segunda-feira, 17 de março de 2014

Um romance de Don Delillo e uma forma de compreensão pessoal



É no próprio Ruído Branco que vem escrito que o costume de se contratar carpideiras para chorarem em enterros talvez atenda à necessidade de fazer com que as pessoas conservem uma aparência de pesar pelo morto e não transformem a cerimônia fúnebre em uma festa involuntária. É fácil perceber que há um riso premente por detrás de tudo, aguardando a hora em que a nossa impostura de seriedade se distraia e ele possa aparecer, com todo seu ofensivo glamour de libertinagem.

Minha mãe, quando eu era criança, sofria horrores pelo deslocamento de seu braço direito, causado pela luxação da articulação do ombro. Bastava ela se descuidar e tentar pegar uma caixa de sapatos em cima do guarda-roupa, ou apanhar um objeto mais pesado com o braço debilitado, para que a cabeça do úmero se soltasse de seu ponto de ligação com a escápula. Eu aprendi cedo esses nomes da anatomia, que sempre me faziam pensar em formações geométricas, como peças de encaixe: se o úmero da minha mãe saía de sua composição angular perfeita, o círculo rompia seu côncavo descanso funcional, a coisa ficava muito feia. Pequenos nervos ultra-sensíveis eram esmagados e minha mãe gritava de dor. Eram os piores momentos da minha infância: vê-la dando o espasmo gutural que acionava imediatamente o alarme de que seu braço saíra fora do lugar, o que equivalia para mim em minutos eternos de aflição enquanto ela ficava encolhida, imóvel no lugar que estava, enquanto corríamos para o telefone para chamarmos a única pessoa capaz de colocar seu braço de volta, meu tio Pedro. Meu tio Pedro atendia o telefone, a qualquer hora, e eu o via vestir calmamente a camisa, apagar o cigarro ou acendê-lo, avisar minha tia Tânia de que o braço da Telma saíra novamente do lugar e que ele precisaria ir lá resolver, abotoar a camisa perguntando onde estão as chaves do carro, dizendo "ah! Achei, estão aqui na estante", apertar o botão do elevador enquanto examinava tranquilamente se os documentos do carro estavam todos dentro da carteira, descer os longos lances de 12 andares do prédio dentro do elevador vagaroso, entrar no carro e acionar a chave, aguardar com o pé no acelerador enquanto o motor a álcool se esquentasse, sair pela porta da garagem e atravessar a cidade até seu outro extremo... Era uma saga nórdica rica de movimentos lentos até que meu tio Pedro entrasse em nosso apartamento com sua cantada voz de alcoólatra abstinente que sabia profundamente sobre dor para se exaltar diante mais uma de suas infinitas manifestações no mundo, uma voz adstringente que me enchia de segurança assim que meus ouvidos atentos a ouviam soar pela porta. E era questão de segundos de uma destreza infalível para que ele colocasse o braço da minha mãe no lugar, não sem antes os acréscimos indispensáveis da coda musical do desespero final da minha mãe, com sua frase cerimonial de "Não, Pedrinho! Espera, Pedrinho! Devagar! Devagar!". E tudo estava concluído. Tão fácil que retroativamente sempre parecia absurdo tanto sofrimento. E o tio Pedro dizia algumas palavras finais de estoico consolo, relembrando que ele também tinha o mesmo problema com o braço, daí ele se sentava e mostrava mais uma vez como fazia com o próprio braço, em um movimento de simplicidade mágica, para encaixá-lo no lugar. Ele se despedia dizendo que, qualquer coisa, era só chamá-lo, e voltava em linha inversa toda a via sacra até o momento inalterável em que estava despido da camisa sentado no sofá com seu livro do Tex em mãos, ou se preparando para dormir. Mas o que eu quero dizer é que houve uma vez, uma só vez nesse martírio todo, em que, inesperada e insanamente, eu reagi às dores da minha mãe com gargalhadas; ri tanto que as minhas tias começaram a pensar o que fazer comigo, quais as possíveis consequências desse meu ato para a homeostase da família dali para frente, eu rolando no chão apontando o dedo para minha mãe encurvada na cama, tentando mostrar para o restante da platéia o quanto aquilo era flagrantemente cômico, cada grito da minha mãe repercutindo um lance de gargalhada da minha parte. Talvez fosse reação do meu desespero, talvez fosse porque aquela rotina ortodoxa em que a dor acionava uma relojoaria precisa e cerimoniosa finalmente se me mostrara em sua nudez sem sentido para que tivesse autoridade de exigir tanto comburente dramático. Depois disso, a primeira coisa que faziam quando o martírio da minha mãe começava era me mandarem passear na praça em frente ao prédio, até que eu visse o carro do tio Pedro chegar.

Dito isso, pode-se dizer que eu tenha uma antena para perceber distorções na seriedade que servem para evidenciar algum fator de risco em mim quanto ao respeito nos momentos de tragédia. Inadvertidamente algum mecanismo surgido em uma infância não muito saudável para qualquer diagnóstico psicopatológico aciona em mim uma capacidade de associação histriônica que, se eu falasse para alguém o que me passa pela cabeça enquanto o correto é um pomposo silêncio ou as lágrimas incontidas, eu cairia muito na escala social do que é tido como a sanidade civilizada. Não que eu não sofra ou que eu seja insensível, absolutamente pelo contrário. Eu sofro bastante. Mas é impossível para mim calar minha mente, minha forma de pensar. Isso tudo que eu estou dizendo é para chegar ao assunto capital deste texto: a morte na quarta-feira de cinzas de meu sogro, seu Gercino. Eu havia me levantado nesse dia de chuva um pouco mais tarde, creio que às nove horas, pois havíamos ido a uma festa na casa de um amigo na noite anterior. Sentara-me na varanda e, coisa estranhíssima e sem explicação, colocara alguns álbuns do Chico Buarque gravados em um pen-drive para tentar ouvir. Um de meus grandes amigos aqui gosta muito do Chico Buarque, e eu me esforçava para ao menos perceber alguma fímbria de conteúdo esotérico na obra desse compositor em sinal de respeito a esse amigo. Mas não saberia dizer porque escolhera essa manhã chuvosa, em que poderia está-la preenchendo melhor com Mahler do que com um exercício de atenção relativamente exigente. Ouvi o Saltimbancos, a primeira música, que minha filha gostava, mas pulei toda a narrativa que me parecia sempre empolada e pobremente doutrinária, e passei para o álbum com as únicas duas músicas as quais eu ouvia com prazer genuíno, Construção, as quais eram a música título e Cotidiano. Escutei Cotidiano, e passei para a proeza manciniana de Construção. Uma música realmente fabulosa, mas que naquela hora me fez pensar para quem era dirigida; se eu estivesse na classe econômica dos personagens e dos eventos dessas músicas, me passou o pesar de que provavelmente eu iria querer me deportar desse mundo, cair fora. Eram eventos depressivos demais, de uma realidade tão inescapável que entendi porque a música de Chico Buarque era tão elitizada: o sofrimento era emoldurado em âmbar e vendido como joia fina para alimentar um tipo de aquisição estética de uma turma de abastados, uma forma de beleza sofisticada em que planificava-se a dor em uma forma higienizada que dava a impressão digesta de se apreender um panorama da alma nacional. Ou seja, o meu exercício para gostar de Chico Buarque para agradar a um amigo estava indo ladeira abaixo com esses raciocínios e eu estava entrando mais uma vez no ciclo de conceitos que me fazia desgostar cada vez mais de Chico Buarque. 

Então surge a Dani, minha esposa, que eu não vira que acordara, no meio da música Construção (antes que começasse os extraordinários acompanhamentos de metais), e me entrega o celular dizendo que a mãe dela, dona Maria, queria falar comigo. A Dani bocejando e com os cabelos preguiçosamente desalinhados, preparada para voltar para a cama. Eu faço uma cara de tédio profundo, querendo que isso inutilmente me poupasse de falar com a dona Maria naquela hora da manhã de feriado, mas pego o telefone. A dona Maria sempre que quer falar comigo é sobre problemas ligados à saúde de alguém daquela casa ampla e cheia de vida energicamente tumultuosa em que eles vivem, algo sobre a gripe dos meninos, ou o ataque epilético da filha mais nova, ou às dores nefrálgicas do seu Gercino; algo que eu e a Dani estávamos tão acostumados a ver potencializado ao máximo pela propensão da dona Maria ao drama, que nem levávamos a sério_ e que a dona Maria salientava mais o drama por pedir para falar comigo, com receio de que o que tem para dizer pudesse afetar a estabilidade emocional da Dani. Digo: "Fala dona Maria", na hora em que o cidadão aprisionado em sua esfera de realidade determinista e imutável da música segue passo a passo a inexorável ida para a morte, atrapalhando o trânsito. Não ouço o que a dona Maria responde, devido sua voz sussurrada, e peço, com certa brusquidão, para que ela fale mais alto: "Pode falar mais alto, dona Maria, a Dani não está por perto para ouvir". (A Dani sabe que meu santo não bate com o santo da sua mãe; eu já o disse várias vezes; se há uma pessoa com a qual não consigo ficar cinco minutos perto é a mãe da Dani; sua reverberação, sua maníaca paixão pela tragédia e o crime; seu fanatismo de tabloide pelas matérias policialescas.) Aí ela repete um pouco mais alto, mas ainda com a voz condicionada pela necessidade cênica de imprimir suspense: "O Gercino acabou de ser atropelado, Charlles. Ele estava instalando uma câmera de segurança, atravessou a rua para observar o serviço, e na hora que voltava, um carro em alta velocidade passou por cima dele. Parece que está muito grave. Dá um jeito de contar com cuidado para a Dani". Eu questiono mais alguma ou outra coisa, com a voz descrente de que tenha sido mesmo algo grave, e desligamos a ligação. Conto para a Dani, dizendo "você sabe como é a sua mãe". Ela não esboça reação de medo ou receio, pois sabe como é a mãe. Mas a reação vai surgindo aos poucos, e ela decide ligar para o Fábio, genro do seu Gercino e sócio dele na pequena empresa que montaram de instalação de câmeras de segurança. O Fábio conta que, aparentemente, seu Gercino quebrou os dois braços, mas fora isso, está bem, a caminho do hospital. Vamos ao supermercado, que, como sempre, está aberto mesmo nos feriados, e compramos a carne que falta para a almoço. No caminho de volta o celular da Dani toca e a prima dela pede para falar comigo. Estaciono o carro e desligo o celular após falar, me viro para a Dani e digo com candura, mas de uma vez, que seu Gercino acabara de falecer. A Dani cai em um choro convulsivo. Morreu na contramão atrapalhando o trânsito, me diz a voz daquela criança que colocavam para fora até o tio Pedrinho chegar, agora você pode solipsismar à vontade que Chico Buarque matou seu sogro.

