segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Feio



Em sua auto-biografia, Tempos Interessantes, Eric Hobsbawn afirma que ajudou-o a se dedicar desde muito cedo aos estudos o fato de ter sido sempre o aluno mais feio da turma. Também servira a não tentá-lo para outras possibilidades afora a vida intelectual o fato de todos os períodos da sua vida ter tido a teimosa filiação aos eventos mais traumáticos do século XX: nasceu no ano da revolução bolchevique; teve sua infância e adolescência coincidida com a derrocada do colonialismo que descambou para as duas grandes guerras mundiais; as crises financeiras dramáticas advindas com esses eventos; a ascensão de Hitler; para citarmos apenas os que comportaram os anos em que, em tempos menos interessantes, teriam propiciado condições a um jovem judeu nascido sob o domínio britânico a se lançar a aventuras sociais mais hedonistas e menos contemplativas. Mas o fato de ter o rosto alongado, os olhos míopes confrontados por armações continentais de óculos de lentes grossas, os dentes encavalados, os cabelos desalinhados e mais volumosos que pede o molde natural do rosto, e o semblante de todo modo imediatamente reconhecível como o de um nerd, foi que erigiu a fundação, em sua adolescência, para que se internasse no monastério de leituras e não cedesse às tentações dos bailes estudantis e dos namoros efêmeros. Uma mente observadora dada a confabulações extemporâneas cairia na tentação de silogizar que o maior historiador do século passado deveria mesmo se proteger contra o material sobre o qual estava incumbido de escrever, refugiar-se nos tantos livros que o preparariam a arrebanhar as característica díspares do "século mais violento da História" e torná-lo coordenadamente assimilável_ que, em sua cátedra de acadêmico reservado, ele pudesse misturar os ingredientes ebulientes e instáveis que compunham esse período e os conferisse ao menos a enganosa aparência de harmonia na página escrita. E tanto mais era trabalhoso por sempre ter que driblar essa generosidade que a sorte lhe fizera de fazer andar lado a lado a sua vida e o século XX, para que pudesse obter a distância necessária para entender ampla e profundamente. E foi isso que o menino feioso fez de forma brilhante e com uma energia assustadoramente incansável ao longo da maior parte de seus 95 anos de vida, vida que se encerrou hoje: transformou a história em um elemento estético de altíssimo padrão, escrevendo-a com a mesma perícia e beleza dos melhores textos literários, e mantendo sempre uma postura combativa, mesmo (ou, principalmente, já que seus escritos são ainda mais belos em sua fase tardia) quando se tornou octogenário e esperava-se que ele anunciasse sua aposentadoria. Hobsbawn cumpriu o que escreveu em A Era dos Extremos: "De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender."

Mais uma vez a coincidência com os pontos críticos da história o pega mesmo na morte: ele se vai num momento em que se acentuam as evidências para o temor de que a escuridão que pressagiara na frase final de seu grande livro sobre o século XX se estabelece velozmente no mundo. O hedonismo do qual sua feiura o poupara na infância está cada vez mais presente na manutenção do descerebralismo global, enquanto, beneficiados com isso, crescem cada vez mais a usura das velhas e repaginadas formas de dominação, as crises econômicas fatais de arrasto às especulações bancárias, e o descrédito de toda postura que seja dissidente ao modelo econômico que está aqui e que foi a causa dos grandes males dos últimos cem anos. Sua espécie de gêmeo semi-antagônico, o também falecido, só que prematuramente, Tony Judt, assim como ele salientava a importância imprescindível da humanidade se agarrar novamente nas grandes ideias humanistas e na defesa das Questões Sociais e do Estado previdenciário. A diferença, que não vem ao caso aqui e que, numa possibilidade de análise retroativa após a sua morte que talvez abalize sua teimosia, ou sua fé, é que Hobsbawn nunca abandonou de todo a Esquerda clássica, mesmo com todos os erros que se cometeram em nome dela, enquanto Judt o atiçava a responder mais pausadamente sobre o que lhe parecia a mais grave omissão do maior historiador do século. E a sua teimosia rendeu um dos mais fundamentais livros das últimas décadas, que parece ousadamente anacrônico se não fosse a produção de um senhor que nunca se rendeu aos esteriótipos fáceis e às mais saudáveis ideias arraigadas, o compêndio de entendimento plural do marxismo Como Mudar o Mundo

