segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.

11 comentários:

  1. Ok, confesso que quando vi que o post era sobre Bolaño tinha decidido não ler. Não preciso dizer o quanto sou mão fechada para livros. Nem o meu eu comprei ainda! E ontem acabei de saber que tenho que esperar mais para ler o que quero... tanto tempo mais que estou quase decidindo mandar tudo às favas e ler o que quero. Vontade de dizer: Milton, pode me mandar o Saramago e tudo mais!

    O que posso falar de uma crítica a um autor que nunca li? Eu me lembrei do caso daqueles mineiros soterrados. Quando soube, fiquei tão indignada, tão puta da cara, que meu marido estranhou. Não são todas as notícias que me mobilizam assim. São apenas mineiros num lugar distante... Falei pra ele duma biografia que li do Pablo Neruda, que um dia foi visitar uma cidade e apareceu frente a ele um homem recém saído da mina, todo sujo, só se viam o branco dos olhos. Ele fez questão de ir e agradecer pessoalmente pelo Canto General, por alguém fazer ouvir aqueles que não tinham como se expressar. Neruda disse que naquele momento sentiu toda a responsabilidade da sua poesia.

    Isso já faz quanto tempo, vinte anos? Mais? Fiquei indignada em ver que é tão fácil enterrar mineiros, que não tem a menor importância investir em segurança e tecnologia pra melhorar a vida dessas pessoas. Porque eles são mão de obra barata, lupem-proletariado, sai mais barato troca-los a medida que ficam doentes. Eles são latinos; nós latinos somos todos um pouco isso, mão de obra barata.

    É disso que Bolaño fala, é esse o inferno com semelhanças à América Latina?

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  2. Te dediquei a crítica por pura provocação, Caminhante, lembrando de suas reações aos post do Milton sobre o Bolaño. Fiquei rindo enquanto escrevi seu nome. Mas valeu pelo teor do seu comentário. Também li o "Confesso que Vivi", e também o "Canto Geral", do Neruda (na época em que eu o suportava; hoje, não sei mesmo porque razão, o coloquei de lado e só releio os poemas menos combativos, como aquele dos vinte poemas de amor, e as odes). A situação dos mineiros, não havia feito até então a conexão, é exemplificante da crítica que Bolaño faz à América Latina. Na verdade, há muito mais a se dizer de 2666, e o que pretendi foi: esqueça a mídia, meta-se a entender a obra. A extensa parte que narra os tantos corpos de mulheres assassinados tem o efeito deliberado de extenuar o leitor, de cansar, de querer pulá-la e partir para as partes mais atribuladas. Mas aos poucos percebemos a astucia da mensagem do Bolaño: fazer-nos ver o quanto a violência e o descaso por aqui é trivial, tão numéricamente corriqueiro que deixa de ser importante, torna-se uma cifra dessessibilizada, inumana. Quantos mineiros soterrados, tendo que viver por meses debaixo da terra, e o que podemos fazer. Essa a principal questão levantada nas 855 páginas desse livro: o quanto nos vendemos para mantermos a aparência equivocada de que tudo vai bem.

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  3. AHÁ! Então confessa que estratégia ardilosa pra me atrair pra cá! E eu que me dei o trabalho de ler com atenção ao post... Deveria ter cedido ao desejo primeiro, de vir direito pros comentários e dizer:

    Eu quero mais é que Bolaño vá #$@%$%$¨%@#$%!


    Teria sido bem mais rápido.

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  4. Charlles, parabéns pela resenha, muito bem fundamentada. Não tinha feito essa associação com Garcia Marquez e Cortázar, confesso que ainda estou digerindo isso, e parece tão óbvio, não? Ainda bem que você mostrou o caminho, não conseguia enxergá-lo.
    Também tive essa impressão ao ler o livro de Bolaño, a denúncia do horror latino-americano - sua violência de terra arrasada, os lixões, a miséria, o descaso das autoridades com as mulheres assassinadas, uma elite intelectual apática, egoísta e hedonista - que é narrada de forma brilhante pelo chileno.
    Porém, na minha percepção o romance trata sobretudo de todo horror: a fragilidade das relações amorosas dos críticos, a derrocada de Amalfitano, a jornada de Fate e a violência da Segunda Guerra que acabam desembocando em Santa Teresa de forma violenta e com traços surrealistas e que só parece ter redenção no exercício da literatura.
    Não sei sua opinião, mas acho que trata-se do livro mais violento que já li. Grande escritor, o Bolaño.

