quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Todas as Almas, de Javier Marías



O mítico ambiente de saber da Oxford inglesa, com sua sisudez esmerada e seus méritos científicos , sua imobilidade secular de produzir eruditos especialistas em Shakespeare para governar o mercado financeiro mundial, é traduzido por Javier Marías em seu misto de romance e ensaio psicológico, Todas as Almas. Nesse romance, Oxford é uma fortaleza desolada em que os mendigos são em igual ou maior número que o de professores, com jantares cerimoniais maçantes, lotada de personagens entre dickensianos e as entidades hirsutas e pomposas de Henry James. Marías empreende uma visão de estrangeiro exilado entre aqueles ferruginosos portões patrícios, sem direitos efetivos de prorrogação de tempo e mesmo sem pretender a isso, e alcança a profundidade de tom que reivindica para si desse hermetismo de classe, para sua voz de escritor, um entendimento pessoal poderoso da solidão, da transitoriedade da existência, da erraticidade dos convívios humanos, das falhas congênitas da ternura, da riqueza interior entrevista nos semblantes presos e empobrecidos nas armadilhas da distinção institucional. Os que identificam uma semelhança no modo de escrever de Marías com o de Thomas Bernhard_ naquilo que os dois tem de um distanciamento semântico da coisa manejada, a ponto de poderem estender a visão da coisa por páginas e páginas onde a repetição produz minimalismo musical requintado_, poderão distinguir que o que em Bernhard é raiva condensada e uma quase santificação da resistência contra o prosaísmo patológico de qualquer ambiente humano (dos mais triviais aos mais campesinos castelos das famílias tradicionais alemãs), em Marías assoma como uma espécie de ironia basal serena, da mesma forma bernhardiana não-coaptável mas sem sua acidez anti-social, sem o abatimento combativo diante a ruína espiritual refletida na geografia e na arquitetura. Para Marías, Oxford é uma terra de abandono, onde os domingos "desterrados do infinito" (expressão baudelariana empregada pelo narrador inominado) tem a capacidade de concentrar tanto desamparo que leva os menos preparados à loucura. Uma das melhores e mais sublimes partes do romance é sua descrição dos professores outrora famosos e veneráveis, que escreveram livros de elevada importância, mas  cujo marasmo opressivo e os domingos desterrados decaíram em mendigos. É a narrativa densa sobre o teólogo que perde família e prestígio e se refugia nas ruas oxfordianas, ou do historiador que compôs três tomos capitais sobre determinada época medieval e agora briga com os outros esfarrapados por um canto para dormir, que oferece a verdadeira divisa de pensador independente de fórmulas e atos de ofício que é esse antigo oxoniano chamado Javier Marías, ele mesmo se revelando ali como sobrevivente na figura de seu narrador que enfrenta o tédio de maneira estoica.