Eu mesmo estou longe de retornar às antigas searas das lutas de classes com paranoica fixação no aspecto econômico dos marxistas ou marxinianos, e nutro uma ojeriza contra o fogo-fátuo da Esquerda clássica (sobretudo a dita esquerda latino-americana) mais voltada para Judt do que para Hobsbawn, mas ler esse seu compêndio de textos sobre Marx foi um exercício revigorante de não render à Verdade consolidada. A Verdade Consolidada de que só nos resta o capitalismo, e que tudo já testado e fracassado no campo oposto serviu para enterrar de vez as grandes imaginações do espírito. Hobsbawn escreveu em sua magnífica auto-biografia que nunca usou jeans para firmar seu não-pacto com o estilo norte-americano de impor as normas do império como inofensividades cotidianas. Não parece uma mera pirraça de um erudito capacitado, principalmente quando o leitor, mais adiante, é agraciado com uma pausa em seu ensaio e fica por todo um longo capítulo lendo uma narrativa cheia de lirismo e memorialística de primeira quando Hobsbawn se recorda das viagens de férias que fazia para uma fazendinha no País de Gales. A casa empoeirada, a falta de água encanada, a paisagem maravilhosa que compensava essas penúrias, a sensação plena de união familiar e juventude. Hobsbawn, como bem diz Judt, foi um dos maiores escritores do século; ele podia fazer isso e o fazia constantemente: nos render diante a suavização de sua voz, nos desacelerar diante ao que está aquém da história e dos especifismos acadêmicos, que é a arte de observar, a arte de se embevecer, a sempre adrenérgica tarefa da descoberta do conhecimento. A prosa de Hobsbawn, para mim que me empenhei um tempo em períodos herméticos de leituras acadêmicas de História, é sui generis, nenhum de seus conterrâneos se igualou na arte do deslumbramento da escrita que ele possuía. Ler os livros clássicos dos outros historiadores ingleses marxistas, tais quais Christopher Hill e E. P. Thompson, é uma tarefa de certa maneira árdua, está-se constantemente ciente de que se está sendo penetra em salas universitárias de ingressos restritos, de estar-se aventurando por áreas muito doutorais do saber. A escrita de Hobsbawn já é uma tarefa erudita que junta música e cinema, Dickens e todos os prosadores que intercalaram miríadas de narrativas conjuntas na mesma página; mostra que o garoto feio lia de tudo em seus quartos reservados. Daí que em praticamente todos os seus livros existir capítulos específicos sobre literatura. Daí ele frequentar constantemente as listas de best-sellers, sem, nunca, ter feito concessões, sem, nunca, ter aparecido trajando jeans.

Daí ele ter sempre se apegado aos ideias hoje vistos como retrógrados do grande humanista, com olhos voltados ativamente para os despossuídos e desprivilegiados, como se pode ler neste texto. Hobsbawn criou uma escola literária, que ainda não tem nome mas que contêm os livros que serviram a trazer a História para o âmbito doméstico. Basta o leitor pensar em qualquer dos mais influentes livros de história produzidos no quarto final, ou na metade final, do século passado, e lá estará o prosseguimento à primogenitura de Hobsbawn, seja Tudo que É Sólido se Desmancha no Ar, seja em Pós-Guerra, seja em Cultura e Imperialismo. Como o fez Sagan para a difusão da ciência, Hobsbawn popularizou a história, com alto requinte e sofisticação. Deveriam ter-lhe dado o Nobel de Literatura.

Meu filho de três anos se chama Eric em homenagem a ele. Pretendo ficar bem longe do pieguismo, mas devo confessar que o modelo que ele passou para seus leitores me salvou em variadas ocasiões. Me safei de provas escritas espinhosas por invocar a música de Hobsbawn para meus textos, seu jeito fluido e babélico de escrever, o que contagiava minha capenguice literária. Nunca me rendi à desistência fácil de me achar velho e cansado para o conhecimento: ao contrário de grande parte dos outros escritores, Hobsbawn mostrou uma juventude ativa espetacular depois de velho_ depois de muito velho. Ele morre deixando com a Companhia das Letras, sua editora brasileira, textos para a compilação de um novo livro.

