terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Objeto de Ouro Resplandecente


Foi há dez anos. Eu voltava a pé do centro da cidade para casa, após assistir a um filme no cinema. Faltando duas quadras para chegar, comecei a sentir o que tenho por ser a pior dor possível, que foi crescendo de dentro do meu estômago e se espalhou pelas costas. Sentei-me num banco de praça, na posição desesperada de pés no chão e tórax por sobre as coxas, na intenção de respirar profundamente para ver se aquilo passava, mas nada... Comecei a suar frio e já não poderia me levantar. A dor exigia concentração tamanha que não me preocupei se alguém notasse que eu chorava e rumorejava cada vez mais alto. Se há um grau mensurável de dor, de zero a dez, aquilo era o dez absoluto. Não me lembro como consegui me levantar, andar o restante do caminho, subir pelo elevador, entrar pelo apartamento e retirar da gaveta de remédios dois comprimidos de dipirona e os engolir. Recordo que o que fiz em seguida constituiu-se como a técnica que eu empregaria dali por diante nas sucessivas repetições dessa dor que eu teria pelos próximos três anos: deitei-me na cama de bruços e fiquei aguardando que o ouro resplandecente se desencravasse de dentro de mim. Passou-se meia hora, em que a coisa recrudesceu, atingiu um estágio impossivelmente ainda mais avançado para depois ir sumindo gradativamente. No ato de me deitar, o sangue e a consciência se concentraram por inteiro na dor, e eu a tive plenamente.

Não fui ao médico pois naquela época do final dos vinte anos tinha a fé abençoada, vinda unicamente da ignorância, na imunosuficiência da juventude. Freud escreveu que o único afeto que não mente é a angústia. Pois a pessoa submetida à dor extrema não só é incapaz de mentir como está bem próximo a alcançar uma espécie de nirvana. Quando eu sentia os indícios da dor aparecendo, eu deixava tudo que estava fazendo, tomava duas dipironas (apesar de ser altamente contraindicado para dores estomacais, era o único artifício que funcionava), procurava algum local para me deitar, e aguardava. Ela assomava lentamente, comparecia com toda a sua saudável presença, ficava por longos minutos discutindo com zonas obscuras de minha mente, e depois, se despedindo, retirava seu tropéu de enxame de pequenas criaturas peçonhentas e ia embora vagarosamente. Já na primeira vinda, quando se erguia com elegância diante a miséria de meu corpo retorcido aos olhos de desconhecidos no banco da praça, discursava sobre esse intento secreto que eu ensaiava contra uma recente ex-namorada que havia me abandonado. Das outras vezes me deixava ver ser mesmo verdade que nas vísceras a dor era muito mais sublime, e como sobre esse conhecimento as técnicas de tortura eram a invenção mais importante do século para o estado policial. Uma vez ela veio quando eu estava a sós em casa com uma nova namorada, e pôs por baixo toda minha ensaiada compleição de macho proficiente ao me fazer chorar diante os olhos impotentes da garota. Acostumei-me a ela, mas não à sua potência, que sempre me parecia inadivinhável, por mais que eu me colocasse em genuflexão e me preparasse diante suas revelações sagradas. Ela me fez perdoar muitos inimigos, desconsiderar o que me pareciam afrontas infinitas, me encher de ternura por coisas que já não me pareciam tão pequenas, me curou da pressa e de um resíduo de medo que ainda me restava da solidão. Quando partia (eu chegava a ouvir a porta fechando-se com delicadeza sobre a algarávia que decrescia à distãncia), me parecia carregado de um novo silêncio e de uma nova clareza o desmanzelo do quarto.

Segui a recomendação de alguém e as quatro cabeças de alho que passei a comer por dia mandaram-na embora de forma definitiva. Nunca mais nem pressenti sua aproximação. Quando minha esposa foi acometida por dores excruciantes causada pelos cálculos biliares ano passado, antes que se submetesse à cirurgia, eu achava que ela (a Dani) era forte demais por conseguir andar, por esperar dentro do carro até que eu chegasse ao hospital e por esperar até que lhe injetassem duas doses cavalares de forte anestésico. A cirurgia descarregou-lhe as finas pedras fragmentadas e ela nunca mais sentiu aquela dor novamente. Assim como julgo que o alho serviu a me dar a indicação de como descarregar-me dela para sempre_ embora eu tenha o nítido aprendizado que não foi o alho que me curou.

2 comentários:

  1. Ramiro Conceição11 de janeiro de 2012 09:29

    Charlles, isso não é ficção, não é? Como a ingestão de quatro cabeças de alho diárias o curaram; afinal, qual era a causa de suas dores?
    O senhor é um potencial vampiro?

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