sexta-feira, 5 de julho de 2013

Da abdução celestial em quartos vagabundos escuros



Sempre que pego Proust para ler, reler as passagens sublinhadas, ou me preparar para enfrentar os volumes do romance que me esperam, lembro-me da informação um tanto surpreendente de que Kerouac foi um de seus ardorosos leitores. Li, acho, On the road umas três ou quatro vezes, ou talvez mais, não sei, não fico contando. Lembro que uma das leituras, a primeira, foi na adolescência, movido pelo rock´n´roll, Jim Morrison, as modas colegiais que incentivavam tanta coisa bombástica que tinha a qualidade de se exaurir com o mesmo potencial de escândalo (coisas como Sartre, que nunca mais li e nem tenho em minha biblioteca, ou a literatura juvenil contestadora que se fazia no Brasil da época), e, com esse arsenal, o livro me pareceu extremamente bom, extremamente enérgico, mas perigoso. Talvez pelo sexo, pelas drogas, pela homossexualidade_ o cara que eu era, como seria bem natural, se espantava com essas coisas_, o livro tinha um empecilho que impedia com que me lançasse deliberadamente a ele. Esse medo da leitura era recorrente em minha primeira juventude, às vezes motivado pela incompetência dos professores de literatura, o que me levou a só entender o satânico, imperial, raivoso, ateu extremista do Nietzsche anos depois (começou em uma tarde suave em uma biblioteca pública em que Nietzsche se descortinou com toda sua beleza desprotegida e combativa na frase do Zaratustra, algo como "só estamos nessa vida por um motivo: pelo amor"). A segunda vez que li Kerouac, que me lembro, foi quando readquiri On the road, que eu havia perdido nas minhas andanças, ou doado, ou aceito a vilania irremediável de trocar dois livros por um em um sebo, na edição de bolso, e o reli religiosamente nas noites sequenciadas de uma mesma semana, religiosamente acompanhado por duas doses de uísque. Era uma semana de frio intenso, e eu colocava a cadeira na varanda, talvez inconscientemente atendendo à recomendação de mais um dos símbolos em torno de Kerouac, o Raul Seixas, me cobria com um cobertor, e deixava tocando uma seleção de álbuns do Grateful Dead. Assim, me parece de uma vivência sinestésica única a viagem de Kerouac na carroceria sem escoras de proteção, junto a um índio, a um negro, e a outras pessoas de olhares introspectivos e sonhadores, dirigida por dois irmãos malucos que quase matam todo mundo e que sempre arvoram um enternecedor sorriso de santa inconsequência quando param nos postos de gasolina da estrada para abastecerem e comerem um engasga-gato.

É estranho, num primeiro momento, que a companhia dessas viagens para Kerouac seja o grande romance de Proust. Nenhum autor parece estar no outro extremo de influências para Kerouac que Proust, e nenhum estilo mais distante do de Kerouac que do francês. Mas a gente vai percebendo, fascinado, que a mesma fluidez, a mesma paixão visceral absoluta pela literatura, perpassa com igual veemência Proust e Kerouac. Imagino a felicidade de Kerouac, nas beiras da estrada, debaixo de uma sombra de árvore, nas margens tranquilas de rios, nos quartos vagabundos das grandes cidades, em que esteve sempre de passagem no momento em que vivia as andanças de On the road, retornar para a língua de Proust, para o universo abundante, generoso, infinitamente humano, contestador e sensível, e deixar-se transpassar pelo jorro de humor inteligente, a corrente metafísica de Proust. Imagino como a miséria ficava constrangedoramente invisível para o Kerouac estancado nas paragens espirituais de Em busca do tempo perdido, o quanto as filas de espera dos banheiros tenham sido indiferentes para o adrenergisado íntimo do viado mais genial e livre entre a maioria opaca e sensaborica da humanidade. O quanto Kerouac ficava incendiado de felicidade por estar à mesa da erudição onipotente de Proust. (Algo me vem também à memória quando penso nisso, no único leitor da minha família, o único erudito roceiro que não pertencia às castas burras dos diplomados que só leem manchetes de jornais do restante de meus tios e primos, meu pai, que no meio da floresta retirava Cem anos de solidão do alforje, após um dia glorioso de trabalho suado, e se punha a ler, enquanto lhe acalentava o som da chuva torrencial amazônica batendo contra o teto da pequena e isolada marcenaria. O dia que o reencontrei nesse seu ambiente, após ver na estante de sua casa de madeira uma pequena coleção que ia de Thoreau, Tolstói a miscelâneas de passatempos como William Peter Blatty, ele estendeu os braços para as árvores e me disse, sem que eu o tivesse consultado verbalmente: "Deus também está aqui!".)