33 comentários:

  1. Vai escrever bem assim lá na puta que pariu. E estou falando de ti e não dele.

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  2. Ainda não li o texto, mas fiquei salivando para lê-lo. Já passa da meia-noite e amanhã terei que acordar cedo. Amanhã fá-lo-ei. Parabéns pela iniciativa e pela lembrança desse mago do pensamento historiográfico do século XX.

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    1. Engraçado o quanto fiquei entristecido com a morte dele, Carlinus. Realmente, nossos autores são como parentes ou amigos de longa data.

      Abraço.

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  3. O que podemos dizer, como vivos, é que, como os livros estão aí, ainda temos o prazer de partilhar da "companhia" de Hobsbawn. Interessante a lembrança do trecho em que ele fala da casinha do País de Gales, com o nome de Judt logo em seguida, pois este último também se refere a um hotel na Suiça em termos semelhantes, porém com um viés mais tradicionalista e conservador. E como o (último) livro do Judt espelha um tipo de conservadorismo bem pequeno-burguês, não é? Hobsbawn não; embora a menção da própria feiúra possa ser lida hoje - inclusive por ele, quando escreveu a respeito - com humor, fico a imaginar o quanto ela, em sua juventude, o acumulou de pequenas e grandes frustrações. Mas Hobsbawn não era apocalíptico, pelo menos em seus melhores anos: como está escrito, ele se dedicava a compreender e, assim, sob o distanciamento promovido pela razão, até mesmo o hedonismo contemporâneo pode ser abordado sem vieses amargedonistas: é um espírito de época passageiro, como todo espírito de época é. Talvez expresse a ressaca que começa a surgir diante das fracassadas promessas do capitalismo. É coisa a ver.

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    1. E que regalo ele deixou, Rachel! Esse capítulo sobre a fazendinha me deixou fascinado quando li sua auto-biografia. O texto de Hobsbawn tem um charme e uma cadência que realmente é algo que enche os olhos. Gosto muito do Judt. Sei de qual livro você fala dele, que ainda não li (O Chalé da Memória). Judt era meio que escritor maldito da história, tinha a escrita e a língua muito ácida. Pode-se criticar a figura humana dele por isso, mas enquanto escritor, esse tipo de personalidade_ ou entidade_, é imprescindível: o que não tem papas na língua e fala a verdade ao poder. Muitos leitores esperavam um debate histórico de ideais entre Judt e Hobsbawn, mas aí o primeiro morreu prematuramente. Hobsbawn não era apocalíptico, mas esse enfeixe ao A Era dos Extemos sempre me assustou:

      "Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e_ se os leitores partilham da tese deste livro_ por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode se pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança na sociedade, é a escuridão."

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  4. Sinceramente. Acho-o supervalorizado. Criou-se uma aura em torno do inglês entre a esquerda intelectual brasileira que o agigantou para além do seu legado.
    Ele sabia que as histórias totalizantes haviam sido sepultadas já há mais de meio século, mas ignorava tudo o que se passava na historiografia continental, em especial França e Itália, para escrever os seus ensaios sobre as Eras.
    É uma pena que seja cada vez mais rara a ascensão de intelectuais capazes de produzir grandes sínteses, e, nesse sentido, o inglês fará falta.
    Mas a história é um ofício laborioso, diário, cotidiano e maçante do historiador diante dos documentos, da onomástica, da história material, etc. Me permito falar como historiador. Ficaria então vedada, comprometida, a possibilidade de se falar, com a mesma seriedade, com o mesmo comprometimento com a documentação, sobre a Revolução Russa, a Revolução Francesa e o Pós-guerra. Nesse sentido os ensaios das Eras do inglês eram antes ensaios de egolatria do que historiografia.
    Em determinado momento de sua autobiografia, Miles Davis critica Ornette Coleman severamente porque este nos 70 e 80 se arriscara em trocar o seu formidável saxofone por arroubos num instrumento no qual ele não tivera treinamento formal algum, o trumpete. Era patente a qualquer músico, qualquer instrumentista do trumpete, que Coleman desrespeitava a categoria.
    Como historiador não consigo deixar de me sentir um pouco assim quando leio a história totalizante do Hobsbawn.
    Você citou no seu texto E. P. Thompson como a antítese da historiografia aprasível de Hobsbawn. Pode ser que Hobsbawn tenha sido dono de uma ensaística mais elevada, de uma prosa maior, que o primeiro.
    Tanto melhor que alguns historiadores consigam herdar de seus pares, ou do seu próprio gênio, a capacidade de narrar a história com a mesma acurácia e beleza que ele ou ela faz falar a documentação que tem diante de si. Carlo Ginzburg aprendeu de sua mãe, a poeta Natalia Ginzburg, a narrar a Itália dos 1600 como um trovador conta as suas histórias. George Dumezil emula Enuma Elish e os mitos iranianos para trazer à vida a mitologia.
    Mas não há nesses aí citados, tanto como não há na história da morte de Philippe Ariès, ou nem mesmo na longa história do Mediterraneo de Braudel, o exercício egolátrico dos ensaios de Hobsbawn.
    Medievalistas são Medievalistas. Renascentistas, Renascentistas. Todo o mais é vaidade.

