sábado, 22 de setembro de 2012

Seu Rosto Amanhã, a Trilogia

Javier Marías no lançamento do volume único, de 1328 páginas, de Tu Rostro Mañana


Seu Rosto Amanhã é um ambicioso romance dividido em três partes do escritor espanhol Javier Marías que juntas somam mais de 1300 páginas e que é um amplo panorama memorialístico onde se fundem vivências pessoais transpostas para a ficção, personagens reais dissimulados em excêntricos semi-inventados, revisionismo histórico (que tanto é da Espanha do autor, quanto da Alemanha e da Inglaterra do pós-guerra), e um sem fim de reflexões que vários críticos tem visto como proustianas e que, à parte tudo o que essa obra tem de tema objetivamente sustentável, é graças à musicalidade que Marías impregna a estas partes que esse livro é tão cultuavelmente distinto. Esse romance tem desconcertado à crítica mais destemida, que mesmo no paroxismo que a simples coragem envolvendo a criação de uma obra desse porte nos dias do entretenimento ligeiro de hoje causa, não se exime de citar, quase sem querer, que Marías tem um estilo rebuscado, difícil, ou essa fórmula vernácula já consolidada de que ele escreve assim para despistar os frívolos já na primeira página. Porém, ler Marías compulsivamente como eu venho fazendo desde que conheci, sem nenhuma advertência, seu romance mais popular, Coração Tão Branco, há dois anos, me serviu a ver que tal escritor não passa de um trabalhador com amplos conhecimentos do seu ofício, desses sobre os quais a sina do talento pesa com tanta inevitabilidade que se pode constatar que seria um fracassado para todas as outras labutas terrenas que não fosse a da escrita, e que nem sua obra equivocadamente é, nem ele almeja a ser, um autor experimental que queira criar novos e intrincados idiomas, ou produzir em série literatura que só possa ser lida por literatos. Marías é mesmo um simples, e sua transparência deixa nítido que sua voz deve muito a três próceres canônicos, a saber, Shakespeare, Laurence Sterne e Joseph Conrad, sendo que tudo o mais em seu caudal de apego irrestrito à tradição literária vem do apuro musical com que preenche suas frases das mais extraordinárias e excêntricas meditações de uma miríade de assuntos, desde a morte, a efemeridade da existência, até prosaísmos tais como o uso estético do botox e a utilidade de espadas medievais em banheiros de boates como objetos de convencimento para se manter distância de damas casadas com altos figurões ministeriais. 

Ler Seu Rosto Amanhã, neste início de século (que já vai à velocidade inapreensível das coisas que, à falta de tempo para serem digeridas e entendidas no que querem dizer pragmaticamente, nos digerem elas), e nesta ocupação meio calejada de leitor profissional para a qual não se espera que vá se surpreender positivamente com algo novo, foi o equivalente espiritual à vivência dos grandes livros da idade da descoberta entre os vinte e trinta anos, os Faulkners, os Demônios dostoiveskianos, os Tchecov, os Montanhas Mágicas. Sair dessas mil e trezentas páginas aproximadas de retorno ao mundo cotidiano foi o mesmo que aceitar a decepção da verdade recorrente dos atos sociais em que escondemos já muito acostumados e felizes todo o universo do psiquismo das longas frases e do pensamento sutil para sermos apenas os monossilábicos de improviso expressando o básico de nossas alegrias hormonais e nossos ódios de primata desafiado no trânsito. O mal que a leitura de Seu Rosto Amanhã pode fazer _ e isso deveria ser colocado como tarja de advertência na capa do livro, por uma obrigação ministerial e com os seguintes dizeres: “Esse livro pode causar a impressão de que a espécie da qual o leitor faz parte tem um mundo de formas ideias e requintadas aonde ele poderia viver em harmonia plena com imaginosas concepções cerebrais nas quais mesmo o ódio, a culpa e a vingança, seriam entendidas de um ponto de vista semi-divinatório”_, é o de tornar o leitor descompassado com a então hiperatrofiada ciência da bestialidade que são as quatro paredes primordiais de qualquer cenário moderno e os asfaltos da cidade que simulam conduzir para algum lugar. Pausa: note bem: alguma voz oportunista pode estar falando: mas essa não é a impressão despertada pela maioria dos grandes romances?, e estará certo; como eu já disse, Marías não traz nada de novo, embora ele seja, à primeira vista, impossível de se classificar.