Os arranjos que se seguem são: eu fico em casa com as crianças, e a Dani vai ao enterro, que se realizará na cidade natal do seu Gercino, em uma cidade a 40 quilômetros de onde moramos. O restante da família espera que o IML libere o corpo, e o transportam de Anápolis até a cidade natal. Abraçamos a Dani e repetimos sobre o quanto a amamos, e isso, inesperadamente, tem um alto efeito de fazê-la se acalmar. Eu digo que a amo. O primo dela vem buscá-la já de madrugada. Enquanto as crianças dormem, eu me refugio na biblioteca e não sei por quê, por quais canais de assimilação, pego Ruído Branco, um romance de Don Delillo que comprei há mais de ano e que ainda não o li. É um desses livros do qual não faço nem a mais remota ideia sobre do que seja. Me domina uma enorme descrença cosmogônica, uma enorme falta de predisposição a acalentar pensamentos de que Deus também pode ser irônico, de que a obra Dele é tão milimetricamente rica que o que vemos como sarcasmo não passa de mais uma das circunvoluções de múltiplos significados. Me passa pela cabeça a culpa de que a última vez em que seu Gercino esteve em minha casa eu agi com certo grau de agressividade, pois eu estava estressado e me sentia meio abandonado devido à iminente cirurgia cardíaca pela qual a Dani iria passar. Lembro que eu o respondia com apressada falta de deferência de tal forma que minha intenção fora alcançada e ele sentira. A anterior cirurgia da Dani não havia surtido o efeito esperado e ela teria que passar por uma nova, muito mais agressiva, e isso me deixara bastante amargo com eles, pois, no fundo, no local mais comezinho aonde estão minhas cobranças insofismáveis e pragmaticamente imediatas, eu queria que eles estivessem junto a nós e sofressem como nós. Ele sentira essa ofensa, de modos que, meses depois, no hospital, ele fez questão de me deixar descansar de uma semana de insônia e ficar do lado da Dani no hospital pelos últimos três dias. Ele sentado à cadeira dura, e eu deitado na outra cama, em um desmaio de semi-consciência atribulado. Agiu com extremo cavalheirismo, de maneira que eu vi nele o quanto era um ser nobre, o quanto era superiormente abnegado. Estava com câncer metastático há seis anos. O câncer se espalhara de seu único rim conservado após uma cirurgia de emergência para retirar o outro, e atingira fígado e intestinos. O médico havia lhe dado no máximo oito meses de vida. Amargurava-lhe a possibilidade tida por certa de que ele não conheceria nossa filha Júlia, mas ele não só a conhecera, como ela se deliciava de se deitar em seu colo e coçar-lhe a barba branca. Ele a pegava como se ela fosse um objeto de porcelana extremamente sensível, com incrível delicadeza. Se fosse alguém corpulento, eu pensaria que o fazia assim temendo a machucar involuntariamente. 

Sentado na biblioteca, à meia luz, escutando a chuva contínua lá fora, não me era possível evitar pensar que ele era um sobrevivente que sucumbira a uma distração brutal frente a mais estúpida eventualidade. Sua força de vontade em viver driblara intrincados cristais da lógica e arranjara uma fórmula matemática própria que transformara os oito meses em seis anos, e uma súbita falta de concentração, uma súbita falta de tensão e arrefecimento o fez perder os tantos anos que ainda teria pela frente para um acidente espantosamente leve. Talvez o milagre requeresse justamente a leveza para acontecer, e tal morte não fosse mais que um excesso de zelo da sua parte, um excesso de confiança. Lembro que à mesa da sala eu havia dito isso para a Dani: "Como é que seu pai faz uma coisa dessas, trai dessa forma displicente um milagre". Pois todos os médicos pelo qual ele passou jamais acreditariam que ele chegasse ao fim daquele ano em que lhe deram o prognóstico, e agora, em seu humor pueril, em sua espontânea concordância com a potestade das risíveis trivialidades teatrais das reviravoltas dessa comédia de erros, ele sucumbira tal como o bêbado da anedota clássica que não morre de seu vício, mas da intoxicação por uma empada estragada. Que grande merda!

Como acreditar em Deus depois disso?

Conversando por e-mail com um amigo, ele me pergunta se, à maneira de Philip Roth em Operação Shylock, eu também me refugiava na leitura de romances em momentos de tragédias pessoais. Me dou conta de que fiz isso, ao passar boa parte da noite lendo Ruído Branco. Há uma rima nisso; essa reação pode ser uma genética acondicionada de todo leitor, pois os romances alcançados nessa hora sempre, sempre, tem a ver com o que se está passando no mundo de interação dos vivos. Em Ruído Branco há uma droga em desenvolvimento trabalhada por um grupo de cientistas ultra-secretos, chamada Dylar, que promete a cura do medo da morte. É uma cápsula em forma de disco voador coberta por sofisticadas moléculas de polietileno, com um furo minúsculo em uma das extremidades, pelo qual a química do esquecimento da finitude é administrada lentamente, sem efeitos colaterais, através das paredes intestinais. A esposa de Jack, o narrador do livro, é uma das cobaias que se ofereceram para testar o remédio. Jack e sua esposa tem um patológico, um angustiante, medo da morte. Tem tanto medo da morte que suas vidas são vividas em supermercados e na imersão quase completa na sinestesia bruxuleante do ambiente cotidiano sem descanso de cores, sons e movimentos da vida sintética da América moderna. O livro foi publicado em 1984, muito antes pois da vida emigrada para a realidade cibernética da internet, o que pode causar um certo estranhismo ao leitor diante uma privação retrógrada tão veemente, uma falta de premeditação futura para abraçar um lenitivo com cara de mais acertada eficiência. Pois o Dylar não faz o efeito esperado em Babette, a esposa de Jack. Ele a pega parada de frente a janela, com o olhar vazio. Ela tende a esquecer os prosaísmos caseiros mais adquiridos. Aos poucos, baseado nessas reações alienígenas da esposa, Jack vai descobrindo a história do Dylar, de como Babette teve que se sujeitar às mais profundas abjeções (inclusive sexuais) para fazer parte do grupo de testes. Mas Jack tende a compreender a esposa, avaliando seu próprio terror pela morte. Ele sabe que Ivan Illich gritou três dias antes de morrer, e o próprio Tolstói nunca conviveu dignamente com sua morte. Há um amigo de faculdade de Jack, Murray, que, ao saber que Jack traz a possibilidade de um grande tumor causado pela exposição a um elemento altamente radioativo (que levou à evacuação da cidade onde Jack mora, na segunda parte do romance), lhe diz que ele tem que se manter digno, mostrar para a posteridade que aceitou a morte de forma nobre e educada; tem que ser um exemplo para conservar os que ainda tem saúde dentro de seus confortáveis mobiliários de certezas. Antes você do que eu Jack, Murray diz, ao se despedirem, sou seu amigo e como amigo tenho que lhe dizer isso, pois é o que naturalmente todos pensam: antes você do que eu. E Jack sai meio que consolado com essa sinceridade privilegiada de seu amigo.

"Alguns minutos depois, eu já estava na rua. Um garoto corria atrás de uma bola de futebol sobre um gramado público, com os pés virados para o lado. Um outro menino, sentado na grama, arrancava fora as meias, puxando-as pelos calcanhares. Que coisa literária, pensei, irritado. As ruas cheias de detalhes de vida impulsiva enquanto o herói medita sobre mais uma fase de sua agonia. Era um dia de céu parcialmente nublado, com ventos que diminuíam à medida que se aproximava a hora do pôr-do-sol."

Pois meus genes de leitor me conduziram certeiramente a um romance que é uma comédia sobre a morte. Fiquei fascinado por esse Delillo. Ele alimenta nosso próprio medo da morte, e o desconstrói com cenas impagáveis de uma ridicularia que desbasta as pretensões e certeza em quaisquer gêneros sobre nossa condição na existência. Os colegas de Jack, nas hilárias cenas de conversa na sala de espera dos professores universitários, seres altamente eruditos e intelectualizados, proferem um sem número de frases desconexas sobre assuntos soltos no espaço. Diálogos rápidos de um jogo verbal que não diz nada, só trivializa. Primeiras experiências, nomes de filmes. Uns jogam bolas de papéis nos outros. Capítulos do livro se encerram com nomes de marcas industriais: Toyota Celica, Panasonic. O longo exame médico a que Jack se submete se finaliza com uma conversa em que o médico não faz nada além de um xadrez verbal com Jack. Tudo não passa disso, da manutenção do ruído de fundo da existência, da enorme distração que acoberta tudo, da trilha sonora caótica que encobre o único conhecimento que nos faz diferentes dos outros animais: somos os únicos que sabemos que vamos morrer. Não dividimos o potencial divino de um cão em ter o limite lúcido de que vive um um instante perpétuo e infinito. Só as crianças, no livro de Delillo, é que são genuínos e vivem um um estágio de felicidade plena selvagem. Por isso Jack se abstrai observando suas filhas e filhos dormindo à noite, por isso a cômica e bela cena final em que o filho de cinco anos de Jack enfrenta a avenida movimentada montado em seu triciclo. Há uma outra cena histriônica perturbadora em que Jack é acolhido em um hospital de freiras, no bairro alemão de sua cidade. De frente a um enorme quadro em que Kennedy passeia de mãos dadas por um campo celestial com o papa João XXIII, Jack pensa agradecido no bem de existirem ainda freiras e seres dedicados a crenças conservadas pela tradição religiosa, e diz isso à freira. Segue então um diálogo ensandecido em que a freira ri enfurecidamente de Jack por achar que ela acredita em anjos e campos celestiais, enquanto Jack se encolhe de indignação dolorosa pela mulher não representar a esperada fé na transcendência, mesmo a transcendência impossível. Nós apenas cumprimos nosso papel de simular acreditar para que os que não acreditam possam dormir em paz, diz a freira: os descrentes sentem necessidade de que alguém creia.

Pois este livro me adstringiu sobre os eventos da morte de meu sogro. Me fez compreender, ou intuir uma futura e progressiva compreensão sobre esses acontecimentos. Mais tarde, outro dia, sentados à mesa do jantar, eu disse à Dani que talvez essa sucessão de desgraças tenha sido cambiada para a vida da família de seus pais e irmãs através da dona Maria, sua mãe. Eu disse que talvez fosse bom que alguém instruísse à sua mãe para que fosse uma pessoa menos compulsiva por consumo de violência e aberrações policialescas. Há pesquisas científicas que falam sobre o poder da palavra e do pensamento impositivo e positivo. Um certo chinês ou japonês que ficou anos monitorando grupos de testes que xingavam potes de arroz, e outros grupos que, ao mesmo tempo, elogiavam e proferiam palavras gentis para outros potes de arroz. E que o arroz ofendido murchava e se decompunha, e o arroz agraciado pelas palavras emotivas vicejava e ficava mais vistoso. É isso: de dez palavras que sua mãe fala, nove são xingamentos, são ofensivos. Sua mãe é um tacógrafo para palavrões. Eu disse isso tudo. Em minha acepção ralé primária sobre a verdade da vida, eu via a dona Maria como uma bruxa que transformava por forças negativas a vida de quem morava à sua volta, e, injustamente, acabara por acabar com um milagre alcançado.

