sexta-feira, 29 de maio de 2015

Fome, de Knut Hamsun









Creio que nunca fiz isso nestes cinco anos de blog, nunca recomendei que os frequentadores desse espaço comprassem determinado livro, por mais que eu demonstre meu amor por alguns autores e algumas obras. Desmoderadamente, agora: se eu fosse vocês, compraria imediatamente a nova edição de Fome, de Knut Hamsun. Não vou falar nada absolutamente sobre ele, apenas que é uma das experiências mais sublimes de leitura que já tive. A capa parece de livro espírita, mas a tradução é válida pelas mãos do Drummond. Vai passar batido pela imprensa cultural, por ser de uma editora desconhecida e por ser de um autor que nada tem a ver com as tendências modernas da escrita cool institucionalizada, e provavelmente ninguém mais vai falar dele. Para conter um pouquinho só dessa enorme injustiça, aqui vai literalmente meu conselho: deixem tudo que estão fazendo, e vão fixar esse livro dentro de um oásis de eternidade em suas vidas.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Maravilhamento


Tive que sair de férias por uma semana com as meninas. A Júlia atacou de Blues, do Robert Crumb, claro que inventando deliciosas histórias no lugar do texto que ainda não sabe ler. Eu, além desse volume, comprei no aeroporto o Submissão, do Houellebecq, uma reedição de surpresa bem vinda de Fome, do Knut Hamsun, e O talentoso Ripley, da Patricia Highsmith. Eu parecia essas pessoas que atacam o supermercado antes de um feriado prolongado, como se esperando uma hecatombe de falta de alimentos. Eu previa uma amolação gigantesca, um tédio inumano, e dias de 36 horas na beira da praia. A Dani falou que se eu comprasse mais livros em cada aeroporto, daria excesso de bagagens e eu os perderia todos. Fiquei só nestes. Li a metade do Houellebecq; bem prazeroso. Hoje vi uma entrevista dele pela Globo News, ele dizendo que, pela manhã, assistindo a um documentário sobre a Teoria das cordas, foi um desses momentos diários em que ele acredita em deus. É tudo bem organizado e bem feito demais, disse. É como eu digo, a literatura é um caminho, uma vela acesa no meio das trevas (citando Faulkner), mas não é para se levar muito a sério. Aliás, nada é para se levar a sério. Talvez, no meio da experiência religiosa que eu tive na última quarta-feira, só se pode levar a sério a praia maravilhosa, inesperadamente deserta, que eu vi. Surpreendi a todos que estavam comigo ao fazê-los ouvir que eu seria perfeitamente capaz de deixar tudo e morar ali, e eu estava sendo sincero. Senti como Whitman diante as estrelas, eu esqueci de tudo diante aquele mar e aquela noite infinita. Eu quis ficar ali para sempre. Perguntei à Dani que horas eram, temendo que a madrugada estivesse próxima fazendo que tivéssemos que voltar logo para o hotel, mas ela disse, chocada, que eram 5 e meia da tarde. Como a vulgaridade é uma das constâncias físicas infalíveis, no outro dia a mesma praia estava repleta de pessoas, as mais variadas possíveis, com cadeiras e guarda-sóis, pagando altíssimos custos pela mais irrisória ninharia, nesse Brasil lamentável de extorsão que custa mais caro que uma viajem a Paris. Encontrei outro turista, do Paraná, também indignado: em Nova York, ele pagava um real por um sorvete; na praia, o mesmo sorvete era 10 reais. Eu me abstive de criticar, teimando em tentar reviver a visão dos primeiros deportadores que chegaram àquela praia, antes da vulgaridade, antes da ganância desesperada. No tour que fizemos, era inegável que a crítica voltasse com tudo. As praias vistas na mais distante ponta de areia, naquela tarde redencionista, de perto estavam tomadas de resorts e hotéis de luxo suntuoso. As partes ainda prevalecentes de vegetação natural, estavam aos poucos sendo ocupadas por esqueletos de construções, com os tantos pedreiros-formigas queimando em um calor de 40 graus. Em um muro de metal provisório, que limitava uma dessas construções, alguém escreveu a frase "Mais natureza, menos concreto". Não nego que foi muito bom, assim como não nego que foi pavorosa as tantas viagens de avião. Fui uma vez para a Austrália com meu pai, mas a incipiência de meus dez anos me poupou do medo. Mas dessa vez, o pavor tomou conta de mim em silêncio, e foi tão mais terrível pela certeza que eu tinha de que todos ali naquele cano ao deus dará fingiam não se importar com a presença nítida da morte escorada na ponta balouçante das asas. Ao chegarmos em casa, eu disse que não viajaremos de avião pelo menos pelos próximos 4 anos, quando então iremos à Escócia e à Irlanda para o Bloom Day.