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    1. Sei dessa sua opinião, Luiz; já rendeu uma boa discussão em algum post atrás nesse blog. Você, assim como o Farinatti, são historiadores acadêmicos, e você pode defender, do âmbito da academia, algo próximo ao especifismo na produção de ideias. Eu abandonei a chance de uma carreira de catedrático, entre outras coisas, por ser avesso a tal especifismo. Hannah Arendt não gostava de ser chamada de filosofa ou historiadora, o título que mais lhe comprazia era "cientista política", embora até para isso ela tinha suas ressalvas; ela preferia não se ligar a nenhum cargo de ofício. Said também dedicou parte de sua grande obra a condenar tal especifismo por parte dos intelectuais contemporâneos; e em qual categoria Said poderia ser inserido? Ele não é historiador, não é filósofo; seu doutorado não foi sobre nenhuma eminência clássica das ideias, mas um romancista: Joseph Conrad! Li lá em sua página em Toronto, Luiz, e sei por sermos já, à nossa maneira virtual, íntimos, que você gosta muito de literatura latino-americana. Quantos historiadores especifistas_ que compõem a maioria_ poderiam dizer isso? Quanto historiadores tem um décimo de horas de leitura afora o ritual sagrado das leituras específicas para seus mestrados, doutorados, pós-doutorados? Eu conheço muitos, e vejo a enorme limitação deles.

      Havia um professor em meu curso de história que só lia sobre técnicas de guerra da guerra de secessão. Um dos maiores nomes da historiografia brasileira vem da minha cidade, tem cadeira em Sorbone e passa meses do ano em Bruges_ até ano passado era, também, o secretario de cultura de Goiânia_, e quase a totalidade de sua obra fala das tradições e da história de um pequeno povoado contíguo à minha cidade, chamado Lajes. E ninguém, apesar de ser uma sumidade, o conhece.

      Aprendi muito com o Said e com Hobsbawn. Um limite exponencial bastante corrompido de Hobsbawn seria Zizék, com sua loucura argumentativa que muitas vezes cai na falação sobre todas as coisas, muitas vezes se dispersa no nada ou na aflição da originalidade. Hobsbawn dificilmente vai cair na reconfiguração que fizeram com Camus (destituíram-no, para seu alívio, do papel de filósofo existencialista, e lhe deram o descanso perpétuo como grande poeta), porque a academia não vai abrir mão de um exemplar tão distintivo para ela, mas, se o fizessem, quem sabe ele teria a mesma desoneração de carga que o argelino?, cobrariam-lhe menos o pedantismo do ofício?, colocariam-no no lugar de um memorialista insuperável, ou um narrador sistemático_ uma posição ainda difícil de intuir, entre Sebald e Magris, e bastante diferente de ambos.

