quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Toda Fera é Infinitamende Delicada

De dois anos para cá morreram 650 animais no zoológico de Goiânia. O zoo de Goiânia era um dos meus lugares preferidos. Ia lá com um livro, estendia uma toalha debaixo de um pé de jacarandá de frente à ilha dos macacos, e me envolvia com a leitura e a contemplação da paisagem. Muitos outros leitores desocupados seguiam o mesmo ritual. Era bom saber que a cidade em volta se compadecia de seus infortúnios cotidianos, e eu me regalava a simular a vida de um nobre culto do período do império. Fazia esses regalos durante minhas férias. O zoo de Goiânia situava-se numa das áreas nobres da cidade, cercado de prédios residenciais em que cada apartamento custa um milhão de reais. E tinha uma área verde inigualável, com árvores centenárias, muita água represada, muito ar, sol, silêncio. Chegava a ser melhor que minhas visitas aos cemitérios tradicionais, e quase tão bom quanto as descobertas surpreendentes de aprazíveis igrejinhas barrocas quando me lançava em minhas andanças pelo interior de Minas.

Hoje o zoo de Goiânia tem pouca diferença de um cemitério, mas sem a áurea de indagação resignada das impossibilidades de retorno que os cemitérios tem. O espaço está vazio, o mato seco dominando todo campo da visão, funcionários uniformizados com a cara de "para onde eles vão nos remanejar?". A incrível quantidade de animais mortos foi empalhada e destinada aos museus. Lembro agora, que da última vez em que estive lá, um pouco antes da notícia de que aquilo se trasformara em um campo de extermínio vazar para a imprensa, fiquei horas olhando o velho chimpanzé solitário, afundado no maior tédio em seu largo de cimento quatro metros abaixo do muro das visitas. Acenei para o velho, falei-lhe em voz alta para que me ouvisse. Ele, um dado momento, parou de remoer o galho que tinha nas mãos, e me estendeu um aceno cansado, por pura educação. Não precisava ser veterinário para saber que aquele abandono estava errado. Só a sensibilidade latente da angústia dava a real premonição de que o velho macaco representava uma sucessão de doenças do espírito e da carne que resultaria em um escândalo abafado. Pois os administradores do zoo de Goiânia são o tipo de raciocinadores que acreditam que os animais não tem espírito passível de sofrimento. Aliás, os administradores do zoo de Goiânia são raciocinadores que só possuem um único e bem estabelecido pensamento: que são agraciados em estarem naquela função, por serem apanágios diretos de políticos da prefeitura e do governo. Aquele olhar de desesperança e agressão regurgitada que se dirigia ao vazio_ nunca a mim, sequer teria dado pela minha presença se não o tivesse chamado várias vezes_ que o chimpanzé João tinha, não representava mais a esses administradores do que o modelo suficientemente coerente que tinham que oferecer, vez ou outra, para um público que justificava seus altos salários.

Dois anos. 650 animais mortos de causas desconhecidas. E o zoo de Goiânia só foi fechado há seis meses. E o diretor do zoo de Goiânia só foi afastado do cargo na interdição. Antes, durante esse período de chacina sincronizada, o diretor do zoo de Goiânia apareceu por várias vezes em órgãos da imprensa, de terno, a cara jovem protocolar e escorregadia, sendo chamado ora de Doutor, ora de Senhor. Nenhum jornalista foi mais contundente nas perguntas óbvias que o morno e absorto "a que o senhor atribui esses acidentes?". Um jornalista da TV Cultura chegou a trocar farpas no ar contra aqueles populares ignorantes que dirigiam suspeitas mais aventadas contra o diretor do zoo de Goiânia.

Toda fera é infinitamente delicada, escreveu Adorno em seu Dialética do Esclarecimento. A girafa cujos intestinos estouraram de salmonela. O lobo guará que morreu de tétano. O jaguar que morreu envenenado. O velho João que sucumbiu à enorme tristeza. O bizão que não resistiu ao cancro. As araras em massa intoxicadas pelo vírus. Todos infinitamente delicados e indefesos.

