quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No Estômago da Baleia

No meu último ano de curso de veterinária não sabia ainda a qual área iria me dedicar. Eu gostava de tudo, embora uma isca de lucidez me poupasse dos ares aristocráticos da eqüinocultura e do monastério vocacional do estudo dos animais silvestres. Para escolher onde passar os seis meses de estágio, caí na sedução do sobrenome russo de um professor recém chegado à universidade, um senhor corpulento, alto, de olhos azuis e grande barba catedrática que destoava do ambiente campesino, muito parecido com Turgueniév e que era a maior sumidade nacional em suinocultura. De malas prontas, desembarquei numa das maiores granjas de suíno do centro-oeste, acolhedoramente rústica e descomplicada, onde os funcionários já estavam acostumados a estagiários para não se incomodarem comigo. Passava a maior parte do tempo no assim chamado berçário da granja, olhando com o cenho franzido de científica seriedade os leitõezinhos quando o coordenador estava por perto, e me agachando ao lado das baias suspensas para que esses animaizinhos excessivamente curiosos me procurassem colocando as cabecinhas apoiadas na grade, quando não havia ninguém. O cheiro dos animais era forte, imponente, e não precisava de muito tempo para que me familiarizasse com ele e o achasse cheio de um reconfortante poder harmonizador. Se algo perfurasse aquele sólido bloqueio aromático, os suínos já não dormiam, ficavam afoitos e desconfiados. Recordo-me que um dos funcionários amigo meu, enquanto dois outros homens e eu auxiliávamos o cachaço a se sustentar sobre as patas traseiras por sobre a fêmea, todos nós segurando o seu desamparado pênis com a glande rosa exposta para pó-lo na vagina da fêmea, tirou uma foto Polaroid desse evento e a colocou no mural do refeitório, com os dizeres abaixo: “Isto não é uma suruba?”.

Nos últimos três meses passei do idílio do sistema de criação para o estágio final de trabalhar no matadouro contíguo à granja. Eu não era burro o suficiente para nunca ter feito a conexão óbvia do destino desses animais, mas mesmo assim, já no primeiro dia na sala de matança, tive que mudar a composição da monografia que vinha escrevendo. Tinha que abri-la da inércia cega do manejo e das descrições biológicas para acolher as estatísticas financeiras, a aferição da média de ganho de peso, a descrição das características das carcaças, a conversão da ração em centímetros de gordura. Nada nos prepara para o que acontece em um matadouro; nenhum filme, nenhuma memória pretensamente resgatada de nosso longínquo passado de caçadores_ e não há matadouro onde a violência genuína se desacoberte de forma tão crua e brutal de sua aparência de assepsia e eufemismo técnico do que um que mata suínos. Li em algum lugar que outra razão dos patriarcas judeus proibirem o consumo de carne de porco, além da erradicação das doenças provenientes da má conservação da carne branca, era que, à diferença das vacas e dos carneiros, o porco sabe que esta sendo conduzido para a morte. E não haveria como um rabino providenciar os rituais de um abate kosher de um porco de uma maneira que dignifique a carne como um oferecimento semivoluntário do animal. O suíno expressa com todo desespero que não quer morrer. Ele não fica em prontidão na fila do corredor diante o boxe de abate, esperando alheadamente a sua vez no sacrifício: ele tenta escapar, esperneia, revira o corpo, grita. Não há nenhum tipo de pudor na morte de um suíno. É a mais completa decepção do desejo humano de que o animal a ser abatido se desabnege de sua vida com hombridade. O promotor que diante o tribunal do júri salienta que o assassino matou a vítima de forma humilhante e indefesa, tal qual a um porco, faz justiça à imagem.

O repúdio que eu sentia me deixava constantemente deprimido. Não era a questão tola de ter feito amizade com os suínos os quais eu era obrigado a acompanhar até a morte; a eficiência determinista que os condiciona a terem um curto período de vida anula qualquer afloramento de afeição. Mesmo com os simpáticos leitõezinhos era impossível dar a algum um nome e promove-lo a escolhido, pois a cada dia tudo mudava: a máquina, calibrada com precisão, tirava da natureza, numerava, dava uma insípida ração que o enchia e estufava por dentro, e o concluía no produto para consumo com a insuspeita e bem sucedida mudez de que ali havia uma vida, expurgada com incrível carga de sofrimento. Era um estágio novo da domesticação, um outro significado da palavra: não mais a domesticação cúmplice à vida do homem, caseira e terna, mas a ultramoderna despersonalização absoluta. Os animais de uma granja são absolutamente semelhantes entre si. De uma brancura angelical, com o mesmo peso. Não há uma mancha de nascença, um formato desigual de orelha que revele o traço distintivo. Entre dois cães labradores gêmeos há o detalhe idiossincrático da inteligência e vivacidade, entre os dez suínos paridos de uma mesma leitoa e monitorados até a sua conversão em produto, há apenas a tediosa igualdade do laboratório genético na qual já vem estampado o rótulo da morte. A propaganda é fazer crer que se incluíram em alguma espécie de botânica, cuja flor de pureza se abre para oferecer a imaculada carne vegetal. 

