sábado, 18 de abril de 2015

Meus prêmios, de Thomas Bernhard



Todos os dias quando passo de carro, às seis da manhã, vejo, em um local bem afastado na cidade, um senhorzinho sentado em uma cadeira, de frente ao portão de sua casa, profundamente absorvido na leitura de um livro. Quando passo em sentido oposto, retornando para minha casa, e seja qual hora do dia for, torno a vê-lo, na mesma posição e na posse do livro, absolutamente compenetrado. Ontem, fiz o retorno pelo quarteirão de cima para tornar a passar de frente a ele, e estacionei sorrateiramente meu carro na esquina, na intenção de usar o celular para tirar aquilo que eu pretendia ser uma bela foto de um senhor despreocupado com o andamento da vida dedicado por completo à leitura. As fotos saíram péssimas, o que me desgostou muito, uma vez que me impediram de chegar mais próximo a meu objeto retratável dois homens que no mesmo momento em que eu me pus no disfarce de ter parado meu carro para atender a uma chamada telefônica, eles também estacionaram o carro deles diante uma casa e entraram pelo portão desta me dirigindo olhares desconfiados. Dei marcha a ré e saí dali, lamentando a oportunidade perdida, ainda mais que notei um cãozinho dormindo aos pés do senhorzinho, o que muito iria contribuir para a plasticidade da cena. Das tantas vezes em que eu o vejo, noto que o livro que salvaguarda nas mãos muda de semana a semana, uma vez tendo as lombadas grossas, outras sendo fininhas, e, sou capaz de apostar, não se trata da Bíblia. Um dia paro ali e cometo a audácia de perguntar a ele o que está lendo.

Retorno para casa e vejo no atenciosíssimo sistema de comunicação com o cliente do site da Amazon que minhas encomendas "já estão na agência dos Correios esperando a retirada". Esse tipo de prestimosidade britânica partindo de uma empresa me enche de admiração, principalmente nessa época de empresas telefônicas e de contas da internet cuja política com os clientes é pautada por uma consciente e dissimulada distração extorsiva nas cobranças abusivas das contas mensais. Quem dera todas fossem iguais a você, Amazon, eu penso, com a mente livre de debates sobre as tais consequências nefastas de um capitalismo sem chances de livre concorrência aos pequenos  e médios empreendedores. Os pequenos e médios empreendedores, limito a pensar, não emitem nota fiscal e deixam o cliente a deus dará após efetuado o pagamento, não se importando a mínima em mandar sequer um e-mail dizendo quando a encomenda será enviada, vide Estante Virtual.

Recolho os livros e de imediato, assim que instalado em casa, leio Meus prêmios, de Thomas Bernhard, uma das aquisições feitas a preços abaixo da metade da tabela (os outros sendo Auto-de-fé, do Elias Canetti, e Sartoris, de William Faulkner, o primeiro comprado por 30 reais, o segundo por 25). Não dá para falar de Meus prêmios sem recorrer aos ditos spoilers. O livro me fez soltar altas gargalhadas, é o mais simpático e engraçado dos livros que li de Thomas Bernhard. Tem 100 páginas de leveza e da mesma prosa deliciosamente envolvente de Thomas Bernhard. Traz novidades para mim, como sobre o tempo em que Bernhard se enjoou de livros e literatura e passou meses felizes trabalhando como motorista de caminhão, assim como a informação de que ele iria trabalhar como caminhoneiro entregador de mantimentos em um serviço beneficente em Gana, trabalho abortado após a morte de seu contratante americano. O terceiro e o quarto ensaios_ chamo-os assim, ou poderia chamá-los de contos autobiográficos_, são obras-primas, não sei descrevê-los sem o uso desse clichê. Um trata de sua premiação em Bremen, premiação que, como em todas as outras, ele ia apenas pelo dinheiro do prêmio, e nessa premiação ele escreve às pressas e meia hora antes da cerimônia, em seu quarto de hotel, o discurso de agradecimento, tido pela história do referido prêmio como o texto mais curto já feito por um outorgado. Bernhard escreve que, quando o público presente estava por se deixar se envolver com o discurso, o texto subitamente se encerra. Eu pensei que se tratasse pois de um texto tapa-buraco, burocrático e preguiçoso, mas eis que descubro o pronunciamento publicado na parte final do volume, e fiquei tocado. Sem sombra de dúvidas, e de forma absolutamente inesperada, assim que li Discurso por ocasião da outorga do Prêmio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen, já o tive como um dos melhores escritos de Bernhard e o melhor discurso que já li após o do recebimento do prêmio Nobel pelo William Faulkner. Mas, ao contrário da beleza entusiástica de Faulkner quanto à redenção humana, o discurso de Bernhard é uma peça de fria poesia sobre a situação espiritual moderna. Três breves páginas, ou duas, se descontarmos os espaços prologais e epilogais em branco, que me fez pensar com meu saudosismo adolescente nos textos célebres que eu estampava em camisetas quando tinha meus 17 anos. O conto-ensaio sobre Bermen se encerra em uma apoteose de humor delicioso, que não vou contar aqui para não estragar a surpresa de um eventual interessado em ler o livro, mas trata de Canetti e, coincidentemente, de Auto-de-fé, que estava em meu mesmo pacote em que estava Meus prêmios.

