domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rock ostentação


Há uma parte em Era dos extremos em que Hobsbawm escreve que os Beatles produziam uma música com estrutura musical reconhecível, eufônica, garantindo com isso uma certa imortalidade para os anos vindouros, mas quanto à música dos Rolling Stones, ele diz, ela é um pastiche perecível do blues feito por grupos de jovens negros da década de 50, uma imitação fraca e um quanto ridícula que decretava que os Stones estariam esquecidos dali a algumas décadas. Esse trecho nada afetou o fã incorrigível dos Stones que eu era quando o li, aos meus vinte e poucos anos de idade, mas anos mais tarde, quando li o livro sobre jazz do grande historiador alexandrino, vi que o gosto de Hobsbawm era um tanto dogmático para a música de improvisação, um tanto retrô e de costas para as revoluções que surgiram nessa divina música negra e que Hobsbawm podia muito bem intuir mesmo no meio da década de 50 em que escrevia o referido livro. Para o Hobsbawm da década de 50, o auge do jazz era o jazz de câmera de Duke Ellington, um jazz limpo, ainda apoiado na partitura. Na minha análise (um tanto rasa), isso explicava porque Hobsbawm aceitava como legítima a música dos Beatles, por sua limpidez e sua relojoaria em que tudo parecia estar no lugar, e rejeitava a música dos Stones, em seu cacofonismo e sua sujeira de fundo. Na mesma linha pre-conceituosa e imprecisa da minha análise, o gosto de gentleman do historiador era limitado pelo jazz ordeiro e conceitual que vinha dos grandes salões de baile (ele diz em sua auto-biografia que foi tomado pela força do jazz ao assistir Duke Ellington em Newport), o que impossibilitava que ele aceitasse que, de um certo ângulo de vista, os Stones podiam ser mais indelimitados pelo padrão da música comercial, com suas minúcias travessas de grandes instrumentistas, do que os Beatles, por mais que os Beatles foram quem direcionaram todas os caminhos da música pop nos anos 60.

Falar dos Beatles e dos Stones me faz usar luvas de pelica. Certa vez a Marília Gabriela perguntou ao Paulo Coelho de qual dos dois ele gostava mais, e ficou surpresa ao ouvir do mago que ele gostava mais dos Beatles. Eu jurava que você diria que era os Stones, porque eles foram mais audaciosos e ousados que os Beatles, ela diz, ao que o sábio mago (ao menos dessa vez), responde com absoluta confiança de entendido que os Beatles foram bem mais revolucionários que os Stones, foram os Beatles que criaram a música psicodélica, que abriu as portas para o progressivo, que inventou o hard rock em 1968 (Helter skelter), que isso e aquilo..., enquanto os Stones, ditado pelas premissas do mercado fonográfico, até um exaustivo tempo, só fazia copiar os Beatles, da forma mais descarada possível. Concordo plenamente. Os Stones era uma cópia dos Beatles, ainda que enormemente talentosa, e só alcançaram a grandeza insofismável quando decidiram plena e libertariamente serem eles mesmos, com o magnífico Exile on Main Street. Como um crítico disse, Exile é cheio de música suja e sublime, um álbum duplo muito mais belo que a chatice do álbum branco da turminha de Liverpool. Concordo. Exile foi um dos marcos espantosos de minha vida de ouvinte de música; é o melhor disco de rock de todos os tempos, e continuará inalcançável.

Muito provavelmente eu fale com essa levianidade sobre os Beatles porque me encontro num estágio de saturação de tanto ouvi-los. Há uns dois ou três anos não os ouço mais, aguardando que as baterias do amor sejam recarregadas. Há três anos não me seria fácil dizer que o álbum branco é uma chatice. Mas também, fazia três ou dois anos que eu não escutava mais os Stones. Para ser sincero, nesse período meu gosto pelos Stones se atrofiara consideravelmente. Cheguei mesmo a achar o Jagger e o Richards um porre. Principalmente o Jagger. Pelo tanto que ele fala mal da própria banda, aquilo acabou me convencendo. O cara não poderia sair por aí dizendo que é tudo comércio, que tudo foi feito simplesmente pelo dinheiro. Isso é horrível para um fã. Isso é horrível para uma música que veio do ideologismo dos sessenta. Paint in black ter sido feita simplesmente pela grana (um outro Paulo, o Francis, disse que essa canção era a maior crítica contra o Vietnã). Acabei acreditando. Tá bom, Mick, então faremos as coisas de seu jeito, mas o jeito foi passar a tratar os Stones como os macacos de palco que eles pareciam ser. Deixei de ouvir os Stones.

