segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desabafo (ou, Um Viagra para Ler Vila-Matas)



Colocando de lado o apreciador crítico doutrinado de literatura, deixando-o descansar (sem que me ouça), e dando livre expressão ao meu mais íntimo desabafo, pergunto: por que a literatura atual é tão chata? Passa-me pela cabeça essa noção de que um ranço de falta de tesão domina a escrita dos últimos 20 anos, enquanto leio, nessa tarde de calor silenciosa de domingo, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Já li vários livros de Vila-Matas, e esse agora, Bartleby e Companhia, saquei-o da estante com a impressão de que seria um intermezzo divertido e rápido à leitura mais séria que venho tendo com meu ciclo de Proust. Não posso dizer que Vila-Matas me decepcionara. Dos cinco ou seis livros que li dele, gostei de Dublinesca (há uma resenha dele por aqui), mas esse, como todo o restante desse autor, agrada a uma parte de meu ego de leitor que nada tem a ver com o prazer da leitura, mas tem a ver com_ e aqui, ofereço-me em penitência, pois trata-se de uma coisa da qual nutro profundo desprezo_ do vestígio de seguidor de modas acadêmicas que infere em meu lado de consumidor de ideias. Vila-Matas é um porre, diga-se de uma vez. Esse Bartleby, 47 páginas que li, é muito chato, com seu insight de ser um compêndio de notas de rodapé, e não um romance propriamente dito. Eu vim de uma geração de leitores que se satisfazia com uma leitura onde estética e movimento se equilibravam sem que uma sobrepujasse a outra, uma geração de leitores que adora a literatura sanguínea norte-americana, os grandes cowboys da literatura latino-americana, e de tudo aquilo que rondasse a rede de coalizões de paixões humanas registradas pelos russos pré-revolucionários. Por isso, para cada Vila-Matas imberbe, fascinado apenas por seu talento oracular de pregar a um bando de pretensos escritores de universidades, anteponho um Richard Ford, um Cormac McCarthy, um bom Turgeniev, um desses Günter Grass com o qual nem o cinema pode com ele, ou um Cândida Erêndira ou qualquer conto de Àngel Astúrias que faça sentir de novo a pulsação. Depus de lado o Bartleby, sentindo uma súbita saudade de um romancinho de 100 páginas que li há anos, Vida Selvagem, de Richard Ford, que me faz até hoje sentir a delícia daquela história onde não se falava de livros, ou da morte de livros, ou da porra do manual que o escritor blassé deve seguir para ser um francês pendurado nas portas internas dos armários de um tipo muito específico e inútil de nerd das letras, mas se falava da vida e de seres humanos. Lembrei-me de Todos os Belos Cavalos, um romancinho de cento e poucas páginas de Cormac McCarthy, que ainda hoje me faz idealizar o quanto perdi em não ser um adestrador de cavalos caído por força do mais atroz destino na fronteira entre México e Estados Unidos, o quanto seria feliz com isso.

Agora que falo com minhas angústias mais sinceras de leitor, declaro em alto e bom som: Vila-Matas é um escritor frouxo para leitores frouxos. Assim como grande parte da literatura de Bolaño é pura esculhambação à literatura, não chegando nem aos pés de várias coisas que Garcia Marquéz, Vargas Llosa e Cortázar escreveram. Vamos pegar o Mal de Montano, aquelas 300 páginas que fala... fala do quê, mesmo?... de absolutamente NADA. Resumo de O Mal de Montano: (tento lembrar, pois os 3 meses que me separam da leitura já quase a apagou por completo) um narrador, que é escritor, sofre de uma doença que é a compulsão  para os livros, o anulando por completo para qualquer outro assunto humano, e daí vai; a narrativa passa por clínica freudiana que tenta desbaratar o leitor do que está lendo, passa a diário de viagem, para, então, acabar. Lê-se o livro, e do livro nada sobra na memória. Estamos mal com os escritores ibéricos. Gonçalo Tavares também é um chute no saco. Para quem gosta de arquiteturas, desde que não seja exigente. A literatura atual emula da pior forma aquelas escolas de início do século passado que já passam de mortas: a morte do personagem, do enredo, de sentido. Pensam estar à altura de Kafka ou Joyce, e só são a mais descartável das literaturas. Seus livros só sobrevivem por transverterem o ditado popular e venderem pelas capas. Eu mesmo comprei Vila-Matas pelas belas capas da Cosacnaify. E eu confessei ter gostado de Dublinesca? Pois bem, desenvolve-se uma certa relação de consideração sentimental ao primeiro livro. Esse foi meu primeiro Vila-Matas, e me deixei levar pelo bloomsday, por aquelas reflexões sobre a Galáxia de Gutemberg sendo suplantada pela Galáxia do Google, os amigos exóticos do herói, sua recaída alcoólica num bar da Irlanda, seus conflitos com a esposa. Nada que corresponda aos livros que sempre me ficarão na memória; nada como O Leilão do Lote 49, Ratos e Homens, ou Ninguém Escreve ao Coronel.