Em O sobrinho de Wittgenstein, Bernhard descreve uma das vezes em que recebeu um prêmio literário, e como foi escorraçado do auditório pelos cerimonialistas e pelo público em decorrência de seu discurso de recebimento, altamente ultrajante para todos que estavam presentes. A mesma cena é descrita em Meus prêmios. Ao se ler os discursos na parte final do livro, o leitor entende porquê. É de matar de rir.

Foto mais próxima que pude tirar do senhorzinho leitor. Tomara que seja uma anomalia genética passada para suas próximas gerações.

19 comentários:

  1. Curiosamente eu estou começando a ler "os meus prêmios", fiquei completamente viciado no autor.

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    1. É uma leitura bem ligeira, e realmente viciante.

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  2. Charlles, vai conversar com ele! Garanto que não morde, e suspeito que apreciará sua conversação. Quem sabe até lê seu blog... Hehehehehe.

    Eu também moro numa cidadezinha de interior e, desde que terminei o mestrado em Salvador e comecei a dar aulas num curso de inglês aqui, cada vez mais percebo como existem bons leitores, quase secretos - certamente mais que em meu tempo de jovem estudante. Hoje mesmo, fui um dar uma aula sobre Shakespeare, simplesmente porque está no livro didático, e dois deles haviam lido várias peças do bardo, e sabiam falar sobre isso. Um, esses dias, carregava um livro Stanislavski; outra, um pouco mais velha, estava radiante por ter adquirido O Outono da Idade Média, se não me engano. Fico feliz em ver a galera lendo.

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    1. Não vou conseguir resistir a dizer essa bobeira, lá vai: mas assim se perde a "magia da distância". Tô brincando, mais cedo ou mais tarde vou lá falar com ele.

      Assim que eu cheguei nessa cidade, eu sempre via um alemãzão de mais de dois metros, de barriga enorme e cara de louco, rodando pela cidade com um carrinho de papel. Ninguém sabe ao certo a história desse cara, ou talvez há alguém que saiba mas eu não soube perguntar o bastante. Ele sempre era visto com um livro, e um dos prefeitos acabou arranjando um trabalho de auxiliar para ele na biblioteca municipal. Ele ficava lá, em seu gigantismo de mansidão temerária, lendo e lendo sentado à mesa, e atendia todo mundo com prestimosidade. Logo depois sumiu, ninguém nunca o viu mais.

      Quando eu trabalhei no sistema prisional, havia um cara magrinho, homossexual condenado por atentado ao pudor contra um rapaz de menor idade. Ao que falavam, parece que foi uma armação que o menor fez contra ele, mas ele ficou preso uns três anos, e depois foi para o semi-aberto. Ele sempre aparecia com um livro, uma vez o vi com um Herman Hesse, com um Kant, e por aí vai. Se formou em letras e nunca mais soube dele. Havia um outro, magro e de óculos, que também lia, e que um dia pintou a parede da cela toda e foi severamente repreendido pelo diretor. Ele sempre falava coisas viajandonas sobre arte, um discurso que tinha mais vontade de ser erudito do que realmente era. Assim que ganhou a liberdade, duas semanas depois, se enforcou.

      Uma das sentenças que considero mais certas é aquela que diz que só o homem culto é livre.

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  3. É: terei de comprar mais Bernhard. Já o vejo com outros olhos agora que sei de sua breve vida de caminhoneiro. Seguindo o que sugeriste em nossa última conversa, acabei de comprar o Meine Preise pela Amazon por 1,22 Euros. Hum...