A Dani então me contou a história de sua mãe. Me lembrei que ela já tentara fazer isso antes, contando fragmentos da história da dona Maria, que eu pouco dava ouvidos por absoluto desinteresse. Passei meia hora ou mais a escutando dessa vez, e se não fosse a ojeriza muito cultivada que sempre tive por sua mãe, eu senti que eu acabaria fazendo uma cena de choro na frente da Dani, o que seria terrível em tais condições. Foi uma das vezes em que a Dani foi mais literalmente lúcida e humana desses anos todos em que a conheço. Ali não estava a Dani de coração bombástico que uma vez me instigara a processar a empresa de ônibus porque, grávida, ela fora a única sensível que se levantara para dar lugar a uma velhinha se sentar. Não estava a Dani passional e avaliativa, mas a Dani que me expressava uma experiência profundamente sedimentada, intocada já por ter dado tudo de si em seu núcleo memorialístico. Algo que fazia parte dela de maneira calma e finalizada, sobre a qual sua voz se harmonizava para passar para mim o quanto aquela aparente tempestuosidade já estava acalentada por seu registro no tempo. Um mérito antigo e sagrado. Uma forma de eternidade. Pareceu-me, naquele momento à mesa, que a Dani me mostrava registros do mesmo nível de valor que os que Faulkner escreveu sobre seus demônios degastados de maldade em seus livros soberbos. A Dani me contou que a mãe da dona Maria morrera no parto. Por não ter mais ninguém, uma vizinha acabou cuidando da dona Maria. Ela não tinha pai, desconheceu sempre o pai. A família que a criou tinha o receio de que aquela intrusa levasse parte da herança. Martirizaram ela a vida inteira. Colocaram-na para lavar o chão e cuidar das velhas e das crianças. Batiam e desprezavam ela todos os dias. Passou fome. Essas coisas todas a Dani falando com aquele tom acima da indignação e da benevolência, além da vingança e das compensações temporais pacientemente à espera. Tratava-se de uma dor legítima demais para ser diluída com derivativos cogitáveis. Daí a dona Maria se engravidou da Dani, e o pai da Dani se escafedeu. A Dani não conhecia seu pai. Continuaram batendo na dona Maria, até que a mãe adotiva dela se enterneceu pela Dani e acabou com aquilo. Mas então, a dona Maria se casou com o seu Gercino. A Dani me disse que o seu Gercino espancava sem dó a dona Maria. Bateu nela certa vez que tiveram que levá-la ao hospital. Aquele homem que pesava 50 quilos, que no atropelamento disseram os jornais ter 70 anos mas que tinha na verdade 55, e que era sempre amável com todos. E que segurava a Júlia com uma delicadeza como se temesse que algum mal involuntário partisse de seu corpo mirrado de avô bondoso. 

97 comentários:

  1. me impressiona tua capacidade de me fazer sentir o q dizes. essa parte da Dani é tocante demais. dá muito carinho a ela. um abraço em vocês.

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    1. Obrigado, arbo.

      (A propósito, ainda não chegou aí porque o feriado e esses eventos me impossibilitaram... mas até o começo do mês, certeza.)

      Abraços.

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    2. [nem sei o q está por chegar - e nem me conte; estou devidamente feliz com isso. e se nada tivesse impossibilitado, os Correios, em greve, teriam]

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  2. Fiquei sensibilizado com o seu texto.
    Não sei se ele lúcido. Não sei se ele resvala sobre o significado último da morte.
    Talvez seja justamente o contrário. Talvez ele fale da banalidade do ato final. Principalmente da banalidade daquele que morre, e de como o significado que o morto impôs à sua própria vida não tem conexão nenhum com o seu ato final (seria tão mais fácil se tivesse).
    Seu texto fala muito também de onde vem a reserva espiritual para a sua literatura. A Dani me parece uma pessoa formidável.
    Só não escrevo que te invejo porque tenho a minha Cláudia.

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    1. O interessante, Luiz, é que a Dani nem imagina as coisas que escrevo aqui dela. Às vezes eu falo que escrevi algo sobre ela, mas nós cultivamos tanta reserva sobre a intimidade um do outro que ela utiliza de uma indiferença saudável em relação a este blog. Tenho muita sorte em tê-la encontrado; sou desses periquitos que conservam uma fidelidade ferrenha a uma só companheira, e não consigo me ver em companhia de outra pessoa que não ela. E nós somos de uma trivialidade gigantesca, bastante comuns.

      Eu nunca tive o medo da morte, e esse romance e os últimos eventos me acendeu essa questão. Tenho um amigo aqui, o Emerson (o que escuta o Chico Buarque), que tem um temor patológico da morte. Vive depressivo e em grande parte porque não consegue se desvincular desse pensamento. Uma vez ele me ligou pedindo para que eu fosse encontrá-lo em um hospital onde estava internado. Passara mal com dores cruciantes, e a médica residente ainda comete o disparate de dizer a ele que ele acabara de sofrer um enfarto. Seus olhos quando ouvira isso eram os de um bichinho do mato molhado de chuva e cheio de auto-piedade, desamparado diante a imensidão do céu. O que ele tinha eram simples cálculos biliares, e antes da cirurgia, faltou fugir do hospital. Hoje, quanto mais tenho pessoas as quais amo, mais vou tangenciando esse medo da minha finitude. Parece que estamos desguardados da vaidade, afinal das contas, pois sempre penso o que essas pessoas fariam sem mim.

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    2. A Dani não leu nem esse texto?

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    3. Eu mostro outros textos que escrevo, mas não estes daqui do blog. Estes são íntimos demais, o que acaba por ser um paradoxo: mostro para amigos geograficamente distantes mas não para a pessoa mais próxima de mim. Mas não por motivos de reserva. Uma dessas coisas despreocupadas da vida de casal que não se entende a razão, mas é assim.

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  3. é de uma lucidez que faz doer. é de uma dor crua q faz enlouquecer. da loucura q faz rir. é sério, vão profundo, catártico e contagioso. é um abismo que se inclina, é uma montanha gelada, é inescapável, quase impossível.

    também me remeteu ao "conforto" da "minha" Bianca, Luiz.

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  4. João Antonio Guerra17 de março de 2014 17:53

    Já li muitos escritos maravilhosos aqui, e teu texto de agora acabou com todas as comportas e vaidades que maquinam, mesmo quando não há alguém por perto e de atenção pousada em nós -- ora diabos: eu estava trancado no meu quarto, e do lado de fora todos daqui de casa ainda dormiam --, contra o engasgue do choro, lideradas pelo engano de que as lágrimas nos sujam ao invés de lavar. O Gercino que segurava a sua Júlia eu irmanei, por algum motivo escondido, com João, meu avô, quem criou a mim e a meu irmão. Vovô João, que por ser uma praga em casa a própria mãe meteu dentro de um uniforme de marinheiro com apenas dezesseis anos de idade e uma certidão falsificada, que viajou o mundo nas cadeias flutuantes da Marinha Brasileira por causa de suas insubordinações, e que no período em terra aterrorizava minha avó com suas bebedeiras e uma violência que -- diz minha avó com um óbvio orgulho na voz que não consigo compreender por completo -- nunca tocava nem nela nem na minha mãe, apenas nas coisas que pudesse arrancar de seus lugares e atirar longe. Meu pai abandonou nossa família, eu com quatro anos, Pedro com um, para dar junto com seu próprio pai um golpe no Ceasa onde trabalhavam; foram para o Portugal lá deles, e aqui em casa o único homem era meu avô João, e todos dizem que foi como se ele tivesse renascido do ódio por aqueles outros dois homens, porque nunca mais bebeu, nem nunca mais sequer contrariou minha avó, e que inclusive se afastou de todos o resto de sua família pra se concentrar na nossa casa, na minha criação e na de Pedro. Meu avô raramente fala, e quando abre a boca não revela ternura alguma, pelo contrário: quando uma ex-namorada veio conhecer minha família, ele depois veio me perguntar Porque aquela puta está vestindo uma camisa indiana? aquela puta acha que a Índia é algo bom? sabe, vi na Índia venderem vidrinhos de ácido, você compra uma bolinha de vidro com ácido a hora que quer e se tacar numa mulher como ela ninguém se mete, e a sua namorada acha bonito -- quando olhei para a camisa da minha namorada, era só aquela estampa de Ganesha, que qualquer um compra em qualquer compra e veste sem pensar em nada porque não precisa pensar em nada, é insignificante como um Guevara. Foi calado que ele nos criou, e nos seus gestos aprendi todo o carinho que dou aos meus alunos: meu avô abraça a todos na casa todos as manhãs, e quando comecei a acordar de madrugada para ir a faculdade ele acordava mais cedo para me abraçar antes que eu me mandasse.

    Às vezes me rompe uma raiva, quando chega o fim do dia e vi que fracassei, que nada aconteceu naquelas horas todas, e nesses momentos desconto até sem perceber rasgando meus papéis, rabiscando até rasgar a superfície do papel mais a dos debaixo -- posso pensar se não é do meu sangue ou do próprio ar que dividi a vida inteira com aquele homem que, segundo todos que o conheceram antes da partida de meu pai, é um monstro recolhido. Na ocasião da primeira convulsão do Pedro, só eu estava em casa com ele; de uma maneira que nunca imaginei, não fui pego pelo desespero e cumpri todos os procedimentos recomendados, e isso sem saber quais eles eram, na garupa somente de uma exatidão que emergiu de mim sem aviso. Meu avô entrou em casa ainda dentro dos dois minutos de duração do ataque, e se agachou ao meu lado sem proferir uma palavra sequer, ele que também nunca tinha visto aquilo acontecer, e ajeitou as pernas do Pedro para que parassem de bater. Meu irmão botou sangue pela boca por ter mordido um lado da língua, e suor e baba e mijo e depois vômito e mais vômito -- e sobre mim a oficialização do meu laço com o velho, nós dois em silêncio.

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    1. Esse blog me ajuda muito a compreender sobre a paternidade. Especificamente, a ausência dela, e os tantos traumas decorridos. Esse mesmo amigo que me falou sobre Shylock, citado neste texto, me mandou um e-mail tocante sobre o quanto a ausência do pai o afeta a vida toda, e como, parece, a sua vida é um reflexo reativo a essa ausência. Assim é comigo também. Posso analisar minha vida unicamente por esse prisma, e estarei certo.

      Esse seu comentário é muito bom, João. Me fez lembrar de imediato, enquanto lia, as reminiscências de família das primeiras páginas de um livro esquecido de um dos mais magníficos (e também esquecido) escritores do século passado: "A estrada real", de André Malraux.

      Obrigado, João Antonio Guerra. (Este seu nome é um belo tesouro para um escritor.)

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  5. Que baita texto, Charlles. Tem tantos mundos dentro. Está doendo ainda.

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  6. AO TIO DO CHARLLES
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    Ah, se todos fossem iguais a você, tio Pedro!… Sem dúvida, estariam próximas de nós, creio, as diversas estradas benignas do mundo… Ah, como são necessários tais indivíduos que viajaram até o âmago da sua (nossa) dor mas que, depois, retornaram íntegros… Mais que isso: tornaram-se gratuitamente dadivosos: reais passaportes à cura do mal alheio… Mais do que isso: tornaram-se mestres, em ativar e desativar a dor em si, conselheiros, sim, verdadeiros médicos amorosos do corpo, que passa… E curandeiros efêmeros da alma (sobre a qual é bom lembrar: não sabemos nada!)… Sábios!... Porém nunca suicidas ao entretenimento estúpido do próprio orgulho tirano; ao contrário, foram, são e serão sempre pontes entre o sagrado e o profano… E, aí, sim, até o suicídio pode ser libertador e educador aos que permanecem… Tais seres são aqueles que dão sentido a esse demasiado “desdestino” humano… Na metáfora semiótica de Bergman, tais bem-vindos estão representados pelo saxofonista à esquerda: o único, da cômica e trágica corrente que continua a tocar contra ao complexo sentido imposto pela sombria velha senhora, que não tolera zombarias…

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    1. Tanto meu tio Pedro quanto minha tia Tânia, Ramiro, são pessoas incrivelmente abnegadas. Nasceram personagens de um romance de formação. O tio Pedrinho, como eu o chamo, quando bebia_ e ele bebia muito_, me telefonava e ficava horas comigo pelo telefone, falando coisa com coisa. A tia Tânia dava umas tamancadas nele e o fazia se calar, e ele ficava em seu canto submisso mas com uma cara resistente de zombaria. São duas pessoas de temperamentos próprios acirrados, mas extremamente generosos e de bom coração. Em meu casamento, com um pastor pentecostal sentado na mesa ao lado da nossa, a tia Tânia fez um longo discurso em voz alta sobre a corrupção deslavada de certos pastores, enquanto eu me dividia entre o prazer de ver uma entidade sem limites como ela em um de seus perpétuos momentos de expressão, e a vergonha por não me prestar a um bom anfitrião em minha festa de casamento. E o tio Pedro, eu sempre conservei uma crença secreta de que ele é uma reencarnação de um general romano, desses que viveram o auge da filosofia estoica, uma espécie de Marco Antonio. Ele tem uma visão distanciada do mundo, como se conhecesse a torpeza e a corrupção profundamente, e apesar disso_ ou, por causa disso_ tem mais uma razão disciplinada cheia de bondade efetiva do que propriamente um coração bom. Eles são os pais do Gustavo, do qual já escrevi aqui que se acidentou de um viaduto em Goiânia.