Alguma análise freudiana desvendaria o objeto oculto por detrás de Vila-Matas, seu recalque por não ser um ensaísta ou crítico, e ter se aventurado na seara do romance. Vila-Matas está no meio termo de um fracassado seguidor de Harold Bloom e Jorge Luis Borges. Não é nem uma coisa nem outra, mas tentou fundir essas influências fazendo trabalhar seu conteúdo erudito de (para servirmos de uma expressão cara a ele) alguém que leu todos os livros. Dessa forma, as referências veladas a Borges são grandes em seus livros, como em Bartleby vemos a menção humorada do copista Pierre Menard. Na verdade, Vila-Matas realizou sua pretensão de ser um autor cult e admirado por uma classe seleta de literatos. Lembra-me aquela cena final de Amadeus, onde um Salieri moribundo sai empurrado em sua cadeira de rodas abençoando aos alienados do hospício onde estava internado: "Bem-aventurado sejamos nós, os medíocres!". Pois é essa escola que autores como Vila-Matas pretendem fundar, a escola dos medianamente capacitados, dos que nunca teriam voz em momentos substanciais de crise política, dos que invadem a impressão de substância pelas portas dos fundos, ajudados em muito pela escassez histórica de grandes ideias, de grandes enredos, de grandes vozes. A ausência de tempos interessantes, na expressão chinesa tomada de empréstimo por Hannah Arendt, esses autores sobejam na desimportância flácida do longo momento. O que seria de Vila-Matas se tivesse tido o azar de nascer na Checoslováquia da terceira década do século passado? Se o destino tivesse-lhe lançado em mãos a chama do conteúdo legítimo? Teria a capacidade de tornar-se um Kundera? Ou sofreria a antecipação pragmatizada de seus infinitamente repetitivos personagens que abstem-se de escrever?

Mas não podemos culpar Vila-Matas de ser uma fraude. É um escritor de talento, um manejador de certo poder da capacidade mercadológica da frase, e, o que é objeto de intensa procura minha em seus textos e, vez ou outra, sinto ter apreendido: detentor de uma fina auto-consciência irônica da flacidez acomodada desse inglório início de século. Vila-Matas encorpora, com competência, a liderança inspiradora a um sem número de pessoas sequiosas para ganhar a vida com o intelecto e que são suas cópias de bom nascimento e vaidades estéticas, aqueles que procedem de bons colégios, de boas universidades, com títulos de altas graduações em letras, e que, cientes de serem apenas emuladores eruditos do sofrimento humano, repetem os movimentos de mãos zelosos que os reais escritores que trabalhavam com esse sofrimento faziam. Esses catedráticos sentem um profundo agradecimento por escritores famosos como Vila-Matas existirem, pois legitimam que, não podendo ser Dostoiévski, Hemingway, Saul Bellow ou Faulkner, podem se espelhar na mesma insonsidez elegantemente histriônica e não exigidora de forças desses metalinguísticos. Que boa sorte a única capacitação para ser um Vila-Matas é ter lido todos os livros!

