segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quase o Twitter


Desde quarta-feira estou sozinho em casa. Lendo e escrevendo. Alimentando-me à base de talharim, verduras, frutas, e muito chá mate gelado batido com polpa de abacaxi. Estou na metade de À Sombra das Raparigas em Flor. Acordo às seis da manhã, meio inconformado de meu relógio interno ser tão condicionado e não saber que poderia me conceder mais horas de sono nesse período de férias; mas ponho-me a ler Proust. O Aguinaldo Medici, no blog dele, disse que das tantas vezes que enfrentou as 3.000 páginas, nenhuma delas o aborreceu; sempre achou um deleite genuíno em cada uma delas. Concordo com ele. Proust é uma delícia. Às vezes fico brincando com o raciocínio de qual a finalidade de Proust para as letras atuais. É concentrado demais. Mas aí me faço lembrar que existe uma prosa tão empenhada na observação vagarosa e na sintonia fina de uma alta inteligência quanto Proust. Existe um mercado frutífero para o divertimento erudito. Gente igual a Javier Marías. Um amigo me diz que no famoso livro que fala que a internet emburrece, há o relato de que um daqueles adolescentes bilionários que fundou uma empresa ciber-eletrônica no Vale do Silício afirma que ninguém precisa mais de Proust e Tolstói. Justo os dois autores que você está lendo, que coincidência, meu amigo diz, sorrindo e estatelando os olhos de alacridade. Ele também um grande leitor. Dei-lhe como paga por eu ter desaparecido com um livreto do Baudrillard que me emprestou, o Guerra e Paz traduzido pela ex-mulher de Saramago. Na mais estrita cordialidade ética entre amigos. Ele passou o vírus Recycler para meu HD externo e, em consequência, para meu notebook, e, na mais estrita cordialidade, levou esses maquinários sensíveis para um técnico especializado que é seu cunhado.

Ninguém precisa de Proust. Poderia escrever aqui um daqueles textões pretensamente bonitos, mas estou esgotado. Que o vermezinho cheio de espinhas vá para a puta que o pariu.

Outro assunto: minha irmã está namorando ou ficando ou tendo algum tipo de amizade muito específica com um violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Revelou-nos isso após seu aniversário nesse mês, em que chegou com um rapaz moreno muito boa praça, de barba e cabelos relativamente compridos, e o apresentou a minha mãe. Minha irmã me disse que ele ouve qualquer tipo de música, inclusive as porcarias que ela gosta: pagode, música sertaneja. Eu disse a ela para não se enganar, pois um violinista profissional da orquestra sinfônica jamais iria gostar dessas trolhas. Ele só estava conversando ela. Meus dois filhos estão um em cada casa de uma avó. Como a Júlia não pode se descolar da mãe, as duas estão na casa da minha mãe. Pois o violinista foi informado que a Júlia gosta muito de Bach, adora a sétima sinfonia de Beethoven e a sinfonia concertante de Mozart. Eles me ligam à meia noite de domingo para mostrar que a Júlia interrompeu seus incansáveis ensaios dos primeiros passos, para ouvir, embevecida, o violinista executar especialmente para ela a nona, Jesus Alegria dos Homens, as frases mais conhecidas da sétima, e o primeiro movimento da sinfonia concertante. Ouço o violino via celular, e imagino os grandes olhos da Júlia e sua boca aberta em estado de perplexidade. Meia hora depois me ligam avisando que a Júlia só dormiu quando seu músico particular lhe tocou aquela peça sinfônica que é tiro e queda: Meu Pintinho Amarelinho.

E quando minha irmã a estava levando a passear de carro, a Júlia faz uma gracinha histórica: tampa os ouvidos com as mãos, quando a tia liga o som do carro.

No hospital, para o exame de rotina com o pediatra, vendo os homens de branco que imediatamente lhe lembram as agulhadas das vacinas, a Júlia faz um escândalo de reverberar pelo prédio. Grita chamando sem parar: Miles, Miles, Miles. A mãe a leva para que o pediatra lhe pese, e ela não dá o braço a torcer, jogando o brinquedo que a enfermeira lhe deu no chão, e gritando, desesperada: MILES! MILES! MILES! Quando ela vê que a tortura passou e ela já está fora do hospital, a recepcionista diz para a Dani: mas como ela chamou pelo pai, coitadinha! A Dani não quis se dar ao trabalho de explicar que a Júlia já relacionou o pai à falta de socorro nessas ocasiões, e seu único recurso é chamar pelo cachorro da família. Imagino nosso imenso Rottweiler invadindo o prédio, derrubando enfermeiros, macas e mesas, rosnando para os seguranças em fuga, mordendo o doutor, e escapulindo com a Júlia levando-a firmemente segura com os dentes prendendo-lhe a frauda. Até que os encontramos, seguros e dormindo cada um do seu lado no fofo tapete da sala.