      O próprio Said, em Reflexões sobre o Exílio, cai severamente em cima de Hobsbawn acusando-o de superfluidade ao tratar sobre o oriente. Mas ainda acho que o papel do intelectual no mundo de hoje deve ser de salvamento: falar com potência e erudição, e abrir as portas para a compreensão popular, sem perder suas complexidades internas de estilo e imagens de pensamento. Mas, talvez estejamos saindo um tanto longe da real importância de Hobsbawn: ele vendia muito, mas não era pop. Seus artigos sobre Marx são muito profundos; seus livros sobre a formação do capitalismo e sobre as revoluções. Ele "totalizou" seu tema com A Era dos Extremos, mas como já salientei, ele ressalta na introdução dessa obra que viveu a maior parte dos eventos do século passado.

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    2. Sei não, meus caros, mas será que esse debate de vocês se refere, mesmo, a antagonismos? Será que não há lugar para o ensaísmo de Hobsbawm como um estilo de historiografia?
      De um lado, o Luiz deslancha uma série de críticas quanto às histórias totalizantes escritas por Hobsbawm. Eu concordo em parte. É óbvio que, ao escolher aquela forma de ensaísmo, Hobsbawm articulava um discurso (principalmente nas "Eras") auto-legitimante e que jamais se colocava em dúvida. Não havia explicitação do percurso da pesquisa, das fontes utilizadas, da abordagem empregada. Isso facilita ao leitor ser enfeitiçado por sua envolvente narrativa e ir concordando com tudo sem ao menos se dar conta. Uma antítese, por exemplo, ao que os historiadores da "micro-hsitória" italiana fizeram. Ginzburg é sim um exemplo. Giovanni Levi é outro. Gosto imensamente dos dois.
      Contudo, não creio que isso diminua a obra do inglês (embora concorde que, como historiador, não foi maior do que Bloch, Braudel, Thompson, Ginzburg, Levi), foi diferente. Fico deliciado com seu texto por sua erudição horizontal, abrangente, muito além da história. Aprendo com ela como ensaio. E creio que, sim, ajudou a compor o gosto de muita gente pelo olhar histórico, o que lhe vale suas homenagens.
      Por outro lado, acho um tanto rançoso essas generalizações sobre "historiadores acadêmicos", tentando invalidar uma reflexão a partir de um estereótipo quem nem sempre encontra paralelo no real... tantos estereótipos mobilizados em algumas respostas não ajudam muito na conversa.

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    3. Deixou de ser um robô! :-)

      Infelizmente, Farinatti, o pragmatismo me diz que tal esteriótipo existe na vida real. Há um sem número de acadêmicos, não só historiadores mas de todas os cursos, cujo único interesse é a ascensão pessoal, às custas da produção de pesquisas que não falam a nada e a ninguém.

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    4. Charlles, na verdade, continuo sendo um robô, mas me aperfeiçoei e assimilei a forma de quebrar as senhas do blogger. O próximo passo é dominar o mundo.

      Eu concordo plenamente que esses tipos existem. Há os que cabem perfeitamente no estereótipo. São muitos. E também há um tanto desse defeito em vários outros. Eu incluído.

      Só não concordo com invalidar a opinião de alguém dizendo "isso é coisa de acadêmico recalcado". Quando, no caso, a condição de acadêmico não parece invalidar a lógica do argumento do sujeito.

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    5. "Havia um professor em meu curso de história que só lia sobre técnicas de guerra da guerra de secessão. Um dos maiores nomes da historiografia brasileira vem da minha cidade, tem cadeira em Sorbone e passa meses do ano em Bruges_ até ano passado era, também, o secretario de cultura de Goiânia_, e quase a totalidade de sua obra fala das tradições e da história de um pequeno povoado contíguo à minha cidade, chamado Lajes. E ninguém, apesar de ser uma sumidade, o conhece."

      O que mais me emputece no meio acadêmico. E COMO acontece. Bah...

      Discordo em muitas coisas do Hobsbawm, mas sua escrita é formidável, ainda mais se começar a lembrar de textos modorrentos de muitos doutores que não fazem ideia de como seus textos são um porre e desinteressantes (sem levar em conta os assuntos ainda mais enfastiantes).