O que falta a esses metalinguísticos é uma noção mais aprofundada da história, para terem base de fundamentação da fé em que esses tempos de marasmo e boçalidade não venham a ser interrompidos por nenhuma conflagração de crises econômicas e embates internacionais, por fome e supressão das leis, por desestabilidade das crenças idiossincráticas do que sejam os valores da humanidade hoje. Pois quando essa flacidez é interrompida, tais pensadores de gabinete costumam ser severamente esquecidos nos desvãos dessa história, os Robbe-Grillet são tragados pela chama e o único personagem com uma certa lucidez justificável nos romances de Vila-Matas acaba sendo o Juan do Bartleby, que afirmava que o último escritor que tinha algo a dizer era Musil.

Agora me resta esperar que eu recobra a razão e volte a ler Bartleby com agradecimento.

(Isso é que dá ler Tolstói durante 4 meses, e estar-se a ler Proust.)

34 comentários:

  1. Poderia ter feito tua crítica sem dizer que os leitores do Vila-Matas são frouxos, medianos, etc. Muito ruim tua crítica, destoa de outras coisas que tu escreves aqui.

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    1. Eu sou leitor de Vila-Matas, Cassioney. Fiz uma resenha do "Dublinesca" que reflete a importância deste romance para mim. Este post é o tipo de texto que eu dificilmente escreveria para uma revista. Mas o blog me dá liberdade de usar escalões mais baixos (e validamente sinceros) da minha personalidade de leitor. Cá entre nós, não te parece, muitas vezes, que tudo é um grande engodo? Que nossas expectativas são alimentadas num nível muito ameno? Minha fáscia de leitor de Vila-Matas é de um frouxo, atoaiado na confortável abstinência de assunto. Note bem: um escritor como o Bellow, ou como Javier Marías, podem acontecer em qualquer tempo; um escritor como Vila-Matas só pode acontecer em períodos estritamente específicos, em períodos de carência. Imagine um Vila-Matas entre os latino-americanos do boom exilados em Paris, ou no grupo de Bloomsbury. Nada pessoal cara. Permita-me que faça isso com constância neste blog: colocar para fora aqueles cachorros amarrados à força violenta contra meus próprios preciosos pudores.

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    2. É que esse tipo de crítica ataca os leitores, tu leste ele, mas não é leitor dele. Quanto aos temas que ele aborda, qual o problema? A literatura trata das questões do ser humano. E a paixão pelos livros, pela literatura, por enxergar a vida a partir da literatura, tudo isso faz parte das nossas fraquezas. Assim como muitos dizem que virou moda e é uma coisa chata a literatura, na verdade virou moda e uma chatice quem critica os que fazem da literatura seu tema. Aliás, tu próprio estás fazendo metaliteratura. É oroboro, meu caro, é o oroboro. Ou o escorpião encalacrado, como escreveu Cortázar.

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    3. Eu também sou leitor de Vila-Matas, Cassioney. Agora mesmo espero chegar a encomenda pela LC de Doutor Pasavento, e Todas as Almas, do Marías. Já li de Vila-Matas o Suicídios Exemplares, de tanto vê-lo exposto em seu blog, e aquele sobre Paris (emprestado de um amigo). Não há mal algum no tema de Vila-Matas, assim como não há nenhum mal em criticar o que há de requentado neste tema. Arte pela arte, escrita pela escrita. Vila-Matas tenta criar um símile dos universos pessoas atormentados de um Kafka e de um Walser, inventando uma patologia do agrafismo, uma compulsão freudiana da leitura. E, veja bem: convence. É chato os que criticam os que fazem da literatura seu tema, como você disse? Pois o próprio Vila-Matas é uma anátema dessa crítica, pois o aspecto mais significativo de sua prosa é justamente uma autocrítica velada e, de certa forma impiedosa, de suas próprias insuficiências. Se Madame Bovary era Flaubert, então Montano é Vila-Matas, Samuel Riba é Vila-Matas, e todas as suas composições não passam de uma admissão irônica de sua falta de importância, de seu ciclismo vicioso que alimenta mal a mal seu ego e não chega a lugar algum. Eu adoro a metalinguagem, cara. Não falei contra ela. Só que, a meu ver, falta algum complemento para Vila-Matas, um lado humano, sexual, trágico, tempestuoso, multidimensional. Os personagens de Vila-Matas são imóveis, mas não o imobilismo, em última instância, de uma filosofia de rejeição deísta de Beckett, ou a imobilidade tensa e à espera de explosão dos intelectuais plácidos de Bellow. Não há catarse nos personagens de Vila-Matas. Há muitas pontas soltas que Vila-Matas decide não amarrar, como a menção de um perseguidor em Dublinesca, uma sombra fantasmática do "perseguidor" oculto na multidão que povoa Ulisses. Vila-Matas cita o assunto, o rascunha, mas deixa o leitor na mão. Até a queda de Riba de volta na bebedeira não é apresentada senão vagamente para o leitor. Os personagens de Vila-Matas são leitores sedentários, sem redenção ou direito à tragédia. São burgueses representativos dessa era do Google que Vila-Matas destila em Dublinesca (mas não o critica ou condena).