Houellebecq foi uma boa companhia no quarto do hotel, com o ar-condicionado ao máximo.

domingo, 17 de maio de 2015

Notas espontâneas, apressadas e irresponsáveis sobre Cachorros de palha e um filme de Woody Allen



Um livro importante, desses que seria bom se as pessoas lessem. Não traz nada de novo. Quase metade é puro exercício excepcional de retórica, o que não passa, trocando em miúdos, de retórica. A outra metade é um estudo mais contundente sobre a obtusidade criminosa e suicida da humanidade. O que mais assusta é que percebo que já se passou o tempo em que os livros terríveis, por mais terríveis que fossem, tinham o consolo de falarem de outro tempo, de um futuro a ser herdado para uns cinquenta a cem anos. Os livros terríveis de hoje falam de tempos terríveis a serem enfrentados agora. E o que Gray fala aqui são de problemas à primeira vista incompatíveis demais em seus gigantismos com a miudeza estúpida do homem. É tão assustador e premente quanto Colapso, de Jared Diamond, embora não ofereça a esperança tímida de Diamond. Para Gray, a julgar por este seu livro, a humanidade construiu um labirinto inescapável em que a extinção é fato a ser consumado. Lembro do curso de História, em que se falava que áreas de estudo como a micro-história, a história das mentalidades e a história oral serviram a tirar o foco da narrativa dos heróis e reis para o homem comum. E agora, todos os livros terríveis só falam de homens comuns. Há uma semana um amigo me disse sobre uma pesquisa que assinala que a era do livro desenvolveu mais inteligência nos homens, e que a era da internet afunda o homem em uma progressiva burrice. Eu percebo isso, de forma assustadora, em meu cotidiano. Esses dias estava ouvindo um colega meu dizer que, se fosse possível, se ele tivesse uma propriedade que valesse um milhão, ele a penhoraria e sumiria com esse milhão. O dito cujo é formado em geografia. Eu o desconcertei com o raciocínio óbvio de que, se ele tivesse uma propriedade no valor de um milhão, um banco a avaliaria por uma tabela de valores bem mais baixo, para depois oferecer de 100 mil a 200 mil de penhora. Constato essa estupidez por todos os lados, parece uma epidemia. Eu vejo claramente que os seres humanos estão cada vez mais estúpidos. Já disse aqui e torno a repetir o quanto de pessoas vem me mostrar um vídeo em seu celular, recebido pelo whatsapp, cujo conteúdo é constrangedoramente infantiloide. E o gosto estético! Ainda me recordo quando, um conhecido meu estando de carona comigo, ao me ver parando num sebo para comprar os três volumes de José e seus irmãos, de Thomas Mann, me dizer, querendo piedosamente me salvar do valor monetário para ele absurdamente alto dos livros: "não faça isso, eu sei dessa história e conto ela para você". O quanto besteiras que deveriam servir apenas a uma efêmera curiosidade de consumo, como Game of Thrones, são tidas como clássicos imediatos, revoluções da narrativa e revoluções estéticas, ainda que não passem do mais do mesmo recalibrado com sexo brutal e encheção de linguiça entediante, referências truncadas à história e filosofia com a profundidade das pesquisas no Google_ e, apesar da superficialidade, ou por causa dela, são tidas como cultura sofisticada. A esperança abortada que se poderia ter do livro de John Gray é que, afinal, todos os terríveis vaticínios já sentidos na pele apontados por ele se referem à bestialidade do homem comum. O homem do qual ele traça um dos mais impactantes retratos: o homo rudens, ultra-violento, ultra-egolátrico e vaidoso, que vive de moralismos sintéticos auto-beneficentes e hipocrisias que cursam atestados pessoais de encontros com a Verdade. É muito importante ler esse livro de Gray, ainda que o ser bestial do qual ele trata acharia que tal livro é uma súmula de elogios à sua supremacia de sobrevivente desapiedado, sentado em seu escritório ou em seu gabinete ou em seu consultório ou detrás da mesa da sala de diretoria de sua empresa. Confesso que meu círculo de amigos se restringiu bastante. Não me sinto superior, me sinto esclarecido. O homem esclarecido, o homem culto, jamais se sentirá superior. Muito pelo contrário, ainda que eu nunca abandonaria o caminho dos livros se em um retrocesso alternativo visse que eu seria alguém muito mais feliz e realizado se abstivesse da leitura. O homem esclarecido não cai na balela da procura pela felicidade. Dentro de valores comparativos, eu sou um homem esclarecido, o que pelo baixo nível geral não se trata enfim de uma conquista muito grandiosa. A sorte minha é que eu sou descansadamente feliz na solidão. Um dia desses veio aqui em casa um de meus poucos verdadeiros grandes amigos, um historiador cuja providência impôs a distância de mil quilômetros entre nós, agora que ele é chefe do departamento de cultura de outro estado, de forma que nossas conversas longas e agradabilíssimas às cinco da tarde entremeadas na degustação da camomila ficaram resumidas a uma vez a cada dois meses, quando ele pega seu carro e vem passar alguns dias aqui na casa de seus pais. (Esse amigo pegou a moto e atravessou trezentos quilômetros de puro gesto de amizade para assistir a meu casamento, há 5 anos.) Nesse dia em que ele veio, ele se confessou tonto de solidão. Ele disse que estava sozinho em sua casa, e teve que se sentar no sofá pois sentia que as forças se lhe esvaiam pela pressão de dias inteiros sem falar com ninguém. Ele também se dá bem com a solidão, por isso estranhei que me confessasse isso. Eu também não sei, se não fosse minha esposa e filhos, eu teria me mandado, não estaria aqui em uma casa estabelecida, nem sei o que seria de mim. A família me ensinou que se deve suportar o nível paupérrimo a que a grande maioria das pessoas se limita voluntariamente, e procurar com veemência fazer com que seus filhos se tornem cultos por sua vez e esclarecidos para se deleitarem com o segredo de que são mais que números a serviço de um jogo. Ele me deu um livro do Braudel, e eu lhe dei o Notas do Subsolo. Ele me ligou dizendo que acabara de ler Cem anos de solidão, e estava extasiado, e agora entendia porque eu insistia tanto que ele lesse o Subsolo, estando já na metade dele. A pobreza compulsória de espírito da humanidade aponta para um futuro terrível, mas temos que manter a esperança.

