tenho um iPad, que utilizo principalmente para fins de trabalho e só eventualmente leio nele, principalmente quando estou viajando). Desisti logo no começo, mas não foi nenhuma insatisfação com a leitura não, foi porque o arquivo estava com problemas. O que eu já li na telinha: Bukowski, Ross MacDonald (pra mim, mestre no nível de Chandler e Hammett), e mais uns dois ou três...

      Charlles, seu blog é ótimo. Obrigado pela recepção, você me deixou à vontade agora para comentar vez ou outra! Aliás, se nesta sexta que começa a amanhecer desterrada do infinito for rolar aí a audição dedicada de algum álbum, permita-me uma sugestão: The Necks. Conhece? Acho que é jazz... Mas é um jazz diferente. Ambient-jazz, talvez [risos].

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    16. Como diz o Millõr, em sua defesa antológica do livro (mais uma vez): "O livro não quebra". :-)

      Obrigado, Fabricio. Esteja à vontade.

      Estava vendo a lista de livros que você leu nos últimos meses, e sua classificação para eles. Você é um leitor devoto! E você é uma prova do elo entre as categorias de dois tempos, já que é um profissional da web e um baita leitor.

      Adoro o noir americano, embora nunca tenha lido MacDonald. Neste campo, te recomendo um romance atual impagável, que eu daria 5 estrelas, o "Associação Judaica de Polícia".

      The Necks? Vou atrás. Achei antes de ontem em meu HD o Albert Ayler, "Spiritual Unity", que tem me deixado hipnotizado e me aberto as portas do free jazz.

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    17. Ah, mas livro quebra sim, como não? E às vezes também vem com defeito de fabricação: quando comprei a biografia da Patti Smith ("Só Garotos", muito boa), ao folhear pela primeira vez, me deparei com uma página grosseiramente dobrada e amassada...

      Mas eu entendi o recado. Quebra menos, sem dúvida. Não tem problema de incompatibilidade, não acaba bateria [risos].

      Charlles, leio bastante, mas não tanto quanto gostaria. Acho que sofro do mal (contemporâneo?) de ter interesses diversos demais... Mas tenho tentado me dedicar a menos coisas, e literatura é prioridade das prioridades. Um dia chego ao nível de vocês, em termos de livros e autores devorados!

      Free jazz é uma aventura em tanto, não? Difícil, mas pode ser recompensadora. Certa vez li uma lista dos 10 álbuns preferidos de free jazz do Thurston Moore, guitarrista do Sonic Youth. Como sou fã do SY e tinha uma curiosidade acerca do free jazz, catei alguns daqueles discos. Olha, tinha coisas maravilhosas e outras bizarramente inaudíveis [risos]. Aliás, o próprio Coltrane, em sua fase final, tem uns discos experimentais desse tipo, não? Preciso ouvir mais.

      Sobre o Necks, se quiser uma dica mais específica, vai nesse: http://www.discogs.com/Necks-Chemist/master/65202. Você gosta do "Olé", do Coltrane? Esse disco do Necks lembra um pouco ele, no que tem de hipnótico.

      Obrigado pela dica do noir, vou procurar! Devolvo com uma dica de Ross MacDonald: "Dinheiro Sujo". É fantástico!

      Ah, e você percebeu antes, estou lendo o "O Castelo" do Kafka. Que leitura viciante, não? A gente vai se enveredando, enveredando... E tem uma coisa, não sei se é uma leitura muito equivocada de minha parte (se é que existe tal coisa), mas é ou não é (também) hilário demais tudo aquilo? Eu dou risadas lendo esse livro como poucas vezes dei risadas lendo qualquer outro livro. Sei lá se era o objetivo do Franz, mas não consigo evitar.

      Ó, viu, me recebeu bem, agora não consigo sair daqui [risos].

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    18. Também gosto muito do Sonic Youth, e não sabia dessa lista, assim como não sabia da lista dos 50 álbuns do Cobain, que o João falou. Realmente a fase mais tardia do Coltrane é difícil de enfrentar, principalmente aquele disco duplo que parece o ruído do apocalipse prolongado em mais de uma hora de gravação, "Ascension". Mas vi no allmusic que o Ayler influenciou Coltrane_ mas esse Ayler é excepcionalmente bom!