      Luis Augusto Farinatti...por acaso tem um Ebling no meio? Se sim, li um material seu na cadeira de História do Rio Grande do Sul, "Confins Meridionais: Famílias de elite e sociedade agrária na fronteira sul do Brasil", com uma dedicatória ao professor Luciano Abreu . Me ajudou na prova, obrigado =)

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    6. Essas minhas críticas jamais valeriam para alguém como você e seu homônimo com z. Só me firmo no direito de salientar que há muita impostura no meio acadêmico nacional, como o digo sobre o jornalismo, a veterinária, a medicina em geral, a política...

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    7. Matheus
      O livro é meu, sim. Bem chato e acadêmico, minha tese de doutorado... Se te ajudou na prova, já valeu o esforço.

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  5. O Luís Augusto Farinatti me enviou esse comentário via e-mail:

    "Charlles,
    há tempos não consigo postar comentários no seu blog. Ele não se convence de que não sou um robô. Eu mesmo já estou começando a duvidar...

    Mas eu gostaria muito de ver publicado este comentário, a certa de sua elegia a E.J. Hobsbawm:

    Simplesmente O MELHOR texto sobre Hobsbawm que li nestes dias.
    De fato, a música de sua escrita, sua erudição impressionante, seu estilo fluido (como um flautista encantando uma serpente), sempre me prenderam e maravilharam. Os capítulos iniciais de "A Era da Revoluções" e de "A Era dos Impérios" (este, para mim, seu melhor livro), deveriam entrar em qualquer antologia sobre o que de mais bem escrito já houve neste mundo. Você tem razão, ele criou um tipo de literatura.
    Do ponto de vista histórico e historiográfico, Hobsbawm, assim como seus colegas ingleses que você citou, não eram grandes em enunciar o processo de construção de suas descobertas. E isso, inclusive, em seus livros monográficos.
    Porém, suas imensas sínteses e ensaios são pura maravilha. Eles conseguem construir uma época com imagens perfeitamente escolhidas. Sobretudo: são um perfeito antídoto quanto ao anacronismo, mesmo com as imensas generalizações que precisam fazer.
    A forma de analisar a realidade historicamente, a história como um método de análise ensaística, generalizando sem perder a complexidade, são marcantes na sua obra.
    Como você destacou, esse sujeito feio e desengonçado tinha leveza e precisão na escrita e na análise.
    Seu texto, Charlles, é uma homenagem do tamanho de Hobsbawm."

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    1. Farinatti, não sei o que acontece aí no blogspot. Há uns números ao lado dos códigos alfabéticos, em separado, (parecem fotos de placas de endereço residencial), que também devem ser digitados. Não estou querendo te ensinar o pai nosso, mas é que fiquei sem poder comentar no blog do Marcos e da Rachel por desconsiderar esse números, e só fui perceber depois.

      Eu costumo pensar que Hobsbawn é um desses escritores cuja leitura deles ajudam em muito a desenvolver a escrita. Minha irmã pelejava para passar no vestibular para medicina: acertava tudo de biológicas e exatas, mas quando chegava em história e geografia, era uma negação. E tinha enorme dificuldade de escrever argumentativamente. Insisti com ela para que lesse Hobsbawn, para,literalmente, desenvolver a mente, a inteligência para a escrita. Ela era avessa demais à leitura; atingia as notas mais próximas para a aprovação, e uma simples leitura de um volume de História do Brasil teria garantido que passasse. Acabou se dando bem no curso que fez, fisioterapia, e desistiu de ser médica.

      Obrigado, Farinatti!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Talvez, como o carinha aí de cima disse, o Hobsbawn tenha pecado pelo excesso de abarcar períodos históricos muito longos. Mas acho que uma coisa é o historiador dedicado a determinados períodos de investigação ou temáticas mais fixas; outra coisa é lançar um olhar, como está esrito aí, mais totalizante, o que dá para fazer ainda que descartando detalhes, principalmente porque esses detalhes só deixaram umas poucas rugas e não obstruíram a formação epistemológica que formou barro da poeira da história. Ainda tem a questão do compromisso e da visão de divulgador também, e essa ciumeira de historiador quando vê um par vendendo livros pra cacete enquanto o cara na linguagem acadêmica dele ganha um puta respeito de seus 128 leitores, coleguinhas acad~emicos com a linguagem técnica que eles creem devida à disciplina, essas coisas.