Até ontem, quando os pedreiros vieram nos dizer que poderemos retornar à nossa casa na segunda-feira, após meses em que estávamos deportados em outra casa aguardando a reforma. A turma daqui me deixou sozinho à noite, e eu, em comemoração, inventei de passar umas três horas ouvindo os Stones, não sei por quê. Coloquei o Sticky fingers, depois fui direto para uma compilação dos clássicos. Eu costumava limpar a casa, quando solteiro, ao som deles. E ontem a paixão toda retornou, altiva, integral, de corpo inteiro. Que música catártica é Can´t you hear me knocking! E que coisa é aquela que faz com que Street fighting man tenha tantas camadas de riqueza?, eles estão contando uma história emocional ali. Eu havia me esquecido que Jagger já fora sim o maior vocalista do mundo, diferente do esbravejador de purpurina que passou a ser já desde a metade final dos setenta. Do alto de meus 40 anos (Nick Horby dizendo que a perda maior da idade é deixar de acreditar que Hot Salad e Heartbreak são maravilhosas), eu pude entender esse tipo de música de uma maneira mais profunda, dando total crédito ao adolescente que eu fui e tendo uma nova percepção sobre a grandeza dela com a idade. Ontem eu tive a convicta certeza que os Stones é uma benção de Deus. Ainda não fiz o mesmo processo com os Beatles, mas passar anos sem escutar os Stones depurou a obra deles ao máximo (não faço o mesmo com o Led porque nunca deixei de ouvir o Led). Não pude me negar à tendência reflexiva de comparar a alegria e a contestação radical de músicas como Satisfaction e Brown Sugar com a merda que se produz hoje no mercado de música alienante. Imaginei se a vizinhança pudesse escutar Get out of my cloud, se aquilo não iria arrepiar os cabelos da nuca, se eles não jogariam o MC da hora no lixo. Música é isso: ira feliz concentrada, liberdade pura, selvageria santa, falta de escrúpulos e tudo embalada em um senso filosófico natural. Os Stones são o que o Nietzsche dizia sobre a elevação da música dionisíaca. Pensar só, eis sabedoria, cantar só seria estúpido. O personagem de Richard Dreyffus em Adorável professor, um adepto fanático da música clássica, apresenta para seus alunos uma cançãozinha simplória de rock, que passava nos rádios, e diz "é uma música pobre, com três acordes, centrada quase toda na percussão, mas eu adoro; ela é hipnótica, e tão maravilhosa quanto a música de Bach". Quando passou Satisfaction ontem, sem que eu a esperasse, sendo que eu já havia até me esquecido dela, eu comprovei a veracidade profunda do que já falaram dela: Satistaction é a nova quinta sinfonia de Beethoven. Reconheço o teor erraticamente infantil da tentativa de comportar em palavras o que eu senti, mas me imaginei em uma lamborghini, não pela lamborghini em si, mas pelo processo de desnudamento almático que a música provocava, da mesma maneira daquela célebre texto sobre o índio de Kafka, em que Kafka se imagina um índio cavalgando em um cavalo em uma padraria americana, e que vai lhe desaparecendo o arreio, o cavalo, até que desaparecem o chão e a padraria, desaparece tudo. Só o vento que precede a incorporalidade. Precisa-se esperar mais de uma obra de arte?

