sexta-feira, 20 de março de 2015

Amor sem fim, de Ian McEwan



Os livros de McEwan exercem uma espécie de fascínio independente (de seu conteúdo e de sua assertividade) que muito se aproxima da sofisticação que basta a si mesma dos filmes de Alfred Hitchcock. Por mais que seja insípido um filme de Hitchcock, sempre estão lá os elementos que fazem seu espectador se recolher de deleite em sua poltrona diante as características inevitáveis do ângulo da câmera, das cores anacronicamente vivas do cinemascope, do mesmo humor visto em vários filmes anteriores que se torna um lugar comum, e, sobretudo, dessa astuciosa técnica mercadológica de identificação que faz o público engrandecido por se sentir pertencente a uma classe alta do bom gosto. Os livros de McEwan bebem dessa mesma vantagem. Já na primeira página de Amor sem fim me veio a culpa de por que eu me permito ficar tanto tempo sem ler McEwan?, sentindo o prazer que é a narrativa inteligente, os insights impagáveis, a peculiaridade patológica dos personagens, a atmosfera reinventada de uma Inglaterra moderna inerentemente literária e requintadamente inteligente, que fazem os romances de McEwan. E aqui também temos a impressão confortável de que somos parte do clube de alta classe do bom gosto, temos a sensação de sermos aceitos nos jogos de xadrez da trama, de sua suspensiva tensão que aponta para a degradação no momento certo da harmonia dos apartamentos confortáveis e dos empregos d amplos espaços de tempo livre dos personagens. 

O temor da perda que nos passa McEwan é absolutamente material: investe-nos da boa vida de seus heróis para depois nos ameaçar de que, junto a eles, talvez sejamos atirados na sarjeta. A fragilidade é que, para um leitor treinado desse autor, também nas primeiras páginas, quando passa um pouco do reconhecimento dos artifícios que prendem a atenção, as falhas de McEwan se tornam da mesma forma evidentes. Em todos os livros que li dele (formando uma quase exceção o seu quase grande romance Reparação), antes que se chegue a um quarto do livro, algo irritante acontece: McEwan perde o fôlego, tropeça, não consegue manter a estrutura carregada de ganchos e promessas da narrativa. Ele, não tão simplesmente, esmorece. Uma figura cabal para se entender isso está nesse que é seu melhor romance, Amsterdã: um dos personagens principais, um compositor de música clássica, recebe uma inspiração para aquela que deverá ser sua mais relevante obra. Ele intui a frase que será a base temática de sua sinfonia, uma frase ao mesmo tempo simples e complexa, algo genuinamente genial. E o que esse personagem faz com a inspiração é o reflexo do que o próprio McEwan faz com suas ideias literárias: ele imprime o peso da sublimidade que detêm na obra, para sucumbir à cópia ou ao esquematismo. 

A última metade de Amor sem fim cai na mais deslavada roteirização de série de televisão. O que começou com excelente timing, com um encarrilhamento de situações que vai sufocando o leitor com tanta espectativa, com uma amostra de mestre de diálogos afiados e de panoramas mentais ricos, se transforma lamentavelmente apenas em um competente esforço de finalização para que todas as pontas se juntem no final. A história desse livro é sobre a paixão insana que um homem sente por outro, uma paixão surgida do nada e temperada por uma lunática missão religiosa de conversão. McEwan usa de uma excepcional cena de um acidente com um balão para fazer com que esses dois homens se encontrem, e vai montando a partir daí uma não menos excepcional sequência de enganosa trivialidade de confrontos entre os dois personagens, até que descambe tudo na tragédia. Há humor de primeira, frases que se enquadram no que de melhor é produzido na literatura inglesa atual, e aquela maldade presente nos mais peculiares detalhes da trama que dá distinção à assinatura do romancista. Mas o batido uso de diagnose clínica e de um excesso de determinismo na contraposição entre racionalidade científica com fanatismo religioso torna o livro um mero entretenimento. O pecado de McEwan é turbinar a imaginação do leitor com suas bem urdidas insinuações do que está para acontecer e que poderia colocar tudo de pernas para o ar, e deixar com que a imaginação das possibilidades infundadas acabe sendo melhor que o próprio livro. 

2 comentários:

  1. Li Amsterdã por causa desse blog, e confesso que achei melhor o único outro livro dele que li por inteiro, O Jardim de Cimento. O começo de Amsterdã é super sagaz, mas pra mim caiu exatamente nisso aí que você fala dos outros livros. Mas sou doido pra ler outros livros dele. Tenho aqui Atonement, que li até a parte da guerra, e enganchei, mas adorei o que li, e exatamente Amor sem fim. Li um perfil dele na New Yorker que me deixou bem curioso em relação a outros livros. Se não me engano, Philip Roth foi quem primeiro leu o Jardim de Cimento.

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    1. Cara, não sei onde li (acho que foi naquela fantástica finada revista Entrelivros) alguém escrevendo que Ian McEwan e Martin Amis eram grandes escritores que nunca escreveram grandes romances. Eu gosto muito de McEwan e Amis. Eu os leio desde quando estava na casa de meus vinte anos. Aquele final de Amsterdã é que uma coisa meio ridícula_ lembra muito, mas muito mesmo, o final de Homens de papel, do William Golding (penso até que seja uma homenagem que McEwan fez, já que nesse Amor sem fim ele dedica um trecho a uma cena laudatória referente a William Golding). Amsterdã é cheio de inteligência e uma aula de como escrever, mas o final é uma auto-implosão.

      Ainda não li Jardim de cimento.

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