domingo, 13 de outubro de 2013

O Jesus de Leminski



É sempre assim: minha falta completa de disciplina de leitor permite que, antes que eu possa acabar o livro com o qual estou comprometido há semanas, um outro que recém chegou em casa se interponha no caminho e me cative por inteiro. Dessa forma, deixei de ler os dois livros que estou para finalizar, com os quais havia me comprometido para esse fim de semana, e me vi hipnotizado pela fantástica prosa do Jesus de Paulo Leminski. Comecei por folhear o volume com mais outras três biografias (que soam improváveis, para quem conhece o grande curitibano apenas superficialmente), e logo li a primeira página da parte de Jesus (que Leminski referencia como profeta, outras vezes poeta), e logo não conseguia mais largar a leitura.

Vamos por partes: Leminski parece deixar ver aqui que era um profundo conhecedor de literaturas; não só pelo monumental domínio sobre os tantos textos hebraicos, gregos e em latim tardio, em que estão enredados os tantos livros crísticos e judaicos, cujos longos excertos citados no volume foram traduzidos por Leminski, como, ao que me pareceu invejável, sua perfeita compreensão das indevidas limitações em que está a literatura brasileira. Explico: lendo esse conjunto de ensaios simplesmente estonteantes (para usar do belo coloquialismo de beco do autor), é impossível não descobrir em Leminski o nosso Borges, ou o nosso Cortázar, ou o nosso Saul Bellow e Anthony Burgess, em questão de intelectual ultra-erudito, leitor de tudo e senhor de vastos conhecimentos. Leminski conhece tudo. É, penso, o nosso mais inteligente e culto poeta, senão nosso mais, nesses termos, escritor. O único que me vem à cabeça que poderia lhe ombrear em uma conversa de deixar queixos caídos é Guimarães Rosa. Por isso, tanto por exaustão abnegada de quem está a um nível muito elevado, tanto como pela conjunção natural entre popular e erudito que acontece quando os limites distantes são rompidos, Leminski apresenta essa brincadeira na escrita, esse não-se-levar-a-sério que se leva muito a sério, essa criança leminskiana que se surpreende e se encanta com tudo, esse ingênuo genial que sempre me lembra de Whitman quando diz que o aprendizado o empacou diante o primeiro livro e as magias da natureza de maneiras que a única coisa que ele quis fazer era ficar lá, observando, calado. Assim, Leminski parece dizer, com essas biografias improváveis, que em nossa literatura pátria, tão pequenina, a ausência de romances-ensaios, ou de uma escrita de peso sobre outros campos de exploração do saber, poderia ser rompida aos poucos, com paciência, com a quantidade de páginas reduzida que adivinha o livro didático juvenil, mas que, em contraposição, não é nada modesta. Essas quatro biografias parecem livros informativos encomendados, como a coleção Primeiros Passos; tem ilustrações cômicas, são espaçadas por parágrafos pequenos, mas esse fenótipo é astutamente enganador. Esse Jesus, por exemplo, sem nenhum medo de exagerar, tem a mesma volatilidade dos escritos esotéricos de Saul Bellow e Thomas Mann. Enquanto eu o lia, deslumbrado pelo domínio de Leminski, me lembrava das tantas reflexões sobre o espírito em romances como Herzog e O Legado de Humboldt, quanto da primeira parte de José e seus irmãos, em que Thomas Mann cria uma cosmologia na qual data a época em que a matéria foi insuflada pelo Verbo.

O Jesus de Leminski primeiro mostra essa revelação sobre a literatura brasileira, dos meados da década de 1980 em que foi escrito; Leminski parece dizer aos outros escritores nacionais: "Oi, podemos fazer isso; podemos sair da temática tirânica a que estamos confinados por termos nascidos com essa vocação, nesta geografia, e escrevermos sobre coisas distantes, sobre assuntos ilimitados, sobre filosofias germânicas e aquilo que construiu as religiões; nada para nós é sagrado, e podemos envolver essas digressões com muito conhecimento". Leminski reivindica, nesses quatro livros, o que Bolaño reivindicou ao falar que o subdesenvolvimento de nosso continente não permite que aqui surja uma literatura de gênero. Jesus transita por uma fluidez formal que insinua uma vastidão possível por parte do autor, que poderia ter sido escrito mais, ter sido escrito um tratado de 300 páginas só com isso, mas a descontração de Leminski impõe a concisão, impõe uma falsa modéstia. Em determinada parte, o poeta escreve algo e coloca em parêntese, oi Alice, como se aquilo fosse o prosseguimento de uma conversa anterior muito explorada, muito intensa, algo não editado e que é puro Leminski. Ganha-se muito tornar-se íntimo da escrita de Leminski. Foi uma das minhas maiores realizações dos últimos anos.