Eu estou com esse livro de Gray na cabeça desde que o li no começo da semana, em dois dias. É um livro de um negror violento, mas, ao mesmo tempo, libertador. E hoje de manhã, enquanto a turma dormia (manhã fria), assisto o filme do Woody Allen que botei para gravar. Certa vez eu teci uma diatribe falando mal de Allen, mas é pura mentira. Eu adoro Woody Allen_ a adoro um tanto mais estranhamente seus filmes medianos. O de hoje foi um que nem sequer sabia que existia: Tudo pode dar certo. Um filme mediano, mas absolutamente encantador para mim. Talvez os que o viram vão pensar: o Charlles virou um sentimental de gosto decadente mesmo, ou coisa que o valha. O filme responde ao livro de Gray, o que talvez possa até ter sido intencional da parte de Allen (Cachorros é de 2002, Tudo pode dar certo de 2009). O filme trata sobre um ex-professor de física, altamente inteligente, que tentou o suicídio após a esposa lhe deixar, e que agora mora em uma espécie de sótão despojado, sozinho, cultivando uma visão niilista sobre a existência. O ator é fenomenal_ um dos poucos filmes que não traz Allen no cast do elenco_, e a gente é levado a ver Allen nele. Um certo dia, voltando de uma conversa de bar com os amigos, o herói se depara com uma garota que fugira de casa aportada na escada de seu apartamento. Ele a recebe em casa, e não existem duas pessoas menos condizentes uma com a outra. Ele é um loquaz misantropo com réstias de exuberância simpática que beira os 60 anos, ela uma garota recém saída da menoridade com nenhuma ideia substancial na cabeça e bastante ingênua. Os dois acabam se casando. O filme tem aquele didatismo incorrigível de Allen, cheio de arestas cinzeladas bem redondinhas (que funcionam sempre por Allen ser astuto o suficiente para justificar a falha artística na leveza de mostrar continuamente que não se leva a sério), e os diálogos mantem o ponto forte de Allen. Tá, tá, tá. Vamos em frente antes que eu me perca ainda mais. A mãe da garota aparece no apartamento; é uma mulher tipicamente WASP, branca e exsudando moralismos religiosos enraivecidos e descerebrados, que desmaia ao ver que a filha se casou com um velho ranzinza. Lá pelo final do filme, aparece o pai da garota, o marido exímio modelo republicano, sócio do Clube do Tiro, macho dominante e da mesma forma exsudando domínio sobre um deus cristão servil a seus propósitos ascensionistas. E aqui vai um spoiler filho da puta, ou um spoiler, filho da puta. A mãe caipira infinitamente limitada da garota é descoberta por um dos amigos do herói, e se torna uma talentosa fotógrafa; o pai caipira infinitamente limitado da garota assume sua homossexualidade em um bar, e se casa com outro homem. Essa é a resposta de Allen para Gray, e é justamente a resposta que Gray intui e quer ouvir de um leitor atento. Allen diz que a salvação para a humanidade é o homem deixar de ser comum. A certa altura, a garota simplória que se casa com o professor gênio da física o critica pela primeira vez, dizendo que ele tinha que deixar de ser ranzinza, tal qual uma criança emburrada, e ver que as pessoas não são má, apenas tem medo. O professor fica embasbacado e, na mesma diretriz sincera que o destaca, diz admirado que jamais esperava uma avaliação tão inteligente vinda de uma cabecinha tão fútil. Está aí, pensei. Allen em seu didatismo, em sua redondez límpida, atinge uma profundidade única em suas formas de concisão rendidas às exigências de atendimento às massas da indústria cinematográfica americana. Gray fala dos homens comuns, que, infelizmente, se tornam ainda mais comuns graças à tecnologia atender estritamente ao comércio. O homem comum que, finalmente, no cúmulo de milhares de anos de história cultural, tem toda a grande música, a grande literatura, o grande conhecimento substancial, ao alcance de um clique, como se diz, de graça, mas sua simploriedade visceral torna toda essa fonte de esclarecimento inacessível, optando pelo escatologismo da merda estúpida do zapzap. Os personagens desse filme de Allen se tornam livres, se revelam, perdem o medo, são paridos em plena maturidade quando o destino ou as convenções do bom roteiro os exorcizam e os fazem deixar de ser homens e mulheres comuns. Eles passam a usar o cérebro e pensar não por clichês e pelo titerismo dos inúmeros poderes instituídos da alienação e do comportamento de rebanho.

