terça-feira, 27 de novembro de 2012

Franz Kafka, Hannah Arendt e o Menino Medieval


Eu conheci Franz Kafka quando tinha 13 anos. Geralmente a porta de entrada para esse magnífico autor costuma ser sua novelinha mágica chamada A Metamorfose, que um colega de escola me definira ser sua descoberta de uma história maluca de um homem que acorda transformado em inseto, mas o meu ingresso foi através daquele protótipo de pesadelo opressivamente burocrático intitulado O Processo. Eu passava as férias de julho com meu pai em uma cidadezinha de Minas Gerais e nós dois, ele já um leitor inveterado e eu ansioso para honrar meus óculos de míope, encontramos uma bucólica biblioteca circular feita de tijolos e centrada entre um amplexo de árvores. Nela encontramos um monte de livros que nos fez descartar a pretensão de viagens mais longas pela paisagem mineira, e nos manteve enfunados na casa de dois andares situada em cima de um morro e com vista para os trilhos do trem onde nos hospedara o irmão de meu pai. À noite saíamos para as festas e os bares e as tantas casas de amigos de meu tio, e enquanto meu pai tocava violão, eu tentava sair de minha gritante timidez conversando com as garotas. Voltávamos radiantes para o sobrado, meu pai com a tez avermelhada pelo vermute e a felicidade ostensiva daqueles anos, e eu possuído pela febre da descoberta das possibilidades do universo feminino. Parte considerável desse êxtase atmosférico que sentíamos se devia aos livros que nos esperava, eu lendo O Processo e os contos de O Muro, e meu pai lendo O Exorcista e Manuel Scorza. Eu sabia intimamente que estava passando por um aprendizado e uma educação muito superior ao que tinha na escola. Não entendia Kafka como iria entender futuramente, nas minhas tantas releituras, mas prestava uma atenção descomunal e ao mesmo tempo relaxada, consciente de que estava tocando algo de uma verdade e lucidez extremas, algo que era real e intenso e que nada tinha a ver com as tantas dissimulações inúteis e pomposas da escola, algo que me transformava em um ser humano por abrir todas as sensibilidades e sofrimentos inerentes à condição humana. Não um técnico, como me queria a idiotização da escola.

Fiquei tão fascinado com O Processo que não consegui desvincular-me daquela frequência de como ver o mundo através de interstícios simbólicos. O mundo apresentado por Kafka era doloroso, soturno, irracional, claustrofóbico, mas, estranhamente, me deixava feliz, sem eu conseguir descobrir por quê. Passei a olhar cômodos pequenos e apertados com uma apreciação recolhida, com uma certa nostalgia espiritual. Não saberia explicar, mas Kafka me fazia lembrar, em última e infalível instância, a filologia de antigos clãs dinásticos, como se por detrás da solidão insuportável de Joseph K. houvesse a intuição de uma Avalon completamente destituída e apagada dos registros mas que, por uma distração do acaso, deixara vestígios quase invisíveis. Assim eu compreendia Kafka. Ler O Processo era uma proteção, era uma forma eficaz de entender aquilo que transcendia o positivismo das categorias sociais que cada vez mais me pareciam inadiáveis. Mais tarde, bem mais tarde, eu veria explicado, surpreendentemente, essa sensação de despropósito lisérgico em apreciar ambientes degradados em um livro de Slavoj Zizék, em que esse escritor analisa as cenas de silêncio e natureza atulhada dos filmes de Tarkóvski. Zizék explica o que eu sempre senti com enorme intensidade mas jamais imaginava que tal nível de apreensão sensorial pudesse ser verbalizada: descrevendo uma cena de Tarkóvski, em que carros fragmentados e peças de metal retorcidas aparecem em uma paisagem natural selvagem (a paisagem em ruína), às margens de um rio e na ausência ecoante de presença humana, o filósofo esloveno diz que tal sensação advêm pela pulsão capitalista em descanso. Alargando mais esse conceito específico, Kafka me mostrou a beleza da ruína por me revelar a pulsão do mundo que importa em descanso, a pulsão em descanso da história e das compulsões da vida prática, a pulsão em descanso do absurdo e da barbárie transvestidos de sociedade democrática progressista, da ciência e da tecnologia festivamente evolucionistas na melhora da espécie. O descanso da inexorável hipocrisia de ter a estimativa de vida de 70 anos e gastá-la na labuta sem razão do acordar diário para degladiar-se furiosamente pela obtenção de angústia e tristeza capitalizável. Eu, aos 13 anos, não entendia Kafka assim, mas esse meu desentendimento era muito educativo, pois as grandes obras não tem um manual de trilha perfeita a ser seguida.