      Esqueci: o "Associação judaica de detetives" é de Michael Chabon, pra mim o melhor escritor norte-americano dessa última geração.

      O Castelo é uma festa. O humor é proposital: há um ensaio sobre isso do Foster Wallace.

      Ainda mantenho: o livro não quebra. Pode vir com falhas de impressão, mas não trava e nem corre o risco de perecer em algum dos futuros panes da net anunciados pela teoria da conspiração, em que toda a memória virtual fica passível de sumir (como a da esperada mudança do calendário em 2000, e como me lembro de um relato assustador de um livrinho muito bom mas desconhecido, chamado "A era do inconcebível", publicado pela Cia).

      Bom saber. As portas estão sempre abertas, renovo.

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    19. "Achei antes de ontem em meu HD o Albert Ayler, "Spiritual Unity", que tem me deixado hipnotizado e me aberto as portas do free jazz."

      Amen, brother!
      Na verdade você já era um verdadeiro iniciado em Free Jazz, não? Quem ouve Charles Mingus com a devoção e abertura qual você já é em espécie preparado para o experimentalismo do Third Stream.
      Já que Ayler te desvirginou, por favor, Charlie, ouça novamente The Shape of Jazz to Come do Ornette Coleman.
      Lonely Woman mudou a minha vida musical-sentimental.
      E quando tiver algum tempo, baixe o disco novo (que provavelmente será o último) do Wayne Shorter, o Without a Net. Primorosa reinvenção de texturas do Third Stream desse que é para mim o maior nome do Jazz. O album tem uma deliciosa releitura do clássico Orbits, da época do melhor quinteto do Miles (olha eu mexendo com você de novo)!
      Ah, e só para constar. Eu também ainda não consegui digerir o Ascension. Acho que o disco deve ser ouvido um pouco como um exercício de retroativo estético. Faz-se necessário ter vivido os turbulentos fins dos anos sessenta para de fato entender o espírito libertário daquela música. Nesse sentido o Ascension é um disco político também (apesar do Trane ter apenas timidamente flertado com o jazz enquanto protesto político, até onde me consta). E Jazz político por Jazz político eu reafirmo a minha fidelidade ao Freedom Now Suite (We insist!) do Max Roach.

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    20. É porque eu preconceitualizo o free jazz como o que o Cecil Taylor faz, e aquelas longas sessões de exorcismo. Nada contra, claro! O free jazz é uma evolução natural do jazz, criativíssima, extrapoladora de fronteiras. O Spiritual é incrível, começa com uma frase musical belíssima, ao mesmo tempo doce e equilibrada, principalmente equilibrada, de coisa bem pensada, para dar vazão ao que vem adiante (minha esposa diz que parece que os músicos vão ficando cada vez mais emputecidos por não produzirem as notas como eles querem, e vão quebrando o pau). É um grande disco.

      Vou reescutar o Coleman. Não tenho nada contra esses caras, claro, só não os revisito com a frequência certa.

      Jazz político, é assim que escuto o Coltrane, para mim o cara mais sublime do jazz, em tudo que ele representa, inclusive aí em suas falhas. Desde que ouvi uma sessão de My Favorite Things, eu fui seduzido pelo Coltrane de forma inapelável. O cara, em cada fase, e olha que as fases se diferenciam bastante, ele tem algo espiritual muito elevado para comunicar. Ainda acho que sua fase mais bela_ formalmente mais bela_ é a do melhor quinteto do Miles (não preciso descordar de você sobre uma unanimidade, meu chapa), principalmente nos melhores álbuns da música, o Milestones, o Roundabout, o Kind of Blue.

      Há coisas boas demais do jazz para se ouvir, e coisas infinitas ainda por descobrir nessa música. O jazz sempre será subvalorizado, por mais que ele seja cultuado, ainda está por vir a canonização definitiva no mesmo patamar da música clássica, com um adendo de elevação a mais pelo que o jazz tem de importância política, étnica, etc.

      Mas vou atrás do novo do Shorter.

