terça-feira, 23 de agosto de 2011

Deus ex machina

Anos antes de conhecer minha esposa eu trabalhava como médico veterinário do departamento de patologia e controle de zoonoses, da Defesa Animal do estado. Éramos um grupo de três, consistindo em mais um veterinário e um auxiliar técnico, e viajávamos por todo o estado para coleta de material biológico o qual tínhamos que entregar ao núcleo laboratorial num prazo estipulado, para que lá fizessem os usuais cronogramas de estatísticas sobre raiva, peste suína, febre aftosa, estomatites em geral e uma série de outras doenças acometedoras de animais de granja ou de pastoreio. Nossa especialidade, porém, era a eliminação sistemática de morcegos vampiros, que fazíamos com tão boa vontade (coisa que a maioria das outras equipes se desviava devido às agruras envolvidas) que recebemos a alcunha de Morcegões pelos colegas de serviço. Era mesmo uma ocupação destinada aos porra-loucas, àqueles que não tinham esposas e filhos e nem se importavam em não voltar todas as tardes a uma residência fixa. Os felizes selecionados tinham que ter a disposição de desbravar matas fechadas atrás de cavernas, assim como a condição física de um nababo para suportar passar noites ao relento, esperando que uma quantidade suficiente de hematófagos se prendesse pelas asas às redes que estendíamos em torno de currais e outros locais estratégicos. As diárias pagas eram ótimas, mas era o tipo de função em que valia a filosofia compulsória de que dinheiro não é tudo na vida.

Foi lá que conheci meu companheiro de equipe, o Sérgio, um veterinário dez anos mais velho, uma lenda pelas suas extremas contradições. Tinha uma aparência que, sob a total inércia muscular, transmitia o desamparo de uma vítima constante das atribulações do destino, uma cabeça totalmente calva de tartaruga marinha, uns olhos azuis quase cobertos por duas rugas palpebrares acentuando-lhe a miopia, e um corpo esguio desprovido de pêlos conservando a mesma condição impúbere desde a infância até o que deveria ser a sua feitura no seu futuro leito de morte. Contudo, quando se movia e falava_ acontecendo com demasiada frequência_ toda essa primeira impressão era pulverizada, e ele mostrava ser uma bomba de energia e um prolixo humorista que conseguia convergir a atenção de quem estivesse presente para suas narrativas hipnóticas que envolvia todos os assuntos. Parecia um ser sedentário, mas já havia trabalhado em pesquisas na Austrália e em Israel e, bem, estava ali na equipe, o que desvirtuava o conceito. Era um cavalheiro com as mulheres, mas tinha duas ex-esposas e três filhas para as quais pagava pensão, e um talento de radiografar à distância e para os amigos embevecidos quais veterinárias dos cursos semestrais gostavam de praticar sexo oral, quais eram frígidas e quais eram verdadeiras máquinas insaciáveis por debaixo das carinhas inconspícuas de moças comportadas. Fumava não um cigarro atrás do outro, como dizem, mas um único cigarro perpétuo, pois era quase impossível flagar a ligeira pausa em que tirava o tubo de nicotina da boca. De imediato nos demos muito bem, pois naquele universo de músicas sertanejas éramos patinhos feios que adoravam blues, jazz e o rock dos anos clássicos. Mas sua melhor qualidade era uma maestria para a boa vida a qual chegava a extremos da mais perfeita malandragem em disfarçar de trabalho exaustivo o que na verdade eram férias remuneradas, pois nas nossas peregrinações à caça de morcegos ele conseguia favores dos fazendeiros interessados de maneira que hospedávamos em chacáras confortáveis cujos donos lhe entregavam não só as chaves das portas como o direito ao uso de freezers abarrotados de cerveja.

Foi numa chácara dessas_ na verdade um agrupamento de chácaras de alto requinte, pertencente a um grupo empresarial kardecista, conforme me informara o Sérgio_ que ficamos cinco dias, apenas nós três. Enrolávamos as redes em volta dos currais onde estavam os cavalos parasitados, à tardezinha, e pelas três da madrugada fazíamos uma pausa nas conversas acaloradas em torno da churrasqueira e das cervejas para descermos até lá e desenrolar os morcegos que eram apanhados pela armadilha. Lembro que ouvíamos o novo cd do Clapton tocando com B.B.King, presente de uma de suas filhas, quando, enquanto passávamos a pasta vampiricida nas costas dos morcegos, ele me confessara por entre a fumaça do cigarro que os proprietários do lugar eram do mesmo centro espírita que ele frequentava. Não me surpreendera em nada, pois já havia cogitado que por detrás de seus modos dissolutos haveria uma inquirição religiosa. Daí fomos por toda a noite em assuntos espirituias, em que ele intersticiava a suposta seriedade de suas crenças com piadas das quais ríamos até perdermos os fôlegos.

