sábado, 6 de abril de 2013

Tzaddik Ha-Dor


Michael Chabon transverte um dos enredos clássicos caros a gente como Dostoiévski e Faulkner para compor seu excelente romance Associação Judaica de Polícia. Enquanto os personagens de Dostoiévski e Faulkner passam por uma provação rousseauna, nascendo puros e sendo submetidos à prova ao longo de incansáveis pressões da degradação moral extrema, gerando os santos incorruptíveis como Aliocha e o príncipe Michkin, ou o velho demônio cansado de pecados e louco pela redenção como Thomas Sutpen, o personagem de Chabon que mais se adequaria a essa análise existencial é apresentado, desde a primeira página, morto com um tiro na nuca no quarto do hotel mais vagabundo da cidade. É uma anti-análise sociológica em que Chabon, propositadamente, "desperdiça" um grande personagem em favor de seu projeto de fazer Associação Judaica de Polícia um símile canastrão e uma caricatura séria do romance policial noir de Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Não é por menos que, nas orelhas do romance, temos a informação de que os irmãos Coen compraram os direitos da obra. O livro está impregnado do humor sutil com ameaças de percepções metafísicas de Fargo e Um Homem Sério.

Mendel Shpilman é o nome do herói sacrificado de Chabon. Ao longo das peripécias da investigação feita pelos dois detetives da trama_ que dá ao leitor um esbanjamento do que há de melhor em diálogos no romance americano contemporâneo_, fica-se sabendo que o assassinado foi, no começo de sua infância promissora em que um QI de 170 demonstrava conduzi-lo para a revolução certa em qualquer dos campos do saber, o Tzaddik Ha-Dor de sua geração. Esse termo significa, literalmente, "o justo da geração", um homem totalmente puro e justo que acomete cada geração de judeus para acelerar a vinda do Messias. Mendel Shpilman era o apontamento raro que serviria a manter a fé do Criador em uma humanidade cuja totalidade quase absoluta se compõe de seres depravados e imerecidos de resgate. Mendel Shpilman é um Aliocha que tem a vantagem de não ser limitado pelos dogmas inerciais do catolicismo russo ortodoxo, mas ser um componente favorecido pelo misticismo inter-dimensional do judaísmo canônico, daí que parte dos relatos que se tem sobre ele fala de precognição e a cura do câncer de uma mulher. Mas se Chabon aborta esse personagem na primeira página, em compensação ele oferece uma ficha corrida que se encaixa ao clima de desespero do romance, pois a história acontece nos meses finais de permanência do povo judeu em um território gelado do Alasca, antes que tenham todos de fazer as malas e continuarem no êxodo bíblico perene. Daí surge o feliz insight de Chabon para compôr esse romance, seu toque nonsense genial em juntar o policial noir com a diáspora, uma profusão de gângsters judeus russos e seres degradados que choram por sobre o prato de comida rápida na solidão dos bares, com policiais com crises existenciais aptos para acabarem com as próprias vidas antes de vencer o dia (o dia que nunca chega nos invernos alasquianos), todos usando quipás e peóts e falando uma gíria iídiche de gente de barra-pesada. E seu Tzaddik é um homem viciado em heroína, que abandonou todas as apostas que fizeram dele, a ciência, o xadrez, a aproximação deísta, a família poderosa de agiotas e mafiosos, para morrer assassinado em um quarto imundo, deixando como pista uma inoperável partida de xadrez não terminada.

O crítico Sérgio Rodrigues disse que Chabon escreve tão bem que incorre no perigo de ceder ao virtuosismo vazio da "arte pela arte". Eu li, além desse livro tratado neste post, o As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay (o primeiro grande romance sobre quadrinhos), um romanção sem estatura definida pela crítica mas que olha bem do alto coisas como A Visita Cruel do Tempo e Liberdade, e tive Chabon, de forma imediata, como um dos maiores romancistas americanos vivos. É inevitável perceber que Chabon se entusiasma tanto com seu enorme talento que, às vezes, realmente faz umas cabriolas metafóricas e força a barra em algumas construções imagéticas, mas nada que sequer faz sombra à eficiência de suas narrativas, Vejo aqui a influência inevitável de Nabokov, e, ainda que a presença de Garcia Márquez seja menos evidente que em Kavalier & Clay (o primeiro parágrafo desse romance segue o modelo histórico ressonante de Cem Anos de Solidão), aqui tem uma simetria inicial com O Amor nos Tempos do Cólera: ambos começam com enxadristas mortos encontrados em quartos de hotéis vagabundos, enxadristas que representam todo o exílio espiritual étnico dos personagens que lhe estão em torno.


2 comentários:

  1. Estava ontem mesmo pesquisando os preços do Chabon, e achei uma grande coincidência esse texto surgir simultaneamente. Então me liguei que ambos frequentamos o blog do Sérgio Rodrigues, e talvez seja por isso.

    (Falando em Franzen, estou lendo As Correções e achando muito agradável. Acabei de ler cena de Gary se rendendo à esposa. É muito bem feita).

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    1. Tinha o Associação Judaica desde seu lançamento, quatro anos atrás, e fui motivado a pega-lo após aquele post do Sérgio. O romance me fez interromper o Ginzburg e o Murakami que estava lendo, tamanho o envolvimento. Me deparei aqui com uns 40 livros que tenho mas ainda não li. Chabon é muito bom.

      As Correções ainda é o grande romance de Franzen. Esse sim é um clássico. E as cenas sexuais são muito mais elegantes e bem engendradas que as decepcionantes (e muitas vezes apiedantes) cenas correspondentes em Liberdade. Gostei demais das partes que trata da filha da família, que vai progressivamente descobrindo sua homossexualidade. Daí meu enorme desapontamento quando li Liberdade: AS Correções nos enche de altas expectativas em relação a Franzen.

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