Marías, aqui, se aproxima das não de todo involuntárias escolas literárias modísticas aperfeiçoadas por Sebald e Vila-Matas. Embora Todas as Almas seja contemporâneo às obras desses dois autores_ o romance foi lançado em 1988_, nesta obra vemos o flaneurismo dos principais livros de Sebald, a maneira de Sebald de redigir uma prosa do ambiente em que os personagens servem para evidenciar a perpetuidade da locação e serem agentes de uma história que não passa de uma sistemática vaidosa inventada para dar uma validade esotérica para a efemeridade de suas existências; o que vale em Sebald e neste Marías é a indiferença primordial da paisagem, seja ela povoada ou não pelo homem, sua constância selvagem que aparece no que tem de frio e indiferente às mentes mais calibradas para a percepção do que está acima das regras cotidianas, o que está acima do trabalho e da civilização. Essa selvageria, pois, é similar em cenas como a de Austerlitz, em que o narrador, dentro de um bote em um extenso lago, imagina toda a cidade submersa pelas águas abaixo dele, apresentando as fotos das crianças e pais em preto-e-branco que não mais existiam e posaram um dia para uma lente que os registrou diante a casa que seria levada pela futura hecatombe; similar à estação ferroviária entre Londres e Oxford onde o narrador de Todas as Almas espera por um trem que sempre se atrasa, e que seus mudos e desconhecidos colegas de espera tem como norma inviolável jamais falarem um com o outro e mesmo demonstrarem que se percebem, e que o narrador explora as sombras das cercas ao longe, no campo escuro, o povoado morto que parece pertencer à estação, e a indefinível mulher sentada em um banco a alguns metros dele e que ele procura pelas ruas de Oxford e julga vislumbrá-la em uma perdida oportunidade em uma boate, mas que nunca realmente a vê. Esse niilismo além da filosofia_ não se presta, felizmente, a incorporar uma dogmática acadêmica, como o existencialismo sartreano_, expõe-se algo cansado de orgulhos ou proezas espirituais, cansado das genuflexões diante altares da ciência e dos compêndios de qualquer tipo, cansado_ e aqui há a ponta de uma provável revolução_ de ser descrito como pós-século XX, como pós-morte das ideias ou princípios ou sonhos. Marías se revela com a total independência do escritor superior que, apesar de sua gravata, seu terno, seus títulos, suas amplas estantes recheadas de livros, está à frente desse comodismo egrégio, num local de absoluto silêncio e solidão: não há alienismos kafkianos, nem distorções beckettianas, somente a mente imaginosa trabalhando por si mesma, o pulso realizando as obrigações de reverter para a escrita o que a extenuação da percepção pega dessa supremacia da leveza. Nisso a explicação de Sebald e Marías, tirado raras exceções, empregar sempre a primeira pessoa em seus livros: afora as leituras tecnicizantes, eles tem apenas o eu para se firmarem. A mais solitária e independente das funções: a escrita, para a qual se pode valer apenas um lápis e uma folha; daí que a escrita de Marías parece ser feita apenas no recolhimento do lápis e da pauta em branco, sem se importar com a compreensão imediata de seu emissário_ porque, não é feita para se ter um emissário_, daí seu erroneamente definido rebuscamento. (Daí, também, a semelhança entre Proust e Marías, no que tem de absoluto recolhimento, pois reconstroem o mundo dentro da total entrega a si mesmos que, num caso, a iminência da morte avalizava, e noutro, avaliza a propensão inexorável de morar no vagar das coisas inapreensíveis.)

De Vila-Matas, Marías tem, neste romance mais que nos demais (mesmo na continuação deste, Seu Rosto Amanhã, que este é um prólogo, à maneira de o Hobbit o é para o Senhor dos Anéis_ comparação valiosa que devo ao fã incondicional de Marías, Aguinaldo Medici Severino) o uso não superfaturado da metalinguagem e do culto a escritores fracassados e quase definitivamente esquecidos. As duas fotos que Todas as Almas apresenta tem a impressionante força retórica da escrita que as deslindam: a foto do jovem escritor John Gawsworth, no auge de sua passageira fama, quando era amante da mãe da amante oxoniana do narrador e um diplomata que viajava por Túnis, Argélia, Itália, Egito e Índia, e a foto de sua máscara mortuária, em que a argila não esconde o inchaço do álcool e a crueza das desditas. O narrador lembra de uma visão do já derrotado escritor, maltrapilho e sem teto, empurrando um carrinho de bebê cheio de garrafas de bebidas, pelas ruas de Londres. A dor e o sonambulismo da existência aparecem em Todas as Almas com um impacto das grandes obras. Desde quando conheci Marías, através de Coração Tão Branco, na metade final do ano passado, venho compulsivamente lendo tudo dele, e Todas as Almas exerceu um poder de calar diante o mistério do homem que só penso no peso semelhante daquele único grande romance de Kundera. Ao contrário do porteiro nonagenário Will, que aparece no livro guardando uma das faculdades de Oxford, e que tem surtos de memória que o retornam ao dia longínquo em que morreu sua esposa, ou ao dia da capitulação do Eixo, ou a dias de sua infância de bermudas_ e para cada qual os professores tem que adivinhar o sumo da viagem do tempo e dar-lhe os pêsames, ou fingir que soltam fogos pelo anúncio do fim da guerra_, eu posso afirmar que por boas décadas não esquecerei desse inigualável romance.


2 comentários:

  1. Blá bla e bla. Palavras que pretendem dizer muito mas que amontoadas não dizem nada, um palavrório sem fim, busca de estilo sem substância. É isso que esse seu texto sobre todas as almas é, sem alma.

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    1. Também acho. Esta é uma das minhas piores resenhas.

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