    (O segundo parágrafo poderia ter sido escrito pelo Houellebecq, após se masturbar assistindo à uma maratona proto-hentai de Sailor Moon em sua novíssima Smart TV 3D Led 65" 4K Sony XBR-65X905A)

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    1. Pareceu mesmo, aquele tom seco absolutamente catalográfico e burguês do Houellebecq.

      Você está morando na Alemanha, aprendendo alemão, nada mais lógico que reforce o aprendizado lendo no original um dos maiores autores da língua.

      Eu deixei para adquirir Meus prêmios só agora, pois caí na besteira de pensar que fosse um livro passável. Foi publicado postumamente em 2009, vinte anos depois da morte de Bernhard. Eu o colocaria fácil entre os livros mais hilários das últimas décadas.

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    2. Mas achei curioso pagar 1,22 euros pelo livro em hardback (e a entrega básica em dois dias por 3 euros), com o paperback custando 8 e kindle 7,99. Sorte minha. ERA PRA SER ASSIM, ESTAVA ESCRITO.

      Abusei e comprei ainda, da Inglaterra, Das Booty, sobre o grande Bruno Tolentino.

      Oxford 1978. Meet Lucio, an aristocratic prize winning poet who writes in five languages. He's a high profile university lecturer, calls Samuel Beckett a friend and claims to have a diplomatic passport issued by the Vatican. He also leads a secret double life as a drug smuggler and is about to embark on his most ambitious venture yet. One that he thinks will make him rich. His plan? To bring a boatload of hash from Morocco to Spain then overland back to the UK. The problem? Lucio is an eccentric, unlikely villain. He relies on Voodoo, Astrology and an Irish clairvoyant to conduct operations. So what could possibly go wrong? Everything. The only question is, can a gang of cack-handed amateurs actually pull this caper off? Or will they go down trying. It's a hairy, hilarious ride. And the funniest thing is ... it's all true. 'The brilliant DAS BOOTY, a great story, very funny, very engaging and beautifully written.' Malcolm Imrie 'I read DAS BOOTY with huge enjoyment. It's an extremely good read, well plotted, excellent characterisation, and cast in shapely, sprightly prose. I think it would make a great movie.' Anthony Farrell

      (Quando disse nao ter plata para teu Houellebecq era verdade, esqueci da existencia do diabólico cartao de crédito =))

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  4. Gostei muito da foto. Acho que fez bem em manter distância, Charlles.
    O homem parece absolutamente à vontade, relaxado e absorto em sua leitura. E há as árvores da foto que transmitem uma sensação de conforto, de paz, cada vez mais rara em nossas malditas cidades cinzentas e poluída por concreto, metal, barulho e fedor.
    Um homem, uma árvore, um livro. Ler é uma espécie de felicidade, segundo Borges, ver alguém lendo, desta forma, também o é. E essa visão é ainda mais sublime quando vivemos sufocados diante de outras tão tristes: pessoas ensimesmadas, alienadas, distraídas em seus celulares com joguinhos, redes sociais, fotos, vídeos, e toda sorte de porcarias que “compartilham” o tempo todo. Neste contexto, a foto tirada de um celular, fica ainda mais representativa e bonita.
    Agora é ir lá, aproveitar a oportunidade, sentar na sombra e conhecer esse senhor, parte uma espécie em extinção, a saber, aquela que mantém relação de companheirismo e amizade com o livro.
    A primeira vez em que li algo sobre Bernhard, foi na revista Bravo!, numa matéria, intitulada “Encanto Radical”, acho. Lá tinha também uma entrevista muito boa com o autor, na qual já se podia vislumbrar sua sensibilidade peculiar, e as histórias dos discursos em que falava sinceramente aos ouvintes. Até xeroquei a entrevista e a guardei por um bom tempo.
    Comprarei “Os Prêmios”. Fiquei entusiasmado com texto e quero lê-lo.