Quando perguntado por seu amigo Max Brod se existiria esperança "fora desse mundo de aparência que conhecemos", Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita_ mas não para nós." Talvez por isso me vinha_ e me vem_ a intuição de que por detrás dos pesadelos de Kafka exista uma Avalon adormecida, onde, antes, muito antes, as coisas fizessem realmente sentido, as coisas realmente existissem. Como na frase ouvida pelo deão no metrô, de um homem que havia sido ateu a vida inteira, no romance de Saul Bellow (Dean`s December): "Nada é suficientemente absurdo para existir; talvez, então, deus exista!" E foi isso que Kafka sempre me disse, desde quando eu era jovem o suficiente para não entendê-lo (ou jovem o suficiente para entendê-lo, no paradoxo vaidoso de Wilde), que Joseph K., que Gregor Samsa, que K., eram seres vestigiais, órfãos de um universo supraciente de sentido pleno, de mérito absoluto, apartados nessa prisão demasiadamente empobrecida em que nada se comunica, em que as vozes são aparelhos de distúrbio e perturbação e não de aproximação; seres dotados de uma infinita liberdade, mas que na pressuração desse mundo não suportam o peso dessa liberdade e estão sempre atrás do aguilhão que lhes escravize para dar-lhes um sentido sossegado direto de pertencimento. K., personagem de O Castelo, é desbragadamente livre, absolutamente ilimitado, mas não suporta a ausência de direção aflitiva que se espalha sobre ele da indiferença dos senhores do castelo, que se negam a inseri-lo na lógica da aldeia ao serem reticentes quanto se vão contratá-lo ou não como agrimensor. E Joseph K., nascido na plenitude de sua independência, não tolera sua leveza em não conhecer as cláusula do vazio que lhe imputam na forma de um processo passivo e inofensivo, mas que só cresce e se demonstra em resposta à sua reação a ele.

Estou relendo O Castelo, na tradução de Modesto Carone. Ao mesmo tempo leio Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Uma das minhas felicidades é Hannah Arendt, mas ainda não tinha lido por inteiro esse misto de reportagem e análise estupenda sobre a natureza do mal. São dois livros que pretendo que meus filhos leiam antes de chegarem a seus 15 anos. Só esses dois livros garantiriam uma larga margem de possibilidade de que eles se tornem pessoas distintas intelectualmente e humanistas inveterados, com empenho em não caírem em clichês das ideias nefastas e deterioradas do politicamente correto. Grande parte do livro de Arendt versa sobre os clichês aprisionadores da sociedade, que poupam as pessoas do pensamento real e as tornam indivíduos animalizados moldados para qualquer condução que lhes queira dar os poderes instituídos: até mesmo para o assassinato. Eichmann, o nazista raptado por agentes secretos israelitas em seu refugio na Argentina, no começo da década de 1960, e julgado em um tribunal em Israel por crimes de guerra, é o protótipo desse indivíduo correto, bom pai e vizinho perfeito,  pedante seguidor de regras e comandos de ordem. E Arendt, que assistiu e participou ativamente de todas as fases desse julgamento, é o cérebro que transcende as tantas formas que o clichê intelectual desse enredo apresentam para cimentar o pensamento de uma escritora, mulher, judia, e distanciada apenas 15 anos desses eventos cheios de passionalidade. Arendt, diga-se em primeiro lugar, foi um dos maiores escritores do século passado. Quanta sofisticação em sua escrita, quanta lucidez e força, quanta beleza e limpidez. Ela começa atacando os esquemas pérfidos de Israel em transformar o julgamento em uma causa pessoal, em esteriótipos de condução do ódio popular contra os alemães e a pena a favor dos judeus europeus. Foi uma das primeiras, senão a única, intelectual a fazer isso, naquela primeira década após o fim da segunda guerra: a se indispor com os atos de ofício laudatórios que o povo do qual formalmente pertencia poderia lhe oferecer, caso ela se predispusesse a ser um dos mitificadores da miseração judaica. Assim como faz em Origens do Totalitarismo, em que apresenta um quadro pouco festivo sobre o quanto os judeus ricos eram impiedosos e indiferentes ao destino dos judeus pobres, em Eichmann ela reporta o quanto a matança dos judeus poloneses pelos nazistas pouco foi considerada pelo establishment moral de Israel, e o quanto Israel se esforçou para enfocar o genocídio apenas nos judeus europeus, deportando o restante do mundo e reduzindo os crimes de crime contra a humanidade para crime contra o povo judeu.