Acho que foi duas semanas depois dessa estadia, quando coletávamos sangue dos suínos de uma granja, que o acidente aconteceu. Foi próximo a uma cidade chamada Faina. Voltávamos do almoço para a granja, e no cruzamento da rodovia um caminhoneiro avançou sem olhar para os lados. Eu freei o carro, virando-o de lado, de forma que a batida pegou pelo lado do passageiro, onde o Sérgio estava sentado. Eu sofri danos mais sérios, quebrando o tornozelo da perna direita e rasgando alguns pontos do rosto acertado pelo vidro espatifado. Mas o Sérgio, assim que saiu do carro e se posicionou em pé ao lado da lataria retorcida, que provocou mais choque. Colocando sua cabeça para baixo, as carnes do rosto ficavam penduradas como um livro segurado pela lombada. Ao nosso companheiro técnico acontecera de quebrar duas costelas, sem consequências. Ficamos internados no hospital da cidade, pois a equipe médica do estado só poderia nos buscar na manhã do outro dia. Um clínico geral costurara a face do Sérgio e os rasgões em minha sobrancelha e na bochecha, e colocara uma tala para imobilizar minha perna. Deixara a recomendação de que futuramente teríamos que nos submeter a uma cirurgia estética de restauração. Durante a noite, o Sérgio aparece em meu quarto numa cadeira de rodas, com o rosto enfaixado. Pela primeira vez o vi sem o cigarro. Disse-me que depois disso iria arranjar uma outra mulher para se amasiar, e me sugeriu que também me quietasse dessa vida de porra-louca. Eu estava deprimido e só queria me lastimar em silêncio ouvindo a chuva cair sobre aquele hospital perdido num povoado desconhecido. O Sérgio talvez havia percebido que a coisa mexera comigo e insistia em me animar. Na certa sabia que subliminarmente eu era muito vaidoso de minha aparência física e aqueles rasgos na cara me faziam imaginar futuras rejeições. Tentou reativar naquela hora nossa conversa sobre os sinais metafísicos das leituras que cada um havia feito de Carlos Castañeda, de como o universo nos manda constantes sinais, nunca se cansa de nos mandar inúmeros e infinitos sinais...

Desistindo, ele freccionou as rodas da cadeira rumo à porta do quarto. Lamentou terem-lhe escondido os cigarros e deve ter mandado os médicos à merda diante o corredor tomado por uma meia luz azulada de deserção. Se voltou para uma última pergunta:

_ Quando você viu o caminhão atravessado na nossa frente, lembra o que você disse? Pois eu lembro: "Meu Deus do céu!". Você gritou "meu Deus do céu!". Se tivesse gritado "puta que pariu", aí sim estaríamos na merda!

Se virou para minha cara eximida de sorriso, e saiu.


17 comentários:

  1. Charlles,
    esse seu texto é de arrepiar.
    Muito, muito, muito bem escrito..., cara!
    Creio que está a aparecer o seu escritor...
    Cuida dele!

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  2. CLAP CLAP CLAP!

    Tuas histórias biográficas são sempre excelentes. Ao contrário da maioria das pessoas (me incluo nessa), tua vida daria um livro dos mais interessantes.

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  3. Nossa que comovente...
    A Caminhante e eu estávamos a ler o Charlles quase, quase, juntinhos... Foi tal qual olhássemos pela mesma janela, sem que soubéssemos, o mesmo instante do Universo...
    (Parece cinema).

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  4. Verdade ou ficção. Pouco importa. Texto impossível de largar. Muito bom!

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  5. [Sempre a dizer o q a caminhante disse]

    Cara, meu Deus do céu, que texto, que história.

    Dos melhores. Talvez o melhor.

    Arbo

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  6. Quando li "Foi lá que conheci meu companheiro de equipe, o Sérgio" pensei que se trataria duma história de amor. Que decepção! Putaqueopariu!

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  7. uauahauha Marcos, a Raquel sabe q tu tá atrás dessa literatura?

    [de passagem, o título também é ótimo]

    Arbo

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  8. Obrigado a todos!

    Ramiro: estou cuidando.

    Caminhante: suspeito que o que torna esses relatos interessantes é a músiquinha cheia de uma absoluta trivialidade, só que assobiada nos tons errados.