O livro tem muito humor (começa com uma falsa notícia jornalística, extra!, extra!, que soara nos tempos do nazareno), e passa por um estudo sucinto sobre as etnias judaicas da época, sobre as similitudes entre os quatro evangelhos e suas discordâncias maiores, sobre as heranças das religiões pagãs no cristianismo, e sobre Jesus e Buda, sobre Jesus e as mulheres, sobre a força poética que faz de Jesus um dos maiores poetas da história (nessa parte, há belíssimas coletâneas dos evangelhos canônicos e apócrifos traduzidas do original por Leminski). Uma das partes mais saborosas e espantosas, se reserva às páginas em que Leminski aproxima James Joyce de Jesus, sobretudo as várias implicações cristãs em Finnegans Wake_ partes realmente fundamentais para quem gosta de literatura e Joyce.

As outras biografias, que começarei a ler a partir de amanhã, são do poeta Cruz e Sousa, do inventor do Haikai, Bashô, e de Trótski. Um livro arejado e delicioso de se ler.

56 comentários:

  1. Dá-lhe charlatão! Ops! Charllão!!

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    1. Por que charlatão?? E porque não Duas-Caras??

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    2. Charlatão é você postando como anônimo!

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    3. E você também ?

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  2. Sem dúvida é o cara mais hipócrita que eu já conheci...

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  3. Quanta bobagem...digo os comentários .Aposto que ninguém leu a postagem

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  4. É sempre assim: minha falta completa de disciplina de leitor permite que, antes que eu possa acabar o livro com o qual estou comprometido há semanas, um outro que recém chegou em casa se interponha no caminho e me cative por inteiro. Dessa forma, deixei de ler os dois livros que estou para finalizar, com os quais havia me comprometido para esse fim de semana, e me vi hipnotizado pela fantástica prosa do Jesus de Paulo Leminski. Comecei por folhear o volume com mais outras três biografias (que soam improváveis, para quem conhece o grande curitibano apenas superficialmente), e logo li a primeira página da parte de Jesus (que Leminski referencia como profeta, outras vezes poeta), e logo não conseguia mais largar a leitura.

    Vamos por partes: Leminski parece deixar ver aqui que era um profundo conhecedor de literaturas; não só pelo monumental domínio sobre os tantos textos hebraicos, gregos e em latim tardio, em que estão enredados os tantos livros crísticos e judaicos, cujos longos excertos citados no volume foram traduzidos por Leminski, como, ao que me pareceu invejável, sua perfeita compreensão das indevidas limitações em que está a literatura brasileira. Explico: lendo esse conjunto de ensaios simplesmente estonteantes (para usar do belo coloquialismo de beco do autor), é impossível não descobrir em Leminski o nosso Borges, ou o nosso Cortázar, ou o nosso Saul Bellow e Anthony Burgess, em questão de intelectual ultra-erudito, leitor de tudo e senhor de vastos conhecimentos. Leminski conhece tudo. É, penso, o nosso mais inteligente e culto poeta, senão nosso mais, nesses termos, escritor. O único que me vem à cabeça que poderia lhe ombrear em uma conversa de deixar queixos caídos é Guimarães Rosa. Por isso, tanto por exaustão abnegada de quem está a um nível muito elevado, tanto como pela conjunção natural entre popular e erudito que acontece quando os limites distantes são rompidos, Leminski etc.,etc,etc...kkkkkkkkkkkk

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  5. E essa hora errada na postagem ô Challatão corrige aí vai?

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  6. E assim caminha a humanidade...

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  7. Longas divagações desocupadas como sempre...

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  8. Tu não dormistes à noite, SoyGardel?

    67 visualizações vindas do PQPBach, só de madrugada.

    http://pqpbach.sul21.com.br/2013/10/12/desabafo/#comment-39968

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  9. Prezado Charlles, aqui fala SoyGardel.
    Não sou o autor das postagens acima. Confira IP/procedência, caso desejar.
    Publiquei resposta no próprio PQP.
    Sílvio

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    1. Fossem 69 os acessos, a ruptura do hímen viria com gozo.

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    2. Já diria Mariano Closs da Fox Sports argentina:

      ¡La rompió!

      (parei)

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  11. Nosso primeiro troll. Um pouco emocionado aqui.

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    1. Fiquei emocionado ao vê-lo hoje de manhã. O duro é que minha maldita razão me questionou: ele está falando alguma mentira?