(Ao crítico que quer passar a informação útil ao leitor interessado sobre o que a leitura de Marías trará de benefício a um investimento de tempo nem um pouco irrisório, diante a visível concentração de parágrafos que o folhear de qualquer de seus romances deixa à mostra, fica algo solto no ar a capacidade não rotulável que se cola incomodamente ao autor de Todas as Almas e Coração Tão Branco: seu livro mais ambicioso, Seu Rosto Amanhã, é caudaloso como o são os de Thomas Pynchon e Roberto Bolaño, mas Marías não tem o barroquismo do primeiro nem o namoro com a literatura de gêneros do segundo; seu iberismo não se conforma à lapidação artesanal do idioma da maneira como o faz outros conterrâneos geográficos, como José Saramago e Antonio Lobo Antunes; ele está distante mesmo do seu gêmeo de fama literária, Enrique Vila-Matas, no que os poderiam aproximar mais como o recurso à metalinguagem e ao uso das picuinhas secretas da história da literatura dissidente como tema; seu anglicismo vê os costumes seculares de uma velha Inglaterra estagnada em sua mitomania de hierarquias doutorais oxfordianas e clubes fechados de espionagem empresarial e política com uma percepção da decadência que em nada se assemelha à mesma percepção de gente como Ian McEwan, John Banville, ou ao V. S. Naipaul de O Enigma da Chegada; e, apesar de ser o detentor de um coeficiente de vendas que o coloca na mesma posição de grandes romancistas pop, como, por exemplo, Philip Roth, seus livros estão longe de ceder às tabuadas de gosto pelo erótico ou de encarnar-se como superego espetacular das culpas históricas de grandes impérios às margens da decadência.)

Mas para facilitar a vida do pretenso leitor de Seu Rosto Amanhã, vou intentar fazer um resumo de cada um de seus três volumes. Segue:

Seu Rosto Amanhã [vol 1.], Febre e Lança

A saga se inicia com uma peroração do narrador ainda indeterminado sobre a natureza do discurso e do falar, em tons sombrios e admonitórios em que ele aconselha: "Ninguém nunca deveria contar nada, nem fornecer dados nem veicular histórias nem fazer com que as pessoas recordem seres que nunca existiram nem pisaram na terra ou cruzaram o mundo, ou que, sim, passaram mas já estavam meio a salvo no retorcido e inseguro esquecimento." O leitor se inicia na musicalidade da prosa de Marías, em sua ânsia contida, em sua ebulição de homem maduro que cruzou um limite da experiência e está além do estoicismo e da sabedoria; prescinde, pode-se dizer assim, do estoicismo e da sabedoria. Aliás, essas primeiras páginas de SRA é um minimalismo em síncope da conclusão que chegou o narrador sobre a importância do calar, do não dizer, do se isolar na indiferença estudada sobre o quanto é pernicioso a informação sobre o passado ou mesmo sobre os gestos cotidianos. É um tanto irônico que o narrador pregue tal filosofia, já que está a compor a primeira de mais de mil páginas de um trabalho que, praticamente, alcança o papeamento sobre grande parte das coisas que mobíliam os mexericos e os efêmeros interesses humanos. O narrador, que em seu fluxo incontido de falar, um fluxo que simula margear o psicótico e o autismo, esquece-se de se apresentar, ou não tem tempo para isso; exclui-se de se posicionar no enredo, não oferecendo sequer um enredo, cedendo apenas à paixão de juntar palavras, de povoar mais ainda a apregoada inutilidade de dizer com um labirinto de discursos metásticos que se desdobram em um sem fim de assuntos possíveis. Mas tal narrador, prodigamente, não se enquadra no filistinismo de tal contradição: tal narrador é um filho aperfeiçoado de Laurence Sterne, ou, mais exatamente, desse narrador sem freios, extraordinariamente perspicaz e preparado, extraordinariamente lúcido e provido de humor, que é a maior das criações de Sterne, Tristram Shandy. Todo Seu Rosto Amanhã é explicitamente shandyniano_ Marías é tradutor premiado de Tristam Shandy na Espanha, e em um ensaio em Literatura y Fantasma admite que, ao traduzi-lo, sentiu-se com essa possessão de co-autoria que junta escritores temporalmente impossíveis em uma irmandade centrada naquele que usufrui da contemporaneidade_ , em sua inexorável tendência à digressão, em sua lentidão voluntária de atrasar um momento em suspense muito esperado da história para cair mais outra vez na divagação, em seu respeito obsessivo às pequenas coisas, em sua filosofia dedicada ao trivialesco.