Pura imaginação e falta de assunto. Só uma grande vontade que chegue logo quarta-feira, quando todos estarão de volta.


28 comentários:

  1. hahahaha. Muito bom. A Julia gritando Miles, Miles, Miles!
    Certamente ninguém no hospital imaginou que ela clamasse pela presença de um imenso e protetor rotweiller. Mas podem ter pensado que menina se curaria do susto e da contrariedade com um pouco de boa música. Esses nossos filhos são mesmo muito divertidos.

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  2. Ramiro Conceição31 de janeiro de 2012 06:12

    Sim, senhor Charlles Campos, Proust é Proust...Você pode admirar qualquer escritor, porém parece que o francês está sempre além.
    Pressinto que o senhor me fará terminá-lo dessa vez (faz 4 anos que parei no finalzinho do quarto volume...).

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  3. Me prometi Guerra e Paz a partir de hoje; Marcos já leu, disse assim-assim, mas não comenta para não me impressionar. Veremos. Proust, as primeiras 150 páginas de No Caminho de Swann, ainda na graduação; depois, não mais. Um dívida comigo msma? Não sei. Lembro de ter gostado, mas não amado. Acontece, não é? Quando li sobre sua filha a gritar Miles diante do evento médico, me lembrei do Marcos e da justificativa que ele daria ao fato, inversa: "Ela grita Miles porque associa uma tortura a outra". Mas Miles é o cão, não é?

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  4. Por favor, Rachel, não se deixe contaminar pelo Marcos. 'Assim-assim" o Guerra e Paz? Mas devo reconhecer que essa do Miles é a cara do misantropo do Marcos Nunes. E pensar que a coisa piora com a idade...

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  5. Ramiro, altíssima octanagem poética em Proust. Finalmente concordamos!!!

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  6. Luís, me recordo sempre de um comentário seu no blog da Caminhante, em que diz não ter vez na tv por conta do Discovery Kids. Meus filhos estão hipnotizados pelo canal, que passa na casa da avó deles. Tô vendo que terei que desembolsar uma grana para uma dessas tvs modernosas e assinar a coisa.

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    1. É um bom canal para crianças em idade pré-escolar. Pelo menos é que se diz. Seria ótimo se você o assinasse e o assitisse com seus filhos de vez em quando, pois aí eu poderia colocar no meu blog vários textos que tenho imaginado satirizando aquele universo e teria alguém para dialogar!!

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  7. Caminhante, eu era o cara mais cheio de cri-cris quanto a cheiros e tais. Vi num filme uma personagem que se converteu, igual a mim, e essa mulher deixou assombrada uma amiga de longa data ao pegar o cocô do filho e levá-lo ao nariz, e fazer ares de apreciação clínica. A coisa que mais me faz falta é o suor deles e o cheirinho de chulé. Uma necessidade física. :-)

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  8. Cara, não falarei nada do Guerra e Paz por compromisso matrimonial, ok?

    Não há nada mais parecido com choro de criança que dois instrumentos musicais: sax e trompete. Miles Davis tocava o segundo, chorando baixinho, meio bossa-nova. Não é misantropia, é ouvido. Seu bebê deve associar "protesto" com "jazz" - não como música de protesto, mas trilha sonora adequada a um protesto de bebê.

    A foto do seu bebê me lembrou a adaptação do conto A Dama do cachorrinho, de Tchekhóv, feita por um cineasta russo bundão, Nikita Mikhálkov, só pelo título: Olhos Negros. Esses russos são onipresentes.

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  9. Uma graça essa estória da Júlia, Charlles! Uma graça também ela! Muito lindinha!
    Pegando carona na idéia desses blogs nos quais se acompanha o progresso do blogueiro na leitura de alguma obra, não seria bacana um blog no qual se acompanhasse a leitura do À La Recherche? Muitas são as obras candidatas ao status de Escritura - dessas que o leitor abre as páginas à revelia e coloca o dedo numa frase aleatória e faz da mesma oráculo. Nunca usei À La Recherche desse modo. Mas poderia facilmente.