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Mudamos de casa para as reformas e nossa vizinha, a senhora Luiza, após cinco anos que eu moro ali, confessa à minha esposa que ali havia sido um centro de rituais de macumba. Minha esposa retorna sorrindo com essa informação, esperando alguma reação racional da minha parte. Nossa casa foi um centro de oferendas a Ogum, Charlles, o que você acha disso? Eu deponho o livro que estava lendo, o terceiro do ciclo das obras do racional e refinado Niall Ferguson, e falo racional e refinadamente um e daí, meu amor? (Cristianamente, como requeria a invocação de uma proteção espiritual suficiente para a possível batalha que se insurgiria dali para frente contra o tranca-rua, eu poderia ter parafraseado "o que tenho eu a ver contigo, mulher?") O certo é que meu passado de personagem de Pynchon não me permite uma postura tão honrosa, e a Dani sabe disso, e no micro-segundo que separa sua pergunta do mecanismo enzimático necessário na cabeça dela para me tacar por cima a lembrança, eu já prevejo a ataque e me concentro. E aí ela se lembra e me diz, sorrindo: se lembra da vez em que você se mudou para uma casa, e quando lhe contaram que a casa havia sido um puteiro histórico em que cinco pessoas haviam sido assassinada nela, você dormiu numa cadeira na varanda e no outro dia se mudou dela? Harrãn, respondo, escondendo estar contrafeito. Mas isso foi há 15 anos, Dani, eu penso em responder, mas não respondo para não dar mais corda para essa enorme chance dela curtir com a minha cara, isso foi antes deu ler Niall Ferguson, Dani. Continuo calado, mas vejo o imediatismo da coisa, que eu devo pensar rápido e tomar as rédeas de situação, pois logo-logo a Dani vai estar contando a radiante notícia para minha sogra, minha mãe e o diabo-a-quatro (que pelo visto, foi o primeiro a saber, já que nos descobrimos inquilino dele). É necessário mesmo que eu desça de meu nível fergusoniano para falar sobre essas coisas? É. Me sento com a Dani, me rendendo ao sorriso, e explico que ou Satã fracassou redondamente, ou nós é que acabamos por enternecê-lo, pois vivi os melhores anos da minha vida nessa casa, fui enormemente feliz aqui, aqui a Júlia foi trazida bebê, ela falou suas primeiras palavras, engatilhou, deu seus primeiros passos. Essa casa de Exu proporcionou um isolamento acústico acolhedor contra o mau gosto do lado de fora, pois foi aqui que nos demos a conhecer a nossos filhos a música de Bach, as sinfonias de Beethoven, o gosto aprendido da música de Mahler, só para ficarmos nesse estilo de música. Ou seja, Dani (continuei, percebendo uma linha de vingança dialética que poderia me reaver o domínio histriônico da situação), convertemos o diabo, o que pode ser uma coisa gravíssima, visto aí a teoria de Giovani Papini de que toda a razão da existência é a tentativa de Deus em resgatar o jovem Lúcifer rebelde de volta para as hordas celestiais.

_ Minha mãe bem que dizia que não se sentia bem em ficar sozinha na nossa casa, ela dizia morrer de medo_ a Dani disse.

_ Pois então está aí a explicação, Dani. Foi sua mãe que expulsou os demônios da casa.

_Sei bem o que você pretende dizer, Charlles, vou contar para ela.

_Filha ingrata, desconhece a presença de espírito da própria mãe!

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9 comentários:

  1. Eu te entendo perfeitamente, Charlie. Também não acredito no diabo. Mas ele já apareceu pra mim. Quer dizer, se aquelas chatices do C. S. Lewis tem alguma verdade sobre essas coisas, provavelmente foi um pau-mandado do Lulu e não o próprio.
    Não há como sobreviver a crença no Inferno depois de ler aquele ensaio deliciosamente cáustico do jovem Borges em Discusión sobre a impossibilidade do inferno.

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    1. Luigi, conte aí como foi, gostaria muito de saber.

      Acho que um de meus poucos desejos ardorosos é o de que o tinhoso existisse. Seria muitíssimo menos danoso que a ignorância humana.

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    2. Charlie,
      Na minha adolescência eu fui o poster boy daquelas chamadas do "Fala que eu te escuto" da Record. Batia pelo menos uns sete daqueles dez sintomas de assombração. Via vultos com uma certa frequência. Já presenciei uma sombra serpenteante sair de um artefato afro comprado pelo meu pai num terrero em Salvador. Só nunca tive alucinações sonoras. O que é mais ou menos uma decepção dentro do universo mediúnico, penso. Em miúdos, uma adolescência prenhe daquela fantasia psicopatologizante que seria facilmente inibida com algum psicotrópico.
      Se ainda fosse um cristão convencional, acho que acreditaria no Aniquilacionismo, aquela teologia que descarta o inferno como uma impossibilidade perversa para o Deus cristão e que propõe a alternativa da destruição da alma perdida no pós-morte.
      Mas do jeito que andam as coisas, me vejo cada vez mais suspendido entre a hipótese de que Deus é aquele gênio mal de Descartes ou o Demiurgo amoroso porém brocha da Teologia do Processo. :)

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    3. Luigi,
      como é a saudade da terrinha! Aí no Canadá e ainda cede à tentação de assistir aos programas madrugadinos da Universal. Nem eu que moro a quatro quadras de uma das lojas do Edir MaCredo me lembrava do "fala que eu te escuto". Como são prosaicos os passatempos de nossos elevados doutores.

