quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ladrões de Borboletas

A ideia me veio quando fazia o último ano de veterinária. Meu tempo de estágio tinha amplos recessos abertos que convidavam à vagabundagem, e caiu de me confrontar um anúncio no jornal de um concurso literário de contos de temas livres. Sentei-me durante uma semana à mesa de uma biblioteca pública bastante aprazível localizada na praça central da capital onde eu estava, e me pus a escrever compulsivamente. Me pareceu de primeiro uma organização de burocratas em nada conhecedores de literatura, com interesse de gastar a verba federal com um concursinho sem relevância, que uma das regras do edital fosse a de que o conto deveria ter 50 páginas. 50 páginas! Não intuíam minimamente que 50 páginas já não é mais, conceitualmente, um conto, mas uma novela. E o esforço que tal número de páginas incorreria, no pouco prazo de três semanas que um avisado tardiamente como eu dispunha. O que me parecia bom era o ambiente da biblioteca, que ficava no segundo andar de um prédio público onde no térreo, nos bons tempos, acontecia pela promoção de algum secretário cultural mais engajado a exibição na íntegra dos filmes de Fellini, encenação de teatro universitário e coisas tais, mas que agora as salas daquele setor estavam à míngua, abandonadas, os vidros dando para escuros vazios onde se divisava aqui e ali alguma madeira ruída, algum obsoleto móvel de armar mal colocado na caixa quando da necessidade de imediata evasão. Um corredor de paredes amarelas recendendo com as lâmpadas intermitentes que levavam ao pequeno e acolhedor cinema no qual conheci a fundo Fellini, parecia agora levar a porões que não despertava interesse de ninguém e já estava por avançar um estágio a mais no desmazelo e passar a suscitar o medo; aquele local em que eu atravessava meia cidade a pé, debaixo da chuva, para assistir Amarcord, A Doce Vida e Ginger e Fred. Mas esse aspecto de terra desolada condizia com o momento pelo qual eu passava, em vias de largar em definitivo o remanso adiador da vida universitária, sem muitas perspectivas de emprego, sem saber sequer se era com isso que eu gostaria de ganhar a vida, com a nostalgia pior de tudo dos amigos que eu passaria a não ver mais com tamanha frequência ou não ver mais de modo algum. Essa biblioteca representava muito para mim: foi nela que eu estudei para o vestibular, nela que eu me dedicava ao voyerismo de olhar por baixo das tampas das carteiras atrás das calcinhas das moças; dela eu havia cambiado tantos livros entre a fralda da camisa e minha barriga magérrima da época, que uma crise de consciência me fez dar uma coleção caríssima do Príncipe Valente como paga por tantos anos de crime, e que acabou que na pressa eu não preenchi os formulários de doação e tais livros foram cambiados, pelo que tudo indica, por uma das funcionarias (ladrão que rouba ladrão). Nela eu convivia a título de família fria de aventureiros sem rumo com pessoas as quais nunca soube o nome e com quem nunca troquei uma palavra, como um homem de seus quarenta anos que era o primeiro a chegar de manhazinha e o último a sair às dez da noite, e que se afundava em apostilas de concursos públicos, e que nunca soube se acabou ganhando o vício daquele cotidiano ou teve a estrela negra de não passar em nenhum deles (ao que tudo indicava), pois varavam-se os anos e ele continuava ali, destinado a ser um fantasma antecipado de si mesmo a vagar pelo quanto mais o prédio seria desmobilizado e só sobraria a poeira e seu semblante triste olhando da fronteira de lá dos mortos.

Sendo assim, o conto que eu me propus a escrever refletia profundamente essas inconstâncias e esse abandono, e tinha muito do medo do desemprego que me rondava. Chamaria-se Ladrões de Borboletas, e era a história de três caras não necessariamente amigos, mas que dividiam entre si o vínculo cimentado de não conseguirem emprego e estarem próximos, bem próximos, da ruína total. O cenário era algum ponto indefinido da Escócia, talvez por recentemente eu ter assistido um filme sobre um grupo de desempregados irlandeses que incorrem no inesperado mercado de danças eróticas e clubes de mulheres como último recurso desesperador. Assim, esses meus três desempregados descobrem uma fazenda de borboletas num povoado contíguo do de onde moram, e descobrem que através da manipulação de um ferormônio específico, uma onda de borboletas sairia por um rombo improvisado na tela de proteção e pousaria numa placidez exploratória de probóscides excitadas dentro de caixotes carregados de insuportável cheiro sexual. O apartamento de um deles_ o anti-herói sobre o qual recai o foco da narração e que na minha imaginação se parecia muito com Robert Carlyle_, fica lotado de borboletas e pupas, o que deveria ter acarretado um tanto de motivos de comédia de erros. Como eles percebem que envolve riscos demasiados de serem pegos pela polícia as tentativas de contatos para vendas das borboletas para as indústrias de cosméticos e de bijuterias, eles tentam devolver os incrivelmente reprodutores animaizinhos de volta para a fazenda, ao que acabam se envolvendo, por acaso, com um poderoso grupo de mafiosos que os confunde com assassinos profissionais em busca de serviço. Tudo muito rápido e fácil, mas cuja metástase das 50 páginas me indispôs com as complicações surgidas com a trama. Perdi as folhas_ deu quase as 50 completas, mas jamais ganhariam um concurso_, mas me lembro da disciplina da escrita em que me envolvi, a sensação de alegria por divagar sobre algo tão bobo e contraproducente num momento em que tudo me parecia exigir produtividade e sentido. Foi uma das últimas vezes em que tive a sensação à beira do abismo, mas à sua maneira extraordinária, do supertramp.