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    1. Estou revendo minhas crenças, Marcos. Acho que parte considerável das pessoas está atolada em esquemas idiotas progressivos_ antes o orkut, depois o Facebook, agora essa abominação da indigência mental que é o Whatsapp. Fiz essa revisão para conter uma depressão que me aparecia pela frente, uma espécie de solidão no meio das gentes que se me revelava assustadoramente triste. Aí eu pensei: "larga de ser bobo, meu chapa. A estupidez de rebanho sempre existiu, desde os ditos primórdios da humanidade; você não tem o privilégio de viver um evento novo na história. Então, deixe de ser besta e se junte às pessoas iluminadas, às pessoas que pensam, às pessoas de uma casta milenar que, na expressão de um dos Monty Python que me ficou cara, se sentem desconfortáveis no mundo. Essas pessoas existem à socapa, também não é nenhum privilégio ou vantagem unitária sua a busca pelo esclarecimento espiritual. Há tanto bêbados e sem tetos nessa procura, quanto ensacoladores de supermercado e juízes de direito." Algo assim. Daí, deixei de sentir um vazio imenso quando algum colega zumbi me mostrava em seu celular o vídeo da hora do zapzap em que um bebê expele o catarro pelo nariz ou o marido joga um balde de água gelada na esposa ou o incrível acidente entre a scania e o ônibus escolar com os corpos destroçados filmados na hora.

      Eu estava lendo, mais cedo, algumas das páginas mais arrebatadoras da literatura há cem anos, a vida do coronel Sutpen em seu início, quando ele descobre a realidade dispare de posses e violência longe de seu mundo idílico da montanha, e como me senti feliz, como me senti integrado e com a humanidade justificada. Pretendo escrever sobre essas páginas pela frente. Não estamos sozinhos no mundo, é uma felicidade indiscutível. (Me fez lembrar em Meus prêmios: "E Heisenberg, justamente o físico nuclear, me perguntou várias vezes por que, afinal, escritores sempre viam infelicidade em toda parte: o mundo, disse-me, não era assim. Naturalmente, não me ocorreu nada que pudesse lhe dizer.")

      Eu penso em chegar um dia para esse senhor e lhe entregar alguns dos meus livros que eu tenho em dobro aqui em casa. Uma edição do Moby Dick, ou Dom Quixote, mas sei dos riscos de má interpretação dessa iniciativa, como se eu estivesse agindo com proselitismo, em superposição. Melhor um dia chegar para conversar e ver no que dá.

      Fico imaginando: e se Bernhard tivesse ido para a África, que escritor ele seria? Essa pode ser uma das grandes perguntas alternativas da literatura.

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  5. eu perdi minha fé faz um bocado de tempo: todos os leitores que encontro aqui em Campo Grande perambulando com um livro à mão estão lendo calhamaços do estilo crônicas de gelo e fogo.
    Noutro dia, um colega de trabalho veio à minha sala para falar sobre LITERATURA. Queria uma opinião justamente sobre a obra supracitada.
    Num papo informal com outra colega, enquanto ela narrava suas recentes férias na Europa, perguntei "e que tal a terra de James Joyce?".
    E ela me perguntou "quem é James Joyce?"...

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  6. Ei, mas, Ricardo, nossas crenças e descrenças talvez devam ir além de nossa realidade imediata, não?
    Isso me lembrou uma anedota, contada por um amigo, onde uma senhora no ônibus dizia que a eleição havia sido um roubo!, pois: "todo mundo que eu conheço votou no Aécio!"
    Vai ver, Campo Grande nem é tão grande assim. (perdão)

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    1. É verdade, Campo Grande não é nada grande, mas as minhas amostras são bem ecléticas: moro na periferia da cidade, ando por aí de transporte coletivo, estudo numa universidade particular, trabalho num órgão público federal, interajo com pessoal de cooperativas de reciclagem, e ali, meus amigos, tenho visto muito livro bom chegar, desprezado e jogado no lixo que fora, só o "pó da gaita" pra ser reciclado...

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    3. Valeu, Ricardo. E peço desculpas se meu comentário pareceu pejorativo. Abração

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    4. Não pareceu pejorativo, de maneira alguma. Bem menor, mas bem menor mesmo ainda é a "cidade" em que nasci, no interior do RS: nos anos 70 contava-se em torno de 10.000 habitantes; hoje, acredito que esteja na casa dos 8.000. São Paulo das Missões, o nome da gloriosa. Campo Grande saltou de 100.000 nos anos 80 pra 800.000 nos anos 2000. Já temos 3 shoppings, olha como progredimos rss... e agora um aqui perto de casa, 5 quadras e estou dentro, por exemplo, de uma livraria Saraiva, olha só que avanço significativo...

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  7. Fiorino, árvorés, brita espalhada, um senhor e um livro. Chupa mundo moderno.

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