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  10. Pensei em fazer isso aqui no blog, Luiz, inclusive anotei uma série de ideias, mas o dispêndio, nessa altura do ano (o que quer dizer isso, eu não sei)me desmotivou. Uma das ideias é sobre o uso inovador das trincas de sinônimos (termo leigo meu) de Proust, que seria usado exaustivamente por Faulkner: Proust está repleta dessas trincas, que consiste no uso de dois sinônimos condizentes com a cena, e um sinônimo final totalmente inesperado e estranho. Outra é sobre o humor de Proust, como na cena em que Swann se martiriza pela suspeita de que Odette o está traindo, pois vê em altas horas a luz de sua janela acesa, e, ao longo de brilhantes páginas da mais impactante psicologia do traído, Swann descobre que está de frente da janela errada, onde lhe apontam um casal de velhos.

    Li hoje uma excelente matéria na revista Cult sobre Jack Kerouac. Ele andava por todos os EUA com um volume em frangalhos do Em Busca do Tempo Perdido no bolso. Essa informação me fez expandir significado da obra: Proust, de seu quartinho de burguês indevassável, escrevia também para um vagabundo iluminado.

    Textos literários cansam bastante, porque, por mais que os meus demonstrem insuficiência, despertam em mim uma necessidade preciosística de que atendam ao menos o mínimo de qualidade que a ligeireza de suas confecções permitam.

    Mas o Recherche é realmente maravilhoso, Luiz, e pressuponho que ainda haverá textos sobre ele por aqui.

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  11. Mas me destes uma bela ideia. Por teste, amanhã procurarei escrever sobre o que mais me fascinou em No Caminho de Swann: a frase musical do concerto para piano criado por Vinteuil, e as diversas páginas soberbas de Proust em definir o estado de arrebatamento de Swann diante essa peça que só existe nas páginas do livro.

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  12. Beatniks lendo Proust! Cara, obrigado por essa refência! Nunca imaginaria...

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    1. Procurei no site da revista Cult para te passar o link da versão digital do artigo, mas o número 152 (com o jovem Bob Dylan na capa), é o único que não está disponível.

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  13. 1-Olá, Charlles. No dia em que discutíamos sobre sua aversão à literatura francesa, em seu post sobre Carver, e eu afirmei que para mim Proust era o mais sublime de todos, eu dizia que puxei meu caderno de anotações do Caminho de Swann, para te postar algum trecho, mas não consegui escolher. Entre as anotações que eu fiquei em dúvida, eram três comentários sobre a sonata de Vinteuil, da qual você falará, a descrição do quarto de sua tia em Combray, logo após o episódio da Madeleine, e o desfecho, que caberia no post anterior.

    2- Se não me engano, Kerouac direto fala que está carregando um Proust (ou um Fournier ou um Shakespeare), em On the Road. Mas entre essas influências diretas e explícitas, prefiro mil vezes Lolita.

    3- Também é bastante engraçada a Françoise, ou Francisca, na tradução de Quintana. Ou aquela parte sobre o sábado deles, que me lembra o Milton Ribeiro.

    4- Sinto, ao mesmo tempo, saudades de minha leitura, inveja porque você o está lendo e eu não, e uma espécie de alívio, por perceber que você parece estar apreciando, pois me lembro de ter lido um comentário seu, para aquele mesmo post, afirmando que sua primeira tentativa tinha sido uma experiencia tediosa.

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    1. Paulo, cometi o erro de não sublinhar esse meu volume de Proust, daí meu equívoco ao chamar a Sonata para piano e violino de Vinteuil de concerto. Todo o capítulo de Combray me fascinou. Realmente, as cenas da família do narrador nos rituais de sábado transverte a prosa francesa para um fino humor inglês, nos horários antecipados das refeições e as explicações aos estranhos de que "porque hoje é sábado". Lembrei-me do Milton, também. Mas na minha versão de Quintana, afortunadamente, a Françoise não foi naturalizada Francisca (que seria terrível, como certas traduções de Shakespeare em que Hamlet é Hamleto). Desse capítulo, absolutamente tudo é relevante.

      Li o On The Road na adolescência, e não me lembro dos livros que se levavam nas mochilas.

      Para seu item 4, nada mais fácil de se resolver: gostei ainda mais de Montanha Mágica na minha releitura. Releia Proust.

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  14. Ah, ela tem olhos claros! Não é apenas a literatura que mente; a fotografia (e o cinema) também!