Mas o melhor e mais impressionante desse indispensável livro de Arendt, é a sua desmistificação do monstro assassino e impiedoso que intentarem fazer de Eichmann, apresentando-o como um homem medíocre, simples, mesmo de bom coração, que, paradoxalmente, foi um dos poucos nazistas que fizeram algo efetivamente válido para salvar milhares de judeus antes dos massacres. Seu diagnóstico é tão fantástico que o livro ultrapassa as fronteiras mesmo da filosofia desconstrutivista para ser um dos retratos mais profundos da natureza humana formalizada pela sociedade. A ironia finíssima de Arendt é um deslumbramento: a Eichmann bastou ler dois livros, seus dois únicos livros lidos na vida inteira, para torná-lo um progressivo homem poderoso do führer; dois livros que versavam sobre o movimento sionista de deportação dos judeus e criação de um estado independente para eles; em determinada parte do volume, Arendt descreve a incrível vaidade de Eichmann pelo poder no sentimento de superioridade que ele tinha frente a seus subalternos, afinal, "em parte porque eram ignorantes, nunca haviam lido um ou dois 'livros básicos'". Outro momento revelador é quando um dos policiais da carceragem oferece a Eichmann, para livrá-lo do tédio, o Lolita para ler, ao que o alemão o devolve depois de um dia alegando ser um livro imoral e contra seus princípios. Para um Brasil de hoje, uma pensadora como Arendt seria impossível no que vemos nessa frase definitiva que comportaria grande parte da intelectualidade e a mídia nacional: "esse horrível dom de se consolar com clichês não o abandonou (Eichmann) nem na hora da morte".

Pediram-me por e-mail para que eu escrevesse um texto de auto-ajuda sobre meus tempos de gagueira extrema. Percebi que ainda não sou capaz de fazer isso da maneira séria como gostaria, por isso, por enquanto, escrevi apenas uma frase: o mundo pré-galilêico da criança gaga, em que ela está para cair de suas bordas planas em direção ao abismo a cada grande vergonha de sua incapacidade vocálica por que passa. 


25 comentários:

  1. Muita coisa boa que comentar. Como de costume, estou aqui bastante impressionado com a sua capacidade de escrever ensaios. Prefiro quando você escreve assim, mais livre, às suas resenhas, nas quais você se vê mais preso ao dever de explicar uma obra.
    O que dizer da sua sobreposição entre os dois livros que gostaria que seus filhos lessem antes dos 15, O Castelo de Kafka e o Eichman em Jerusalém da Arendt de um lado, e os dois únicos livros lidos por Eichman (que também o fizeram no homem que foi), do outro?
    Havia apanhado a edição da Penguin do Eichman uns três meses atrás, pois se trata mesmo de um marco do pensamento moderno, mas acabei sem conseguir terminá-lo. A fastidiosa engrenagem universitária acabou por me puxar de volta e para longe de Arendt. A introdução da Penguin para o Eichman passa em revista o longo percurso da obra pela sarjeta da crítica Judaica, de como o ensaio foi vilipendiado como anti-semita, anti-judaico, de como foi escurraçado das listas de leitura israelenses, até bem pouco tempo. Aparentemente o descobrimento do valor de Eichman em Jerusalém pela crítica judaica é muito recente. Isso porque, como você bem enfatiza, Arendt também deslinda sobre o papel da ideologia no circo midiático que se fez no julgamento do maior e menor burocrata da história.
    Estou enxergando coisas de mais quando vejo no seu texto a relação entre o burocrata Eichman e o mundo mecanizado de Joseph K.?