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  12. Charlles, sem cortar o seu barato e sem querer dizer que o Grego Alexandrino seja lá uma coisa difícil assim de dominar. Mas eu duvido um pouco que o Leminski tenha traduzido alguma coisa dos Sinóticos. Isso para não falar do Hebraico. A não ser que Leminski tenha sido seminarista em algum momento da sua vida. Coisa que ignoro. Ignoro mesmo, quer dizer, não sei.

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    1. Ele traduz várias passagens do evangelho de Mateus, sinótico, pois. Traduz uma belíssima passagem de um evangelho apócrifo conhecido como Evangelho da Infância, Segundo Domingos. Traduz todas as parábolas, inclusive a que ele diz ser "a molécula de uma novela arquetípica, onde não falta nenhum dos melhores ingredientes do gênero: cor local, surpresa, adversidade da fortuna, rompimento, aventura, a fuga da origem, a volta às origens", o capítulo 15 de Lucas, a parábola do filho pródigo.

      Iniciarei a biografia de Tróstki hoje, e algo me faz crer que ele dominava o russo também.

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    2. É isso, Charlles..: às vezes, você cria auxeses por seu entusiasmo e êxtase sobre um dado tema… (Lembra-se de um vídeo dum carinha fascitoide que apareceu, e desapareceu..., na rede, em Junho, quando das manifestações de rua?... Você inacreditavelmente acreditou naquele desprezível animal domesticado…). Não quero dizer que o poeta paranaense tenha sido tal animal, pelo contrário; porém, daí dizer que ele seja o mais erudito escritor entre nós, digamos, nos últimos 50 anos, parece-me prematuro… Pense um pouco, Charlles, por que a necessidade de afirmar coisas tão definitivas se estamos carecas de saber que tudo é transitório?...

      Um abraço, meu amigo.

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    3. Ramiro, o relativismo me impediria de viver. Espero chegar à sua idade com pelo menos 1/3 de meu "entusiasmo e êxtase". Não vou explicar de novo o episódio do "carinha fascistóide", tá explicado por demais lá no post.

      Você ainda segue a tradição ousada de ser um poeta que não lê, que se basta a si mesmo. Cheguei à conclusão tal sobre Leminski por ler toda a obra poética dele e agora estar lendo este. O mais erudito não quer dizer que seja o melhor, basta ver que Burgess, citado por mim, apesar de excelente, está abaixo de escritores com muito menos cultura que ele.

      Leia, Ramiro; se instrua; aprofunda-se_ ou abandone o propósito de ser poeta de vez.

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    4. Leia o Bruno Tolentino, Charlles. Leia o Bruno Tolentino. As Horas de Katharina. Leia. LEIA!

      Saca só: http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/berimbau.html

      Quero ver tua opinião depois de lê-lo.

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    5. Bem, Charlles, pondo os pingos nos “is”:
      .
      a) Nem vou discutir, por perda de tempo, o tal pseudônimo que apareceu por aqui;
      .

      b) Não sei claramente o que você está a denominar de relativismo.
      é o cultural vale-tudo cotidiano que estamos acostumados a viver?
      Bem, se for isso,estou distante…;
      .
      c) Por outro lado, quer se queira ou não, existe o princípio da incerteza de Heisenberg, que é válido na escala atômica. Será que tal constatação científica da natureza é válida à ética humana? Aqui teremos que adentrar no conceito complexo do que vem a ser a natureza, por exemplo, na Ética, de Spinoza, que já tratou de tal espinhoso assunto. Não vou, obviamente, adentrar em tal floresta, pois teria que reler o lido, há mais de 30 anos. Contudo, até onde lembro, por exemplo, o Deus de Spinoza me pareceu ser um ser esperaçoso, isto não quer dizer pacífico, pelo contrário: a dúvida é o essencial da pergunta; é aquilo que nos move à pergunta seguinte… Não ter medo? Como?... Se nunca saberemos tudo… O segredo é: confiar, desconfiando, das respostas para que continuemos sempre a perguntar… Ou seja, há um limite: i) se quizermos conhecer a posição de um elétron, não saberemos da sua velocidade; e ii) definida a sua velocidade, não saberemos de sua posição; logo, até o momento, em tais questões vale a ciência das probabilidades…;
      .
      d) Você afirma, categoricamente, que eu sigo a tradição de ser um poeta sem ler ou sem leitura!... Que ousadia!... Primeiro, o que é ler? É a quantidade de obras lidas? Creio que não… Leitura, fundamentalmente, é a forma que se dá cada leitura… Será que existe no Absoluto, no Sagrado, um contador, qual num banco, a contar o vil saber?... Já disse um Amigo dos analfabetos: “A César o que é de César”… como ensinam os sinóticos…;
      .
      e) Ainda você afirma, Charlles, “abandone o propósito de ser poeta…” Meu caro, não preciso abandonar nenhuma “ideia” de ser poeta com leitura ou sem: eu sou!... Se bom ou mau, bem aí são outros quinhentos… O fato inegável é que sou! E ainda bem… O fato e que sou cientista… E ainda bem…O fato é que sou professor e meus alunos me amam… Ainda bem… Quanto ao resto... serei ignorante… Ainda bem…