      Obrigado aí por sua sensibilidade em destacar essa parte do texto.

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  7. Eu ia comentar que esse texto, junto com aquele sobre Gustavo, estão entre os mais tocantes do blog (agora que me toquei que você fala de Tio Pedro no outro texto). Espero que Dani e seus filhos estejam bem.

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  8. E eu aqui com meus questionamentos..., e lá se vai mais um dia. Esse medo da morte, penso eu, vai logo embora quando temos em um leito de hospital um dos nossos filhos. Como dá vontade de substituí-los naquilo que sofrem e naquilo de pior que poderá vir. Aconteceu comigo a pouco e, diante de um sofrimento muito estranho , falei para minha mulher de como depois daquilo nunca mais seria o mesmo. Percebi a existência de um amor antes meio que embaçado e distante, algo que existia, porém não era experimentado.
    Tive naquele exato momento o entendimento do AMOR de Cristo, que se entregou por nós a um sofrimento extremo. Esse é o amor legítimo, pensei. Quando pensei que Deus entregou por amor a nós o seu próprio filho, fique meio que em êxtase, absolutamente convicto da realidade que é a minha medíocre vida sem a percepção e o conhecimento desse Amor que causa hoje escândalo. Foi na pele Charles, querendo me oferecer em substituição a minha filhinha, que compreendi esse Amor que transcende.
    Gostaria de lhe falar das dúvidas e inseguranças humanas, mas não consigo considerar nada sem a perspectiva daquele homem na cruz carregando todo Amor, com coragem e confiança.
    E mais, como não ter medo da morte se não acreditamos na vida.
    Achei espetacular o seu texto por enfrentar um assunto hoje que é evitado. Porém, de tudo dito penso que faltou algo, faltou um arremate qualquer, uma ponderação. Do pouco que te conheço percebo que vc é um cara especial, assim, creio que a indignação logo logo dará lugar a uma convicção tranqüila que vc experimentará involuntariamente.
    Saúde e paz para vc e família.

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    1. Wagner, espero que tudo esteja bem com seu filho. Que a saúde tenha se restabelecido. Penso igual a você, nesta questão.

      Constantemente expresso minhas opiniões aqui sobre a transcendência. Sou cristão. Mas a vida toda luto contra o desgaste que fizeram com o nome de Cristo. Não tenho nenhuma certeza, nem a mínima intuição, sobre o sentido da vida. Só sinto uma enorme alegria por estar aqui, no meio desse turbilhão de ensinamento. E o contínuo exercício é o auto-policiamento. Meus aprendizados últimos sobre Cristo vem de Swedenborg e de William Blake, e de Joseph Brodski também. O primeiro diz que além da caridade, alcançamos a salvação através da inteligência; o segundo completa com a arte, salvamos através da arte. E o terceiro me deu um significado único sobre o "dar a outra face" como a arma de resistência mais eficiente. Isso forma a base do meu cristianismo. (E aquela máxima de Pascal que diz que sua religião é a da dúvida sincera.) Não nos foi dado mecanismos de compreensão sobre Deus, Wagner; fico com as infinitas possibilidades de maravilhamento.

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  9. Nada me é tão conhecido como pensar coisas inadequadas, ou fazer relações absurdas, em momentos em que é demandada postura sóbria. Só não me lembro de tê-las tornado públicas nunca, reprimi todas graças a Deus. E continuo pedindo para que Ele nunca deixe vazar, pelo verbo ou pelas atitudes, nada do que eu penso.

    Todas as piadinhas que faço, boas ou ruins, são dolosas.

    É claro que é meu dever, digamos assim, deixar uma palavra de conforto para tua esposa, a Dani, antes de rir das tuas humanidades e da canção do Chico. E eu deixo esse abraço para ela com muita sinceridade.

    Mas acho que eu vou me lembrar da tua história - aliás, um ótimo texto - quando ouvir "morreu na contramão atrapalhando o trânsito". Lá no fundo, eu gosto mais da pirueta, talvez seja a porção Júlia que ainda me habita e eu gosto de tê-la. Gosto do Chico, mas não sou, digamos assim, o teu simétrico oposto. Ele tem algumas canções que me agradam, sobretudo se não são cantadas por ele.

    Embora eu não tenha tornado públicos pensamentos impróprios para a circunstância, não me faltam gafes no currículo. É diferente, eu sei, do pensamento impróprio e de relações absurdas que faço ante a morte, a doença ou a dor do outro. E eu, simplesmente, morro de rir das gafes que cometo. É mais forte que eu. Segurar o riso é coisa que me é muito, mas muito difícil mesmo.

    Conto uma delas.

    Durante um tempo, eu joguei bridge. É um jogo muito legal, aliás, mas eu jogo muito mal, não tenho paciência para estudar e treinar, então parei de jogar. Havia um grupo de umas 50 pessoas que jogavam, muitos senhores e senhoras "de respeito". Não havia baixaria por ali. Eu tinha uns 30 anos, acho que eu era a segunda pessoa mais jovem desse grupo e era até bem tratado pela minha pouca idade.

    Aconteceu de um senhor desse grupo ter sido diagnosticado com câncer. Ele tinha uns 70 anos. O pessoal decidiu fazer um cartão coletivo para dar força ao colega que estava hospitalizado. Eu estava conversando à mesa e estava com a cabeça na lua quando cartão chegou até mim. Automaticamente, julguei ser um cartão de aniversário qualquer. Escrevi uma mensagem protocolar.

    - Parabéns! Que esta emoção se repita muitas e muitas vezes. Um abraço do Fábio.

    Passei o cartão adiante. Notei burburinhos insistentes, mas juro que não imaginava o que se passava. Uma senhora de uns 80 anos me chamou num canto. E eu acho que todos olhavam para a gente. Ela contou a história do colega com câncer e, sim, eu já sabia, "que coisa chata, dona fulana, tudo vai dar certo". Aí ela, com bastante seriedade, me disse que não tinha achado adequada a minha mensagem no cartão...

    Um filme passou na minha cabeça como um raio e eu queria morrer ali mesmo. Eu rasurava o cartão (péssimo!) e ria compulsivamente. A senhora de 80 anos não achava a menor graça. Ninguém no salão ria abertamente, notei que meia dúzia deixava o recinto para poder rir, e isso me fazia rir ainda mais. Eu só pedia desculpa e ria, ria muito. Foi horrível.

    Ele morreu tempos depois.

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    1. Obrigado, Fabio.

      Não sei se já viu isso aqui. Todo mundo deve ver isso aqui. Nunca vi uma maneira mais humana de homenagear um amigo morto:

      https://www.youtube.com/watch?v=E5NrUqk5dtk

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    2. O vídeo é fantástico. Creio que não haveria outra maneira de homenagear Graham Chapman. Foi a primeira vez que vi um gargalhar solene…

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    3. Bem, depois do vídeo sobre o Graham,
      Deixo uma pilhéria à Vecchia Signora
      sombria, que teima em me agarrar…
      .
      .
      O VELHO ADAMASTOR
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      Depois de um sábado,
      a fazer sol ou pingos,
      sempre…: um bingo!
      É…, de belzebus
      d’olho no patrimônio
      do velho Adamastor,
      a casa ficava atulhada
      de espelhos - do amor -
      sempre aos domingos.
      .
      Durante bimestres,
      Adamastor não partiu.
      Durante semestres,
      Adamastor resistiu:
      passaram-se anos…
      Porém, pouco a pouco,
      naquela casa, só ficou
      o pó, as cinzas da canalha.
      .
      Por fim, o velho Adamastor,
      que tudo fingia e nada dizia,
      finalmente, um dia  sorriu.
      .
      Afinal,
      qual é a moral
      desta história? Ora,
      a morte não namora!

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  10. Não conhecia, é ótimo mesmo. Mas acho que só é possível quando todos sabem do pertencimento do morto ao non-sense Monty Phyton, ou algo que o valha. Acho extremamente difícil quebrar o protocolo, contrariar o rito, profanar o sagrado (sem ser iconoclastinha de almanaque). Normalmente, fazemos alguma coisa parecida nas conversas de porta-de-capela, ou de porta-de-cemitério - e há um quê de proibido nisso, as pessoas falam baixinho esticando o pescoço para se certificar que não há uma carpideira ortodoxa por perto. É, eu acho tenho o hábito de perambular pelos cafés e pelas rodinhas do entorno dos sepultamentos.

    No velório do meu pai, dois primos que eu não via há muitos anos fizeram isso. Relembraram uma festa de natal onde meu pai e os irmãos dele cometeram tudo o que não se faz num natal. Éramos crianças, assistimos a tudo com espanto e acho que descobri ali que Papai Noel não iria aparecer nunca. No dia seguinte, no muro da casa da minha vó, riscaram uma frase memorável. "Casa de gente doida e maluca". Dava uma lápide onde ele foi enterrado (junto com minha avó e os irmãos dele, todos já falecidos)

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  11. O mais incrível (esse é o pensamento que me veio à cabeça imediatamente após o arremate fantástico do último parágrafo) é que histórias assombrosas como essa(s) todos nós temos em nossas experiências; esses entrelaçamentos insuspeitos de fatos e pessoas e pensamentos, coincidências aparentemente intrincadas, pequenas ou grandes tragédias que nos ensinam sobre a vida mais do que qualquer outra coisa... tudo isso acontece com todo mundo, acontece com o Charlles, acontece comigo, com os amigos dos comentários aqui (relato tão incrível quanto o do Charlles foi o do João), e também com o sujeito que vejo nesse exato momento pela minha janela passear com o cachorro, todos os dias eu o vejo, ele mora aqui pertinho mas eu não faço a mínima idéia do nome dele, não sei nada da história dele, onde ele nasceu e quem mais mora na casa dele, mas uma coisa eu tenho certeza: ele tem algumas histórias como essa vividas e registradas em sua alma, e talvez esteja mesmo, nesse exato momento, pensando e repensando sobre alguma delas, enquanto espera seu cão saciar-se de rua por hoje (talvez ele, mais do que o cãozinho, precise desse passeio diário...). Basta olhar atentamente para o rosto de qualquer pessoa por alguns segundos e a gente vê essas histórias nos vincos e nas rugas e nos olhos.

    Não digo isso para vulgarizar a história do Charlles, ou diminuí-la, claro que não, pelo contrário -- antes ela me fez pensar em como extraordinárias são todas as existências com todos esses mundos (como disse o Farinatti) em cada uma delas... 6 bilhões, é essa a última contagem? A gente passa por dezenas dessas pessoas diariamente e normalmente são apenas vultos ligeiros. Mas elas, as histórias e memórias, estão lá.