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    1. Também prefiro escrever nessa forma livre, uma vez que ter de explicar enredos é um tanto enfadante.
      Essas relações apontadas por você são sim intencionais. Muitas vezes percebo em minhas leituras uma bússola direcionadora espontânea que revela uma correspondência subliminar entre as obras lidas em um momento. O Castelo me veio como contraponto a Murakami, e logo me vi com esse Arendt em mãos sem ter planejado. Se vivêssemos em um mundo com algum direcionamento didático verdadeiramente comprometido com a melhora, esse livro da Arendt seria leitura obrigatória nos colégios. Se quer ver a força da palavra impressa e o poder transformador da literatura, esqueça os poetas concretistas e todas as vanguardas do passado e do presente, e ponha algo dessa sublimidade nas mãos dos jovens. Há partes ali de uma beleza estarrecedora, de uma carga de verdade impactante. Seria algo impossível a alguém depois de passar por essas páginas voltar a se contentar com a pobreza midiática de clichês televisivos ou da literatura menor promovida descompromissadamente pelo estado. Quando Eichmann percebe o que foi determinado após o Reich ver que o plano de deportação era insustentável, suas visitas cheias de palavras eufemizadoras para a "solução final", em que ele vê cenas horríveis de filas de judeus nus indo para as câmeras de gás, corpos de judeus ainda flácidos (parecendo estar vivos) sendo despejados dos caminhões de gás em valas, e uma mina de sangue jorrando do chão_ é impossível se deparar com uma força verbal dessas e não ficar desconfortável com sua própria lobotomização em série, não ficar auto-consciente.

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  2. Li duas vezes o texto… Por enquanto, fico com aquelas noites quando vocês voltavam radiantes para o sobrado e seu pai - vermelho de vermute - era a ostensiva felicidade daqueles anos.
    Saúde!

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    1. Naquela época era como estar no ar elétrico de algumas telas de Kandinski, Ramiro.
      Saúde!

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  3. Considero O Processo um livro um tanto fora de medida, talvez por tratar de desmedidas e nos inserir, a partir de uma linguagem quase relatorial, a um mundo de pesadelo onde sobram coisas, excessos oníricos, um peso sombrio em seu humor de sarcasmo subtextual, não sei... em alguns momentos considerei a experiência da leitura maçante. Sobrou dele, como no não finalizado O Castelo, as marcas do que se generalizou como kafkiano, como o absurdo das relações humanas imersas em convenções e burocracias tão indevassáveis quanto as escrituras religiosas, coisas que carregamos nas costas e que seriam mais que nossa história: nossa tragédia no sentido grego, de cumnprimento de um destino a que não poderíamos escapar, por força de estruturas constituídas além do tempo, que parece zombar de nossas vãs tentativas de agir sobre circunstâncias produzidas por forças que desconhecemos e que não são reflexo de nós, cumpridores de leis cujas etiologias desconhecemos.

    Achei engraçada a citação da Arendt, ""esse horrível dom de se consolar com clichês não o abandonou (Eichmann) nem na hora da morte" porque a mesma também se aplica aos clichês liberais que a própria não cansou de repetir na defesa da falsa democracia norte-americana, em particular, e ocidental e "liberal", no geral. Os clichês são sempre dos outros, né?; nossas palavras são a expressão da verdade... Quá quá quá. É como disse o Kafka: "Há muita esperança, mas não para nós".

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    1. Julgo que Kafka é uma daquelas literaturas que necessariamente se engrandecem mais com os estudos alheios feitos sobre ela. Os ensaios escritos por Walter Benjamin e Elias Canetti são, a meu ver, indispensáveis para afastar essa impressão de clima maçante a qual você se refere. Em O Castelo, por exemplo, mesmo o aparentemente gratuito e trivial tem seu propósito expressivo: K. e a garçonete Frieda se apaixonam instantaneamente, indo morar junto e suportando toda espécie de desaforos e privações. Num primeiro momento, o leitor supõe que essa ruptura na narrativa é um dos traços da incompletude da obra, mas... para alguém tão à procura de aguilhões como K., não viria muito a calhar um amor à primeira vista? Daí que uma simples procura na memória e me vem quantos amigos e conhecidos que investiram suas vidas em um amor já fadado desde o começo, pelo seu desconcertante imediatismo.

      Sobre suas informações sobre a Arendt no último parágrafo eu desconheço. Talvez você esteja se referindo ao livro "Sobre a Revolução", em que Arendt diz que a revolução realmente substancial e filhadaputice foi a americana, e não a francesa. E onde ela está errada nisso?