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    6. Errata: é óbvio que é "quisermos"... (e não quizermos).

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    7. O fato é que vc não leva a literatura e a poesia a sério, e nesse quesito segue a regra equivocada dos preguiçosos que são bons em outras áreas de que, necessariamente, por não se importar, é um gênio poeta.

      É uma ilusão feliz, um onanismo solitário que vez ou outra alguma recitação em público te brinda com apreciações apressadas e cordiais. Me recuso, por enquanto, a me aventurar oficialmente nas letras, por causa disso: infelizmente, levo a literatura muito a sério.

      Tenho notado uma atitude ofensiva da sua parte contra mim, desde que, ao me perguntar se te considero um bom poeta, eu disse que te considero um poeta bairrista, etc, etc (longo e delicado diálogo por e-mail). Eu só acho que vc tá deixando a idade te pegar, o desencanto, ou sei lá o quê.

      Essas teorias científicas que hora e outra expõe, são o lugar comum da ciência. Todo mundo conhece o princípio da incerteza (há uma corrente literária fundamentada nela), e etc, e etc. Talvez o academicismo amordaçado pela burocracia cotidiana tenha transformado mesmo um doutor em física como vc em um propagandeador do óbvio, assim como eu, como veterinário, apesar de muito estudar nesta área, hoje só sei as técnicas de fiscalização de abate e alguma e outra clínica de animais domésticos que qualquer um pode saber com um mês de estudo. Aliás, tem um prático aqui na minha cidade que dá de mil em mim, em questão de tratamento de cães.

      Só acho que vc se ostenta em certezas por causa ou de sua proficiência titular em física ou por causa de que o cansaço da idade te dá a ilusão de que sabe estoicamente mais que todo mundo, com suas ideias esquerdistas defasadas, anacrônicas, e suas crenças sentimentais vaidosas, etc.

      Então, meu caro amigo, não use seu pesar para reivindicar uma seriedade de conhecimento indevassável sobre mim.

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    8. O fato é que vc não leva a literatura e a poesia a sério (???)…
      e nesse quesito segue a regra equivocada dos preguiçosos(???)…
      que são bons em outras áreas de que, necessariamente, por não se importar, é um gênio poeta(???).

      É uma ilusão feliz (???), um onanismo solitário que vez ou outra alguma recitação em público te brinda com apreciações apressadas e cordiais(???)..

      Tenho notado uma atitude ofensiva da sua parte contra mim (???), desde que, ao me perguntar se te considero um bom poeta, eu disse que te considero um poeta bairrista, etc, etc (longo e delicado diálogo por e-mail).
      Eu só acho que vc tá deixando a idade te pegar, o desencanto, ou sei lá o quê (???).


      Só acho que vc se ostenta em certezas por causa ou de sua proficiência titular em física (em metalurgia, sou engenheiro…) ou por causa de que o cansaço da idade te dá a ilusão de que sabe estoicamente mais que todo mundo(???),
      com suas ideias esquerdistas defasadas (???), anacrônicas, e suas crenças sentimentais vaidosas, etc.(???).

      Charlles, numa boa, nossa conversa, por hoje, tá difícil… Creio que você está a conversar consigo mesmo…

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    9. Em relação a vc, Ramiro, sempre foi um monólogo. Só para dar um exemplo do quanto vc se interage com os blogs (meu ou do Milton), no dia em que fiz uma homenagem aqui à minha filha de 3 anos, vc postou 3 poesias falando sobre a morte do pai e o sentimento de abandono da criança. Foi a única vez que tive que cancelar comentários.

      Abraços.

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    10. Charlles, se lhe magoei - com poesia - a sua paternidade, por favor, me desculpe...

