segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os Enamoramentos, de Javier Marías


Na cena final de O Coração das Trevas, a grande novela de Conrad sobre a total submissão do homem à aleatoriedade da história, o narrador, Marlow, está na casa em Londres da noiva do capitão Kurtz para comunicar-lhe as últimas palavras do capitão antes que esse morresse nas selvas do Congo. Na verdade o propósito de Marlow era meramente o de saciar a sua curiosidade em descobrir como era essa mulher negligenciada por um homem que preferiu o isolamento a todas as conformidades sociais urbanas, disfarçando tal curiosidade com a obrigação formal de oferecer-lhe seus pêsames, mas se vê pressionado pela mulher desesperada e em prantos a cometer uma mentira. Os últimos pensamentos de Kurtz, com absoluta certeza, deveriam ter sido dirigidos a seu enlouquecido projeto de poder divinatório em se fazer o deus de uma tribo de homens primitivos na  floresta, e nada estava mais longe dele que a lembrança de uma moça apaixonada à espera em um dos centros culturais de uma distante Europa; mas Marlow, compadecido do sofrimento da moça, lhe diz que as últimas palavras do capitão foram para ela, que ele, em seu leito de morte, ocupou seus derradeiros devaneios com ela. Ele o amava, era a conclusão ultra-eufemizada da verdade que Marlow piedosamente ofereceu à moça. Na saída pelas ruas de Londres, Marlow pensa, que diferença fazia se ele mentisse ou contasse a verdade: o universo continuava o mesmo, os céus não foram abalados, o tempo não parou em choque compadecido com aquele drama sobre o qual só pairava realmente a grande indiferença que regia todas as coisas, e para a qual as ações humanas eram uma migalha de poeira cósmica em rápida progressão para o desaparecimento. 

A imagem de absoluta aleatoriedade pintada em cores fortes por Conrad se firmou como uma das mais poderosas da literatura. Edward Said vasculhou todo o mobiliário espiritual dos livros de Conrad para tecer sua grande crítica ao colonialismo, o que não o isentou de colocar o próprio Conrad no centro dos dogmas impostos pelo lado dos vencedores, naquilo que Said afirmou ter sido um modelo eficiente de notável impacto em direção à verdade, mas cuja situação amordaçada do autor de Lorde Jim nos conceitos institucionalizados do poder o impediram de ir mais além, de atravessar para o outro lado. E é com esse sentido nitidamente conradiano sobre a loucura, a conformidade, a mentira apaziguadora diante um universo para o qual pouco importa o peso das palavras, que Javier Marías escreveu seu magnífico novo romance, Os Enamoramentos. Os leitores acostumados de Marías sabem o quanto um romance seu oferece de tonalidades, nuances, sutilezas jamesianas, e para os mais atentos não deve ter passado despercebido que essa sua mais recente produção é uma reconstrução de O Coração das Trevas, aparentemente amenizada pelo prosaísmo cotidiano de uma sociedade global para a qual não existem mais grandes tragédias e entidades infernalmente perturbadas, não existem mais inserções hipotéticas em proto-sociedades tribais que, por sua vez, ofereçam paisagens de loucuras descomunais. Marías produziu um drama conradiano astutamente desinfectado de conflitos grandiloquentes que antes alimentavam a vaidade iluminista de nossa espécie, mesmo em seu momento de derrocada negativa na obra de Conrad. E tendo o prodígio de entregar um produto tão anômalo de suas outras obras, tão diferente e exótico, o que vejo entre algumas das resenhas dos adeptos a seu estilo digressivo e de ensaísmo pausado é um desconcerto em definir se este seu novo filho agradou ou desagradou, uma certa dificuldade em dizer se se trata, enfim, de um filho realmente legítimo ou mera epifania de virtuoso que esbanja as técnicas de seu ofício. Pois Marías, afirmo com absoluta convicção, fez aqui um de seus maiores livros; investido com uma concisão e a disciplina de limitar sua prolixidade verbal apenas aos eventos da trama de um assassinato brutal, Marías aqui consegue o efeito de estender uma análise crítica quase subliminar (ao nível insinuador de Henry James) à negligência de sentimentos do homem urbano high-tech e sua frieza corporativa adepta à elegância da religião da uniformidade  destituída de todos os excessos. Marías aqui atinge o mais elevado grau da acusação nietzschiana de que o homem moderno transformou o que antes eram traumas servidos a evoluir o espírito a simples e macilentos temas de consultas da psicanálise.

