quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Música de livro


"Do hi-fi raramente usado da sala de visitas, veio o som de música para piano, um velho disco de Keith Jarrett, Facing You. A primeira música. Ela parou do lado de fora do quarto para ouvir. Fazia muito tempo que não ouvia a melodia hesitante e só revelada em parte. Tinha se esquecido de como aos poucos a melodia ganhava confiança e se tornava subitamente viva à medida que a mão esquerda mergulhava num boogie estranhamente modificado, cada vez mais potente, impossível de ser freado como uma locomotiva a vapor em aceleração. Só um músico com formação clássica, como Jarrett, seria capaz de fazer com que cada mão fosse tão independente da outra.
       Jack estava lhe enviando uma mensagem, pois se tratava de um dos três ou quatro álbuns que serviram de fundo musical no início do relacionamento deles." (A balada de Adam Henry, de Ian McEwan).

8 comentários:

  1. Charlles,
    desculpe-me o atraso,
    felicidades... pelo filho.

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  2. Ramiro Conceição15 de outubro de 2015 22:11

    É inacreditável…, mas existe no Brasil: http://tijolaco.com.br/blog/a-trupe-de-cunha-fica-abaixo-da-dignidade/comment-page-1/#comment-231342

    Creio que, diante de alguém – tão modesto! – que se autodefine como “jornalista, radialista, escritor, tradutor, narrador, comentarista, cantor, compositor, provocador, estimulador, incitador de debates e do intercâmbio de idéias”, seja melhor escrever outras coisas.

    TERRA DOS CANTEIROS
    by Ramiro Conceição

    No amoroso canteiro,
    parte boa do plantado
    não vigou.
    Teria sido a estiagem
    junto à incompetência
    do semeador?
    Talvez os lotes de sementes estivessem batizados,
    pois no mercado sabe-se que alhos com bugalhos
    são misturados. Daí a violência às margens do rio
    que - dia a dia - beija a face da cidade corrompida.
    É… Só existe uma saída…
    Construir pontes entre as terras dos canteiros
    pra que os jardineiros não desistam de plantar

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  3. Afetivamente o texto me interessa. Por causa do Jarrett, é claro. Mas não vejo muita virtude nele.

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    1. A intenção é só reportar as menções a músicas que eu gosto em livros. Esse álbum do Jarrett é fantástico!

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  4. Charlles, eu sempre passeio pelo seu blog e sei que tu és um grande fã do Pynchon. E como estou fazendo uma gravura sobre ele, gostaria de te propor um exercício (ou pedir uma ajuda) falando de símbolos e imagens (que possam ser desenhadas) relacionadas a ele, às suas obras, tipo saindo da cabeça dele.Eu pensei em coisas como o trompetinho do lote 49, um V2, uma pin up, uma fórmula física, etc. Você leu mais livros dele que eu, e mais recentemente, com certeza surgirão boas ideias aí.

    Abraço

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    1. Ótima ideia! O cara tem uma infinidade de símbolos.

      Vou ver se eu lembro:

      _ V.: a mulher fatal indeterminada homônima do título; o símbolo do sujeito schlemihl (fracassado e azarado), que paira sobre todos os personagens do livro.

      _ Lote 49: a banda de rock ieieie (o rock é recorrente em Pynchon); a presença marcante do serviço de correios global (é narrada a história conspiratória dessa instituição no livro); a trompa, claro; o psicólogo da Édipa, que é um guru do LSD, que vai ficando cada vez mais paranoico ao longo da história;

      _ O arco-íris da gravidade: o polvo que Slothrop enfrenta na praia; a privada (vaso sanitário) em que Slothrop mergulha; a catedral de escombros do final da guerra na maravilhosa e inacreditavelmente bela introdução da obra; o grito atravessando o céu; as drogas por todos os lados; a perseguição pastelão em cima do foguete que os nazistas fazem a Slothrop; o fato de que cada local em que Slothrop transa com uma mulher determina o próximo alvo do foguete; a lâmpada que nunca apaga (ela existe realmente, faz mais de cem anos que está acesa e nunca se apagou, e tem um site em que você pode acompanhá-la em tempo real); os herero que cometem um suicídio étnico em reação à colonização alemã (os "profetas da masturbação", na expressão de Pynchon, que se recusam a trazer mais descentes ao mundo); a Aparição Branca, que é uma instituição secreta do governo americano que mantêm pesquisas de pre-cognição, telecinese e afins; a repulsiva e inesquecível cena de coprofagia. Infinitas outras neste romance que não me vem agora (o li 3 vezes). Há um livro, que vc pode consultar algumas páginas pela Amazon americana, em que o desenhista que o publicou se dedica a fazer um desenho para cada página de O arco-íris; e há a capa de comemoração deste romance de autoria do Frank Miller;

      _ Vineland: o "Tubo" (a onipresente televisão); a pegada do Godzilla no centro de NY; o clichê proposital de filmes de espionagem, com agentes de macacão colante descendo por cabos de helicópteros;

      _ Mason & Dixon: entre tantos, me recordo agora do mais marcante deles: os três patetas;

      _ Vício Inerente: os cabelos rastafári do detetive personagem principal; a Miami estilizada da década de 60 (letreiros de neon, praia e hippies);

      _ Contra o dia: tem muito símbolo, uma carrada deles, de forma que é difícil falar: o que mais me vem à cabeça é o balão em que a trupe viaja e as cidades de far west.

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    2. Foda. Valeu. Lembrou muita coisa. Em Arco-íris não pode faltar o lance do Pavlov também. Mas eu não sei como desenhar algo que simbolize isso.

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