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    11. Não me magoou em nada, Ramiro. Gosto muito de críticas e de pessoas que não concordem comigo, mas acontece que vc tem se mostrado um caso meio ranheta esses últimos meses (ou esses últimos anos), que não ouve, ou não se importa, que está distanciado. Algum problema pessoal persistente fica evidente que está a acontecer, para te afetar tanto assim. De modos que falta um pouco a sensibilidade de se localizar. Vc está fazendo pouco caso de tudo; suas poesias são bem vindas, assim como vc, que considero um amigo, mas há um padrão incômodo do ponto morto de seus comentários. Uma espécie de autismo. Do fundo do coração, torço para que o que seja, se resolva da melhor forma possível.

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  13. onde está o marcos nunes? ele desaparece e aparece esse troll aí. absolutamente, não estou fazendo insinuações. apenas lamentando.

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    1. Imagine se estivesse...

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    2. O Marcos jamais faria uma coisa dessas, arbo. SoyGardel.

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    3. é claro q não faria. estou mesmo lamentando sua ausência, nunca mais o li...

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  14. Charlles, apesar de não comentar bastante, eu frequento o blog. Não comento mais porque tenho preguiça de provar que não sou um robô, e só o faço se sentir uma coceira na mente. Vejo que aquilo é um mal necessário (nem sabia que podiam comentar anonimamente). Não sei como o Ramiro achar ruim este conselho de ler, de se instruir mais, se aprofundar nas coisas sérias. Uma vez mandei sem aviso prévio um poema e um conto prum escritor até famoso na Bahia, que conheci entocado em seu sebo. A crítica foi devastadora, e ele me deu o mesmo conselho, além de me recomendou uns livros de técnica. Confesso que no momento me senti desconfortável, exposto. Hoje é um grande amigo. (Ainda estou nesta tentativa de me aprofundar). Um dos caras que ele me recomendou, nestes anos todos, foi o Tolentino. Ao ver o comentário de Matheus, me lembrei de um dos sonetos que mais gosto, do pouco que li dele. Veja se não vale a pena.

    Se passei dos cinqüenta e das três da manhã
    queimando maço atrás de maço; se me agarro
    desamparadamente ao último cigarro
    como Adão à serpente; se me tortura a vã
    obsessão da queda, o sabor da maçã,
    e ainda assim insisto em modular meu barro
    e fazer dele a gaita, ou a flauta de outro Pã;
    se largo tudo enfim e abro a janela e escarro
    entre a vaidade, a noite e o carro do vizinho,
    será talvez por isso mesmo: porque creio
    que tudo vai passar, mas o canto sozinho,
    se conseguir abrir a escuridão ao meio,
    há de salvar-me! O canto… Esse meu velho espinho
    sempre me fez sangrar, nunca disse a que veio.

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    1. Recomendado por vc e pelo Matheus, vou atrás do Tolentino. Nunca tinha sequer ouvido falar dele.

      A coisa mais valiosa que aprendi com a maturidade progressiva na escrita é que o segredo está na maestria alcançada sobre seus próprios erros, seus erros mais sagrados. Se vc for ver os grandes autores, a maioria não passaria nem na menção honrada em concursos literários: Faulkner, Proust, Mann, seriam vistos como péssimos escritores, escritores horríveis. Aconteceu isso com Pynchon e uma sucessão de outros, que daria um livro. Vejo esse aperfeiçoamento no cacoete em Javier Marías, para mim o mais fantástico romancista das últimas décadas. Seu mais prolixo romance, p. ex., "Seu rosto amanhã", teria suas primeiras páginas avaliadas como a pior literatura, se estivesse nas mãos de um amador. E no entanto, trata-se de JAVIER MARÍAS, e são umas das mais incríveis páginas da literatura moderna. O grande escritor é um maníaco, um excêntrico, um halterofilista incansável da posteridade. Mas, no campo prático, qual a ferramenta que possibilita que esses maníacos se encerrem na crença compartilhada de que são mestres?, o fato de que sabem de tudo, de que são muito eruditos, de que leram exaustivamente e são leitores profissionais imbatíveis. Para ser escritor, é imprescindível a alta cultura, o conhecimento ferrenho. A literatura não é menos importante que as ciências exatas. E sempre vão existir os posers, os cosméticos, os enganados, como existe mesmo na arte da sapataria.

      Ah. Não é o Marcos Nunes quem escreveu essas tolices infantis acima. Lamento que esse troll seja tão raso. A arte do insulto é uma das mais sublimes, e esse aí é só um anão constrangedor.

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    2. O Cristo não é
      um belo episódio
      da história ou da fé:

      nem o clavicórdio
      nos dedos da luz,
      nem o monocórdio

      chamado da Cruz.
      O crucificado
      chamado Jesus

      é o encontro marcado
      entre a solidão
      e o significado

      do teu coração:
      de um lado teu medo,
      teu ódio, teu não;

      do outro o segredo
      com seu cofre aberto,
      onde teu degredo,

      onde teu deserto,
      vão morrer, mas vão
      morrer muito perto
      da ressurreição.