domingo, 3 de maio de 2015

Em outro lugar



A verdade para Tarkóvski nunca é um fim alcançável, uma possibilidade de satisfação consciente que permita uma harmonia mediadora entre o tempo em que vivem os personagens e o tempo do mundo que os cercam. A verdade para Tarkóvski é sempre um sopro incognoscível, presciente, cuja grandeza alienígena não se presta sequer à intuição da loucura; está além e em volta de tudo mas a uma distância contraditória que é ao mesmo tempo friamente indiferente e gestativamente vigilante; sua efemeridade insuportável faz com que os heróis tarkovskianos que existem para a tentativa obsessiva de alcançá-la procurem ficar de frente para onde sentem que sua força emana, o que, em decorrência, faz com que eles não sejam mais deste mundo, abdiquem de compartilhar a velocidade do dia. Por isso, diante o inominável inexequível, os personagens de Tarkóvski são apresentados como paisagens internas, são largos panoramas desérticos, imensos silêncios, uma fremente e budística imobilidade, e assim sabemos quais os materiais de uma angústia cósmica compõem seus puros mobiliários espirituais, podemos viver em eterna lembrança retardatária em suas companhias dissipadas por não conseguirmos mais retirarmos de nós aquelas arquiteturas descomunalmente vazias e absurdamente belas. 

Assim, em Nostalgia, o herói exilado na Itália é uma pradaria russa em que vivem em eterna e inapreensível felicidade a família que deixou para sempre, e uma catedral inacabada com colunas magníficas que sobrepõe ao primeiro ambiente; o professor louco, que mantinha em cárcere privado a esposa e os filhos para protegê-los da fúria do mundo, é uma casa escura e em ruínas, com infinitas goteiras, úmida com água represada por toda parte, com uma porta inútil que abre para o mesmo lugar no meio da sala, e também uma praça na cidade onde ele prega a revolução do alto de um andaime para uma multidão congelada e sem vida. Mesmo os personagens secundários são vestígios de uma partida, a importância que suas simploriedades limitadas revelam em estarem apenas na materialidade do presente é carregada de uma falibilidade fóssil, pois os vemos no continuum temporal em que existiram e desapareceram para sempre, são fímbrias da lembrança, às vezes fagulhas de luz veranica constrangedoramente felizes; é o caso da belíssima mulher que acompanha o herói de Nostalgia, para a qual suas investidas se batem contra a total abstração e desinteresse deste, sua total indiferença às jogatinas sexuais dessa rasa faixa da realidade. Vemos a beleza saudável, plena, exsudante dessa mulher de Botticelli, sua juventude clamorosa, e por um momento pensamos no peso da perda de possibilidades lenitivas que poderia recair sobre o herói; mas então a mulher de Botticelli aparece longamente, o foco em seu rosto angelical cuja tristeza da rejeição é mais um acréscimo à armadilha, e vemos a deterioração acontecendo em sua lentidão irreversível; vemos uma papada incipiente e a ressequidão da pele, as marcas feitas pelo efeito colateral da corrente de tantos pequenos e acumuláveis sofrimentos de se optar em viver no pragmatismo degradante dessa terra; vemos os hormônios e a química intranscedente agindo em seu poder inexorável que corrói sem piedade a lâmina fina da efemeridade encantatória. Tanto que essa mulher, quando desiste com furiosa zombaria do herói, retorna à sua paisagem interna, mostrada em um escritório de alguma repartição pueril, em que um gordo homem de terno sentado a uma mesa passa para um outro burocrata emaciado pela corrupção um maço de dinheiro.

Os ambientes dos filmes de Tarkóvski tem sempre paredes calcinadas, um ar sépia devastador que ressalta a solidão, como se isso tudo fosse um dos efeitos desse sopro salino, radioativo, da verdade. E o impacto é que essa verdade inaudita consegue ser passada para o espectador, no modo como Tarkóvski divide a impossibilidade efetiva de sequer podermos ver os contornos das sombras que ela provoca.

Postagem original aqui.