    Tem uma fota legal da figura hoje na primeira página do Segundo caderno de O Globo; ele sentado, te blazer (talvez terno) e calça comprida, mas... sem meias e... de chinelo! Mais uma razão para ficar puto com o Hobsbawn: isso lá é roupa de historiador!

    Fica a declaração: a existência dos livros dele tá plenamente justificada pelo que ele despertou de interesse na moçada, sedimentando um olhar com bom grau de desconfiômetro do Pensamento Único que rola por aí. Se foi além do que devia e podia, foda-se, eu não notei nada.

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  7. Marcos,
    Não se trata de corporativismo - mesmo porque Hobsbawm viveu como historiador. Muito menos se trata de defender um hermetismo que impossibilita o acesso do leitor não-especialista ao debate historiográfico mais sério.
    E é claro que eu compreendo, e faço coro também, com o Charlles em criticar essa leva de intelectuais de uma monografia só.
    Sábado passado ocorreu aqui em Toronto um evento de arte contemporânea livre que abarca toda o downtown. As ruas são fechadas, as praças tomadas por instalações e milhares de jovens tomam as ruas até a manhã de domingo. O festival chama-se Nuit Blanche, e o tema desse ano foi o Apocalipse. Slavoj Zizek foi convidado a falar no evento, não tanto para promover o seu último livro Linving in the End times, mas porque ele se tornara justamente esse filósofo ou intelectual capaz de falar a muitos. A fala do Zizek estava programada para 11.30 da noite. Cheguei no Nathan Philip Square às 11 e não consegui entrar no monstruoso auditório, tamanha era a demanda para ouvir o filósofo do Occupy Wall Street, o filósofo da Primavera Islâmica. Ficamos de fora, eu e mais uma centena de ouvintes, amontoados junto a uns alto-falantes numa madrugada amena de 8 graus positivos por mais ou menos uma hora e meia.
    Por um hora e meia Zizek destrinchou sobre o regime teocrático islâmico na Indonésia, comparou a monstruosidade disciplinada do terceiro Reich com esquadrões de estupradores Congoleses, comentou o filme Brazil de Terry Gilliam e arguiu brilhantemente que o século XXI não vira o surgimento da capitulação da esfera privada pela pública, mas da invasão do privado em todas as esferas da vida.
    Poucos ou nenhum intelectual da atualidade seria capaz de encarnar um festival de arte de rua, pós-moderna (como o Nuit Blanche) como o Zizek. Zizek é capaz de juntar num mesmo auditório marxistas de carteirinha, os revolucionários (com todas as ressalvas) do Movimento Occupy, douchebags pós-graduandos, interessados em arte pós-moderna e jovens com pouca ou nenhuma exposição a sua filosofia.
    Zizek é o grande intelectual sintetizador, cada vez mais raro, que aparentemente jaz a sete palmos, morto pelo saber local. Ouví-lo rejuvenesce a alma e dá sobrevida ao ideal do intelectual que fala ao poder que você menciona, Charlles.
    Meu ponto, que agora se faz perdido nessa pequena narrativa sobre a visita do Zizek, é o de que não vejo o Hobsbawm ocupando lugar que se assemelhe ao desse tipo de síntese.
    Sua historiografia é totalizante na pior acepção da palavra. Pois ludibria o leitor de que há uma narrativa unívoca capaz de abrir o significado secreto das Eras, que periodiza a história em grandes e estanques paradigmas epistêmicos. Parodiando Foucault em Arqueologia do Saber, esse tipo de narrativa, total, totalizadora, só pode servir a um propósito, tal qual, o de propiciar sobrevida ao defunto Sujeito que rege a história.

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    1. Seguimos discordando sobre Hobsbawn. Mas deve ter sido uma viagem a análise de Zizék sobre Brazil, do Gilliam.