A última vez que li Kerouac foi a edição definitiva, sem cortes e com os nomes reais dos personagens de On the road, e também desta vez estava ali o fascínio, e a deliberada presença alternante de Proust. Há muito, como deve ser óbvio, eu já alcançara a maturidade ao menos suficiente para ler o americano sem filtros e sem preconceitos. Me parece agora, de forma muito intima, bastante semelhantes esses dois escritores, ressalvadas as grandezas da ortodoxia. Me parece que uma frase como essa, "meu pai dedicava a meu gênero de inteligência um desprezo suficientemente corrigido pela ternura, de modo que tinha afinal uma cega indulgência por tudo quanto eu fazia", tem o mesmo grau de concentração e beleza para ser outorgada a qualquer um dos dois, ainda que a intuição diga que é de Proust. E os vagabundos iluminados me parecem muito próximos e indistinguíveis de Proust...

15 comentários:

  1. Interessante essa relação, não dá nem pra imaginar o olhar do Proust pro K.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como dizem, após publicada a obra, essa não pertence mais ao autor_ é de todos. Por mais que sejam grandes as diferenças, ninguém pode tirar a proustianidade de Kerouac (aaai..., mais uma dessas e Gil e Caetano vão me cobrar direitos autorais).

      Excluir
  2. Charlles, camarada, vê se escreve sobre seu pai. A ocasião do encontro na mata merece ser muito bem explorada. Vai lã, fico aguardando!

    ResponderExcluir
  3. Respostas
    1. Acontece que eu, nestes últimos meses, venho escrevendo muito sobre isso. Mas já pensei mesmo que esse blog tem um grande lapso por não ter um esforço concentrado neste sentido. Vou escrever ainda, Wagner.

      Obrigado.

      Excluir
  4. Faço adesão ao pedido do Wagner. (Esse blog é tão bom que a gente pode fazer até encomenda de posts, não é mesmo?). Uma tentativa mais concentrada de colorir esse Thoreau da Amazônia representaria mais uma dose cavalar de felicidade aos seus leitores (pelo menos a esse leitor aqui).

    Perfeito o comentário do fanfarrão, dois posts para baixo, chamando sua escrita de "wikileaks da alma." Acho que nunca ri tanto por aqui.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tenho que me livrar da imagem que me veio na cabeça: uma dançarina recebendo dinheiro na presilha de sua cinta liga.

      Excluir
    2. massa ter feito um cara como o Luiz rir dessa forma. deixara tudo em minúsculas, claro, pro charlles adivinhar com facilidade, pero sin perder la piada!

      Excluir
    3. e o charlles já escreveu, lindamente, sobre o pai. mas é claro, sempre queremos mais e mais - seus posts autobiográficos sao sempre os melhores(perdoem-me os outros posts, q ficam no nível apenas do excelente)

      Excluir
    4. Eu sabia que era você. O comentário do "Snowden" deve ser de seu alter-ego, o Matheus.

      Excluir
    5. Vocês quis dizer Cesare Batisti né...

      E alter-ego do arbo é o @#$%&! hehe

      Excluir
    6. Foi só um verde (mentira, me confundi).

      Excluir
    7. mal consigo ligar com meu ego, imagina com um Alter.

      Excluir
  5. Lindo post! Uma coisa: Kerouac foi alfabetizado em francês. Não, não acredito que no ensino fundamental o professor dava Proust para os pirralhos aprenderem a ler e escrever... mas sei lá, pode ter algo aí que explique pelo menos a proximidade do K com o P.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Fabricio. E obrigado por compartilhar esse texto em seu tumblr, ficou em boa companhia. :-)

      Excluir