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    2. Pois a partir de meus estudos eu sempre levei mais em conta a Revolução Americana do que a Francesa, pois ela proporcionou a continuação do Enlightenment, dos ideais de liberdade e etc. E clichês por clichês, os anti-liberais tem muito mais e os usam o tempo inteiro ("falsa democracia americana-ocidental-liberal").

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  4. Talvez O Castelo fosse uma depuração d'O Processo, mas ele não chegou a completá-lo. O encanto d"O Processo se quebra cedo, curiosamente a partir dos envolvimentos de K com o sexo oposto; aliás, Kafka tem um histórico de narrativas com o sexo oposto parece rescender a São Tomás de Aquino...

    Arendt escreveu artiguinhos para jornais e deu declarações em defesa do liberalismo ocidental recheadas de clichês miseráveis. Deve ter alguma compilação em livro, não sei qual é. Sobre as revoluções francesa e norte-americana há coisas demais a dizer e minhas poucas referências não me deixam muito seguro para tratar disso não.

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  5. By the way, isso aqui é assim no mínimo estupendo,

    o mundo pré-galilêico da criança gaga, em que ela está para cair de suas bordas planas em direção ao abismo a cada grande vergonha de sua incapacidade vocálica por que passa.

    Sofro de timidez crônica. Não posso dizer que já sofri de gagueira, assim, como condição crônica. Mas já passei por uns maus bocados por conta de uns "spells" temporários de gagueira. Não sei se se confirma com você, mas para mim o "spell" de gagueira é como um nublar não só da expressão oral, mas é como se o fog londrino baixasse por toda a consciência e a capacidade de formar pensamentos inteligíveis. Um horror.

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    1. Tenho muitas lembranças de vergonhas dolorosas da minha gagueira. Eu nasci para ser um falastrão, mas a gagueira me impedia impiedosamente, o que era a maior das torturas. Se eu tivesse a propensão natural para ser sorumbático...Mas a gagueira também trouxe muitos benefícios: a recompensa da leitura (já que, ao que parecia, não me sobrava mais nada), a disposição para não me lançar no imediatismo do discurso, o desenvolvimento de um humor auto-depreciativo, etc.

      Toda gagueira tem uma raiz psíquica. A minha vem da separação de meus pais. E é uma coisa seriíssima para uma criança e um adolescente. Hoje eu vejo como uma grande bobagem os terrores pelos quais passei, mas na época não.

      Eu deixei o curso de jornalismo por causa da gagueira e da extrema timidez, por não me inteirar com a turma. E, após formado em veterinária, passei por momentos antológicos, como o de trabalhar num escritório em que havia um superior também gago, e quando me apresentaram a ele eu tive que me policiar rigorosamente para não passar a impressão de que eu curtia com a sua cara. Outra feita, eu trabalhava em um prédio no qual só havia um telefone fixo (telefone é o terror dos gagos), e eu havia dado AQUELE número para uma garota que havia encontrado em uma festa (era uma época sem celulares). Ela me liga numa tarde de expediente e eu me vejo cercado de trinta pessoas nesta sala, absolutamente caladas e desocupadas, observando atentamente minha conversa pelo aparelho. Ou seja: a pragmatização milimétrica do pesadelo clássico que o gago tem com telefones: as pessoas começaram a se entreolhar e rir nem um pouco discretamente das minhas claudicações vocálicas, e a garota, do outro lado, segurando o riso para não rir também da mesma coisa (eu que tentava disfarçar o máximo a gagueira, de forma que da outra vez em que encontrei com ela, ela disse que riu por não ter adivinhado minha deficiência).

      Mas minha tática sempre foi a da auto-violação. Mesmo no auge da gagueira, eu me desafiava e me estuprava. Cheguei a ter_pasmo!_, um programa de rádio semanal, em que, às quartas feiras, respondia sobre problemas veterinários por meia hora.

      Melhorei muito da gagueira após perceber que, praticamente, todo mundo sofre de problemas na fala. Inúmeros problemas, seja redundância, reticêncismos, diversos casos de gagueira, etc. Saí de meu mundo plano e percebi que eu não era o centro do universo e deixei de melindres (a gagueira está diretamente associada à vaidade da pessoas em se achar importante e visível demais). Nada melhor que a independência e a maturidade.

      Mas minha gagueira volta com toda potência quando tenho discussões com a minha mãe.