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  5. Beto, o Bolaño tem sido emblemático para mim. Nunca havia tido uma convivência assim com um escritor, em que sempre julgava-o de menor calibre mas não conseguia me desprender dele. Geralmente, essa atitude poderia ser a defesa contra a inveja despertada por sua excelência, o que não foi o caso. Com 2666 pude entender, como disse no post, o objetivo artístico _ vamos dizer assim _ do Bolaño. Minhas críticas contra ele, e meus apontamentos de suas supostas limitações, de repente se viram por terra. Ele tinha que ser o Bolaño, um original...Ainda acho que não é um autor "sublinhável", na linha das tantas frases imortais que se pode retirar de Márquez e Cortázar. Essa secura só poderia descambar com perfeição num modelo de ficção excessivamente violenta. Mas, a seu modo, acho que dos autores latinos que citei, o mais violento, a meu ver, ainda é Miguel Angel Astúrias. Talvez vc não o tenha lido e sequer o conheça _ não seria um demérito seu, Astúrias está afundado em um imerecido esquecimento _, mas recomendo que leia "O Senhor Presidente", e verá.

    2666 me surpreendeu ao corresponder a todas as minhas espectativas. Eu interrompi todas as minhas leituras, e acabei com ele em uma semana. É o mais mítico, o de longe melhor realizado romance de Bolaño. É revelador que o assassino não seja revelado ao final do romance _ tudo fica vago em torno do suposto assassino_ pois Bolaño nos faz crer que ele é a encarnação do Mal, o assassino é uma essência representativa, um denominador comum. Com certeza, um grande escritor.

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  6. Realmente não li e desconhecia completamente Miguel Angel Astúrias. Tánotado, vou atrás.
    Abraços!

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  7. Precisa, sua resenha. A questão Bolaño-boom é curiosa; não acho que ele negue ou recuse o boom. Vejo 2666 como uma longa resposta a ele, talvez. A conversa é complexa e eu trabalhei o dia todo, perdoe o comentário tão breve.

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  8. Grato por tua visita, Xerxenesky.Teremos oportunidade de um debate sobre o tema depois, espero.

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  9. Charlles,
    apesar de tudo,
    eis meu contraponto...



    PÁSCOA DAS CIGARRAS
    by Ramiro Conceição


    Hoje acordei com uma melopéia nativa
    duma tribo do Xingu a dançar ao redor
    da cama onde eu dormia por inteiro - e nu,
    enquanto acontecia, esquecia-me de tudo…

    E levantando-me à alegria, sambando,
    fiz um café, com fé, e, às gargalhadas,
    dancei dentro da casa do velho "eu" que se auto-olhava
    não acreditando em mim, ali, a cantar - feito as cigarras.

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  10. CATASSOL
    by Ramiro Conceição


    O poeta fora prometido ao Deus da Vida;
    porém, sem saber, engravidou de poesias
    por ação do espírito humano.
    E o Deus da Vida, seu marido prometido,
    que era justo, não o denunciou
    porque sabia que o artista trazia frutos
    ao seu passado-presente-futuro.

    O poeta concebeu em sua língua
    para ensinar, em muitas línguas,
    sua linguagem estética, política
    e ética.
    E a lira não se quebrou.
    E um catassol cantou:

    “Sou um ruminante cérebro mutante,
    um ser que considera o ser maior que o ter,
    um lento catassol, sobre a leitura,
    que sabe que ler é conceber com ternura.

    “Sou uma repetição, uma aliteração,
    uma especiaria para condimentar iguarias,
    uma hortaliça que plantei em nossa horta.
    Sou homenagem póstuma a estrelas mortas!

    “Perdi a hora de tudo.
    Meu relógio marcou todos os fusos.
    Sou a maçaroca no fuso do mundo.

    “Cada vez mais, torna-se claro
    que sou feito de outra história.
    Não desta, mentirosa e sem memória.

    “Cada vez mais, tenho a certeza
    de que pertenço ao mar bravio
    pois sou um peixe que não pertence
    a este aquário vil.”

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  11. Bolaño es un grán autor latino - y tu, carissimo, es un grandissimo critico, sempre listo a por a prueba tu fenomenal CULTURA! - pavillon dorado de nuestra America!!

    Dime, que libros tiene publicado, hermanito? Porque sólo puede ser um grán intelectual latino-americano, hombre de letras sin duda, sin embargo y sin nadie a que jamás le diga algo en contrario!!

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