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    2. As sínteses viajandonas do Zizek me parecem fogos de artifício, mas, ok, também acho que o fechamento em Eras é por demais tranquilizante, simplificador, e oferece uma ideia estanque do devir histórico que não combina nada com nossas percepções cotidianas, daí que esse fechamento proporciona uma perspectiva que nos dá ordem e sentido onde há confusão e múltiplos vetores intranquilizantes rumo ao indiscernível, de forma que, bem... é que o estilo é o homem, e podemos bem compreender certas limitações quando suas pretensões, embora totalizantes, não são herméticas no sentido mesmo de fechadas: não vejo que Hobsbawn delimita o saber entre suas quatro paredes, mas oferece alguns elementos que propiciam a separação da confusão voluntária fomentada pelas formas de poder com a perspectiva do homem que quer ir além dessa confusão, porém sem unidirecionamento.

      No final das contas, tô dizendo mesmo é que Hobsbawn, ao contrário de Zizek, não turva mais as águas já turvas (embora, para o mais "intelectualizado", Zizek esteja a fazer o contrário, mas o efeito entorpecente me faz jurar que não), mas tenta oxigená-las de forma a permitir que os peixes possam nadar.

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  8. Tenho vindo aqui sempre, porque além do texto ser um dos melhores do Charlles, as discussões estão muito boas. Elas me lembraram que cheguei para preencher a ficha de aproveitamente de curso superior programada para fazer sociais. Lá, descobri que o curso de história tinha mais vagas e passei mais de meia hora com a ficha na mão sem saber que quadradinho marcar - história ou ciências sociais, ciências sociais ou história? Venceu ciências socias com a expectativa de fazer história logo depois. Pena que cansei antes...

    Mas, mesmo se tivesse marcado o outro quadradinho, não seria capaz de produzir um texto tão bom quanto o do Charlles ou acrescentar algo de diferente a discussão. Então venho apenas para agradecer, como leitora do blog e admiradora da disciplina.

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    1. O Milton colocou esse texto no Sul 21 e isso aqui estourou. O dia em que o blog teve mais acessos, segundo as estatísticas do Analytics. Fico feliz pelas discussões. O Farinatti e o Luiz Ribeiro sabem de História muito mais que eu, mas ainda assim eu ouso em dar meus pitacos.

      Mais uma vez, obrigado, Fernanda!

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  9. Ótimo texto, meu caro.
    Lik alguns comentários - incluindo a ideia da superestima em relação ao bom e velho Eric.
    Lembrei-me de que a Barbara Tuchman, historiadora de primeira, tinha certas reservas à linha de Hobsbawm, embora o seguisse. Não entro na discussão acadêmica, até porque não me sinto capaz de fazê-lo. Fico aqui, saboreando meu diletantismo e relendo os bons textos deste que se foi. E, paradoxalmente, fica. Abraço.

    Grijó

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  10. Charlles, leia isso. Observe a frase inicial: "idiota moral"!

    http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/a-imperdoavel-cegueira-ideologica-de-eric-hobsbawm

    Como me provoca um profundo asco essa "revistinha" crimosa.

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    1. Eu já tinha lido essa apiedante propaganda diletantista. O mais revelador desse texto é que seu autor não teve coragem de assinar seu nome. Repare nos tantos comentários apontando isso e atacando a superfluidade da coisa. Eu escrevi um comentário, certo de que não seria publicado (não foi, hehe), em que, entre outras coisas, atentava sobre a incrível coincidência de estilo nos últimos cinco comentários, que são laudatórios ao texto e no mais bairrista e besta ataque a Hobsbawn. Tá na cara que o próprio autor escreveu esses comentários para dar um contraponto aos ataques severos (o surpreendente foi a revista ter postado esses comentários críticos).

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    2. P.S.: tal texto na revista me pareceu muito com o que foi escrito lá na morte de Saramago. Eles usam a mesma fórmula: disseram sobre Saramago ser um escritor de esquerda e que isso não o impediu de morrer confortavelmente em sua casa. Raso, raso.

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    3. Creio que o original é esse:
      http://www.implicante.org/artigos/os-erros-de-eric-hobsbaw-uma-contabilidade-de-mortes/

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  11. http://roncaronca1.tempsite.ws/site/2012/10/09/em-terra/

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    1. Muito bom! Não conhecia arbo. Assume novas sombras lendo a biografia de Salman Rushdie. Com certeza você deve ter passado o link para o Milton, não??

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    2. passei no gtalk, ele não respondeu. vou encaminhar por email...

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