quinta-feira, 28 de junho de 2012

Três Sombras, de Cyril Pedrosa



Há muito me distanciei do universo das histórias em quadrinhos. Acho-o importante; uma das portas para o interesse da leitura. Semana passada, por influência das teorias de Walter Benjamin sobre a apreciação intelectual da criança (ele incentiva os livros em preto e branco, que estimulam a imaginação, assim como a participação da criança na arte adulta, condenando a estupidificação em limitá-la aos palhacinhos coloridos e as muitas vezes cansativas canções infantis), li Três Sombras, de Cyril Pedrosa. Constatei duas verdades: uma vez leitor de quadrinhos, a recuperação do deslumbramento juvenil diante um gibi é instantâneo; e que os quadrinhos é um gênero literário infantil por fundamento e natureza, sendo que grande parte da sofisticação advinda dos títulos dos últimos vinte anos vem justamente da competência dos seus criadores em conseguir driblar essa característica. Um exemplo notável dessa segunda observação está em Maus, de Art Spiegelman, e Watchmen, de Alan Moore: por mais que seus temas sejam adultos e contundentes, é indissociável a emanação de fábula do primeiro, e as malhas colantes dos heróis do segundo o firmam no sério dogma de que, por mais que a filosofia seja boa, a raiz sempre será as usinas de entretenimento adolescente da Marvel e da DC Comics.

Três Sombras engana os desavisados sobre o quão apurado o estágio dos quadrinhos está na atualidade. Trata-se da história de um pai que é obrigado a fugir com seu filho, desde quando o menino se vê ameaçado por três sombras que, apesar de nunca se deixarem ver senão à distância, e não externalizarem nenhuma palavra, deixam claro que o idílio da infância havia se encerrado. A narrativa parte de um vilarejo bucólico, transita por aldeias medievais com as típicas casas de altos telhados recurvos, faz sua lição de apresentar navios naufragantes com seus capitães estoicos, e retorna ao ponto de origem não sem antes vislumbrar o inefável. E o leitor desgarrado do que subjaz de originalidade sob essas fórmulas normativas acaba por se ver perdido diante o deslumbramento que uma tal aparente simplicidade tem a oferecer. Eu tive que retornar a leitura três vezes, depois que fechado o volume, para ver se havia entendido mesmo a história. O final deixa o aperto no coração e a impressão de insuficiência  que temos diante um bom filme e um bom romance. Mais não seria inteligente dizer para a segurança do deleite dos prováveis futuros leitores.

13 comentários:

  1. Dê uma olhada no sombio "O Eternauta".

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    1. Não conhecia o Eternauta. Pesquisei e fiquei surpreendido! Coloquei na lista.

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    2. É pesado, custa caro, mas é como folhear um filme; não como ler a storyboard de um filme, mas ver o filme enquanto se folheia.

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    3. Dei uma olhadela na rede e descobri que o autor do Eternauta foi assassinado pela ditadura argentina. Desconhecia ambos, a obra e o autor.

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  3. Ah, as prateleiras de gibis dos meus tios quando eu era criança.

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    1. Rapaz, quanto nostalgia dão esses gibis! Lembro da minha extrema felicidade diante o Príncipe Valente, do Hal Foster.

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  4. Três sombras não poderiam ser o despertar da sexualidade, a vida adulta e a morte?

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    1. Eu pensei nisso também, Rachel. É um livrinho que te deixa pensando e pensando durante dias...

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  5. Já indiquei aqui uma vez, e ressalto a recomendação: leia Daytripper, de dois gêmeos brasileiros, Moon e Bá, e Asterios Polyp, de David Mazzucchelli.

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  6. Ah, sobre Três Sombras, além da própria narrativa, que é muito boa, tem desenhos espetaculares, de se parar de ler para admirá-los. Ciro Marcondes fez ema bela crítica: http://www.raiolaser.net/2011/08/as-sombras-sempre.html

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    1. Encomendei Asterios Polyp e estou na espera.

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