      Duas metalinguagens belíssimas e válidas? A de Coração Tão Branco, o genial romance de Marías; e o monumental Danúbio, de Magris. Os dois acrescentam elementos exórdinos que faltam em Vila-Matas. No primeiro, há o dramalhão inteligente, o conflito familiar, o segredo de alcova em torno de paixões amortecidas, os suicídio não retórico (os suicídios em Vila-Matas são, todos, retóricos). No segundo, há a metalinguagem na interpretação da História. Magris é o Marco Aurélio moderno.

      Falta a Vila-Matas sair de seu gabinete.

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    4. Tu próprio desconstrói o que diz. Isso é vila-matatiano!

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  2. Ai, tenho que admitir uma certa reserva para com os escritores contemporâneos. Nada que me faça evitá-los completamente, contudo os leio pouco. Vila-Matas, Bolaño, Franzen, Pamuk (para não falar nos tupiniquins)... Sinceramente não os li, e não sei se o farei algum dia. O único dos escritores pós-2000 que tenho de fato no meu panteão é Sebald.

    abraços,
    Fernando

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    1. Fernando, tenho aqui 5 Pamuk, e não gostei de nenhum deles. Falta sal a Pamuk. Do que vale viver com uma pressão arterial da Cinderela, mas numa chatice sem fim?

      De Bolaño, só três obras: o grande romance "2666", e as boas novelas "Monsieur Pain" e "Noturno do Chile". Li tudo lançado dele por aqui, e mais uns dois volumes de contos em espanhol. Mas, para mim, só esses, ou, ISSO tudo.

      Franzen: As Correções, romanção.

      Taí, também sou grande admirador de Sebald. Há outro grande escritor, Cees Nooteboom.

      abraço.

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  3. Melhor que pós-2000, pós-1990!

    Fernando

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  4. Ah, o de sempre; bateu o tal mau-humor apocalíptico e aquela vontade de falar mal de tudo que é vivo e se mexe, mesmo que seja só para balbuciar citações e arrotar litros de uísque. Para variar, também mal do leitor que ousa dizer que há muita literatura contemporânea relevante, e que existe mundo inteligente além da Rússia pré-revolucionária, oh, gente chata, que se satisfaz com puerilidades, quando há Proust e Tolstói, mesmo que ambos tenham se dedicado a umas tantas puerilidades de suas épocas e tenham compreendido bem que não há literatura desapegada de suas circunstãncias, e as nossas atuais são muito outras, com um grau de saturação informativa nunca vista, em que não são mais sequer necessárias a notas de pé de página, mas links...

    Sei lá, essa algaravia toda aí de cima cheira a fundamentalismo; a juízos apriorísticos demais, deuses dum lado, demônios do outro, gênios aqui, um monte de chatos ali, e eu acho, na verdade, que toda essa pressa em se achar literatura relevante no século XXI, que tem objetivo obviamente mercadistas, só repete fórmulas comerciais de editoras e autores desde o século XVIII, é só ver, por exemplo, no século XIX, o Dostoiévski edutando revistas para gerar renda, livros com os mesmos objetivos, literatura agitprop para colher os interesses de leitores aos temas do momento, isso tudo resultando em falta de apuro formal, como acusavam os críticos literários da época...

    Não dá para comparar, ainda, as línguas escritas no século XIX com as escritas no século XXI; acho que o aspecto desmilinguido que você vê na literatura nova é fruto das novas línguas, ou novilínguas, se preferir, e se você não gosta delas por critério de estilo, há quem não suporte ler autores do século XIX porque eles são demasiadamente descritivos e palavrosos, e nesses século de superrinformação cada palavra deve valer por dez, a publicidade é que formou os leitores de hoje, que são, aliás, em número, muito além dos poucos que liam no século XIX, e etc.