    Farinatti: nós dois sabemos que nesses casos o que menos importa é a veracidade, mas dou graças que o pino instalado para colar meu osso do tornozelo não tenha dado rejeição.

    Marcos Nunes (tu levastes uma sumida das grandes!): se você visse o Sérgio de cuequinha rosa, entenderia que toda história de amor guarda uma decepção, mesmo essa com mato e paisagens paradisíacas.

    Arbo: ???? A Rachel precisa saber do quê? Tu estás impossivel desde que começou a usar as maiúsculas : )

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  9. Bah, que texto Charlles. Muito bom! Quero ser você quando crescer!

    A qualidade deste blog me obriga a verificar se tem post e comentários novos toda hora...e fico puto quando não tem (tempo perdido) e quando tem (parar tudo pra ler).

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  10. Obrigado, Mateus.

    Estou procurando reservar uma hora às manhãs quando chego do trabalho para escrever para o blog, e parece que já me disciplino para tornar isso possível. Como diz Bellow (já repeti essa frase inúmeras vezes): ou a coisa vem fácil, ou não vem.

    Abraço.

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  11. Charlles, um poema de amor
    (acabei de reescrevê-lo; o livro já está com 196 poemas: estou assustado; falta reescrever ainda uns 70...).


    SONHO DE UM CADÁVER
    by Ramiro Conceição

    Quando teu olhar vestiu-me, soube
    que não poderia mais... despir-me;
    foi tal qual um mar a batizar-me,
    dando-me um verdadeiro nome.
    Agora padeço de uma sina:
    te perder na curva duma esquina
    e tornar-me o sonho de um cadáver
    que dorme... quando a alma some.

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  12. Charlles, eis outro
    (acabei de reescrevê-lo...).



    ALIMENTOS
    by Ramiro Conceição


    Na bacia hidrográfica da Arte,
    oS rIoS sÂo AvEsSoS à ReAlidAdE:
    os grandes alimentam os Pequenos
    que se tornam grandes... Alimentos.

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  13. Charlles... e amigos comentaristas...
    leiam os dois poemas anteriores sob esse Sol

    http://www.youtube.com/watch?v=NENUeJDHChU&feature=related

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  14. Mais um belo texto do "Querido Diário", Charlles. Mesmo que o "deus ex-machina" invocado para resolver a questão seja, na verdade, o Deus mesmo, por mais imaginado que seja e certamente não tenha resolvido nada. Ou então devemos acreditar em Deus mesmo quando ele é invocado pelo jogador de futebol que agradece pelo gol que fez, mesmo quando o time dele termina a partida derrotado. Não é?

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  15. Rachel, para os crentes eu falo que sou agnóstico, ainda que pose mais como ateu, e para os ateus eu falo que sou cristão. Já escrevi aqui e no blog do Milton Ribeiro o que penso sobre esses classismos, que pouco ou nada me interessam. Se tivesse que me firmar em uma posição, firmo-me como quem acredita, porque na verdade acredito, mesmo que sejam sinais vindos de alguma das mil regiões ainda não codificadas pela nossa ciência (pfff!). Mesmo que seja algumas das outras dimensões ou outros sentidos de nossas mentes poderosas. Não sei se existe deus, assim como ninguém nunca saberá, então é inútil e contraprodutivo dizer que "não acredita" ou "acredita". Em quê? É tamanha prepotência dizer uma coisa ou outra.

    Já que bem disse sobre "Querido Diário", essas são impressões puramente subjetivas, pois cada um tem apenas a si para analisar o que lhe é verdadeiro. Por exemplo: por mais que me impressina Shopenhauer, por mais que eu tenha leitura nesse e em outros autores da lucidez devida, há uma série de milagres em minha vida. Quando apostáva fanaticamente que teria um outro filho homem (me horrorizava em pensar ter uma menina), no auge dos traumas da gravidez problemática, sonhei com a Júlia assim como ela é hoje, com o seu rosto. Acordei e disse para minha esposa: tiremos os cavalinhos da chuva, vai ser menina e será a cara da minha mãe.

    Piegas né! Será sempre para todos os outros. Para mim, um milagre! Sempre um milagre!

    (Mas minha intenção nesse texto, contudo, foi absolutamente niilista!)

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  16. Passei uma semana fazendo orações do gênero "Filhos da puta que estão em todos os lugares / bestificados sejam vossos filhos / encham o cu dos padres de grana / sejam miseráveis e desempregados / aqui no Brasil ou em qualquer bosta de país", etc.

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