20 comentários:

  1. 50 páginas em 3 semanas, eu não conseguiria escrever isso nem se tivesse a história toda pronta na cabeça.

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    1. É só colocar um rolo de papel de imprensa na máquina de datilografia e escrever espontaneamente. Imagina o que isso dá. Kerouac conseguiu uma vez só... alguns dizem que nenhuma...

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    2. Não é só isso não. É uma questão também de estilo de escrita. Eu sou sintética, os teus parágrafos ficam grandes espontaneamente. Você não sabe o quanto isso era chato na faculdade, quantas vezes já fui acusada de ser superficial ou não saber do que estou falando. Textos volumosos impressionam, são facilmente confundidos com erudição - e textos pequenos com a falta dela.

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    3. Discordo. Saul Bellow, tirando o Augie March, só fez frases curtas; lembra do sr. Sammler? Minha ambição na escrita, nestes textículos e em outros, são as frases curtas, mas a leitura de Javier Marías me grudou na alma e tá difícil um exorcismo. Li oito livros dele em 3 meses e tá igual chiclete (merda!). E Bellow é o maior dos escritores. Claro que Pynchon e Roth são caudalosos. E vejo que o tão aclamado Murakami também é adepto da escrita de frases concisas e coloquiais.

      Tenho que ficar longe de Marías pelo menos uns dois meses.

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    4. Affe, Charlles. Então em outros termos: sou uma lesma quando escrevo e demoraria muito tempo para preencher tantas páginas, muito mais do que três semanas. Convenci agora?

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    5. Tá bom... Acho que você faz parte do grupo de pessoas bem dotadas que se dá muito bem com textos curtos.

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    1. Eu imagino, Charlles. Também carrego comigo muitas memórias. Costumo dizer que o corpo é o guardião das memórias, mas ele não pode escondê-las em todo tempo. Uma hora ou outra elas querem respirar e é inevitável a nostalgia.

      P.S. E propósito: comecei a conseguir os livros daquela dua lista. Já possuía alguns. Comprei alguns outros. Hoje me chegou o Planeta do Sr. Sammler, do Samuel Bellow. O problema é que tenho trabalhado tanto que não tenho encontrado momentos oportunos para ler. Mas vamos seguindo...

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    2. Carlinus, meu pequeno gafanhoto, a felicidade do homem não é o dinheiro, mas o tempo livre. Passe a trilogia do senhor dos anéis a esses seus alunos, na versão estendida de 15 horas, e leia o Bellow.

      Não te disse que o Tull reserva muitos tesouros?

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  3. Vou seguir o seu conselho. Não se deve esquecer os Potters e o Ladrão de Raios. O Tull é uma coisa, diria, fantasmagórica, mal-assombrada. Aquilo é viciante. Anderson era um bruxo...

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    1. Depois te conto, num desses meus famigerados posts pessoais, a vez quando eu era vocalista de uma banda cover do Tull e fui pressionado a cheirar uma carreira de cocaína...

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    2. Nota: pressionado, mas não o fiz.

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    3. "Vocalista de uma banda cover do Tull". Ah não, Charlles, vai ter que contar e logo! De preferência, com foto tua no palco.

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    4. Isso faz parte daquele setor da lembrança que é impossível não fazer uma careta e dizer "aiii" quando se o visita.

      Depois eu conto. Mas não existem fotos, pelo menos comigo. É por esse motivo que nenhum amigo meu do passado tem conhecimento deste blog.

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  4. Olhe que não acho tonto (bobo) e até gostaria de ler, se não tivesse perdido as folhas.

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    1. Já que você tocou no assunto, Olinda, eu também não o achava tão bobo, ou o achava e isso que era o tesouro. Mas eu sempre tive uma auto-crítica demoníaca, sempre fui um desses personagens de Vila-Matas que destrói tudo que escreve em amor à literatura, com um apurado, para citar Hemingway, "detector de merda". O que se me apresenta como único ponto motivador em escrever, para continuar nesse meu pedantismo irritante das citações, é que sou propício a ser como o famoso cachorro de Bellow, das páginas iniciais de Dean`s December, em que ele latia tentando abrir o universo um pouco mais.

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    2. Às vezes as nossas tolices (bobagens) da adolescência são pequenos tesouros literários nos nossos corações ;)

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  5. A minha impressão é que voc~e começou a ficar velho e tá gostando demasiadamente disso...

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  6. acho q o filme dos irlandeses era Ou tudo ou nada, algo assim. engraçado.
    estou no momento de escrever meu tcc. vou tomar esse post como um sinal. obrigado e até janeiro. ahauahuha

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