Os prédios em torno, altos apartamentos de luxo, não reportaram a indignação de nenhum morador, a testemunha ocasional dos crimes. Diante um montante de mortes, a imprensa de Goiás não tratou o caso com o peso que ele poderia ter. Foi mais um dos juvenis desmanzelos do Estado, essa criança faceira impossível com seus humores traquinas.

Há dois meses, na cidade de São Paulo, uma mulher foi assaltada dentro de uma delegacia. Nenhum dos policiais moveu um dedo para fazer alguma coisa em prol da mulher. A imprensa, mais uma vez, apenas reportou o fato, ordinariamente. Ontem, no blog do Milton, o Milton nos revelou que uma tal de Célia Ribeiro, jornalista do Zero Hora, mostrou a que veio em sua função perdida de formadora de opinião. Para ela é um absurdo que as funcionárias de um shopping escovem os dentes no mesmo banheirosreservado às donas distintas.

Assim afunda nosso humanismo, nossa inteligência, nossa representação, nossa capacidade de indignação. Cada animal morto no zoo de Goiânia é um prego a mais no caixão onde se deita o que antes nos distinguia como seres portadores de espírito. O olhar desviante do chimpanzé João nos define melhor agora, com sua infinita delicadeza.

12 comentários:

  1. Se fossem 650 cães e gatos, a reação teria sido outra...

    Uma amiga que adorava cães e gatos voltou da Índia (hesitei em escrever isso, porque parece que só cito coisas internacionais) e disse que foi lá que ela aprendeu a amar os animais. Porque aqui amamos só os domésticos. Lá, eles não podiam ver uma vaca, galinha ou qualquer outro bicho sem querer fazer um carinho. Realmente não faz sentido tratar tão bem cachorro e achar que um boi tem mais é que virar bife.

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  2. uma baleia encalhou no litoral aqui no rs. deu no terra, de no globo.com.
    mas não tinha ouvido ainda sobre esses 650 animais.

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  3. A mim parece uma espécie de crime do século, Rõmulo e Fernanda. A imprensa oficial, ou seja, a conveniada á Globo, á TV Cultura, etc., divergem quanto ao número real de mortos. Uns dizem 150, outros 250. Um amigo, que era um dos veterinários que dava esporádicas consultas ao zoológico, me informara a colossal cifra dos 650 mortos. A princípio achei ser exagero, até ontem, quando num debate dos candidatos a governador, a representante do PSOL anunciou o mesmo número.

    O que mais me choca, além do valor da vida, é a surrealística alienação da população. Minha avó, quando abandonei o jornalismo para me dedicar á veterinária, me dizia que aumentavam-se minhas chances de me dar bem. "As pessoas deixam de salvar um ser humano, mas fazem tudo para seus animais." Será que essa indiferença é um retrato da dessensibilização moderna? Me assusta pensar isso, que a pércepção natural do carinho e da importãncia do outro_ e dos animais_ tenha virado um postura de fachada, respostas a questionários e não um sentimento profundo. A imprensa, onde lotam-se cada vez mais os apadrinhados do poder, deixou de ser o quarto poder, para ser um império do sil~encio e do desvio da atenção.

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  4. Vou indicar esse texto para o Opinião Pública do Sul21.

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  5. Faria bem que outros Estados soubessem. Fico pensando o que a Bárbara acharia disso.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. JOÕES E MARIAS
    by Ramiro Conceição

    Após a leitura de teu texto, amigo Charlles, apareceu em mim uma pergunta: “Quem é o irracional? Certamente, não é o macaco João!

    Quando tropeço em relatos semelhantes ao teu, cresce em mim uma impotência, uma falta de tesão com a nossa espécie. Dá uma vontade de entregar os pontos e gritar aos quatro ventos: “Tá legal, vocês ganharam!”.

    Mas a seguir alguma coisa, que não sei bem o que é, diz bem baixinho…

    “Não! Continue porque, se existir alguma verdade em tudo isso, ela só pode estar do nosso lado!”.