Então, o narrador se apresenta: chama-se, em resumo, Jaime Deza, mas até nesse simples fato cartorial há espaço para subentendidos e cogitações sistemáticas, já que, dependendo da localidade física, Jaime se torna Jacobo, Giacomo ou Jaques. Deza é um espanhol que estudou em Oxford, tendo sido professor nessa universidade inglesa por dois anos. Ao sair de lá, tem o convite de um antigo e venerável amigo, o emblemático Peter Wheeler, para se juntar a um clube seleto e semi-secreto de espiões remanescentes do MI-5 e MI-6 (Military Intelligence), que, com o fim da guerra fria e do ambiente do pós-segunda guerra que tanto gerou-lhes atividades políticas, passaram a ter seus serviços contratados por grandes empresas multi-internacionais e pela ainda subliminarmente forte administração estatal de alguns países (sobretudo das generálias do terceiro mundo latino-americano). Deza aceita, ao ser anunciado sobre seu talento em, escondido por espelhos falsos, ou mesmo em silente observação diante as pessoas a serem avaliadas, ter a capacidade de adivinhar, através de uma perfunctória análise de expressão e gestos, o que tal pessoa estará susceptível de fazer no futuro_ o que tal rosto será, amanhã. Junto a outros profissionais da previsão _ uma espécie de precognitivos não-paranormais do romance de Philip K. Dick_, Deza dita o destino de nações, ao avaliar que tal encarregado de pegar um empréstimo destinará tal quantia a uma usurpação do governo de um país sul-americano, ou o que acontecerá no show-business ao sentenciar que tal cantor está no final de carreira e já posicionado para a decadência, não devendo o mercado fonográfico apostar mais fichas nele.

Mas, como foi dito, o enredo fica em segundo plano. Aqui, o que interessa, e é a força motriz da grandeza de Marías, são as digressões e análises profundas, bastante poéticas e filosóficas, que intercalam incessantemente todo o livro. O que vale dizer é que, tais digressões, são menos gratuitas que as do mestre de Marías, Laurence Sterne, ou, melhor dizendo, uma hora ou outra perdem sua pureza shandyana e deixa entrar a luz trágica da outra influência capital do autor, Joseph Conrad. Grande parte desse primeiro volume se centra na história da traição sofrida pelo pai de Deza por um grande amigo, na época do ápice da glória de Franco, e de como o pai perdeu toda vida intelectual ou influente como paga pela grande sorte de ter escapado da execução. As capas dos três volumes da edição da Companhia das Letras são obras-primas à parte e sutis informações artísticas sobre o livro_ uma atenção tocante dos editores quanto ao valor desse grande romance de Marías, demonstrando o carinho de leitores transformados em editores_, e a capa dessa primeira parte mostra as marcas de tiros desferidos na Batalha de Madri contra um prédio próximo à Gran Via. Deza mostra, num dos impactos da  obra, inserido em um propósito oblíquo mas solidamente organizado e seguramente conduzido na composição fechada da narrativa, ao se atentar longamente sobre os desastres espirituais e as consequências humanas terríveis advindos com a guerra. Há cenas fortes, como o literal toureamento de um professor universitário que se nega a se curvar para os militares franquistas, e tem as orelhas e o pênis cortados, e as costas perfuradas com as lanças dos touros, antes de morrer. Outra das cenas que marca o que se seguirá de mais sério no estudo da violência, a partir do segundo volume, é a descrição do pai de Deza da conversa que ouviu no bonde, certa vez, entre duas mulheres: ao passarem de frente a uma janela de um prédio, uma das mulheres fala, da forma mais coloquial e dessensibilizada possível, que foi ali que ajudou as forças franquistas a invadirem a residência de uma família denunciada como traidora da causa, e ali ela mesma pegou o bebê de colo da família e o arremessou contra a parede, o matando. Aqui, o leitor para a leitura e se persigna; aqui, Marías mostra sua astúcia suprema de executar uma das poderosas frases musicais bombásticas e veementes que se anunciará com toda sua presença pressagiadora dali em diante.

