domingo, 4 de novembro de 2012

Uma Visita Magistral, um Filme da Trilogia, e Uma Outra Coisinha de Menos

Júlia e Aline
Ontem, enquanto o céu abençoadamente desaguava, fechamos as cortinas da sala e improvisamos duas sessões de cinema aqui em casa. Minha irmã, minha esposa e eu. Recomendei que pegassem o dvd do filme "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de preferência a versão sueca, que é superior à americana. Minha irmã adora suspenses bem feitos e iria gostar. As duas voltam da locadora com a versão americana do referido filme, e um mimo da espontaneidade da Aline_ minha irmã_ intitulado "E Aí, Comeu?", um filme brasileiro que de cara tinha de tudo para ser intragável: o título descolado, Bruno Mazzeo, as organizações Globo e Marcelo Rubens Paiva, o tipo de combinação com a qual eu jamais gastaria cinco minutos de meu tempo, quanto mais o período de um longa metragem. Mas a vinda da Aline aqui em casa, depois de meses, valeria o sacrifício. Minha esposa, como de praxe, dorme nos 15 minutos iniciais de Os Homens..., mas ficamos minha irmã e eu fascinados com o ritmo da história, a soberba personagem Lisbeth Salander, a fotografia, e uma gama de aspectos de primeira do cinema de entretenimento com inteligência. Já havia assistido ao filme, nas duas versões, e comprei os três livros da trilogia (vou ter de arranjar uma brecha entre minhas leituras para encaixar esses livros, pois morro de vontade de assistir às duas sequências suecas, mas pretendo absorver a surpresa da leitura primeiro). Minha irmã ficou maravilhada; voltou o filme várias vezes para entendermos direito detalhes fundamentais, e ficamos uma hora discutindo-o apaixonadamente. 

Aline é uma fisioterapeuta excessivamente ocupada; trabalha doze horas por dia e tem uma agenda de clientes fiéis, daí ser ótimo poder tê-la aqui, descansada e despreocupada com o tempo, acordando tarde, comendo com apetite insaciável as tantas receitas que ela de antemão pede para a Dani fazer, e essa discussão sobre o filme me lembrou (assim como tenho certeza que a ela também) nossos longos e belos anos em que morávamos na casa de minha mãe; eu ia buscá-la na escola; a colocava para corrigir provas dos meus alunos; a acordava de seu sono da tarde para irmos às Lojas Americanas gastar metade de meu salário de professor com chocolates; escutávamos música em último volume e nos extasiávamos tentando cantar Incompatibilidade na mesma velocidade que Oswaldo Montenegro. Ela tem dez anos a menos que eu. Um coração gigantesco, e uma personalidade forte. Quando se formou, passou a trabalhar no Hospital das Clínicas, e, felicíssima da vida, me mostrou em seu celular as fotos das crianças suas pacientes. Olha como são lindos, falava, citando o nome de cada um, mostrando que os brinquedos que cada um portava foram comprados por ela (gasto todo meu salário com eles, disse, sorrindo), e atentei mais  às fotos e vi que todos tinham síndrome de Down. Meus olhos se encheram de lágrimas e só não a beijei fortemente para não cair num dramalhão; mas meu peito se estufou de orgulho. É penoso sair com ela, pois ela tem um metro e setenta e é deslumbrantemente linda, o que me incomoda os tantos olhares que atrai. Mas ela nunca percebe e quando está comigo conserva os mesmos trejeitos da menina de antigamente. Deita-se sempre de meu lado na cama, ergue a camisa e intima: Coça as minhas costas. Quando soube que a Dani estava grávida da Júlia, olhou em meus olhos, séria, e disse: mas isso não vai fazer com que eu deixe de ser a caçula da família. Não há um dia em que eu não troque o nome da Júlia pelo dela, pois ela realmente nunca deixou de ser a caçula da família. Quando a Dani estava com quatro meses de gravidez da Júlia, a Aline me levou a uma lojinha no térreo da academia onde trabalha, para comprarmos o primeiro vestido do futuro bebê. Foi quando contei que a gravidez da Dani era de altíssimo risco e os médicos estavam avaliando as chances da Júlia nascer. Compramos o vestido sob uma pesada sombra, foi um dia tristíssimo, mas nenhum de nós dois jamais voltou a tocar no assunto médico, e conseguimos continuar a planejar a Júlia como uma realidade. Eu nunca contei isso para a Aline, mas essa atitude dela, essa fé ensolarada de que a Júlia iria usar o lindo vestido, é o que mais me deu forças, pois nos meses seguintes de gravidez, o mutismo de todos da família era ensurdecedor, como se o veredicto já houvesse sido dado.