    Parece nostalgia, e anômala, pois você não viveu no passado, vive no presente e no passado recente 99% dos autores que você cita como admiráveis já estavam mortos. Sei lá se você se imagina numa velha sala de leituras, à luz de velas, aboletado numa poltrona Luís XVI, destrinchando textos que nem um filólogo...

    Modéstia cabe não apenas aos escritores, mas também aos leitores, e não falsa, mas a boa modéstia benfazeja de quem ri de si mesmo, da própria vida e de todos os tempos, sem exageradas pretensões. Como escrevi noutro lugar, prefiro Tchekhóv a Tolstói e Dostoiévski; o primeiro sabia ser o tom menor mais adequado à expressão das vidas humanas e suas visões parciais de todas as coisas, e de enciclopédias não compôs sequer um único e mísero verbete. É boa medida.

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    1. Esse texto foi o meu momento Marcos Nunes. Ambos somos bipolares, pois quando elogiei Vila-Matas, você o execrou, e quando eu sento o sarrafo, você vem com essa de modéstia de leitor. Eu sou um leitor pra lá de modesto, já que revelo o tédio nas palavras de autores os quais leio, e em demasia.

      Não prefiro Chécov a Tolstói e nem a Dostoiévski. Ouso dizer que amo os três em igual medida. Conheci Chécov primeiro.

      Mas há sim uma constipação perigosa quando você fica muito tempo no século XIX e retorna. Aliás, eu leio muito mais escritores atuais do que do passado. Para cita autores vivos dos quais gosto: Nooteboom, Coetzee, Naipaul, Mia Couto, Lobo Antunes, Philip Roth, Thomas Pynchon, Günter Grass, e por aí vai.

      A propósito, agora mesmo estou a ler um artigo de Mario Sergio Conti sobre Proust, que saiu na recente Piauí, que me parece muito bom: "Proust, do pêndulo ao calendário".

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    2. (sempre me vem a ideia de reescrever sobre outro prisma minhas opiniões sobre livros. Desconstruí-los. Revelar o que há de torpe e chatíssimo naqueles que em algum momento entraram para o cânone de meus amores irredimíveis por vias distraídas ou massificadas, por "ouvir dizer" que são ótimos e frutos autênticos do gênio. Já disse isso mil vezes aqui e alhures, que minha espera por ler "Detetives Selvagens" quase me levou à doença, de tão ansioso que estava para ler o Grande Gênio Recente da Literatura Latino-Americana. E que grandissíssima decepção ao ver o quanto era mera confecção mercadológica vinda de nichos de editoras e acadêmicos, cada qual bem intencionados à sua maneira, o morno Detetives de Bolaño. Como se me houvessem entregue um belo bolo sem recheio, que se despedaçou em minhas mãos. Amei por décadas a Gabriel Garcia Márquez para ter a liberdade de afirmar que 90% do que ele escrevera era descartável, tudo além dos Cem Anos, Do Amor nos Tempos do Cólera, e a novelinha dos galos de briga do coronel.)

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    3. ...mas eu não disse que não achava o Vila-Matas uma bosta...

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  5. Charlles, meu caro. Há muito quero te enviar um livreto que talvez possa te interessar (não é da minha autoria, não se preocupe). Como poderia saber seu endereço?

    Murilo Valadares.

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    1. "Não se preocupe que não é da minha autoria" foi ótimo...

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Eu demorarei a ler algo escrito do século XX em diante. Abrigo-me nos clássicos, sempre bons, nobres e elevados.

    Eu odeio a pós-modernidade e os pais dela.