    (Agora, a habilidade de pegar isso, refletir, e transformar numa sequência de interpretações e palavras... ah, isso pouquíssimos têm como o Charlles!)

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    1. O Delillo faz seu personagem dizer neste livro que existem muitas informações abandonadas no mundo, e que o objetivo da sua vida era descobri-las. E sempre penso em uma frase de Walt Whittman que diz sobre as "superfícies impossíveis" de todas as coisas.

      Valeu!

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  12. É, Fabricio,
    veja o que certa vez se atreveu
    a escrever...um certo português...
    .
    .
    (…)
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
    (…)

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    1. Ou isso que um certo inglês disse:
      .

      “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
      Em nosso espírito sofrer pedras e setas
      Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
      Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
      E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
      Dizer que rematamos com um sono a angústia
      E as mil pelejas naturais-herança do homem:
      Morrer para dormir… é uma consumação
      Que bem merece e desejamos com fervor.
      Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
      Pois quando livres do tumulto da existência,
      No repouso da morte o sonho que tenhamos
      Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
      Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
      Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
      O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
      Toda a lancinação do mal-prezado amor,
      A insolência oficial, as dilações da lei,
      Os doestos que dos nulos têm de suportar
      O mérito paciente, quem o sofreria,
      Quando alcançasse a mais perfeita quitação
      Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
      Gemendo e suando sob a vida fatigante,
      Se o receio de alguma coisa após a morte,
      –Essa região desconhecida cujas raias
      Jamais viajante algum atravessou de volta –
      Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
      O pensamento assim nos acovarda, e assim
      É que se cobre a tez normal da decisão
      Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
      E desde que nos prendam tais cogitações,
      Empresas de alto escopo e que bem alto planam
      Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
      De se chamar ação.
      (…)”

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    2. A única maneira que consegui
      enganar a morte, até o momento,
      foi através da inocência…da arte.
      .
      .
      TRÊS ANOS
      by Ramiro Conceição
      .
      .
      Quando o meu filho me leva,
      me levanta em seus ombros,
      de três anos, creio em Deus.

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  13. Grande texto, Charlles. Um abraço a todos vocês, principalmente à Dani.

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  14. Bom dia!
    Comecei o Herzog do Bellow essa semana.
    Queria muito saber se o romance ganha mais vapor a partir da página 100...
    Esse seria o primeiro romance do Bellow que eu abortaria no meio.
    Diferente de Humboldt e outros personagens do Bellow, não estou conseguindo achar charme algum nas notas e cartas abortadas escritas pela mente decadente de Moses Herzog... Talvez porque esse seja o primeiro personagem-narrador do Bellow cuja perspectiva narrativa não vem de uma lucidez intelectual livresca...
    Uma pergunta aos colegas que poderia facilmente ser resolvida com uma pesquisa no google (mas assim é mais divertido).
    A famosa parábola da Lei de Kafka se encontra em outros lugares da obra dele que não na Colônia Penal?
    (Tentando aqui fazer um argumento de que é essa lei de proibição auto-referencial que está na raiz da moral Judaico-cristã)

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    1. A primeira vez que tentei ler Herzog eu também desisti. Natural. Aconteceu em quase todos os meus grandes livros.

      Há uma série de razões para a perseverança antes e após as 100 páginas iniciais. Observe a velocidade da prosa; a adrenalina do pensamento_ o que, para mim, sempre configurou algo genuíno em um romance ensaio. A profunda jovialidade da escrita de Bellow. É inevitável que se saia mais inteligente e mais literário desse romance, Luiz. Vai por mim, meu camarada.

      Não sei do que você se refere sobre Kafka. Se for a peça com várias versões, normalmente conhecida como "Diante da Lei", ela está em O processo, e também como conto individualizado em algum dos livros de contos e aforismos de Kafka.

      Herzog deve muito à essa peça, principalmente no show de escrita genial das partes de tribunal desse romance. Lembro com perfeição dos pensamentos de Moses Herzog diante o juiz, ao assistir às sessões públicas de vários despossuídos, entre eles uma prostituta e um pederasta, em que ele cogita do quanto o próprio juiz teve que se corromper e se prostituir para estar ali no alto da tribuna, com cara de empáfia.

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  15. Isso. O Diante da Lei. Você está correto. Eu tinha uma vaga lembrança da parábola aparecer ipsis literis em O Processo. Quer dizer, ou isso ou você também passou a confundir na memória o romance com a versão cinematográfica de Orson Welles (excelente, por sinal!). Welles começa o filme dele com a parábola de Diante da Lei.
    Sinto falta dos personagens memoráveis Bellownianos em Herzog...

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    1. Em Herzog não os vemos com tanto primor dickensiano como em Humboldt e em Augie March. Para entender melhor isso, recomendo o estudo das obras de Bellow feito por Philip Roth em "Entre Nós" (Shop Talk), em que Roth diz que existe uma dicotomia na bibliografia de Bellow, dividida entre romances solares (não é bem esse o termo usado, mas querendo dizer "mais movimentados", "extrospectivos"), como Augie March e Humboldt, e romance soturnos, mais amargos e reservados, como Sr. Sammler e Dean`s December. Herzog se encontra no meio termo. Há personagens poderosos e tendentes ao burlesco bellowiano, como o psicólogo que atende Bellow e seu ex-melhor amigo manco pelo qual a esposa de Bellow se apaixona. E a ex-esposa de Bellow é uma das mulheres mais fortes de Bellow.

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  16. "É inevitável que se saia mais inteligente e mais literário desse romance, Luiz."
    Herzog deixou uma marca em mim, creio que benigna. Não digo que saí mais inteligente, mas um pouquinho literário, sim. Enquanto lia troquei uns email com o Charlles e também apontei um estranhamento à obra, junto de um encanto sutil mas poderoso. Vale à pena sim (Dollynho®).
    Hum... boa hora para relê-lo..

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    1. Opa. Baita incentivo. Vou prosseguir. É que estou com vontade de trocá-lo pelo Aharon Appelfeld que eu adquiri, o The Conversion. Nada de fato é mais verdade que aquela máxima repetida pelo Milton. De que um livro indica outros livros. Shylock me indicou Appelfeld.
      Hum. Vou deixar uma dica musical. Ouço agora uma divertidíssima versão de Jazz da Moonlight Sonata de Beethoven. Trata-se do disquinho The Jazz of Beethoven do pianista Lenny Marcus.
      #Fica a dica

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  17. João Antonio Guerra20 de março de 2014 21:47

    Charlles e Fabricio, fiquei feliz pelo comentário ter agradado.

    Nunca li Malraux, Charlles. Hoje dei a sorte de visitar o site da Travessa, e lá o pocket d'A Condição Humana estava custando apenas quinze reais. Comprei e, verificando se a confirmação tinha chegado ao meu email, vi que a Cosac Naify tinha me enviado um cupom de desconto de 49% pra todo o catálogo -- esses desgraçados tão a fim de me foder, só pode! Aliás, recebi um cupom extra pra mandar pra alguém; se algum de vocês todos estiver interessado, é só dizer.

    Abomino o culto ao Chico Buarque -- aliás, o problema é esse mesmo: não o Chico, mas a seita em torno dele. Sem o pedestal (uma espécie de assento infantil para um artista de setenta anos), ele voaria de uma maneira muito mais respeitosa, inclusive permitindo que gente mais inovadora como Jards Macalé, Arrigo Barnabé ou Tom Zé* (eco, eco, eco) voe também; o mesmo vale para os tropicalistas santificados: negando a santidade deles, teríamos ouvidos melhores para pequenos milagres.

    Na minha mente, o apreço que a tal elite tem pelo Chico faz par com a Joan Baez sendo tocada naquela festa em A bend in the river. Salim é um narrador de Naipaul, e como narrador de Naipaul é um homem horrível, mas com um olho que vai lá longe; na festa, ouve as músicas de protesto da Baez, ouve a mentira nas conversas daqueles estranhos, todos pagos pelo Big Man para confundir a megalomania do Big Man com a sobrevivência dos africanos, mas tudo que realmente fica gravado dentro dele são as músicas de amor da Baez, e as pernas da mulher do bambambã da festa -- Salim já sabe que todo o resto é apenas um joguinho.

    *- O Tom Zé precisou que o David Byrne (sei que você gosta de Talking Heads) exportasse ele para sobreviver. Não fosse o Byrne fazendo caridade...

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    1. João Antonio Guerra20 de março de 2014 21:50

      Liguei meu kindle, fui no capítulo da festa em A bend in the river e encontrei um trecho que para mim mata belamente a questão:

      It was make-believe – I never doubted that. You couldn’t listen to sweet songs about injustice unless you expected justice and received it much of the time. You couldn’t sing songs about the end of the world unless -- like other people in that room, so beautiful with such simple things: African mats on the floor, African hangings on the wall and spears and masks -- you felt that the world was going on and you were safe in it. How easy it was, in that room, to make those assumptions!

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    2. Espero que você se surpreenda com Malraux, João. Em A condição humana se vê o quanto o cara escrevia bem e tinha um estilo todo próprio_ me lembro de que, neste, há uma frase curta descrevendo os pingos da chuva que parece uma pintura em letras. E a descrição que abre o romance também é espetacular. Seu relato me fez lembrar esse autor porque engloba tempo e sentimento represado em poucas palavras, uma vista panorâmica sobre o passado para se entender o presente que é muito próprio dos flasbacks de Malraux.

      A propósito, ontem passei o dia namorando a bela edição da Cosac de Moby Dick, e por pouco não a comprei pelo seu alto preço. Recebi um desses cupons também, mas o excluí irresponsavelmente. Se você ainda não cedeu o cupom extra pra ninguém, e puder fazê-lo para mim, ficaria grato. Dessa vez quebro a coqueteria do bom anfitrião.

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    3. João Antonio Guerra21 de março de 2014 12:22

      Estou esperando ansioso aqui pelo meu Malraux. No momento, estou preparando um trabalho sobre o tema da memória em Yoknapatawpha (mas partindo do livro que não se passa no condado, If I forget thee Jerusalem, traduzido aqui como Palmeiras Selvagens), e por isso lendo um Faulkner atrás do outro; o Malraux vai ser o intervalo entre As I lay dying e a trilogia Snopes, que aliás lerei pela primeira vez.

      O Moby Dick da Cosac é uma delícia sim. Tenho aqui em casa uma edição em inglês da Collector's Library, um trabalho de edição maravilhoso e comprado por menos de vinte reais alguns anos atrás numa promoção da Travessa; comecei a ler uma vez, e estava gostando, mas por algum motivo abandonei a leitura. Mandei um email para os dois endereços disponíveis aqui no blog, Charlles. Vê lá se chegou.

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    4. Chegou, João. Já estou comprando. Muito obrigado.

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    5. De repente vai rolar um Oprah's book club então...
      Leitura da semana, Moby Dick!

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    6. Hahahaha. Seria ótimo, mas acho que não tenho o cacife de promover tal coisa não.

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  18. Caramba, João. O valor do frete é de $51, 53!!!! Frete normal!! Você já comprou no site da Cosac? Costuma ser esse preço mesmo? Eles dão um ótimo desconto, mas acaba que fica elas por elas.