A começar por esse quase neologismo do título: enamoramentos. Um termo que só existe, um dos personagens do romance diz, em alemão e espanhol, e quem sabe em francês antigo. Esse recurso a um vernáculo obscuro e até então desconhecido da grande maioria, além de ser algo cacofônico aos ouvidos (quando eu soube que o título era esse, senti uma desconfiança quanto ao equilíbrio de julgamento artístico de Marías: enfim, pensei, as qualidades mannianas de sua prosa não se sustentaram e decaíram nisso), é visualmente um prejuízo a qualquer apelo comercial. Lembra a falta de traquejo de escritores esquecidos ou as primeiras obras ingênuas e repudiadas mais tarde pelos próprios autores (como O Enigmático, de Knut Hamsun). Em se tratando de um dos maiores nomes das letras atuais, e por isso nada que suspeite amadorismo ou lesão cerebral irremediável, é cabível que tal título seja visto como uma peça preciosa de ironia, uma ironia triste e, em última instância, uma ironia coberta de terror que remete aos contos de terror de Arthur Machen, autor citado em duas outras obras de Marías. Enamoramentos é um substituto a todas as fórmulas mais elegantes, aprazíveis e mercadológicas que se oferecem ostensivamente às mãos (os derivativos adverbiados de paixão, amor, amantes, noivos, casamentos, etc). 

Os personagens são todos alheios a qualquer um desses termos mais aquecidos que no imediatismo da cultura cinematográfica remetem ao amor e às paixões arrebatadoras; são tão envernizados na mesma cor dos escritórios, carros, restaurantes e camas em quartos arquiteturalmente feitos para o conforto, que a vida deixou de ter o mínimo caráter aventureiro e ousado, a mínima constituição externa. A narradora, María Dolz, (os romances de Marías são narrados em primeira pessoa), se enternece, todas manhãs, em ver o que para ela é o casal perfeito, sentado de frente a ela no restaurante em frente à editora em que trabalha; nunca se aproximou daquele homem e mulher insustentavelmente felizes (o que lhe encabula é que tem todos os sinais de um casamento de longos anos, mas demonstram interesse e assuntos recíprocos que parecem não terem acordado juntos na mesma cama), nega-se a lhes saber os nomes e mesmo a procurar dirigir-lhes palavras as mais triviais. Mas esse voyerismo é o oásis em seu cotidiano insípido, em que enfrenta o egocentrismo de escritores espanhóis caricaturescos e o tédio das viagens e promoções editoriais. E a narradora só vem a tomar uma atitude ativa quanto ao casal, quando, ocasionalmente, uma de suas colegas de trabalho lhe comunica que o marido da mulher fora brutalmente assassinado por um flanelinha louco. Daí, María visita a viúva, conhece os dois filhos do casal, e Javier Díaz-Varela, o melhor amigo do morto. Aos poucos, o que era somente a placidez desinteressante de um acaso brutal, se oferece à narradora o vislumbre do que estava realmente por detrás do assassinato: um conluio em nome não da ganância ou da disputa empresarial, não de fervorosas necessidades de posses, mas apenas, em nome do enamoramento.

María Dolz (uma das desfragmentações auto-acusadoras do nome do próprio autor), serve aqui como uma repaginação de Charles Marlow, e cabe a ela a opção por escamotear a verdade no final do romance. Ela suporta os longos monólogos kurtzeanos que o responsável pela loucura do isolamento deísta que acarretou na tragédia da trama lhe dirige durante o transcorrer do livro: monólogos que Marías, diabolicamente, faz monótonos e monocromáticos, destituídos de conexão com a carga de violência que contêm. María retorna para seu apartamento, deita-se na cama, da qual ouve continuamente o som dos galhos da árvore de fora batendo contra o vidro da janela, e repensa essas experiências e o segredo que inadvertidamente agora sabe, e se martiriza quanto à sua responsabilidade moral de revelar ou não um crime. O Congo de María Dolz é a tibieza, a indiferença, o uso pessoal da verdade para esconder o que, em outros tempos onde o calor não fora dissipado, seria o inconcebivelmente cruel. O assassinato, as razões para ele, sua explicação elegante, é desfiado de maneira tão distinta e parcial, pela voz de um dos que estão do lado de dentro e contra o qual nenhuma ameaça chega, protegido pela sociedade ornamental da segurança refrigerada, que Os Enamoramentos é uma obra de um diabolicismo raro, apto para adentrar a lista de obras diabólica proposta por Giovanni Papini (que nomeou De Quincey, Nietzsche, William Blake, ao lado de Dos Passos, que, segundo ele, é responsável pela descrição das "formas mais diabólicas da vida americana dos nossos dias"). Marías nos instruí aqui e nos eleva a pensar a um grau que justifica cada vez mais a sua altura entre os grandes criadores modernos.

3 comentários:

  1. Assim fica muito interessante e até a capa, q numa vista rápida pode parecer cafona, ganha um sentido. Adorei, Charlles, talvez pudesse ter escrito mais sobre o q é análogo aos "longos monólogos kurtzeanos" neste livro q resenhas. me ficou um pouco oculta essa verdade ocultada. mas é claro, fica pra leitura, profusão de espelhos.

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    1. Fiz o máximo para não incorrer em spoilers, arbo. Obrigado!

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