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  15. Não. Li uma biografia extensa, não me lembro qual o autor, uns 20 anos atrás, em que o assunto é, basicamente, a escrita de Em Busca do Tempo Perdido, de que transcreve extensas passagens, daí, entre tanta coisa pra ler, dei esse assunto por encerrado, e morri de rir um dia desses (ou semanas dessas, ou meses atrás) quando li sobre um tal professor duma universidade francesa super prestigiada (deve ser a Sorbonne) que escreveu um livro para dizer, entre outras coisas, que, apesar de nunca ter lido Proust, dava aulas sobre ele...

    Tem uma coisa com os clássicos: alguns, como escreveu o Italo Calvino, foram lido sem ser lidos, tal a capilaridade dele no cotidiano. Por isso o tal francês podia dar aulas sobre Proust sem o ter lido, da mesma forma que eu fiquei satisfeito com a biografia, que não era menos que uma leitura crítica, daquela porrada de volumes de prosa mui elaborada. E não me arrependo.

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  16. Prá complementar a informação, o livro que li é "Marcel Proust - uma Biografia", de George D. Painter, 797 páginas. Minha memória tá boa mesmo: ele foi lançado em 1990, 21 anos atrás.

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    1. Ouvi falar desse professor também. Eu desconsiderava por completo Proust, achava-o, através dessa "capilaridade" a qual mencionastes, muito elaborado e preciosístico. Daí dei o assunto, também, por encerrado. Há vários autores que atirei na classe dos que jamais lerei, tais como o restante de Salinger (li o Apanhador por mera curiosidade, e repudiei), Henry Miller (não desce, talvez se o tivesse lido antes de Roth e Bellow; agora é aceitar carne de quinta num banquete acostumado com filé mignon), André Breton, Anis Nin, Simone de Beauvoir, George Sand, e não sei mais quem. Mas acontece que fui pego pelos sinais. A maior parte dos livros que li ano passado mencionam Proust. Vi um jovem vestido com uma camiseta com a estampa de Proust. Vi o bigodinho do Proust na forma de uma nuvem sobre a cidade. Daí não deu outra: tive que abrir concessão a Proust.

      A questão aqui, como é a questão de todos os livros que leio, é o mais absoluto egoísmo hedonista. Borges disse que jamais leria Madame Bovary e Os Irmãos Karamazov; mas teve como os melhores romances que leu o Bouvard et Pécuchet e Os Demônios. Li o Madame Bovary e detestei. Mas, ao menos o primeiro volume de Proust me proporcionou um prazer genuíno, e_ até esperava, otimista, descobrir que Proust é um engodo_, não reluto em colocá-lo entre os melhores que já li. E não considero a prosa dele muito elaborada: o cara estava às portas da morte, e produziu mais de três mil páginas, e, segundo o posfácio, em mais de uma versão. A excelência da escrita dele vem por sua genialidade natural. Muitas vezes eu o achei bastante parecido com Henry James, mas ele, apesar de tão denso, é menos mal intencionado que James; seus jogos são proposições pessoais, buscas solitárias por algum "aleph" que fure a realidade, seja através do prazer que lhe causa molhar o biscoito (sem trocadilhos) no chá de sua tia-avó, a espera ansiosa pelo beijo de boa noite da mãe, entre outras coisas. O cara transmite uma força na escrita que pouco se encontra, mesmo entre os grandes escritores. Não é alguém para ser desprezado.

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    2. Uns reparos a fazer:

      1) Quando começou a escrever o livro, proust não estava à morte; ele era um maníaco esquisitão, e durante muito tempo se auto-exilou em um quarto, comendo e bebendo quase nada, enquanto remontava um mundo de memórias na forma de seu romance, trabalho de muitos anos;

      2) Na biografia você vê como a prosa dele é elaborada, e como ele levava o editor à loucura com suas revisões frequentes; há fac-símiles de textos que eele escrevia à mão, depois eram datilografados e, em seguida, enviados a ele, que mandava de volta com inúmeras alterações, e assim o processo ia em frente, lento, bem lento.

      Não acho o Henry James mal intencionado; acho-o às vezes abusivo. Se não tenho nada a dizer, pensava ele (quer dizer, eu penso que ele assim pensava), direi o mesmo em formato rococó realista, um tipo de frankenstein literário, que, aliás, ele expôs publicamente em um conto acerca de determinado "segredo" de um autor, que um de seus admiradores (desse autor fictício) descobre ser de extrema simplicidade; quando ele vai de encontro a outra leitora fã (algo assim, não me lembro direito, li isso mais de 20 anos atrás), malfadadamente, ele morre sem revelar "a chave" para a leitura dos livros do autor...