      (Outra coisa curiosa que me curou_apesar de, uma vez gago, sempre gago_, foi a banda Jethro Tull. Como sou aficionado a essa banda a ponto de ter tido uma banda cover, eu imitava a voz gnômica e cheia de gracinhas do Ian Anderson, e acabou que esse motejo ficou como uso em situações tensas em que eu me via açodado pelo "fog londrino".)

      Esse blog não está se tornando excessivamente confessional não??

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Tinha escrito aqui apenas "nãooo!", mas achei que ficou parecendo irônico. O que eu quis dizer é: não está, está ótimo assim, alternando textos e comentários pessoais. Os leitores agradecem.

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    4. "o mundo pré-galilêico da criança gaga, em que ela está para cair de suas bordas planas em direção ao abismo a cada grande vergonha de sua incapacidade vocálica por que passa. "

      estupendo [2]

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    5. Tá caindo no colo, Charlles. Escreva um Ensaio Sobre a ga-gue-gueira hehe

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  6. Não é cobrança não. Mas estou curioso para saber o que você achou de Secret Rendezvous. Fiquei e ainda fico receoso de ter te apresentado Kobo Abe a partir dessa obra. O enredo como te escrevi é soberbo e na minha opinião não perde nada para o Castelo ou Processo, quer dizer a idéia de que uma ambulância rapta a sua esposa no meio da noite (sem que ela esteja padecendo de mal algum) para depois desaparecer com ela no universo paralelo dos subterrâneos e anexos de um hospital. Enredo soberbo, mas Abe força muito a mão no Surrealismo.
    De repente foi isso que te fez desanimar.
    De todo jeito, se eu tenho ainda algum crédito, eu te pediria que leia A Mulher nas Dunas antes de formar qualquer opinião mais definitiva sobre Abe.

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    1. Li até mais da metade. Não que eu não tenha gostado da obra_ achei-a, sim, mais consistente que Murakami, menos preocupada em agradar_, mas tenho esse costume de reter a leitura em prol de outra, e depois retornar a ela. Vou acabar de ler o romance.

      Também gostaria muito de saber sua opinião sobre o 1Q84, se já o leu.

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  7. Não li ainda 1Q84. Comprei ele sem querer no meu Kindle, mas ainda não me animei a voltar ao japonês. Pelo menos não por agora. Quem sabe durante aquele illud tempus que vai do Natal até o Ano Novo. Mas mesmo o illud tempus que se esparrama no fim-de-ano, mesmo ele, tem um início e um fim. E afinal, a República tem dez longos livros. E já havia me comprometido a reler a República na edição bilingue da Loeb Classical Library (conhece alguma publicação da Loeb? A Loeb edita coisas de devorar com os olhos), manquejando meu grego e voltando os olhos para a página paralela em inglês.
    Aliás, uma das coisas que me atraiu no Murakami foi o seu ocidentalismo. Não a capitulação ao ocidente dos games japoneses ou do karaokê (ainda que o karaokê seja uma coisa mais koreana do que nipônica). Falo do ocidentalismo que veio do fatídico anúncio radiofônico do homem-deus Imperador de que o Japão havia se rendido aos Aliados. Isso aparece em Murakami no seu gosto pela música clássica, as referências ao jazz, e, porque não, no seu amor por Platão. São sei lá quantas referências ao Phaedrus em suas obras.
    Achei estranha a sua leitura do Norwegian Wood.

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    1. Parei na página 100 do Norwegian Wood. Não me lembro do que falei dele que estranhastes. Lembro do humor discreto, e algo de cinema europeu nas relações do narrador com a moça, distanciado, arredio, abstrato. Um "Adeus às armas" sem a guerra e sem questões existencialistas definidas. Acho que amanhã deva ser entregue para mim o "Kafka à beira mar", o qual ouvi melhores críticas_ é que estou meio sem paciência para o que vem na sobrecapa da minha edição de NW ("um romance sobre o amor nos anos 60, escrito pelo mestre Murakami").

      A República tem 10 longos livros! Pô, na filosofia clássica tem essa onda de remastered com bônus track e faixas nunca antes lançadas? Há 3 anos foi lançado no Brasil, depois de um século de atraso, a versão na íntegra de "Mundo como vontade e representação".