Neste domingo desterrado do infinito


quarta-feira, 22 de abril de 2015

O Rui está no quarto



Quem fez com que o namoro entre mim e minha esposa se firmasse foi ele. Nunca foi nenhum segredo. E foi dele o abraço mais gostoso que tive na vida. Os abraços da minha filha, que são os definitivamente mais gostosos, são determinismos irretocáveis. O dele foi um supetão, um abraço-afronta, coroado desde o início pelo marco assinalado em que o vínculo que tínhamos se desfaria e ele e eu seguiríamos, cada qual, o seu caminho, o que torna em retrospecto esse abraço tão doloroso. Ele fez onze anos semana passada, e é um garoto assolado pela tristeza. Minha esposa telefonou para ele para lhe dar parabéns, e sua voz apática, introjectada, agradeceu, como se ele falasse de uma terra muito distante e a ligação estivesse péssima. Como se ele falasse de uma região ártica subzero, e seu pescoço estivesse em volta de um cachecol grosso que amortecia a voz. Eu não falei com ele. Eu já não tento esconder de mim mesmo que eu desisti dele. A Dani desligou, se sentou ao meu lado no sofá e disse, com o olhar momentaneamente tomado por aquela antiga preocupação que perdeu seu caráter genuíno e inquisidor porque, enfim, não nos diz respeito: ela falou: "minha mãe tem que levar o Rui a um psicanalista. Ele está cada vez pior." Eu senti a latência de um sentimento definhado, por um segundo pensei com pesar no assunto, e esqueci. A Dani falou que desde que ele perdeu o avô, não sai do quarto. Trancado no quarto o dia inteiro, sem computador, sem livros, em silêncio. É notório que ele foi tomado por uma doença do afastamento que tem como sinal o afastamento inconsciente de todas as pessoas que lhe estão em volta. Todos vão se afastando dele sem notar, não vão mais se importando, pensam nele com uma efêmera empatia estatística, ele deixa de ser alguém para ser um sujeito gramatical em uma frase meramente evocativa, "o Rui está no quarto". Sua doença contagia todos com a insensibilidade a seu respeito. Tanto pior que sua infância esteja acabando, e tanto pior que seu corpo resolvera crescer a tal ponto em que ficou alto demais e com a coluna arqueada para a frente. Um sujeito triste e feio, que a graça da infância o abandonou sem misericórdia. A última vez que o vi, no aniversário da minha filha, no salão de festas, meu cunhado que mora nos fundos da casa onde o Rui mora com a avó me disse, com intenção não de todo humorista: "sabe aqueles garotos que um certo dia resolvem entrar armados na escola e fazer uma chacina? Pois o Rui parece que a qualquer momento vai fazer isso." Eu olhei para o Rui encolhido sobre si mesmo no nosso lado na cadeira, e não achei a mínima graça. Ele parecia mesmo.

Quando conheci a Dani, o Rui, filho da irmã dela, não tinha um ano. Era arisco e sorumbático demais para um bebê. Tinha a cabeça grande, eu chamava ele de cabeçudo. Ele tinha pavor de mim. E eu o atormentava sadicamente lhe fazendo correr quando eu chegava na casa dele. Eu sabia que ele estava na sala, nas pernas da avó, e eu pulava para dentro com um grito, e era compensador ver o pavor na cara dele. O pavor verdadeiro da criatura que chegou na Terra por agora, o horror puro. Ele foi perdendo o medo aos poucos, sabendo que, enfim, ele tinha um escalão de importância biológica no sistema da casa, e se ninguém compartilhava o terror que ele sentia, era porque eu não representava perigo. Ele parou de se esconder e de correr, só se amuava no colo do avô e da avó e não dava a mínima para mim. Ele fazia suas coisas cartoriais, suas obrigações de exploração infantil, sem se importar o pouco que fosse se eu o estivesse olhando. Seu pai abandonara a ele, à sua mãe, e à sua irmã três anos mais velha. Na verdade, eles é que fugiram da casa do pai, porque o pai batia muito na mãe. Lembro que ele deu sinais de que me aprovava, sinais típicos que um cãozinho dá quando a frequência que uma pessoa lhe visita até o portão da casa atinge um determinado grau que o deixa de ser um estranho, ainda que não um real conhecido, quando eu e a Dani o levamos à biblioteca da faculdade à noite e o colocamos em cima da mesa, e ele ficou pegando os livros e me entregando, fazendo seus primeiros gorjeios. Uma vez estávamos na casa de um amigo meu, e calhou dele se ver em meu colo, seus olhos me olhando como um inimigo que teve sua memória de uma antiga afronta desbotada pelo tempo olha para aquele que produziu negativamente a lembrança, não pela auto-proteção de um gesto de imprevidente capitulação, mas pela preocupação advinda do ato social de pensar se o outro também se lembra, se cabe ali a percepção vexaminosa de uma distração tão leviana. Outro dia eu o levei para minha casa, com a Dani, e lhe dei um grande brigadeiro, um brigadeiro enorme que dava em tamanho suas duas mãos. Ele não comeu, não aceitou. Ficou circunavegando o doce com o olhar mas me encarava com uma seriedade diplomática de quem desconhece os artifícios por detrás de uma compra arquitetada em oferenda. Eu lhe dizia: "Ruizinho, pra que essa defesa toda, meu chapa. Coma logo o brigadeiro, vai. Mete a boca aí." Eu entrava pela sala, fingindo que o deixava na porta com a Dani, ele averiguava se eu não estava vendo, e arrancava nacos de chocolate. Quando eu voltava, a Dani o consolava simulando para mim que ela que comera.