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    21. Há coisas bem difíceis do Cecil Taylor. O desafio do Freejazz é que ele gravita entre o cerebral e o extático. Daí o mood se torna sine qua non para ouví-lo. Ascension e Om do Coltrane são muito extáticos para se apreciá-los num estado normal de consciência.
      A música tocada ao vivo pelo último quarteto do Shorter é muito cerebral. Eu confesso que saí do show dele com uma baita dor de cabeça. Não em razão do som em si, mas por conta de tentar acompanhar o raciocínio da música.
      The Clown do Mingus é ruim porque heterodoxo demais.

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    22. Charlles, a lista do T. Moore: http://rootstrata.com/rootblog/?p=1801. Utilize-a por sua própria conta e risco!

      Quando terminar o "O Castelo", vou correndo atrás desse ensaio do DFW sobre o livro. Já li bastante coisa dele, mas nem sabia da existência desse texto.

      (Ouvindo agorinha mesmo o "Dancing On Your Head" do Ornette Coleman. Acho ótimo, e também facilmente assimilável... )

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  5. Charlles, vou jogar no seu time pelo menos dessa vez (eu que, você sabe, defendo o livro como invenção milenar, mas que penso que a guerra já está perdida, que o livro vai sim desaparecer enquanto ferramenta ou, mídia propriamente dita - "mídia", se se quer acabar com o mundo lexical do qual faz parte o livro, submergindo-o no mundo das metáforas tecnológicas).
    A único ponto do códice que não conseguiu ser ainda replicado nos bons e-books (Kindle, Kobo, esses e-books que silmulam mesmo o livro, apresentando um simulacro do papel na tela que não emana luz e não agride os olhos) é essa coisa do manuseio do códice físico, da rápida mudança de páginas, de localizar-se rapidamente por intermédio de orelhas de páginas dobradas, de marcar a leitura presente com um dos dedos e manusear os restantes dentro de páginas para frente ou para trás, da memória tátil e física que a leitura apaixonada imprimi sobre o lombo dos livros imprimindo como que em um marca-texto a nossa passagem e nosso histórico sobre as páginas do livro.
    Eu ainda me irrito bastante com a falta de recursos semelhantes no e-book. A lógica ditaria que um processador de busca de palavras seria mais diligente que recursos aparentemente mais pedestres. Nesse quesito o códice ainda é irreplicável.

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    1. Falam em acabarem os livros, mas o que vejo é só uma tentativa não muito bem sucedida dos marqueteiros em vender o livro eletrônico. Não vá pelas estatísticas de venda dos e-books dos 50 tons e do Brown; isso é bijuteria.

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    2. É que para o bem ou para o mal, no Brasil vivemos na periferia... ainda não chegou às bordas do império as novas de que Roma caiu sob os pés dos bárbaros.
      Se eu tivesse metade do seu talento já tinha escrito uma espécie de etnologia da decadência das livrarias aqui em Toronto, do estado de abandono dos sebos, de livros sendo vendidos aos montes e em atacado a preço de latas de estrato de tomate, do aumento vertiginoso dos estandes de livros a cinquenta centavos por cabeça na calçada, e também da percepção de que meus alunos não lêem mais livros (raramente vejo alunos na universidade de Toronto andando com livros nas mãos).
      Noutro uma dia uma nota do Toronto Star que fez alguns leitores se estarrecerem. O Toronto school board autorizou que algumas das escolas de nível médio da cidade pudessem jogar fora os livros didáticos (e não didáticos) de suas bibliotecas que eles consideravam em desuso, de pouca circulação e tal. Tomos e mais tomos sobre Martin Luther King Jr., Malcon X (coincidentemente) apareciam nas fotos. O Toronto School Board raciocinava que ninguém por aqui se interessaria pelos livros, e que mandá-los por remessa para algum pobre país de terceiro mundo custaria muito caro. A solução, reciclá-los.

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    3. Quase que não acredito em você. Onde estão os leitores tradicionais do Canadá? Há alguns meses saiu na Veja que as livrarias prosperam no Brasil, faturam e abrem novas filiais, enquanto o livro digital não colou por aqui. E a Estante Virtual, o grande site que arregimenta sebos por todo o país, faz considerável sucesso. Por favor, olhe com maior candura para essa situação no Canadá e confirma que trata-se de um engano apressado e sentimental da sua parte.

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    4. Matheus, dou aulas no departamento de Religião da U of Toronto.

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