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    1. João, há muitos autores excepcionais no século XX. Existe um relativismo na comparação do que foi melhor no século XIX. A filosofia foi melhor no século XIX, mas uma derivação da análise filosófica para questões sociais e as novas questões humanas advindas da violência niilista das guerras fizeram nascer uma espécie nova de filosofia muito importante_ e substancialmente diferente e complementar às obras do século pregresso: gente como Hannah Arendt (da qual te aconselho a ler, como cartão de visita, "Homens em Tempos Sombrios"), Edward Said, Heidegger, etc. E há a escola de Frankfurt e derivados, que é importantíssima para entendimento das armadilhas da mídia e da indústria cultural e pelas propostas de salvação do homem da obtusidade espiritual feita pela técnica mal aplicada, gente como Adorno, Foulcault, e uma cambada da qual não me lembro agora. Recomendo que você leia "Dialética do Esclarecimento", fundamental, que irá subverter esse seu conceito.

      Na área do romance, os russos do século XIX foram melhores em todos os sentidos. Mas os americanos do século XX foram fantásticos, fizeram a mais distinta e relevante literatura do século passado. Aí entram alguns checos e poloneses, como Kafka e Bruno Schulz, um monte de alemães, latino-americanos, etc, e assim vai...

      Mas há enormes períodos turbulentos em qualidade, como nos últimos 20 anos.

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    2. Não, Charles, tudo o que eu disse no primeiro comentário foi relativo somente à literatura. Eu sei que a filosofia do século XX foi muito bem-sucedida.

      Obrigado pelas recomendações.

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  8. Acho engraçado as pessoas terem orgulho de dizer que não gostam dos escritores contemporâneos. Não se esqueça que os clássicos foram contemporâneos na sua época e também encontraram resistências.

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    1. Borges dizia não ler nada que não tivesse ao menos cem anos de idade. Era um falastrão, pois admirava Faulkner (era tradutor de Faulkner), e recobrou muita gente boa do esquecimento, como o grande Chesterton. E, se fôssemos nos medir pelo dito de Borges, não teríamos...Borges.

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    2. Para música, costumo dizer que não escuto quase nada gravado antes de 1995. Mas não tenho orgulho disso.

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    3. Nunca ouviu Led Zeppelin, The Doors, Jethro Tull, The Smiths, Echo and The Bunnymen, Van Morrison, Kraftwerk, e infinitos mais? Neil Young (que, se não me engano, Vila-Matas cita em Dublinesca), Paul Simon (que tem muitas citações de letras na íntegra em Lobo Antunes, em "Cus de Judas", e "Conhecimento do Inferno"), as tantas bandas sessentistas nos livros de Pynchon e Bolaño...?

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    4. Sim, Cassionei, eu sei que os clássicos foram contemporâneos na sua época e que podem ter encontrado resistência. Mas parece que havia maior preocupação quanto à qualidade. Parece que hoje todo mundo só quer causar impressão e se mostrar erudito, mostrar que "leu todos os livros". Os poetas antigos justificavam suas métricas e suas liberdades, enquanto os contemporâneos usam métricas aleatórias e acham magnífico. Sem falar que usam a desculpa do "o belo é subjetivo" para fazer qualquer coisa fácil.

      A propósito, quais escritores antigos famosos encontraram resistência? Como aconteceu?

      Como pode você não ouvir quase nada gravado antes de 1995? Não deveria ter orgulho mesmo não. Para mim é quase o contrário. Deveria ter vergonha.

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    5. Por que você só cita os roqueiros? E os sublimes eruditos, donos da verdadeira música?...

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    6. Vixi! Errei feio. Quis dizer depois de 1995!!!

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    7. Citei os roqueiros, pois vi ser a seara do Cassionei (que, aliás, está fazendo onda, pois ele adora o Rush, cujos melhores álbuns são todos da década de 1970).

      Eu adoro rock, o BOM rock.

      Sobre os eruditos, meus preferidos do século passado são Stravinski, Bartok e Shostakovitch, além dos minimalistas como Philip Glass e Steve Reich. E, no século XX, a meu ver, a música mais genial foi o jazz americano, que, a seu modo, expressou melhor o século que a música erudita: a música erudita o fez sublimemente, mas nem sempre de forma agradável.

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    8. Sou mais da música erudita. Rush, Pink Floyd e Engenheiros me interessam devido às letras, assim como muitos músicos da MPB.

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    9. Eu sabia que se tratava de um erro de digitação.