      "O segredo". Do livro "As horas de Katharina".

      http://www.youtube.com/watch?v=tRn7THeX29k

      Gravação feita poucos dias antes de morrer.

      No começo de As Horas de Katharina, para situa-lo, encontramos:

      A suposta autora destas páginas, tivesse sido encarnada numa só pessoa física, teria nascido em Veneza, aos 11 de novembro de 1961, como Elizabeth Katharina Maria von Herzogenbuch e falecido aos 29 de outubro de 1927, no Convento das Carmelitas Descalças de Innsbruck, como Sóror Katharina da Anunciação e do Suor de Sangue. A não ser assim, poderia ser com certeza qualquer um desses inconfessos filhos bastardos que Deus ama e reclama. Como, por exemplo, um que outro hypocrite lectur ou no caso o inveterado autor, ou tradutor, deste Stundenbuch.

      64. Semelhanças

      Sei que não tenho nada
      a ver com a borboleta,
      mas sua sombra preta
      como eu, projetada

      da vidraça à almofada,
      nos aparenta... A seta
      de luz, a alfinetada
      que a trespassa e aquieta,

      desenha a criatura
      que vai morrer mais pura
      do que eu, e tão bela

      quanto nasceu. À altura
      da luz, junto à janela,
      sou como a sombra dela...


      "Nunca tinha sequer ouvido falar dele." Infelizmente pouquíssimos ouviram. Mas isso pode mudar...

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  15. Sobre as indagações do Luiz ante os conhecimentos do curitibano, encontrei isso NA NET:

    Entre os 13 e os 14 anos viveu no mosteiro de São Bento, em São Paulo, e entre uma aula e outra, aprendeu latim, francês e hebraico. E no mesmo reduto beneditino, por meio de D. João Mehlmann, (doutor das Sagradas Escrituras), se aprofundou nos autores gregos lidos diretamente no original e passava horas na biblioteca do Mosteiro. No Mosteiro de São Bento, teve os primeiros contatos com as chamadas “filosofias orientais”, segundo relata o jornalista e amigo Toninho Vaz, biógrafo do escritor. No mosteiro, também, estudou canto gregoriano, que considerava sua única formação musical.

    Dois anos com os tios e aprendeu tudo isso. Que mente superior! Mais quatro anos e virava Papa com uma encíclica em BRAILE e um novo Sermão das Araucárias. (bitter? No, BETTER!!1!!)

    É, acho que já tá tarde...

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  16. João Antonio Guerra15 de outubro de 2013 21:29

    Vem vindo a fama! Mais uns três desses trolls e abrirá em casa pacotes de livros da Penguin pynchoniana ou da Random House do velho Faulkner. Não entendi direito aquele escândalo todo; acho que o SoyGardel simplesmente é novo no blog ou nunca prestou atenção. Sou apaixonado pelas postagens do Bisnaga e do Avicenna, e também tenho tido problemas para baixar os discos.

    Do tantinho mirrado que li do Leminski, não percebi essa potência toda que você percebeu. Suspeito que, se ler mais dele, vou ver algo como o que há com Manoel de Barros: uma erudição escondida, quieta. Como Leminski, a maioria dos leitores do Manoel prefere ficar com sua caricatura; no caso do Manoel, os exageros rebaixam ele a um poeta de pelúcia, e quanto ao Leminski, bem, o Marcos Nunes ou o Luiz já comentou por aqui sobre os poetas de pochete, os tiozões juvenis com seus versos em barzinhos. Mas é claro que os dois são maiores do que essas caricaturas.

    Botar Leminski pau a pau com Rosa, mesmo que só no quesito erudito, me incomodou um pouquinho -- nem nenhum Bellow nem Borges nem Cortázar nem Burgess consegue se acomodar inabalavelmente ao lado do meu Rosa. Aliás, no meu crânio há um pódio, e três escritores trocando porradas por ele: o Mann e o Faulkner e o Rosa; é um pódio especial, com cinco plataformas, e Joyce e Borges só não estão brigando também porque são cegos e não encontraram o caminho. Do Mann li a Montanha Mágica e Doutor Fausto e Buddenbrooks, mais nada, e somente por isso que a derradeira luta é entre Rosa e Faulkner.