Daí que a Júlia e ela se amam ardorosamente. Esse final de semana passaram uma no colo da outra, misturadas. A Júlia arranjou de a chamar apenas de um incompreensível Tatá. Mas, voltando aos filmes... À noite, quando todos já estão acordados e a primeira fornada de pizza é assada no forno, colocamos o filme do Mazzeo/Paiva para rodar. Aguentamos dez minutos. Tudo ali é previsível e de péssimo gosto. A pretendida canastrice dos atores é de dar dó. Uma cópia descarada e baratissima dos cacoetes das comédias americanas. Paramos na cena em que um dos atores globais do elenco, numa conversa de bar com os amigos, instrui uma amante imaginária na felação perfeita. Tá! Mas é tão sem imaginação e pobre a cena, roteiro e tudo, que só fica uma impressão de insulto tanto para o público feminino quanto para o masculino. Há filmes de humor cujo mote é o esteriótipo declarado, como em um dos American Pie, em que um adolescente fornica com uma torta de maçã. Seria extraordinário e teria rendido nossa paciência e boas risadas se Mazzeo/Paiva tivesse copiado este bastião do cinema americano. Mas não: a merda do cineminha chinfrim nacional é querer ser subproduto do subproduto mas disfarçar os sinais com um toque cabeça, intelectualizado. Daí talvez eles terem escolhido o Marcos Palmeira para interpretar a cena da análise felacionista, aproveitando sua áurea dissidente de intelectual da Globo, pois afinal foi ele, ao que me parece, que abandonou diversas atrizes esculturais para tratar de um haras. A cena só se limita ao Marcos Palmeira dizendo em meio tom à mulher que escabeceia na faixa de sua cintura: devagar, devagar. Eu torci, sinceramente, para que a coisa evoluísse para o estilo esperma-gel no cabelo, do Quem Quer Ficar com Mary. Em vão.

Desligamos o filme, ninguém pensou mais nisso (a não ser eu), e deixamos as crianças assistirem pela enésima vez ao episódio preferido delas dos The Backyardigans: O Meteoro. Fiquei pensando o quanto Marcelo Rubens Paiva, que faziam bem uns 25 anos que nunca mais ouço falar dele, continua ruim. Fui forçado a ler dois de seus romances, o Feliz Ano Velho, e Blecaute. Divertidos, mas mais um dos escritores de revista Capricho e Contigo, que, no auge, passam um de rebeldes à frente de seu tempo. Escreveu sobre sobreviventes em uma São Paulo em que todos são tomados por uma paralisação completa; sobreviventes que aproveitam da liberdade surgida com isso para explodirem a torre das Organizações Globo. Livrinhos que se lê com incrível velocidade e pouca coisa se conserva na memória. Lembro que havia um elemento de violação moralmente controlada mas intuitivamente sugerida no fato do personagem de Blecaute não fazer sexo com as tantas garotas imobilizadas da cidade apocalíptica. O mesmo fetiche de mau gosto que identifiquei no estilo modernoso de eterno adolescente descerebrado dos personagens do filme. Um tipo de coisa tão inexpressiva que não chega sequer a fazer sombra em um fim de semana excelente.

5 comentários:

  1. Nossa, que linda a tua irmã!!! E que graça esse retrato que você traçou dela, parece ser mesmo uma pessoa boníssima.

    Eu fiquei com uma péssima impressão do Marcelo Rubens Paiva, por uma coisa que contei no blog uma vez e só não entreguei o nome. Gostei de um texto do blog dele, que falava de mulheres, e pedi autorização para colocar no meu. Ele, que moderava os comentários, nunca me disse nem que sim nem que não. Achei que não custava, sabe, já que ele respondia todo mundo. Nunca mais voltei naquele blog.

    Sobre os livros dele, não li. Minha mãe o usava para me convencer a jamais dar ponta numa piscina.

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    1. Minha irmã é sim uma figura. Algumas agências de modelo sérias da capital já a chamaram para trabalhar, mas ela nunca teve essas ilusões ou se interessou pelas modas passageiras. Sempre foi extremamente devota aos estudos_ apesar de não gostar de ler nada que esteja fora dos livros de estudo. O único defeito que eu digo que eu vejo nela é a sua absoluta falta de gosto musical, o que na verdade quer dizer que ela não gosta de música, mas de agito (foi muito adepta a preencher suas horas de folga com boates com os amigos e amigas; agora está na fase de hobby por viagens: nos últimos 3 anos conheceu de cabo a rabo o Brasil, foi para a Argentina_ e me trouxe um vinho chamado O Fim do Mundo_, e ano que vem vai aos Estados Unidos).

      Então é sobre o Paiva que você falou. Me lembro de você dizer isso de um escritor, de um blog de um escritor, o que me ficou a curiosidade. Eu achava que era o Charles Kiefer. Não compensa ler nada que ele escreveu. É um autor datado, e muito, pois só serviu a um tipo de adolescência restringida ao período do princípio da abertura político nacional, os anos 1980.

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    2. Lindona desse jeito ela tem mais é que gostar de ir pra boates, etc. Ficar em casa ouvindo boa música é coisa de adolescente complexado e infeliz (= eu).

      Foi um excesso de pudor essa história do MRP. Se fosse hoje, faria questão de colocar o nome dele no post pra dizer pra todo mundo o quanto ele foi besta.

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  2. Não precisa de uma brecha muito grande para ler o Stieg Larsson. Minha irmã, que numa semana lê Dickens e na outra Meg Cabot, e que devorou com igual apetite Henry James e Marian Keys, há uns anos apareceu com a trilogia Millennium, e eu nem me interessei. Mas depois do filme de Fincher (que gosto mais que os suecos, e tem uma abertura belíssima), comecei a ler o primeiro, ao mesmo tempo que lia outras coisas. Um dia precisei pegar um vôo, e para não ter que levá-lo, li a metade final em um só dia.

    E é isso mesmo - de cara se vê que foi escrito por um jornalista, bem sucinto, e se lê 200, 300 páginas de uma vez, sem precisar de parar de viver, e olha que eu sou um leitor lerdão. Gosto mais do primeiro. O segundo e o terceiro ficariam melhores com umas 200 páginas a menos.

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    1. Bom saber. Uma força a mais para ler de vez a trilogia.

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