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    1. João Antonio Guerra21 de março de 2014 13:20

      Cinquenta reais de frete? Eu imaginava que sairia caro, que moro no Rio e a Cosac é de São Paulo e já cobra quinze reais de frete, mas não imaginava cinquenta reais não!

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    2. Mandei um e-mail pra eles falando que me senti ofendido. Um livro, por mais pesado que seja, não passa de 5 reais para você enviar pelos Correios. Isso aí é má fé. A não ser que eles tenham uma estética diferenciada, além das capas primorosas e dos trabalhos de edição sofisticados, eles entregam o livro em lombo de burro ou em românticos jinriquixás, desprezando por completo as evoluções do século passado na tecnologia de encurtamento de distâncias geográficas. Mas aí os clientes tem que, além de senso de humor, serem milionários.

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    3. João Antonio Guerra21 de março de 2014 14:03

      É aquela antiga babaquice de que o Brasil se resume a Rio-São Paulo e só. Vale a pena reclamar sim, porque caso contrário é como se o frete nulificasse o desconto.

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  19. 50 pila de frete? Deve vir numa caixa banhada a ouro! Ou os correios que estão ficando cada vez mais fdp.
    Comprei 'A Política da Prudência', de Russell Kirk, com um desconto camarada que valia até ontem no site da É Realizações. Hoje só o livro sai por 88.
    'Adoro me ludibriar nessas compras promocionais. Também recebi esse cupom da Cosac e já havia ganhado outro de aniversário no início do mês.

    João, esse trabalho é para a universidade?

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    1. João Antonio Guerra21 de março de 2014 14:04

      Hahahahaha! É sim, Matheus. É um dos meus trabalhos de iniciação científica, e será minha proposta de mestrado.

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    2. Mais: és formado em história, literatura?

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    3. João Antonio Guerra21 de março de 2014 14:22

      Formado em nada ainda não, estou na graduação em Letras (Português/Literaturas) na Ufrj, e me arrastando. Você, se lembro bem, é de História.

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    4. Isso, também me arrastando, mas acho que ESSE ANO VAI!!!

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  20. Fiz um teste no site da Companhia das Letras, simulando uma compra de um livro que é mais pesado que Moby Dick. Frete de 20 reais e 71 centavos. Para você ver que o frete da Cosac é absurdamente abusivo.

    https://editora.cosacnaify.com.br/loja/suasacola.aspx

    https://companhiadasletras.paginaviva.com.br/carrinho.cfm?id_ProdutoLoja=9788535921977

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    1. Resposta da Cosac:

      "Boa tarde,Charlles.

      Tentamos contato através do telefone informado em seu cadastro,porém sem resposta.

      Nós temos outras alternativas de envio.Pode nos contatar para cotação,caso lhe convir.

      Lembrando que o cupom de desconto de 49%,só concede gratuidade no frete em compras acima de R$100,00.
      No caso do "Moby Dick",o preço de capa é de R$119,00,porém,inserido o cupom,o preço cai para R$60,69.
      Se sua compra final,com cupom inserido,ultrapassar R$100,00,pode estar certo de gratuidade no frete.

      Estamos à disposição para maiores informações.

      Atenciosamente;


      SAC [Serviço de Atendimento ao Cliente] "

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  21. João, talvez eu tenha sido deselegante com você. Me desculpe. A sua generosidade foi valiosa. Comprei na Cosac, com 49% de desconto graças ao cupom que me deu de presente, o Os embaixadores, do Henry James, Ficção Completa, do Bruno Schulz, O clube do suicídio, do Stevenson, e Moby Dick. Livros que eu namorava faz anos. E tudo por seis vezes 33 reais. Uma bagatela. E frete grátis.

    Muito obrigado.

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    1. João Antonio Guerra21 de março de 2014 17:32

      Deselegante nada, Charlles, pode ficar despreocupado. A Cosac tem uma fama de mercenária mesmo -- o Absalão, Absalão! que foi cancelado e cujo cancelamento jamais foi explicado, o Rubens Figueiredo odiado por professores de russo (aqui na Ufrj tratam o nome dele como se fosse uma maldição, porque o Rubens não fala russo e os professores daqui ficam com raiva, mas esse é um assunto que vale uma postagem mais arrumada) mas que custa duzentos reais no catálogo da Cosac, as edições duvidosas de Palmeiras Selvagens e Sartoris, e etc.

      Esse Clube do Suicídio tem um texto maravilhoso do Nabokov no final. Eu me pergunto se existe alguma compilação dos textos de crítica do Nabokov...

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    2. Eu fui um dos primeiros na lista de espera de Guerra e Paz traduzido pelo Rubens Figueiredo, João. Já estava monitorando esta tradução fazia tempos. Acho que tem algumas coisas sobre isso que publiquei aqui no período. Como saber se uma tradução é boa. Nós leitores, por mais que não se entenda nada de russo, sabemos. Li o Guerra e Paz enlevado, em estado de êxtase. E, pelo que me cabe apreender, a tradução é excepcional, ainda mais se comparada à anterior, vertida do francês, que eu lera na adolescência. Mas toda crítica é válida para o aprimoramento da cultura nesse país. Ouvi algo passageiro sobre essa possível polêmica em torno do "não falar russo" do R.F.. Se não me engano, ele fala dessas deficiências no ótimo texto que escreveu para a edição da Cosac, falando também dos anos que passou na Rússia por conta da tradução. Nesta questão, João, tendo a ficar do lado do Rubens. O Guerra e Paz da Cosac é uma joia, uma peça deliciosa para o tato e para o intelecto.

      A Cosac não cumpriu a promessa do Absalão, Absalão!. Taí uma coisa que desconheço por completo as razões. Se você souber de segredos de alcova, por favor, fale aqui para esse faulkneriano roxo.

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    3. E eu aqui fico pensando: tá, pode não falar russo no dia-a-dia, ser mais um intérprete de código, mas seu trabalho não é tão bom ou melhor, mais condizente que o Bezerra com seu Dostoieviski meio cangaceiro? Fora que Bezerra dá a entender que não entendeu lá muito bem a obra que traduziu?

      http://www.adhominem.com.br/2013/04/enfrentando-o-epilogo-de-crime-e-castigo.html

      Quando qualquer departamento de faculdade fica contra alguém eu já tenciono a favor do sujeito hehe

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    4. Não sei se o que a autora do texto linkado está falando é certo, Matheus. Paulo Bezerra não compreender Crime e Castigo aí já é meio que o velho despeito acadêmico que se tem contra tradutores sob holofotes.

      Estou contigo quanto à última frase.

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    5. João Antonio Guerra22 de março de 2014 14:05

      Meu contato com o departamento de Orientais e Eslavas lá da Letras é a partir de um amigo meu, um menino gago que luta para se tornar poliglota -- e muito provavelmente conseguirá, que já aprendeu o alemão sozinho, apenas traduzindo por conta própria os continhos do Kafka, Nietzsche e outros autores que ele me manda pelo Facebook de vez em quando mas que não me lembro bem agora. O assunto entre nós foi uma edição russa de contos completos do Tchékhov, presenteada a ele por um amigo ou amiga que ganhou dois pais uma viagem pra'z'Europa; o preço da edição, com o câmbio, dá em torno de quarenta reais, e brincamos entre nós que se uma Cosac qualquer publicasse uma edição assim por aqui, o preço seria uns duzentos reais e mais uma banda da bunda. Foi dessa piadinha que esse menino -- todo mundo chama ele de Pacheco, nome horrível de velho -- começou a falar sobre o que seus professores dizem sobre a tradução do russo no Brasil.

      A posição dos professores dele é esta, até bem simples: falando da falta de boas traduções do russo, estamos praticamente na mesma, a diferença sendo que atualmente deixamos de traduzir do francês ou do inglês e pegamos a língua original. Rubens Figueiredo e Boris Schnaiderman são descartados: um porque não fala russo, o outro porque conhecia mal o português; o Paulo Bezerra, porém, é respeitado como um excelente tradutor; quanto ao resto dos tradutores, acontece algo parecido com o que se dá quanto às traduções do alemão: os professores reclamam muito das traduções serem todas literais, e apontam como prova a falta de traduções de poesia e a precariedade das que existem.

      Deixei de escrever antes: estou do lado do Rubens; os primeiros salários que recebi na vida foram inteiramente para comprar o catálogo completo do Tolstói pela Cosac, e não me arrependo de uma moedinha sequer. O problema é menos ele do que a faceta mercenária da Cosac, que aproveita que não há mais nenhuma tradução direta do original para endeusar seu próprio catálogo, criando uma espécie de monopólio e cobrando preços absurdos.

      Com Faulkner dá pra perceber um pouco do comportamento mercenário da Cosac, nas edições de Sartoris e Palmeiras Selvagens. O título original de Sartoris era Flags in the dust, mas o editor de Faulkner pediu que o velho tirasse quarenta mil palavras e mudasse o título; só nos anos setenta o mundo teve a versão original, Flags in the dust, enquanto que a mutilada foi deixada de lado. Aí você pega a edição da Cosac e vê que o título é Sartoris, o texto base é o Sartoris e não Flags in the dust, e fica coçando a cabeça sem saber se o livro que está lendo é de fato a versão mutilada ou não, porque não faz sentido que uma editora dê preferência a uma versão há muito abandonada de um romance -- e você vai coçar a cabeça eternamente, porque a Cosac não teve colhão de nos informar sobre o que verdadeiramente aconteceu, mas teve colhão de cobrar quase cem reais pelo livro. O título original de Wild Palms era If I forget thee, Jerusalem, mas o editor de Faulkner não viu nenhuma Jerusalém no livro e mandou que o nome fosse trocado para Wild Palms apenas porque era o nome da estória que aparece primeiro; a troca fez um rombo enorme na leitura, e nas edições atuais de Faulkner o título é corrigido para If I forget thee, Jerusalem... mas não na da Cosac -- sem colhão para apontar para essa confusão de títulos que mata a obra, mas com colhão para cobrar cem reais.

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    6. João Antonio Guerra22 de março de 2014 14:06

      Já dei vários motivos aqui para o meu ódio pela Letras-Ufrj, e dou mais um, cavado daquela conversa com o Pacheco: esse meu amigo, vendo meu entusiasmo por aqueles contos completos, me convidou para assistir uma aula de russo como ouvinte. O professor era um tal Alberto (chequei o sobrenome aqui e acho que é Alberto Filho), e o Pacheco simplesmente me disse Vem, porque o Alberto é foda, e eu perguntei Foda como?, e foi aí que ele me contou, com uma admiração que não cabia nas minhas ideias, sobre os ataques de loucura que o tal Alberto dá em sala de aula. Esse Alberto, segundo meu amigo, berra com quem erra suas perguntas, humilha os alunos "que não querem saber tanto russo quanto ele"; contou também de um incidente em que esse professor insano expulsou de sua sala uma colega de trabalho, uma professora do mesmo departamento que ele, porque "ela não sabe russo" -- o Pacheco, que é geralmente uma boa pessoa e um bom amigo, me contava esses casos com um rosto admirado, como se por baixo de seus esforços para aprender outras línguas estivesse o desejo de um dia ter, no seu entendimento, aquela maldita autoridade para esmigalhar os outros como o tal Alberto de russo.

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    7. João Antonio Guerra22 de março de 2014 14:12

      Ah, esqueci de escrever sobre Absalão, Absalão!, Charlles: vai sair sim, aparentemente este ano ainda. O tradutor é o mesmo que trabalhou com Luz em Agosto, e por isso boto fé. Lá na letras, fofoca-se muito: ouvi dizer que a culpa do atraso foi que na etapa da revisão descobriram um plágio, mas eu não acredito, o Celso Mauro Paciornik fez um trabalho bom demais em Luz em Agosto para que eu acredite.