    Quando você leu Grande Sertão, fiquei esperando um texto, qualquer coisa, mas não chegou. Tenho certeza de que, se você for fundo na poesia do mineiro, vai encontrar um dos escritores mais injustiçados do século XX, e o mesmo serve para a obra de João Cabral e do Machado que o ensino escolar te negou; numa escala menor, serve também para Augusto dos Anjos, Boca do Inferno, Cecília e o próprio Manoel de Barros.

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    1. Esse seu comentário é uma graça. Vou só resvalar uma resposta, já que estou exausto e tenho que dormir (arrumando a casa, cuidando das crianças...).

      Devo mesmo um texto sobre Rosa.

      Temos muitas concordâncias de leituras.

      Conheço um candidato à vaga de juiz federal que lê de tudo. É um compulsivo. Tem 25 anos e leu todo Camus, Montaigne, etc. Tudo que lhe cai nas mãos ele lê, e seu objetivo é puramente o cargo de juiz federal. É extremamente erudito.

      Perfeitamente normal que Leminski, que tinha outras causas que a desse sujeito, também o fosse.

      Abraços.

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    2. João Antonio Guerra16 de outubro de 2013 19:03

      Pois é, a erudição não é um lugar tão longínquo assim; qualquer pessoa pode ser Peter Kien.

      No caso do Rosa, seu conhecimento não era de coisas antigas, mas dum Algo arcaico. É uma diferença talvez até nebulosa, mas é só comparar o Sertão do Rosa com o sertão de qualquer outro escritor. É o que eu sinto quando leio os contos da Tutaméia, que na minha cabeça é o maior livro que um brasileiro já escreveu.

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    3. Rosa fundia tantas coisas em seu livro que é o mais próximo a Joyce em termos de erudição que temos por aqui, e Joyce foi o maior de todos nesse quesito. A interpretação de Leminski sobre Finnegans Wake é muitíssimo interessante_ lembrando que Leminski escreveu um romance finnegansiano. Eu gostaria que ele tivesse desenvolvido mais o tema.

      Leminski é visto de modo pejorativo pela mesma questão que o Bolaño ressaltou sobre a nossa falta de romances de gênero: porque nossa literatura é atrasada. Leminski estaria no lugar de um Ginsberg, ou de um Vonnegut.

      Qualquer um pode ser um Ben Carson também. Lembrando outro poeta: entre a intensão e o gesto, cai a sombra.

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  17. A POESIA É SÉRIA, mas ri…
    by Ramiro Conceição
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    Nas mudanças, se perde e se ganha muita coisa… Mudei muito, consequentemente, perdi e ganhei… Contudo, na verdade, nunca se perde nem se ganha… Transforma-se…. Até a nova mudança quântica que se tornou banal… (mas vá lá decifrar qualquer uma das equações!…).
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    Estou a falar de mudanças e de coisas que se ganham e que se perdem porque, nesse post, lembraram de Bruno Tolentino, poeta que li e que tenho recordações associadas a uma excelente poesia; contudo, ele não me marcou a alma tal quais outros que numa dada época da vida também amei. Como normalmente dizem nesse atual brazil “a fila anda”: isso não quer dizer que o desprezo, simplesmente foi assim e ponto.
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    Em uma revista Bravo - de maio de 1998, perdida por mim, infelizmente, durante alguma mudança -, trazia na capa uma foto provocativa, em preto-e-branco, de Oswald de Andrade com um esparramado tomate vermelho no meio da cara. O tema central da supracitada era o modernismo. Vários articulistas foram convidados a escrever… e dentre eles, Tolentino.
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    O artigo de Bruno era uma crítica mordaz ao modernismo e, principalmente, centrou todas as baterias antiaéreas nas figuras de Oswald e Mário de Andrade. O argumento essencial de Tolentino era excelente: por que uma língua, que gerou Camões, Pessoa, Eça, Bandeira, Drummond e outros, teria limites e, portanto, precisaria do antropofagismo? Ainda mais: tal antropofagismo capitaneado por um poeta menor, Oswald.
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    Sem dúvida: uma língua leva séculos para ser amadurecida e pode ser considerada madura em função de seus filhotes, isto é, seus escritores concebidos e a conceber em seus fonemas pátrios e mátrios. Portanto, o Português era e - é uma língua plena; logo, nesse aspecto, Tolentino estava coberto de razão, em seu ensaio. Porém, o poeta se esqueceu de um pequeno detalhe: a língua e um ente vivo, consequentemente, em continua mutação.
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    Sem entrar aqui no contexto histórico de 1922, pois não há espaço e nem estou com tempo para uma dedicação a sério sobre tão complexo tema, poder-se-ia afirmar que, na semana de 22, as artes brasileiras se encontravam num estágio de estagnação: por exemplo, o critério para se designar um poema de “excelente” estava atrelado ao paradigma parnasiano (que, digo de passagem, gerou poemas geniais…). O pseudoeruditismo jurídico aprisionava o Português; o ideológico conceito de acúmulo de leitura de obras literárias como aval para ser considerado intelectual: como se a leitura fosse um acúmulo de capital, e não a forma, o método, a entrega, o abandono amoroso diante de um texto literário. Não nos devemos esquecer da FARSA cultural que se vivia (e que ainda se vive…) no Brasil: O RIDÍCULO DE ANDAR VESTIDO, POR EXEMPLO, NO CALOR DO RIO DE JANEIRO, COM TRAJES APROPRIADOS À QUALQUER CAPITAL EUROPÉIA. ERA RIDÍCULO! (como é ridículo, por exemplo, agora, uma excrescência cultural tal qual o Rock in Rio ou os jumentos colossais de Barretos, ou o halloween costumeiro em creches e/ou condomínios, ou black bloks invasores de reitorias…).
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    (continua…)