      Os eruditos do século XX são bons. Gosto de jazz, mas é impossível comparar com a música erudita em qualquer situação (à exceção dessa que você disse, quanto a "expressar melhor o século, algo que não entendi). Não troco cinco minutos de música erudita por cinco minutos de jazz. Por isso parei de ouvi-lo. Jazz é enjoativo.

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    10. Gosto muito de jazz, influenciado pelos escritores, como sempre, nesse caso por Cortázar e Fernando Sabino.

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    11. De música erudita, ouço mais Bach, Beethoven e Mozart, diariamente. Dos eruditos modernos, suas tentativas de cacofonismo, atonalismo, às vezes me soa chato. Não que Mahler seja o exemplo cabal disso, mas ainda não me dou muito bem com Mahler. O jazz criou novos padrões de liberdade para a música, um urbanismo, um coloquialismo e uma emergência por traduzir uma nova visão mais condizente com o mundo moderno. Me recordo de Stravinski condenando a Sexta Sinfonia de Beethoven por ela ser bonita demais, por tal beleza ser anacrônica para os tempos atuais, que era um obra ultrapassada. Adoro o Firebird, mas há um momento crucial que representa a liberdade revolucionária do jazz: Stravinski fora ao bar onde Charlie Parker se apresentava, e, no meio da conversa com seus amigos, ouve o Parker tocar, em homenagem, a parte final de Firebird entre seus improvisos. Stravinski fica maravilhado com a plasticidade que sua música ganhara com o jazz. Chegou a compor peças desse gênero.

      Os minimalistas assistiam muito ao Coltrane, deslumbrados.

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  9. Tava lendo hoje um escritor irregular, Tariq Ali, que escreve coisas legais aqui, e meio bostinhas ali. No almoço, li 30 páginas de "A Noite da Borboleta Dourada", que é de 2010. A princípio, recomendo, só que o livro tem 335 páginas, ou seja, não li nem 10%...

    De música contemporãnea, tem um disco de... regravações do repertório de Pinxinguinha, mas por obra de Carlos Malta, ou músico estupendo de sopros, que fez versões maravilhosas com inserções de música "erudita contemporãnea" e pitadas vagabundas de jazz. O efeito é refrescante e emocionante, o que posso dizer sem parecer viado.

    O disco é:

    PIXINGUINHA ALMA E CORPO - CARLOS MALTA E QUARTETO DE CORDAS

    Tem 10 anos. É contemporãneo, né?

    Mais recente: ANDRÉ MEHMARI E HAMILTON DE HOLANDA - GISMONTIPASCOAL.

    Não é só sobre repertório antigo de Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal; tem composições novas dos dois músicos.

    Aliás, tem também o disco do mesmo pianista com uma cantora, ANDRÉ MEHMARI E NÁ OZZETTI - PIANO E VOZ. Muito bonito.

    A lista, é claro, é infinita, porque, apesar dos apocalípticos, há sempre algo a surgir a cada dia de interessante; romanticamente diria, é como o sol: os mais pessimistas o veem nascer todos os dias e, oh, que lindo, há claridade mesmo sob as nuvens mais negras, oh, que significante, oh, oh, oh!

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    1. De longe, Marcos, esse foi o seu comentário mais gay. Lendo um livro que se intitula "A Noite da Borboleta Dourada", com os olhos lacrimejantes, sentado na poltrona, à meia luz, ouvindo músicas a "piano e voz". Espero que você não descida vestir as roupas da Rachel e fazer poses diante o espelho...

      Ainda não li o Tariq Ali. A Veja falou muito mal, o que já há dois anos tenho, pois, vontade de ler o cara. Dei uma pausa no Proust (o calor imenso que invadiu esses dias me desconcentra), e estou a ler, deliciado, O Nome da Rosa. Li o Cemitério de Praga e abri mão de minha indiferença a Eco, e pretendo ler tudo dele, de agora em diante. Me nego a analisar se é grande escritor ou não. Muito divertido, e isso é ótimo.

      Vou atrás desses discos. Não sei como está essa nova situação do download, se ainda é possível encontrar essas coisas....

      Mas, menina, eu adoro o Pixinguinha...

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    2. Solte o viado que existe dentro de você... ou ao menos deixe-o ir para trás, para a frente, para trás, para a frente...

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