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    8. Fascista os há em todos os cursos.

      Que bom que não desistiram de Absalão, Absalão!. Comprei apenas o Luz em Agosto (que, justiça seja feita, é a única tradução nacional que traduz certo o título, as outras sendo sempre Luz DE agosto) da Cosac. Gosto muito dos livros da Cosac, cara, é um trabalho editorial de primeira. Mas o catálogo deles, em questão de literatura, é limitado. De maneiras que eles me mandavam esses cupons e eu sempre os desprezava, achando que era uma falácia (todo consumidor brasileiro é traumatizado pelas Oi Brasil Telecom da vida), ou tendo desinteresse. O Matheus uma vez me ofereceu um cupom desses também, mas eu não o usei.

      Livros no Brasil são objetos de luxo, e o preço deles acompanham esse imaginário. Mas nenhum livro é tão caro quanto os livros da Cosac. Eles salgam e não deveriam fazer isso. Por isso que, talvez, estejam sempre fazendo promoções de um dia com tantos % de desconto, bônus, etc. Deveriam mudar essa matemática de vendas.

      Mais uma vez recorro à Cia das Letras que, cê sabe, não é porque sou parceiro desta empresa etc, mas eles tem um catálogo inigualável, extenso, secularmente atendendo a todas as vertentes da cultura, e cobram preços acessíveis. O exemplo que dei no link acima é da biografia do Van Gogh, que escolhi por ser uma peça chic nos moldes da Cosac: tem mais de mil páginas, é fartamente ilustrado com pinturas coloridas e gravuras em preto e branco, capa dura, e custa menos de 90 reais (oitenta e pouco, não me lembro). E o frete, comprando direto da editora, para Putaquepariu (que, pelo visto, é como a Cosac presume que chama a cidade onde moro), é de 29 reais, contra 53 da Cosac. Então, meus caros colegas da Cosac, vcs estão sendo é muito burros fazendo um marketing à lá Brasil Telecom, visando a velha extorsãozinha de praxe em cima de nós pobres jecas brasileiros.

      Há traduções excepcionais de Faulkner. Há uma maravilhosa tradução de um dos romances mais complexos de Faulkner, Desça, Moisés, pela Expresão e Cultura (tenho aqui, mas no momento é impossivel achá-lo em menos que três horas), há uma compilação chamada Três Novelas pela Bertrand, com O Urso e a história da enchente de Palmeiras Selvagens. Há as traduções da trilogia dos Snopes pela Siciliano, recém relançadas.

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    9. Errata: o frete da Cia para a minha cidade é de 20 reais, e não 29.

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  22. De Bellow, li Augie March nuns quatro dias, e Herzog num punhado de meses. Além de ser mesmo mais lento, o livro (da editora símbolo) estava se esfarelando em minhas mãos, e eu ficava receoso de sair de casa com ele e terminar de destruí-lo. O livro não era meu, e no final das contas acabei comprando outro para o dono, ficando com os pedaços do que eu li. Em Herzog também há umas descrições que parecem pintura, especialmente nos flashbacks. Ah, é impossível ler esse livro ao fim de um relacionamento.

    Comprei O legado de Humboldt da Cia por 15 pilas na EV. Ainda estou esperando chegar, morrendo de medo que venha roído por ratos, cheio de bolor, ou ainda com as páginas trocadas, qualquer defeito, pra estar assim tão barato.

    Li Guerra e Paz ano passado e achei a edição perfeita! Compare com Khadji-Murát da Cosac, traduzido por Boris Schneidermann, que é russo. Um não deve nada ao outro: parecem traduzidos pela mesma pessoa.

    Charlles, também namoro faz anos O Clube do Suicídio. Tinha me esquecido até, mas esses dias li um texto de Ssó falando dele... Aí já viu.

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    1. Essa tradução da Símbolo é ótima. Tenho essa edição e a da Cia. Meu primeiro Bellow foi Herzog, e fiquei espantado com esse livro. Foi um dos marcos na minha vida de leitor. Envolveu muitas reações confrontantes: a mais forte foi que a partir dele percebi os novos rumos da literatura americana. Desapeguei-me do culto que fazia a Faulkner e me lancei no mundo dos autores americanos que, para sobreviverem a Faulkner, o contestavam nos temas. Por isso minha rejeição a Herzog no começo: onde estava a contestação social quanto aos desprivilegiados, etc? Herzog era exuberante e desavergonhadamente urbano e cosmopolita, esbanjava cultura. Fiquei um ano distante da literatura após ler Herzog, decidido a deixa-la e me assumir como veterinário e só me preocupar com aquilo que minha condição nacional permitia pragmatizar. Me senti muito diminuído diante esse livro, vou confessar.

      Acho que foi esse texto do Ssó e um do Milton que me despertou interesse pelo Clube.

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  23. João Antonio Guerra22 de março de 2014 15:38

    A Companhia é imbatível mesmo, Charlles, ainda que eu zombe algumas das escolhas pras capas, como aquela minha picuinha com a capa do Naipaul mais recente, ou a daquela coleção cinza-escura dos ganhadores do Nobel -- os livros daquela coleção têm uma sobrecapa estranha, que pode ser desdobrada, ficando do tamanho de um pôster, mas que não tem nada dentro nem nenhum propósito para ser daquele tamanhão todo. Minha próxima compra será o Humboldt da Companhia, que é o único que falta aqui do Bellow...

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    1. João Antonio Guerra22 de março de 2014 15:43

      E esse livro do Van Gogh você já comentou por aqui, sei qual é: foi traduzido pela Denise Bottmann, que é a dona do sensacional Não gosto de plágio, este aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/

      Saindo a tradução do Absalão, Absalão!, será muito provavelmente no site dela que saberemos o que aconteceu de verdade.

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    2. Já tive o prazer da Denise Bottmann comentar aqui no blog. Este site dela é uma das minhas idas contínuas na internet.

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  24. Ouvi falar que o dono da Cosac é um milionário amante de livros cujo propósito com a editora é meramente poder trabalhar com este seu hobby... Será? A tabela de preços praticada pela editora torna essa informação meio suspeita. Se bem que, ainda que costume ser pouco comum essas duas paixões na mesma pessoa, talvez seja alguém apaixonado por livros e dinheiro.

    Não tenho nada a acrescentar sobre traduções (sei somente que não se deve comprar livros da Martin Claret), então vou contar uma historinha para vocês, ainda relacionada a Cosac: na última compra que fiz com eles (comprei um livro sobre a história do design, aproveitando [ou sendo vítima de] uma dessas promoções apelativas), vieram junto do livro comprado dois outros que eu não pedi. Corri para conferir na minha conta bancária se eles haviam me sido cobrados, e fiquei aliviado quando vi que não, pensando "que legal, me enviaram uns brindes!" (pouco ingênuo eu, não?). Os livros: uma antologia de contos fantásticos selecionados por Borges e Bioy Casares, e também o "Peter e Wendy" de J. M. Barrie, estória que deu origem ao Peter Pan. Eu já ia quase abrindo os livros quando fui assaltado por sentimentos de precaução e honestidade, e daí resolvi esperar e escrever para eles primeiro. A resposta: "desculpe, senhor, foi um erro no sistema, iremos enviar alguém para pegar os livros de volta". Que decepção, hein? Mas daí a Nat se interessou pelo do Peter Pan, e o preço que veio na nota fiscal (mesmo não tendo sido cobrados, ambos vieram discriminados na NF) era também resultado de um belo desconto -- acabamos comprando o livro; o mesmo ocorria com o do Borges, preço final com um bom desconto, e ainda tinha o fato de que não termos pagado pelo frete deles... Acabei comprando também a antologia, para presentear um amigo, a quem eu já tinha mesmo pensando em enviar um livro.

    Será uma estratégia sórdida da editora? Não duvido que esses sistemas de banco de dados hoje já tenham essas capacidades de enviar livros que, pela análise do nosso histórico (e dos nossos e-mails...), irão nos interessar, e daí é só esperar pela rendição do cliente e cobrar por eles... Uma espécie de processos e compra de trás para frente [risos].

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    1. Só corrigindo: "... Uma espécie de processo de compra..."

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    2. Espero que eles cometam esse erro comigo, Fabricio. Eles vão me pedir para que eu envie de volta os livros a mais pelos Correios, aí eu vou dizer que tem frete: 53 reais.

      Eu vi lá essa compilação de contos fantásticos feita pelo Borges e pelo Bioy, quase pedi. Parece ser uma maravilha.

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    3. Essa do frete é boa, Charlles! Eu não poderia argumentar coisa semelhante porque me disseram que alguém viria aqui em casa pegar os livros. Acho que uma das livrarias daqui da cidade, a Livros & Livros, é uma distribuidora deles, ou parceira, algo do tipo. Bem perto aqui de casa, por sinal...

      Não fiquei com a compilação de contos porque, analisando os textos escolhidos, vi que já possuo a maioria deles, espalhados em outros livros. Será de mais valia para esse amigo que faz aniversário em breve.

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    4. É. Também tenho a maior parte dos contos do livro.

      A propósito, há pouco achei que estava vendo um hoax da internet. Pesquisei com absoluta certeza de que era piada, mas vi que era real. Não sabia, mas sabe quem foi o grande intelectual brasileiro que ganhou a Medalha Machado de Assis de 2011?

      Hein???

      Resposta: Ronaldinho Gaúcho!

      Nada surpreendente para uma instituição que tem José Sarney e Paulo Coelho.

      Mas... ao mesmo tempo, não é desses diagnósticos sobre o atraso do país que nos mata de rir e depois só sobra um risinho envergonhado?

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    5. É, eu lembro disso. Lembro de uma entrevista dele, todo encabulado (até o premiado achou o negócio estranho), dizendo que não gostava muito de ler, mas achava importante... Foi uma coisa bem constrangedora. Provavelmente alguém veio com o seguinte argumento: "ele não é um artista das letras, mas é um artista da bola", alguma cretinice desse tipo.

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    6. João Antonio Guerra25 de março de 2014 11:22

      Lembro daquela premiação, mais uma das palhaçadas da gestão do Marcos Villaça. Combinaram com os bambambãs do Flamengo a entrega da medalha ao Ronaldinho, com o pretexto de um evento em honra a José Lins do Rego, conhecido Flamenguista (ele inclusive teve alguma cadeira na administração do clube, se estou lembrando direito). Joguem no Google "Medalha Machado de Assis" -- os primeiros resultados são todos sobre essa premiação do jogador, tamanho foi o vexame -- e verão as fotos: o gordo baixinho, de óculos circulares, é o Villaça, e a mulher de dourado é a big boss do Flamengo, Patrícia Amorim.

      No meu primeiro ano de faculdade, quando ainda não trabalhava à noite, eu saía da Ufrj toda terça-feira e pegava um ônibus para o centro do Rio, para presenciar as palestras que a ABL oferecia às 18h. Uma das vezes em que frequentei a Academia foi um evento sobre arte de rua, em que os imortais morríveis tiveram a brilhante ideia de pegar quatro artistas de rua e botarem eles numa mesa-redonda com uns dois de seus velhinhos intolerantes, entre eles o Villaça, que na época era o presidente e estava presente em todas as sessões. Era hilário ver a velharia saltando de seus assentos toda santa vez que um dos convidados soltava um palavrãozinho...

