terça-feira, 16 de abril de 2013

O passo que se apressa




Publicado em 28 de julho de 2011
Ontem assisti ao Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão, de Woody Allen. Está longe de ser o melhor filme dele, aliás julguei-o tão ruim que só foi possível assistí-lo até o fim em duas partes. Mas, como em todas as obras de pouca inspiração, há uma fagulha de angústia genuína, quando o personagem interpretado por Allen revê após anos a personagem interpretada por Mia Farrow. Todo o filme se passa numa casa de campo, no que imagino ser a Inglaterra dos anos 1900 ou 1910, e é lá que o casal, que só se viram num momento crucial de suas juventudes, é absorvido pela pesada sensação de perda diante a realidade de que o beijo que deixaram escapar à beira do lago, naquele longuínquo tempo, poderia ter determinado que fossem felizes juntos. Mas agora, o personagem de Allen está casado com uma mulher frígida, tendo que derivar suas energias sexuais acumuladas para suas invenções tresloucadas de descascadores de maçã e instrumentos voadores, e a personagem de Mia se casará com um gênio acadêmico com o dobro de sua idade no dia seguinte. Nada podem fazer diante o momento sublime não consumado, mas seus diálogos fugidios_ a exasperação alleniana por sua timidez idiota em não ter dado o beijo_ revelam que a vida de cada um fôra só a acomodação às contingências, um prosseguimento nas trivialidades cotidianas que o lapso daquele crime temporal havia resultado.

Assisti a essas coisas com o coração na mão, como dizem. Eu, à beira dos 40, com dois filhos e uma mulher com os quais sou absolutamente feliz em amplos sentidos. E tais cenas fizeram voltar a lembrança do que sempre imaginei que iria ser o motivo de uma vida derrotada. Com meu romantismo ainda não decantado e ridicularizado o suficiente, antes de me casar eu girava como um galo pela cidade, e nas voltas trôpegas pelo caminho de casa, de madrugada, eu me deparava como em sonho_ como naquelas alucinações fellinianas de retalhos da infância provinciana_ com um velho sentado num tamborete desconfortável diante a televisão, no quadrângulo desconsolado de uma porta aberta para a rua, num casebre de esquina de paredes de tijolos crus. Ele não me via; mostrava-se tomado por completo pelas forças de algum antigo e já cordial arrependimento, para o qual, contudo, o ruído da televisão servia para manter essa sua companhia sonolenta, retirar desse seu fiel capataz qualquer afã em elevar a voz; seu olhar vago, sua boca entreaberta_ a boca de um velho_, mostrava a calma astúcia de quem já conhece e domina as manhas de seu companheiro. Eu partia dali acelerando os passos, policiando-me para que não alcançasse aquele lugar novamente, mas o velho sempre me encontrava.