      Mas que interessante isso aí, Luigi! Então você escondeu até agora aqui, de frente a seus amigos virtuais (uma outra forma de comunicação mediúnica), essa sua antena esotérica. Eu sempre acreditei que se eu visse um fantasma, imediatamente me tornaria outro. Parada cardíaca fulminante e cá estaríamos eu e a incauta assombração no mesmo plano. Tenho histórias muito interessantes também. Misto de sonhos, desejos, angústias, e paranoia. Não descarto a possibilidade de que o além bata Freud. Perdi um filho há muito tempo, abortado, um filho querido com ardência, e o primeiro sintoma da loucura em que isso me deixou foi vê-lo aos 2 anos se despedindo de mim, surgindo no meio da noite no umbral da porta (ainda sem rosto, mas com um áurea que emergia da incompletude). E vi o rosto da Júlia assim como ela é hoje, muito parecida com a minha mãe, quando inqueri à potestade se tudo estaria bem (a Dani me dizia que era um menino, pois ela só tinha três meses de gravidez, mas depois disso eu disse, taxativo, que era uma menininha).

      Taí. Eu sou cristão, mas nada convencional.

      (Há um livro delicioso sobre o diabo, do Papini, chamado, olha só que coisa, O diabo.)

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  2. Filhos e amores perdidos são garantia de fantasmagorias. Poxa, não sei nem bem o que dizer diante da sua história. Me parece que a minha mediúnidade empalidece perto dessa sua experiência.
    No meu caso estou certo que Freud bate no além e não o contrário. E se não Freud, então um desses doutorezinhos que estudam teoria cognitiva e o cérebro.

    O inferno fantástico das religões, Budismo e Religiões Abraâmicas, passou a me divertir e considero Borges um pouco responsável por isso. Não conheço esse livro do Papini, mas passei a colecionar estórias antigas de viagens ao Inferno.Tem um livrinho ótimo da Martha Himmelfarb de Princeton no assunto que elenca exemplos desde o Apocalipse de Pedro até Dante.
    E por falar em experiências Faustianas.
    As fate would have it, estou nesse exato momento dando uma olhada em relatos Rabínicos de Rabis que enfrentaram o diabo (e sucumbiram) transvestido de femme fatale. b. Qiddushin 81a (no Blavi).
    Mas esse tipo de aparição diabólica me é cotidiana.

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    1. O diabo é um elogio à nossa condição. Existe algo de vaidosamente acolhedor temer que criaturas divinatórias, entidades cósmicas caídas, se importem conosco, para dedicarem suas existências em fazer joguetes de nós. Talvez a raiz que explique o fascínio pelas histórias de terror fantástico esteja aí, no bem que faz imaginarmos a destruição vindo de estratosferas metais tão grandes. Ter uma região astral como o inferno, divido dogmaticamente em círculos para acolher nossas várias formas de pecado, é algo acalentador.

      Eu ia escrever algo sobre o beijo gay da novela das nove_ que eu sei que vc assiste. Suponho que a adoração pela catarse piegas passe por aí. Eu vi a cena e não tem como não achá-la bela, mesmo sabendo dos artifícios fáceis por detrás. O Felix era um assassino de crianças_ assassinato não consumado, mas pretendido_, e todos estão dispostos a encobrir esse pequeno detalhe através da redenção cênica do beijo gay. E de imediato não se conecta o raciocínio de que um dos instrumentos de discriminação contra os gays sempre foi a Globo, com seus esteriótipos estridentes, seu humor brutal que vem desde Didi Mocó às bichas imbecilizadas e estentóreas do Zorra Total. Mas esqueçamos isso: o beijo gay redime tudo. Há sempre uma justificativa maior, esotérica, que tanto nos adula quanto nos torna mais situados em um presente absoluto. (Pô, como eu sou inteligente!)

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  3. baita comentário esse teu. eu nunca tinha pensado no diabo por esse lado e no entanto agora isso é o q mais me faz sentido... só uma coisa: quis dizer "estratosferas metais" mesmo, ou quiçá mentais? Não q não caiba metais, mas me ficou a dúvida - e me lembrou "metal contra as nuvens".

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    1. Pois é, Charlles. Já esperava mais ou menos de você essa leitura bem cristã do diabo. De tanto falar do dionisíaco dos Rolling Stones, nutria uma pontinha de esperança que o diabo reaparecesse aqui em toda a sua força Nietzscheniana, contra-luz e força ao Deus Apolíneo.

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    2. É mentais mesmo, desculpe.

      O diabo é a fadiga, meu amigo Luiz. Estou entrevado aqui, vendo a net enquanto faço minha mudança.

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