terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Lendo O homem que amava os cachorros



Em um episódio da antiga série de tv Twilight zone, a moderna legislação penal determina que o criminoso seja punido pela invisibilidade consensual. Vemos um homem condenado andando pela cidade, com um selo de invisibilidade preso à roupa, o que impõe que todo mundo seja absolutamente indiferente à sua existência. Todos o veem mas fazem que não. Em um restaurante, o garçom não o atende. Na igreja, o padre passa por ele simulando não ter ninguém ali. Uma vez um cego chega a lhe responder, mas um alarme estridente soa através de um dispositivo denunciador na rua, ligado ao selo, e o cego sai enfurecido chamando o homem de canalha. O que impressiona nessa história, além do desespero da solidão "por entre as gentes", é a organização conseguida para que todos se comportem com a mesma impiedade e o mesmo controle social. Lembrei desse filme enquanto lia as primeiras cem páginas de O homem que amava os cachorros, excelente romance escrito pelo cubano Leonardo Padura, que narra os últimos anos de Trotski até seu assassinato no México, cometido por Ramón Mercader. Padura descreve o opressivo isolamento de Trotski assim que é banido da União Soviética, um isolamento em que todos os países do mundo lhe barram a entrada, ou por temor de sua ação revolucionária, ou por verem-no justamente como um traidor dessa ação revolucionária. O único que aceita recebê-lo com as honras dúbias de exilado é o presidente da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, que o isola em uma ilha de pescadores imolada pela história e pelo tempo. Padura vai contrapondo capítulos com a narrativa sobre Trotski e Mercader, antes que se dê o fatal encontro, ao mesmo tempo em que intermeia a história pessoal de um narrador alter-ego e sua vida miserável em Cuba. Até aqui o livro é sensacional. Padura tem um estilo talvez insuficientemente desprendido da influência de Garcia Marquez, o que acarreta a vingança colateral de ter escrito com esse livro um romance histórico cuja grandeza ensombrece em muito a tentativa fracassada do mestre no mesmo gênero. E a edição da Boitempo traz essa emblemática junção de impecável qualidade com um certo extasiamento partidário. Os menos avisados leitores talvez achem que há proselitismo maçante nas fotos de Trotski nas capas e contracapas, na foto de Lenin com um gato (e a menção à comemoração dos 90 anos de sua morte), e no estudo histórico da introdução, e talvez tais leitores não estejam tão equivocados.

5 comentários:

  1. O livro é excelente, mas tenho restrições à tradução. Aliás, acho que esqueci de falar nisso na minha resenhazinha.

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    1. A linguagem do Padura é sofisticada, naquele esquema de muitos períodos em uma só frase e com intromissão de imagens inesperadas, bastante parecidas à do melhor Garcia Marquez. Ainda que eu não esteja, por enquanto, insatisfeito com a tradução, penso como ficaria nas mãos do Ernani Ssó.

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  2. Ramiro Conceição13 de janeiro de 2015 16:40

    “O que impressiona nessa história, além do desespero da solidão "por entre as gentes", é a organização conseguida para que todos se comportem com a mesma impiedade e o mesmo controle social.”

    É, meu amigo leitor profissional, o que você constatou é o maior dos males sociais: a invisibilidade, a morte em vida; o desprezo vivido, até a espinha dorsal, diante de colossais energúmenos, mas com poder…

    É isso a fonte de todo o fascismo… Não há melhor substrato à germinação do populismo de esquerda ou de direita: a antessala onde a fera ajusta e prepara suas presas: normalmente, assessorada por um bando de vagabundos e de canalhas.

    O enredo é simplório: o mais cínico e loquaz, dentre eles, é o porta voz da “mensagem” que milhões de invisíveis sociais precisam ouvir…; durante um certo tempo, disfarçadamente, os meios hegemônicos de mídia preparam em conta-gotas o conteúdo… Não dá outra… Dito e feito: aparece o salvador, ou salvadores, da pátria.

    Ah…, ia quase esquecendo-me…: tal enredo só é possível quando a educação é sonegada por uma ou duas gerações… Mas sabemos que, em nosso mundinho, há séculos, ela vem sendo deturpada aos interesses de uma minoria, cada vez mais enricada.

    Por isso: sommes l'éducation (o resto é merda…).

    P.S. : 1) por favor, me desculpem o francês ; sei: é uma « merde »… ; 2) na história brasileira «o mais cínico e loquaz» não foi o Lula, pois a mais cínica e loquaz mídia o denominou de apedeuta, lembram-se? Mas o resultado democrático até o momento é : 4x0 !!! 3) a Veja e seus pistoleiros, sem exceção, já foram pro vinagre; a Folha, o Estadão, a Globo e seus subanimais caminham, céleres, ao mesmo fim…

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    1. Ramiro Conceição13 de janeiro de 2015 17:20

      REI DAS TRAMAS
      by Ramiro Conceição
      *
      *
      Tenho um criadouro de fantasmas,
      de cadáveres… a gerar miasmas.
      Sou um vencedor que respeita muito
      a lei: aquela destinada a mim mesmo!
      Contrabandeio passarinhos, sementes,
      crianças e putas. Tenho vasta experiência
      no tráfico de influências. Sou da academia
      dos professores, dos padres, dos pastores,
      dos advogados, dos jornalistas,
      dos publicitários e dos artistas.
      Estou acima de qualquer suspeita porque choro
      em público; abraço criancinhas; doo cheques
      à caridade; vou às quermesses e às passeatas.
      Já comprei governadores, prefeitos, deputados
      e senadores; quase me tornei dono da República.
      Sou o rei das tramas, o meu negócio…: é grana!

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  3. Ramiro Conceição14 de janeiro de 2015 08:32

    errata: o correto é: "denominou apedeuta"

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