É a mais pura verdade: a primeira palavra que ele falou foi Charlles. Saiu pulando em uma perna só gritando Chali, Chali, Chali. Quando eu me levantava e me despedia de todos da casa, ele corria, apanhava a bola, e vinha me dizer do seu jeito para que eu ficasse. Bola, Chali! Bola! Eu o levava para a praça a ficávamos lá, sentados, vendo as pessoas, ele olhando as plantas e aventurando-se fora do meu círculo de proteção e voltando correndo. Todas as noites, eu o erguia nos braços e fazia a sombra com a mão de uma boca devoradora que vinha comer seu dedo espichado subindo o muro, e ele caía na gargalhada. Outra noite, ele com o boné virado para trás e vestido com um macacão de bad-boy, eu menti que queimava a língua com o café, e ele soltava deliciosas e sonoras gargalhadas. Todo mundo ria com as gargalhadas e era algo de uma beleza impressionante. Ele viajara com a mãe e os avós, por dois meses. Eu levava a Dani para casa à pé, no dia em que ele chegara, e eu dizia para a Dani: "É certeza que o Rui não se lembra mais de mim. A tal viagem me colocou em segundo plano." Eu acabava de dizer isso, virando a esquina, e ele estava andando junto à avó, duas ruas abaixo. Ele tinha três anos, e sincronizadamente, assim que eu terminara a frase, ele gritou o meu nome e saiu correndo em minha direção. Eu saí desesperado em sua direção, assim como a Dani e a avó, temerosos que algum carro passasse pela rua. Foi uma cena de cinema, para se encenar em uma praia, nós dois indo em direção um para o outro, e ao nos aproximarmos, ele se lançando em meus braços. Foi o abraço mais delicioso da minha vida. Ele vestia um moletom, e me apertou com tanta força que fiquei sufocado. E não parava de repetir, com a voz cheia de amor: "Charlles. Charlles." Depois de minutos em que nos sufocávamos de beijos e abraços, ele passou a pesar em meus braços, e quando eu tentava colocá-lo no chão, ele cruzava as pernas para me impedir.

Depois eles se mudaram para outra cidade, a Dani foi junto. Eu ia às vezes vê-lo, ele se sentava em meu colo à mesa do almoço e dizia que eu era dele. Depois eu passei a ir com menos frequência, até que deixei de ir de uma vez. Casei-me com a Dani e ele, assim, perdeu também a tia. Ano passado o avô, que era o ser que ele mais amava no mundo, morreu atropelado por um carro, e ele se trancou no quarto. Sua mãe também ficou muito solitária com a morte do pai e tentou suicídio, interrompido pela lavagem estomacal que os médicos lhe fizeram às pressas. O pai do Rui, que é viciado em drogas, está preso há dois anos, acusado de ter invadido uma casa e estuprado uma menina de 12 anos. A vida não tem sido boa nem um pouco para ele. Ele já veio muitas vezes aqui em casa, mas nosso elo se perdeu. É uma das coisas da qual mais lamento. Lamento ter deixado que ele tivesse se mudado de cidade, ainda que não sei ao certo o que deveria ter feito para impedir isso: casado logo com a Dani e ter criado ele? Eu bem poderia ter feito isso, pois eu o amava profundamente. Mas eu tinha muito medo à época, medo de meu fracasso humano, medo das consequências da minha solidão brutal, medo das minhas sérias mutilações. Eu tinha muito medo de que algum dia eu fosse rejeitar a feiura das deformações do crescimento que eu veria nele, eu não confiava nem um pouco que eu pudesse ser perseverante. Eu poderia ter criado ele, eu poderia ter falado isso para a Dani à época. poderia ter refeito a louca matemática de improvisos da minha vida e ter comportado essa surpreendente leveza. (Porque, a vida agora me parece, tem me parecido cada vez mais, leve e fácil, absurdamente fácil, descomplicada leve e fácil em todas as suas complicações, desburocratizada.) Passei tempo demais me preocupando com cada coisa besta, com cada coisa sem razão, antecipando os medos afim de não ser sucumbido por eles, de tal forma que me prostrei.