      Bouvard et Pécuchet é um livro divertido, disposto a comprovar a falência do positivismo quando mesmo no esplendor de sua curta glória; Machado de Assis fez melhor no Quincas Borba. Gosto de Madame Bovary, d'Os Demónios de Dostoiévski e d'Os Irmãos Karamazov. Intolerável mesmo é O Idiota mas, fazer o que, o Bakhtin escreveu doutas páginas sobre o livro (gosto de Bakhtin), e agora quem não gosta de O Idiota é O Ignorante, ora, foda-se.

      Por fim, Proust é mesmo referência, mas ainda acho que o livro do Painter simplifica o trabalho de ler todos aqueles volumes, que fazem parte de uma arquitetura que desfaz a nobreza decadente enquanto a burguesia ascendente (mas cultora dos mesmos valores decadentes) dá novas mãos de tinta nos tempos dessa catedral cujo sentido já lhes escapou a séculos, mas eles insistem em admirar, como se mirassem a expressão mais bem acabada deles mesmos.

      Chata manhã de sexta-feira.

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    3. Rapaz, com esse recurso de poder responder logo abaixo do comentário anterior, fiquei procurando aonde diabos estava o novo comentário, e demorei achá-lo.

      É, ele não estava à morte. Se formos nos fiar no narrador de No Caminho de Swann, e se este for o alter-ego de Proust, ele faz como o Bolaño em diversos de seus romances e contos, sempre se referindo a seu estado convalescente ou frágil. Imagino que ele já sabia o que a asma preparava para ele.

      O curioso é: ler uma biografia de Proust. Poucas vidas devem ter sido menos interessantes que a dele. Ontem tentei escrever um post sobre o livro, mas nada me saiu. Mas o que gostaria de falar é justo o caráter narcoléptico do livro. Tem-se que lê-lo numa velocidade fluídica, não antepor o raciocínio ao ritmo incessante da prosa, uma leitura budista de deixar a mente vazia e ir-se preenchendo com a narrativa. Por isso é compreensível que se comparem o livro a uma sinfonia, e sempre se mencione o prazer que ele provoca. Tempo perdido sistematizar Proust; estudar, como se faz em diversas notas de rodapé pela edição da Globo, qual o significado do encontro de Swann com o compositor fracassado Vinteuil, como a sonata composta por esse último afigura um destino dramático para cada um deles, sendo a decepção de Vinteuil pelo homossexualismo de sua filha, e Swann, pelo mesmo problema relacionado à sua mulher, Odette. O que vale é se deixar absorver pelo livro, em sua força descompromissada. Nisso a vida de Proust se torna interessante, e justificável de lê-lo, através de suas impressões sobre a natureza, e o estudo arguto sobre o fetiche da paixão e do ciúmes, etc, etc.

      Sexta-feira?

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    4. A biografia é interessante porque fala, basicamente, do (s) livro (s).

      Rio de Janeiro/Goiânia - fuso horário.

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  17. Uma amizade muito específica para a Júlia, ou um genro para o Charlles.

    http://www.youtube.com/watch?v=0REJ-lCGiKU&feature=player_embedded

    Fábio Carvalho

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  18. Charlles:

    eu adorei esse seu texto. Eu o acho um grande narrador, mesmo quando está a dissertar sobre literatura e outras artes. O que mais me encantou foi a tomada inesperada de sua pequena Júlia, e de como ela gosta de música clássica. Eu praticamente fui babá coruja de duas sobrinhas. Primeiro, Maria Vitória, uma sobrevivente de um casal de gêmeas univitelinas. Eu sempre botava "A primavera" de Vivaldi, O concerto n. 40 de Mozart (que a assustava um pouquinho) e o Concerto para Orquestra e Piano n. 21, também de Mozart, que ela adorava. No caso da caçula, que tem os olhos enormes e verdes como a sua filhinha, e os cabelos anelados, a paixão dela era "Danúbio Azul". Até hoje, ela gosta de ouvir a valsa e brincar de balé. Infelizmente, a paixão das duas são uma novela e as respectivas músicas "Rebelde". A versão original foi a mesma que encantou a pré adolescência de outra sobrinha, que sempre me ouvia ouvindo música clássica.

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