      Em 1Q84 não me lembro de referências à filosofia. Tem um capítulo interessante que compila as descrições de Tchécov de um povo em Sacalina, mas as demais estruturas são todas musicais, inclusive a divisão dos capítulos segundo o molde de O Cravo bem temperado.

      Esqueci de comentar em meu post sobre 1Q84, mas as descrições sexuais e a insistência de Murakami em falar sobre sexo, em ser libidinoso, é algo pedante e apiedante. Tem tantas ejaculações e frenesis sexuais gratuitos ali que tende-se a achar que Murakami combatia ali em defesa própria, em se mostrar dessa forma ocidentalizada nos mínimos detalhes da moda.

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  8. Não, não. Normalmente a República é editada em um ou dois volumes. Mas a obra é tradicionalmente dividida em dez livros. E para aqueles que claudicam no grego como eu, demora-se um pouquinho para percorrer o livro todo.
    Norwegian Wood é até onde sei então o outro livro além de 1Q84 onde Platão não dá as caras. Achei estranho que você não tenha atinado (ou se envolvido) com a tristeza do NW. Pô, até o Marcos sentiu a tristeza do romance (na sua versão cinematográfica)...
    Kobo Abe e Mishima são os japoneses mais sensuais da literatura de lá. Abe é steaming hot. Murakami não entende dessas coisas não.

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    1. Eu gostei de NW, mas, como disse, não estou sintonizado neste lance de tristeza de amores desencontrados e contrabaixos ao fundo. Me veio agora que talvez minhas reservas contra a narrativa japonesa vem de um antigo seriado japonês que eu assistia na infância, um tal de "Marco". Sou seis anos mais velho que você, ou seja, somos da mesma geração, e talvez você se lembre desse desenho: um menininho numa eterna procura pela mãe que não conhece. Era uma tristeza só e tinha muitos quilates para uma criança como eu suportar. Depois, na onda do Mishima, eu assisti a um filme sobre o autor em que se transcreve alguns contos dele, e tudo era muito simbólico e transcendente, o que me fez nunca me interessar pelo autor (e aquele suicídio, em nome do Estado, para alguém que sempre desprezou veementemente toda forma de patriotismo, como eu, era demais...).

      Acho a tristeza oriental séria demais, e as tentativas de Murakami em driblar essa circunstância genética às vezes não dão certo.

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  9. Mas o que toca em Norwegian Wood não é exatamente a leveza do peso da tristeza que perpassa a relação do jovem Toru com os suicidas Naoko e Kizuki? A descoberta da flor do amor em meio ao desabrochar da vida de Naoko (algo como o "the rose that came to bloom would die"), o transitório do primeiro amor em meio a Norwegian Wood tocado a violão? Não que você precise voltar a NW. Mas acho que precisaria voltar ao romance e lê-lo até o final afim de apreender essa leveza de que falo.
    Pra mim Mishima é tão grande quando Dostoievski. Acho um dever lê-lo para além de suas convicções políticas.

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    1. Tá certo! Vou acabar o Abe e o NW, com absoluta certeza. E essa foto aí de sua conta revela a importância que o Mishima tem para você. Eu PRECISO mesmo consertar essa deficiência que eu tenho quanto ao Mishima. Logo eu falando sobre discriminação por convicções políticas. Foi uma escorregada.

      Quando você ler o 1Q84, me avise. Gostei muito do livro, realmente, mas há certas arestas nele que gostaria de discutir com alguém que o conheça.

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  10. Depois dá uma olhada nesse blog aqui de literatura japonesa. Muito boas as resenhas da menina que escreve ele.
    http://japaneseliterature.wordpress.com/
    A lista de livros lidos dela me ajudou na recente iniciação nipônica.
    Tape só o nariz quando ela falar de Mangás e de Banana Yoshimoto. Aliás os únicos defeitos do blog. Posts raros e a dupla Mangá-Banana Yoshimoto.
    Senti que não houve química com o Secret Rendezvous. Não se sinta obrigado a voltar a ele não, Charlles. Mas quando puder vá ao Mulher na Dunas. Foi traduzido ao português, você me disse.
    Lerei o 1Q84.

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    1. Não é isso não, Luiz. Vou terminar de lê-lo.
      O blog parece ser muito bom mesmo. Procurei algum comentário seu, mas não achei. Tem Abe em português? Não me lembro disso!

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