Minha filha tem me ensinado muito. Minha filha e a Dani. Antes de ontem estávamos eu e a Júlia, que é a minha filha de 4 anos, sentados na biblioteca. Era uma hora da manhã, eu estava escrevendo no computador e a Dani já estava dormindo. Como era feriado, a Júlia e eu estávamos acordados mesmo sendo altas horas. A Júlia tirando os livros da biografia do Dostoiévski da estante e os folheando, me mostrando as fotos a cada segundo, de formas que era um milagre eu conseguir escrever. De repente, a Júlia parou de conversar e ficou me olhando, um olhar de profundo enlevamento. Eu notei pelo canto dos olhos, mas só deixei de fazer o que eu fazia para olhá-la depois de algum tempo. Daí eu vi seu olhar de profundo enlevamento, e perguntei o que era. E ela me responde: "Eu gosto muito de você." Assim mesmo. Uma voz sentida, puramente apaixonada. Ela não falou o que eu falo todas as horas para ela, eu te amo, o que seria um clichê, mas falou eu gosto muito de você. Era como se ela realmente tivesse se dado conta de seu amor por mim naquela hora. Foi um insight, uma revelação. Eu a peguei no colo e fiquei mais uma hora com ela lá, conversando, trocando carinhos, um entregue ao outro. Eu soube que aquele era um momento que ela lembraria para sempre, que era algo que moldaria seu caráter, um momento que estaria fazendo uma sombra estrutural de amparo para atos e impressões futuras, uma nota cristalina e talvez indeterminada que a iria fazer parar um instante, com a chave do carro na mão, com a sacola de compras no braço, com o mar batendo em seus pés na praia, 20, 30, 40 anos à frente, e escutar, emitir aquele mesmo olhar enlevado em direção a um raio de sol ou ao rastro aleatório de uma pomba no ar: uma música, imprecisa, reconfortante. E isso, que ela não saberá bem o que é, irá resolver um problema, dissipar uma dúvida ou talvez uma grande agrura, lhe indicar com uma incrível e imprevista facilidade um caminho. Eu quis também achar um idioma tão virginal como aquela frase que ela me disse eu gosto muito de você para lhe retribuir, e fiquei repetindo que eu é que a amava muito, eu é que a amava demais, e ela só concordou se aconchegando em meus braços, ela elegantemente sabendo que era verdade apesar da minha linguagem desgastada só encontrar as velhas formas comparativas do egoísmo da posse em me colocar lamentavelmente como eixo ativo do amor.

Eu sinto uma vontade enorme de falar com o Rui, lhe dizer que nada disso por qual ele está passando é novo. Que eu passei por infernos tão graves como o dele. Que eu fui o menino trancado no quarto, vitimado pela doença da insensibilização alheia e da transfiguração para uma forma gramatical inócua. Eu gostaria de falar para ele que eu não tenho nenhuma lembrança imediata de felicidade vindo da minha infância, e poucas ou também nenhuma vindo da minha juventude. Dizer que a vida, olha só, não é nada complicada, e que isso não é slogan de propaganda de refrigerante e nem tão pouco qualquer outra forma de ardil às custas de uma falsa ingenuidade. Mas se alguém tivesse me dito isso, eu não acreditaria. Aliás, eu nem daria bola. Eu seguiria trancado no quarto, imerso em um universo muito particular. Eu já disse uma vez para a Dani o convidar para passar as férias aqui em casa, mas ele não veio. Eu também não viria, quando estava trancado em meu quarto. Eu queria muito, muitíssimo, que ele viesse, ficasse aqui uma semana, um mês. Ele, emborcado em sua altura e com essa lucidez excessiva e desconsolada de não se ater a nenhum charme visível, e eu, em meu desconcerto, submetido às raízes mentais de alguma associação com personagens descolados de filme americano. Eu com o jeans rasgado, os cabelos compridos e os óculos escuros de meu avatar imaginário de um Kevin Costner acidamente simpático. Um amor seco de um clã de machos, com direito a choro. E ele, como um desenho animado europeu feito para ganhar um Oscar em seu manequim de lixo mecânico de madeira e olhar triste, estilisticamente feioso com a compensação de uma redenção no final para alegrar as famílias espectadoras, fazer valer o preço das pipocas. Ambos andando pelas ruas sem muita conversa, desengonçados, mas também com o direito de uma adstringência de no final do dia, nem se for por enfado mútuo, olharmos de novo um ao outro sem nenhuma reserva. Eu poderia dizer a ele que ele imprimiu em mim uma nota eterna, que me salvou várias e várias vezes, aquele abraço que foi o mais delicioso da minha vida, aquela corrida debelada pelo meio da rua, tão perigosa, que se coroou com uma declaração de amor. O mais delicioso abraço. Eu gosto muito de você. 

Posso ver ainda o que eu faço.