    “Confia, porque você sabe que a luz gerada no coração do Sol leva 200 000 anos até chegar à sua superfície, porém 8 minutos para chegar até aqui”.

    “Você sabe que o Sol ainda tem bilhões de anos, pois não consumiu sequer 50% do Hidrogênio contido em si”.

    “Você sabe que tudo daqui, não foi gerado aqui e, portanto, somos uma transição para algo muito além de nós, que desconhecemos.”

    “Você sabe que somos palavras, mas que, certamente, não foram, não são e nem serão as únicas; pois o Universo demonstrou, demonstra e demonstrará, no tempo, que nunca foi, é ou será um bando de burros, religiosos ou não, a carregar estrelas!”

    Mesmo desvalorizando a Vida, oriunda da fusão de estrelas, creio que, ainda, por absurdo que pareça, compreenderemos o Sagrado desconhecido que, por total incompetência de nossa linguagem, O denominamos de AMOR (ou DEUS). Isso são coisas já, lá, longe, discutidas em profundidade por Spinoza, em sua (nossa) ética…

    Sim, Charlles, o que viste, no zoo de Goiânia, foi um pedaço do Olhar do AMOR que, por nossa insensatez, morreu abandonado dentro da alma IMENSA do macaco João.

    Quantos Joões e Marias morreram, morrem e morrerão desconsolados neste “nosso” dito Mundo, até aqui maldito?

    Portanto, eu acuso a nossa estupidez como responsável por nossa infelicidade!

    Por isso busco a lucidez, dentro do nosso total obscuro, mas que nos levará ao ápice da nossa Liberdade, isto é, a geração de seres capazes do utópico - livre arbítrio!
    Assim, no fim, qualquer que seja a semântica de tal palavra, seremos seres pacíficos, núcleos em crescimento ao processo de CONTINUIDADE À…

    IMAGINAÇÃO!

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  9. LOGO, NA NOVA ÉTICA A SER PAULATINAMENTE CRIADA – E QUE NA QUAL ACREDITO - O “BEM” FOI, É E SERÁ TUDO QUE AMOU, AMA E AMARÁ (E PERMITIU, PERMITE E PERMITIRÁ!) A CONTINUIDADE DA ILUMINAÇÃO DA VIDA; E O “MAL”, FOI, É E SERÁ, LITERALMENTE, O CONTRÁRIO.
    SIM, MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES, SOU UM SER BIPOLAR NESTE MUNDO DE SERES BIPOLARES QUE PENSAM, SENTEM E CONSTROEM TUDO BIPORLAMENTE…
    NUM OUTRO E NOVO TEMPO, SEREI UM SER EM SERES MULTIPOLARES QUANDO DAQUELES EFETIVOS CORAÇÕES MULTIPOLARES DE OUTRAS DIMENSÕES.
    SIM, AGORA DEVO CALAR-ME! PORQUE TUDO ISSO É UM SONHO!
    MAS QUAL É O CRIME, EM SONHAR…?!

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  10. Obrigado mais uma vez por suas contribuições, Ramiro. Nossa forma de pensar é muito semelhante. Estou sem tempo agora, mas voc~e sabe, pela nossa intimidade nesse tempo todo através de posts e comments, que eu, apesar de TUDO, ainda tenho uma fé resquicial no homem.

    (quem apagou seus comentários acima???)

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  11. Eu mesmo, Charlles.
    Após enviar um comentário, aparece uma "lixeirinha" que me dá a oportunidade de corriguir, porventura, algum erro. Desta maneira, se evita aquela aporrinhção das erratas. Mesmo assim cometi dois erros na correção 1) “MAL”, FOI,(separei o sujeito do verbo); 2)a geração(faltou a crase "à geração".

    Deixei assim mesmo: já estava tarde e cansadíssimo eu estava.

    Outra coisa, Charlles, o "horário" que aparece nos comentários está maluquin, maluquin...

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