Quando eu fazia o curso de veterinária, apaxonei-me de forma doentia pela moça mais bonita e inteligente da turma. Acho que não tem nenhum mal dizer que se chamava Adriana. Eu passava as aulas olhando o seu perfil, estudando-lhe os gestos (meu deus, não consigo tirar esse tom demodê do texto!). Quando soube que ela fazia estágio no departamento de Reprodução Animal, inscriví-me como voluntário para auxiliar nas pesquisas. Assim, consegui a felicidade de sermos nós dois os últimos a deixarmos o prédio, à noite. Acompanhava-a do ponto de ônibus até o seu prédio. Claro que ela sabia da minha devoção. Ela era toda recatada, centrada nos estudos, falava num português impecável e mesmo que nós passassemos fins de semana em seu apartamento corrigindo material de pesquisa, havia um filtro de polidez entre nós que dava uma qualidade de cinemascope a toda brincadeira. Por vezes ela me fazia sentir ser o adolescente de Verão de 42 (e ela se parecia demais com a Jennifer O´Neil). Como sempre em minhas atitudes, havia uma pedra basal de farsa por debaixo daquele platonismo. Numa noite mais impulsiva, quando já eramos íntimos o bastante para sentirmos a falta da companhia um do outro, confessei em palavras ordinárias que a amava. Ela aludiu à áurea fantasmal de um amor oculto, para o qual ela ainda simulava fé, para dizer que entre nós não poderia haver outra coisa que amizade. Disse que nossas índoles eram avessas demais para dar certo, eu com minhas aptidões de ex-estudante de jornalismo com os cabelos compridos, e ela com sua disciplina em conquistar um lugar no mundo por si mesma. Mas pelos próximos meses ela ficava em estado de êxtase. Eu havia sussurrado ao ouvido dessa Nádia as palavras eólicas do conto de Chécov: amo-te Nádia; amo-te Adriana. Eu tentava beijá-la, sentindo o perfume de seus cabelos, mas ela sorria de completa e faceira alegria ao desviar o rosto. Eu escrevia poemas todos os dias para ela_ uma coisa me veio agora, deixei de escrever poesias para sempre por causa dessa ilha espiritual_, e lhe entregava. Instruí-a na leitura de romances. Lemos praticamente juntos, ela deitada em meu ombro, o Finado Matias Pascual, cuja personagem também se chamava Adriana e também era belíssima. Enfim, em circunstâncias outras, estava ela sentada na bancada da sala de pesquisas e eu em pé diante ela. Toda a turma estava na sala de aula ao lado, assistindo as explicações de um mestre argentino. E eu disse: não seria ousado que justo hoje você me cedesse um beijo, com tanta gente que poderia nos flagrar? Ela disse um massacrante pois bem que me fez aproximar os lábios dos dela, sentir-lhe a respiração opressiva. E...me neguei. Só isso: me neguei. Rimos nosso riso com um pouco menos de brilho de quando o cinema acaba e o cinemascope é suplantado pela luz da rua miserável nos fundos da saída. Eu namorava um outra menina então, coisa que ela ainda não sabia, e acho que foi por consideração à outra que não lhe beijei. Depois ela nos viu sentados no pátio, e teve um comportamento tão díspare de choque, que tive que atender às suspeitas da namorada contando que eu  a amara uma certa vez, há muito tempo, esqueci não te preocupes. Uns dois anos depois, na festa de formatura, ela me tirou do baile, me levou para um canto no jardim onde ninguém, só o meu remorso, poderia nos ver, e ela estava linda de uma forma absurda, linda de uma forma trágica que me fez pensar o quanto eu teria que remodelar todo o planejamento para minha vida dali em diante se errasse o passo. E...me neguei.

A juventude nos faz pensar assim, ser possível morrer por um momento desperdiçado. Tentei imaginar depois como seria seu beijo, mas nunca consegui. Em vários momentos teria dado tudo por aquele beijo. Ontem, porém, o filme de Allen tanto me perturbou quanto me arrefeceu. Por detrás dos personagens de Allen e Mia, haviam Allen e Mia.

4 comentários:

  1. pqp tinha q ter beijado essa guria. já é a segunda vez q tu mostra esse refugo de Baloubet du Rouet, não mostra a terceira q eu te mato hauhahua

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    1. Hahahaha. Bom, a resposta está lá embaixo.

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  2. Charlles, divino esse seu texto! Me lembrei dos meus áureos tempos de colégio, da paixão platônica, do meu posterior " e me neguei" e me senti revivendo tudo conforme lia. Incrível como essas coisas são como somos jovens - me sinto relembrando um tempo longínquo, e olha que tenho não muitos 24 anos de idade.

    E tudo isso me lembra uma frase da minha coleção de frases: "e escuto de volta o eco das coisas que não falei". Sempre me pareceu de um egoísmo e um narcisismo tremendo aquelas pessoas que dizem não se arrepender de nada e fazer tudo o que lhes aprouve. Essa impossibilidade de saber como teria sido se nossas escolhas fossem outras, nossas palavras, nossas atitudes, nesses momentos, entendo as tais pessoas. Mas isso é só uma digressão da minha parte.

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    1. Obrigado, Carina. Vou te confessar uma coisa: eu sonhava com ela até antes de escrever esse texto; foi só escrevê-lo_ exorcizar-me_, que já não sonho mais. Eram sonhos de uma ampla alegria que, como é da natureza dos sonhos, me pegava de manhã acordado com uma sensação de depressão profunda. Não me fazia bem isso, já que simulava que eu estava infeliz, falseava uma situação que não correspondia à realidade. Percebo aí uma espécie de maturidade da sobrevivência que existiu em mim nessa questão: se eu a tivesse beijado, o que seria de mim? Meu lema de vida até meus 35 anos sempre foi nunca me comprometer, sempre foi o de fazer de tudo para andar o mais leve e sem bagagem possível. Não seria um simples beijo, eu teria ficado absolutamente louco por ela (risos: é cômico agora pensar nesse dramalhão todo). Há sim uma série de arrependimentos que pesam, mas que são valiosos. Eu tinha uma diretriz que era a única que importava: ficar independente, depois... depois, qualquer coisa. Desculpe o desconexo desse comentário. Eu vi Adriana pelo Facebook: ela mora em Brasília, se casou com um colega de turma, tem dois filhos, e ainda está linda.

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