sábado, 18 de abril de 2015

Meus prêmios, de Thomas Bernhard



Todos os dias quando passo de carro, às seis da manhã, vejo, em um local bem afastado na cidade, um senhorzinho sentado em uma cadeira, de frente ao portão de sua casa, profundamente absorvido na leitura de um livro. Quando passo em sentido oposto, retornando para minha casa, e seja qual hora do dia for, torno a vê-lo, na mesma posição e na posse do livro, absolutamente compenetrado. Ontem, fiz o retorno pelo quarteirão de cima para tornar a passar de frente a ele, e estacionei sorrateiramente meu carro na esquina, na intenção de usar o celular para tirar aquilo que eu pretendia ser uma bela foto de um senhor despreocupado com o andamento da vida dedicado por completo à leitura. As fotos saíram péssimas, o que me desgostou muito, uma vez que me impediram de chegar mais próximo a meu objeto retratável dois homens que no mesmo momento em que eu me pus no disfarce de ter parado meu carro para atender a uma chamada telefônica, eles também estacionaram o carro deles diante uma casa e entraram pelo portão desta me dirigindo olhares desconfiados. Dei marcha a ré e saí dali, lamentando a oportunidade perdida, ainda mais que notei um cãozinho dormindo aos pés do senhorzinho, o que muito iria contribuir para a plasticidade da cena. Das tantas vezes em que eu o vejo, noto que o livro que salvaguarda nas mãos muda de semana a semana, uma vez tendo as lombadas grossas, outras sendo fininhas, e, sou capaz de apostar, não se trata da Bíblia. Um dia paro ali e cometo a audácia de perguntar a ele o que está lendo.

Retorno para casa e vejo no atenciosíssimo sistema de comunicação com o cliente do site da Amazon que minhas encomendas "já estão na agência dos Correios esperando a retirada". Esse tipo de prestimosidade britânica partindo de uma empresa me enche de admiração, principalmente nessa época de empresas telefônicas e de contas da internet cuja política com os clientes é pautada por uma consciente e dissimulada distração extorsiva nas cobranças abusivas das contas mensais. Quem dera todas fossem iguais a você, Amazon, eu penso, com a mente livre de debates sobre as tais consequências nefastas de um capitalismo sem chances de livre concorrência aos pequenos  e médios empreendedores. Os pequenos e médios empreendedores, limito a pensar, não emitem nota fiscal e deixam o cliente a deus dará após efetuado o pagamento, não se importando a mínima em mandar sequer um e-mail dizendo quando a encomenda será enviada, vide Estante Virtual.

Recolho os livros e de imediato, assim que instalado em casa, leio Meus prêmios, de Thomas Bernhard, uma das aquisições feitas a preços abaixo da metade da tabela (os outros sendo Auto-de-fé, do Elias Canetti, e Sartoris, de William Faulkner, o primeiro comprado por 30 reais, o segundo por 25). Não dá para falar de Meus prêmios sem recorrer aos ditos spoilers. O livro me fez soltar altas gargalhadas, é o mais simpático e engraçado dos livros que li de Thomas Bernhard. Tem 100 páginas de leveza e da mesma prosa deliciosamente envolvente de Thomas Bernhard. Traz novidades para mim, como sobre o tempo em que Bernhard se enjoou de livros e literatura e passou meses felizes trabalhando como motorista de caminhão, assim como a informação de que ele iria trabalhar como caminhoneiro entregador de mantimentos em um serviço beneficente em Gana, trabalho abortado após a morte de seu contratante americano. O terceiro e o quarto ensaios_ chamo-os assim, ou poderia chamá-los de contos autobiográficos_, são obras-primas, não sei descrevê-los sem o uso desse clichê. Um trata de sua premiação em Bremen, premiação que, como em todas as outras, ele ia apenas pelo dinheiro do prêmio, e nessa premiação ele escreve às pressas e meia hora antes da cerimônia, em seu quarto de hotel, o discurso de agradecimento, tido pela história do referido prêmio como o texto mais curto já feito por um outorgado. Bernhard escreve que, quando o público presente estava por se deixar se envolver com o discurso, o texto subitamente se encerra. Eu pensei que se tratasse pois de um texto tapa-buraco, burocrático e preguiçoso, mas eis que descubro o pronunciamento publicado na parte final do volume, e fiquei tocado. Sem sombra de dúvidas, e de forma absolutamente inesperada, assim que li Discurso por ocasião da outorga do Prêmio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen, já o tive como um dos melhores escritos de Bernhard e o melhor discurso que já li após o do recebimento do prêmio Nobel pelo William Faulkner. Mas, ao contrário da beleza entusiástica de Faulkner quanto à redenção humana, o discurso de Bernhard é uma peça de fria poesia sobre a situação espiritual moderna. Três breves páginas, ou duas, se descontarmos os espaços prologais e epilogais em branco, que me fez pensar com meu saudosismo adolescente nos textos célebres que eu estampava em camisetas quando tinha meus 17 anos. O conto-ensaio sobre Bermen se encerra em uma apoteose de humor delicioso, que não vou contar aqui para não estragar a surpresa de um eventual interessado em ler o livro, mas trata de Canetti e, coincidentemente, de Auto-de-fé, que estava em meu mesmo pacote em que estava Meus prêmios.

Em O sobrinho de Wittgenstein, Bernhard descreve uma das vezes em que recebeu um prêmio literário, e como foi escorraçado do auditório pelos cerimonialistas e pelo público em decorrência de seu discurso de recebimento, altamente ultrajante para todos que estavam presentes. A mesma cena é descrita em Meus prêmios. Ao se ler os discursos na parte final do livro, o leitor entende porquê. É de matar de rir.

Foto mais próxima que pude tirar do senhorzinho leitor. Tomara que seja uma anomalia genética passada para suas próximas gerações.