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  18. ( continuação...)
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    Foi contra tal abominação cultural que Oswald de Andrade se manifestou. O antropofagismo nunca foi um canibalismo entre selvagens, mas o contrário: isto é, foi um RITUAL CULTURAL em que diante duma informação estrangeira se cria uma outra nova, nativa; ou seja, um dialético processo cultural de intervenção à evolução cultural humana, quer dizer, indo além da cultura brasileira: a arte aborígene da Tasmânia tem o mesmo valor potencial dum parágrafo de Tolstoi (pode xingar e pular da cadeira, Charlles!!!!...).
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    Pois bem. Tais reflexões faltaram ao mencionado e excelente ensaio de Bruno Tolentino. Ainda mais, o referido poeta em seu artigo mostrou um vício bem típico do intelectual brasileiro: quando do debate de ideias contrárias: o importante não é a síntese, a elucidação grávida diante de uma nova contradição bem-vinda; não, o fundamental é essencialmente a DESTRUIÇÃO do oponente intelectual…
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    No mencionado artigo, semioticamente, foi colocada uma foto de Mário de Andrade ao piano, com uma expressão facial infeliz… Mas, sem dúvida, com a intenção de ridicularizar o criador de Macunaíma… (Tal recurso é ainda muito utilizado pelo PIG, ou seja: bate-se uma centena de fotos de alguém, com o objetivo de ridicularizá-lo, então, se escolhe à lupa “aquela” mais propícia ao escárnio público…). Lamentável, apesar da erudição e da qualidade de Bruno Tolentino.

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    1. Ramiro Conceição16 de outubro de 2013 14:01

      errata: a língua é... ( e não e...). Grato.

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    2. Ramiro Conceição16 de outubro de 2013 14:36

      PÁSCOA DAS CIGARRAS
      by Ramiro conceição
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      Acordei em meio a uma melopeia nativa
      de uma tribo do Xingu a dançar ao redor
      da cama onde eu, sem medo, dormia nu.
      Enquanto ocorria, levantei-me à alegria
      e com fé fiz um café e - às gargalhadas! -
      sambei no seio da casa do velho "eu" que se auto-olhava
      não acreditando em mim, ali, a cantarolar qual as cigarras.

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    3. Ramiro Conceição16 de outubro de 2013 15:34

      Errata:
      "...um dialético processo cultural de intervenção à evolução cultural..." Parece-me óbvio que aí está um exemplo típico de redundância... Por favor, me desculpem...

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    4. Ramiro Conceição16 de outubro de 2013 16:00

      Aos trajes de 22 ou àqueles
      do início do XXI... Fica isso:
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      MODA
      by Ramiro Conceição
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      TODAMODAÉBOSTA
      BOSTATODAMODAÉ
      ÉMODATODABOSTA
      MODATODABOSTAÉ
      TODABOSTAÉMODA
      TODAMODABOSTAÉ
      ÉMODABOSTATODA
      TODABOSTAMODAÉ
      ÉTODABOSTAMODA
      BOSTAMODATODAÉ
      ÉBOSTATODAMODA
      MODABOSTATODAÉ


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  19. Podia ter feito a forma da tipografia do verso num pequeno tolete de bosta

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    1. Ramiro Conceição16 de outubro de 2013 16:32

      Sim, poderia...

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    2. Hahahaha. Ramiro é uma figura. Ainda temos que nos conhecer. Te admiro muito cara, é por isso que me permito falar livremente com você. Sem frescuras.

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