      Não me recordo o nome do convidado(aliás, dos convidados eu só lembro da Pamela Castro, que assina como Anarkia, e é uma grafiteira conhecida nos arredores do meu bairro), mas, quando chegou sua vez de falar, ele proporcionou meu primeiro contato com Ralph Ellison, pois começou a falar do enredo e Invisible Man; para quebrar o maniqueísmo grafite(bom) contra pichação(mau), ele citou alguns trechos direto do romance. Acabou que aquele homem perguntou à plateia a razão do picho ser tão tremendamente abominável, enquanto que as propagandas são aceitas até tatuadas nas testas das pessoas, e o Villaça estava lá, no seu assento de presidente no centro da mesa, com sua cara de nojo habitual ainda mais acentuada.

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    7. João Antonio Guerra25 de março de 2014 11:24

      Achei um ganhador anterior da medalha: o Joel Santana.

      http://esporte.ig.com.br/futebol/2010/02/26/joel+santana+recebe+medalha+da+academia+brasileira+de+letras+9409890.html

      E na foto, é claro, está o vendido do Villaça.

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    8. Luxemburgo também ganhou. http://ahduvido.com.br/10-famosos-que-receberam-homenagens-totalmente-descabidas

      E pensar que Guimarães quase morre de emoção ao entrar na ABL...

      Agora é o jeito dar uma Bola de Ouro pro Sérgio Sant'anna!

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    9. Deram medalhas para Joel Santana e Luxemburgo pelos seus trabalhos em favor da língua pátria: ambos cuspiram golpes verbais às imperialistas línguas inglesa e espanhola, respectivamente.

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  25. Ah, esqueci de acrescentar: também tenho cá comigo um código extra de promoção da Cosac. Se alguém quiser, é só gritar!

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  26. O futuro do livro, PARTE I

    http://www.nytimes.com/2014/03/26/business/media/bookstores-forsake-manhattan-as-rents-surge.html?hp&_r=0

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    1. Os livros e as pizzas estão com os dias contados.

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    2. Eu não entendo como você consegue fazer pouco caso desses sinais. A sua fé inabalável no codex não vai sozinha cavar um desses nichos de abrigo nuclear para o livro.

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    3. Ricos não leem livros, meu caro. Veja um dos últimos comentários da matéria. E tem a Amazon, que arrebanhou uma quantidade generosa de vendas. Rebato esse seu pessimismo dizendo que a Amazon está aportando no Brasil, para venda de livros FÍSICOS.

      Eu não nutro otimismo quanto aos livros. De um modo geral, sempre se leu muito pouco (esqueces que o mundo não tem cura e a ignorância é a mais poderosa das constâncias?). O que eu sei, de forma despreocupada, é que sempre haverá uma mesma quantidade de leitores. Gostaria de ver alguma pesquisa sobre que tipo de livros se vendiam mais nessas saudosas avenidas de Manhattan: apostaria que a maioria era de artes (para decorar com o livro interiores), auto-ajuda, biografias de políticos americanos (ufanismo besta americano), e best-sellers da hora. Não passa da conservação da homeostase. Quem quer ler Bellow e Joyce, compra em qualquer livraria da calçada.

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    4. A Barnes and Noble, gigante do mercado de livro impresso, vem fechando lojas por toda a America do Norte. Se foram essas mega-lojas que fundaram a falência das pequeninas livrarias, qual será o futuro se essas mesmas passarem a desaparecer?
      A matéria cogita a possibilidade de que as próprias editoras, HarperCollins, Random House, etc, substituirão as mega-lojas. Isso soa como wishful thinking.
      O dado que me interessaria era saber a que passos a venda do livro digital vem substituindo a venda do livro físico.

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  27. Um adendo. Eu nunca fui um apaixonado por NY. Mas custa acreditar num cenário nova-iorquino onde o landscape não dá espaço a livrarias.

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    1. Minha matemática é muito simples. A alta literatura e os livros de não-ficção de qualidade sempre representou uma parte pequena da venda dessas megacorporações. O que vende mesmo sempre foram livros-bijuterias. Esses sofrem a implantação da pirataria (quem não tem acesso a um Dan Brown a hora que quer?), e tudo aquilo que a tal democratização da internet veio para diminuir em fetiche de vendas. Qualquer um pode saber em rápidas palavras o que Steve Jobs fez em sua curta vida, através da nuvem, em vez de gastar tempo e dinheiro com um calhamaço de 600 páginas com o cara. As livrarias podem estar em crise, mas devido à queda desse material que é secundário em qualidade mas que havia sido protagonista em vendas antes da internet.

      Não creio que a literatura esteja em perigo. Basta ver que por aqui, por estranho que possa parecer, o mercado de livros vem investindo em uma gama de novos romancistas. Talvez, em uma hipótese mais aventureira, a literatura venha a ganhar mais espaço em países que ainda tem o que dizer, em países emergentes como costuma-se acreditar ser o Brasil. Ou países que tenham ainda um quesito espiritual a oferecer, como é o caso de um ciclo de romances proustianos estarem sendo best-seller na Noruega.

      E essa situação das livrarias americanas é cheia de detalhes que estão além da falta de interesse pelos livros. Em uma época de telinhas coloridas boçais e outros artifícios tecnológicos, é natural que o mercado de aluguéis priorize um horizonte de pontos de venda e i-phones e o novo brinquedinho de idiotas do momento.

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  28. O fênomeno Karl Ove Knausgaard é ainda um mistério para mim. Porque se a influência de À la recherche sobre o seu projeto Min Kamp (My struggle) é clara, não sei bem se essa comparação entre o projeto de Knausgaard e o tour de force de Marcel Proust faz bem ao primeiro para além das banalidades publicitárias.
    Estou na metade do volume 1, o Death in the Family, então não sei se meu juízo é justo. Dá pra ver claramente que Knausgaard é atento a vários maneirismos Proustianos. Knausgaard arrumou as suas madeleines, uma imagem de Cristo no umbral da porta que o remete a um rosto humano que ele vira quando criança nas águas geladas do mar Báltico; Knausgaard também entremeia as suas incurções memoralísticas com pequeninos ensaios sobre o poder de fascinação da nostalgia e os percalços da memória; ainda como Proust, ele passa páginas e páginas escrevendo sobre nada, narrando os mais banais episódios do cotidiano humano, no caso dele por exemplo ele narra longamente os trabalhos domésticos que seu pai fazia na casa de sua infância, mas aqui nesse ponto acho que acaba prevalecendo uma diferença incontornável entre o Norueguês e Proust, Knausgaard não tem o talento Proustiano de colocar contornos metafísicos nesse banal do cotidiano.
    Enfim, a comparação com Proust é mais desserviço que um serviço ao Norueguês.
    Por isso pra mim o mistêrio do sucesso mercadológico desse ciclo de romances, nos quais, até agora pelo menos, se narra nada mais que o cotidiano de um norueguês de família classe média.
    Vou ler o Volume 1 até o fim sem mau-humor. Mas a cada página esse livro de Knausgaard me remete ao verdadeiro Proust, o qual li pela metade.

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  29. Matheus Todeschini27 de março de 2014 10:07

    E o Herzog, Luiz. Terminou?

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    1. O Herzog estacionou, Matheus. Não decidi ainda se desisti dele. Acho que não. Mas meu curso de História do Judaísmo no verão não saiu, então isso foi mais um balde de água fria sobre a leitura de Bellow. Acabei inclusive passando o Knausgaard na frente do Appelfeld por conta disso.

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  30. Charlles, um prosélito jogador qualquer de sinuca
    acabou de ser defenestrado, lá, no Milton Ribeiro…
    Vale a leitura…
    .
    http://miltonribeiro.sul21.com.br/2014/03/26/o-homem-que-encacapa-a-bola-branca/#comments

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  31. Terminei o primeiro volume do Min Kamp. A primeira parte dele, com reminiscências da infância, não é tão notável não. Mas a parte II, sobre a morte do seu pai, que do contrário se insinua durante o romance todo, é bem boa. O final do romance é soberbo. Poucos escritores, até mesmo os mais consagrados, têm a felicidade de fechar um romance de forma tão feliz. Com tal precisão de palavras e de mood.

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    1. João Antonio Guerra30 de março de 2014 18:54

      De Proust, li os dois primeiros livros somente: No caminho de Swann a pedido duma das minhas orientadoras, À sombra das raparigas em flor porque a leitura do anterior foi apaixonante e, antes mesmo da narração materializar a igreja de Combray diante de mim, eu já tinha sido seduzido a comprar cada um dos livros de Em busca do tempo perdido. Porque faltava grana, só esses dois volumes chegaram à minha estante, e, terminada a leitura do segundo, abandonei Proust e parti pra outro autor; mais tarde fui sendo presenteado com os volumes que faltavam e comprei o último, de modo que tenho todo o Proust da editora Globo aqui em casa, mas só li dois dos seus sete -- e saber que precisarei reler Swann e À sombra para resgatar a leitura abandonada me planta uma preguiça, apesar da certeza de que rele eles será um enorme prazer.

      Por causa disso, Luiz só começarei a ler Knausgaard quando a companhia publicar todo o Min Kamp. Por enquanto, só posso desconfiar dos jornalistas: em tudo o que li sobre Knausgaard na internet havia uma necessidade desesperada de dizer que o cara parece Proust -- é quase um espasmo involuntário que ocorre toda vez que o nome do norueguês é mencionado. Agora que você falou que o Knausgaard de fato tenta trazer Proust pra sua escrita, chego a desconfiar dele mesmo, porque não tenho ideia se isso é ou não um escritor se aproveitando do quão facilmente impressionáveis são os jornalistas de literatura.

      Mas uma coisa eu sei: o Min Kamp é o trabalho de alguns anos; o Em busca do tempo perdido, porém, é o trabalho de uma vida. No livro Museu de Tudo, João Cabral de Melo Neto disse melhor do que eu:

      PROUST E SEU LIVRO

      De certo o sabia, quem viveu
      com a vida e a obra emaranhadas,
      que viveu fazendo-as, refazendo-as,
      elastecendo-a em tempo e páginas,

      que vestiu sua obra, por dentro,
      percorrendo-a, viajando em seu barco,
      decerto viu que um dia acabá-la
      era matar-se em livro, suicidá-lo.

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    2. Não conhecia essa homenagem de João Cabral de Melo Neto a Proust, João. Obrigado.
      Concordo com muito do que você disse. É possivel que diferente de A la Recherche, o seis volumes de Min Kamp possam ser lidos em uma tacada só. Porque apesar de solipsista, o Min Kamp não me parece uma leitura que exige um esforço de recolhimento tal qual o Proust.
      Mas apesar de ser também um truque mercadológico, e guardadas todas as proporções, tudo indica que foi o Knausgaard mesmo que pensou essa sua obra desde o início como uma tentativa séria de exercício Proustiano. Basta ver como ele nomeia o segundo volume do Min Kamp, A Man in Love em inglês, o que sinaliza para mim uma clara referência ao volume II de A la Recherche, a paixão de Swan por Odette e o primeiro amor do narrador.
      O projeto requer culhões de mamute e um talento descomunal. Eu tenho decidido não crucificar o escritor pela empáfia de possuir o último, mas de apreciá-lo pela sua ambição.

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    3. Ah, antes que me esqueça. Os três primeiros volumes do Min Kamp já estão traduzidos para o inglês. O terceiro volume, Boyhood Island está em pré-venda nos Estados Unidos in print. Mas os três já podem ser comprados no Kindle agora.

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