O repúdio vinha da mente à busca de esclarecimento. Num dos relatórios quinzenais que eu enviava ao dr. Turgueniév, relatei que não se fazia ali o procedimento de atordoamento dos animais, previsto nos códigos de abate, como o eletrochoque ou o uso permissivo da marreta. Isto é: matavam-se os suínos sem dar-lhes o lenitivo do desmaio, o que os pouparia da dor (também isso se explicando pela razão financeira de diminuir o stress e tornar a carne mais macia). Pendurava-se o animal de cabeça para baixo vivo, e o sangrava, não sendo raro que durante a morte lhe sobreviesse a agonia do engasgamento com o próprio sangue. O dr. Turgueniév não esperou para me responder por escrito; pelo telefone da granja eu tive que ouvir sua voz infantilizada me passar a maior bronca: como eu demonstrava tamanha ingratidão escrevendo aquelas barbaridades ofensivas, tendo sido tão bem recebido pela empresa? Enquanto passei a escrever desde então apenas cifras, avaliava as coisas que só interessavam ao meu frágil espírito de contradição, ao meu romantismo afeminado, à minha cegueira canhestra quanto ao nosso direito de extermínio por estarmos no topo da evolução. Enquanto confeccionava pelo computador os gráficos de rendimento de carcaça, de fertilidade da fêmea, enquanto repassava as taxas de fecundação conseguidas pelos machos, me vinha à mente um outro tipo de descoberta sobre os matadouros. Um ouvido levemente treinado na música do século XX sabe que ela deve muito à estética dos sons produzidos dentro das áreas do matadouro. Quando se escuta o som incrivelmente abrangente da caldeira aquecendo a água onde os suínos serão lançados para a retirada dos pelos, ouve-se ali o som que inspirou a música de vários compositores eruditos modernos.  Steve Reich, John Cage, Philip Glass. Os alçapões que se batem num clangor premonitório, quando o animal é lançado na grade do chão (uma das peças que esqueceram de empregar um termo suavizante_ chamam-na grade de vômito), o espectador que assistiu aos mais conceituados filmes de terror descobre a semelhança das trilhas sonoras com os guinchos e estribilhos.. Desde o Exterminador do Futuro, Carrie, O Iluminado, Psicose, até a sonoplastia do demônio deixando o corpo da menina, no Exorcista. O matadouro é uma experiência absorvente para os ouvidos quando se acostuma com a riqueza de suas proporções caóticas. Quando se esta ali no momento do trabalho a mais de uma hora, à mercê da narcotização daquelas pancadas eloqüentes, vem uma certeza difícil de explicar, que sempre tentei entender relacionando-a ao que Jonas deveria ter sentido na expansão claustrofóbica do estômago da baleia: a de uma fria inteligência conduzindo os sons, de uma mensagem orquestrada cheia de significados inapreensíveis e que os compositores e artistas mais argutos intuíram.
                                 

6 comentários:

  1. Que horror, tadinhos. Diga que pelo menos carne de porco você parou de comer.

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  2. Não como carne de porco de modo algum!

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  3. Muito interessante seu texto Charlles. Sou estudante de veterinária e tenho aulas de suinocultura. É triste pra ter que assistir as aulas pois sou vegetariana, me sinto um peixe fora dágua, mas sei que precisamos conhecer todas as áreas de produção animal. Cada aula descubro uma coisa diferente e atordoante, como por exemplo que no passado a nomenclatura desses animais era: porco, hoje é : suíno e no futuro será: alimento. A professora dá aula como se estivéssemos falando de nuggets e não de um ser vivo, com cérebro, pele, terminações nervosas e etc...
    Espero do fundo do meu coração que haja uma evolução do respeito pela vida dos animais. O número de vegetarianos cresceu no mundo, e novas leis estão sendo criadas, torço cada dia mais.

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    1. Tenho orgulho de ser veterinário, Juliana. Por uma ironia, meu campo profissional é o de fiscalização em abates. Mesmo tendo exigido adaptação de minha parte, é uma função essencial visto a segurança da saúde pública. Meu período de faculdade me permitiu ver que a veterinária pouco é ensinada como uma profissão médica, e muito como prosseguimento dos ramos financeiros do agronegócio. Agronegócio Veterinário, e não Medicina Veterinária. Mas a gratificação mesmo eu tive quando me vi independente, levando a minha vida de diplomado da maneira como eu queria, sem as intervenções da corporatocracia de professores e empresários que torna esse curso tão desumanizado.

      Valeu pelo comentário, e muita boa sorte para você.

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  4. Uma beleza de texto, e um exemplo de como estamos à mercê da dor. Gostei tanto, que enviei o link para o professor doutor especializado nos direitos dos animais, Aaron Santana Gordilho, da UFBA. Infelizmente, tenho a confessar que a carne de porco é uma de minhas preferidas.

    :(

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