A influência de Conrad se faz mais presente, nessas desoladas paisagens espirituais sobre a danação humana, e nos retratos imbatíveis de personalidades da obra. Os retratos de rostos e entidades feitos por Marías é coisa de regalar os olhos; é inevitável pensar que se está a ler páginas ali que são instantaneamente clássicas. Esse volume se encerra também à maneira conradiana, num longo monólogo de Peter Wheeler, que faz lembrar o monólogo do capitão Kurtz, ouvido pelo narrador às margens do rio Riva, na casa de campo de Wheeler.

Esse primeiro volume apresenta ilustrações curiosas, como a reprodução dos cartazes da campanha de persuasão do governo inglês durante a segunda grande guerra para reprimir que a população entregasse levianamente informações importantes para os espiões inimigos, incorporados no disfarce de vizinhos inofensivos. Wheeler mostra a Deza sua coleção desses tais cartazes, conhecidos como Careless Talk.

Cartazes do Careless Talk, em Seu Rosto Amanhã 1

                                                  



Seu Rosto Amanhã [vol 2.], Dança e Sonho


A capa que a Companhia das Letras escolheu para o segundo volume é ainda mais sutil e eloquente: uma escadaria fotografada de maneira enviesada em que apenas os que passaram pela leitura do primeiro volume percebem a mancha de sangue em um dos degraus. Na noite que antecede o convite de Wheeler para o narrador ingressar no trabalho de leitura de rostos, Deza vê no degrau da casa de Wheeler uma poça de sangue misteriosa, que, questionando na mesa de almoço sobre o fato, tanto a governanta quanto Wheeler demonstram um desconhecimento tão cabal sobre o assunto que o próprio Deza passa a pensar ter tido uma alucinação. Esse acontecimento nebuloso retorna repetidas vezes ao longo do livro, só sendo revelado no penúltimo capítulo do volume final. Mas a insinuação muito bem construída por Marías da imperenidade da existência com a aliteração desta cena, e do caos que se instala quando se pressupõe a aquisição do poder através da violência, seja esta institucional ou pessoal, dá o ensejo à entrada definitiva em um dos principais temas do romance, sendo este a citada violência. 

Quase toda a ação desse volume se passa em slow-motion em um banheiro de deficientes físicos de uma discoteca londrina, em que Deza acompanha passivamente a um de seus chefes atacar com um espada a um adido cultural que perdeu a postura na pista de dança com a esposa de um chefão. É o volume de menor número de páginas, e o único que não apresenta gravuras, e o mais próximo das tensões esperadas pelo público leitor que queira ver traços do cinema e da literatura norte-americana de entretenimento de massas. Aqui Marías se revela um mestre do suspense retardatário; atrasa o máximo ao leitor saber se haverá um assassinato por decapitação, ou se tudo não é somente uma ameaça engendrada como imposição meramente vaidosa de poder pessoal. Enquanto o braço de Tupra, o chefe imediato de Deza, desce com a espada por sobre o pescoço da vítima, que está semi-desmaiada no chão do banheiro, a verve shandyana de Marías retorna nas divagações paralelas incontidas que misturam o trivial ao universal. A brutalidade que perfaz esse segundo volume, mesmo revestido ainda da elegância perspicaz da música de Marías, é um tanto impactante, e vai descambar para a ação no último volume em que o próprio narrador se embrenha em equiparar-se àquele que antes condenava.

Seu Rosto Amanhã [vol 3.] Veneno, Sombra e Adeus

Esse é o volume que tem maior número de páginas. Inicia-se imediatamente de onde o volume 2 se encerra. Há de se falar que são muitas tramas paralelas, impossíveis de serem citadas mesmo em uma resenha tão extensamente pedante quanto esta. Daí que inicia-se de onde a principal trama se encerra. Estão, Tupra e Deza, na casa desse primeiro, tendo um tenso diálogo sobre a natureza da violência, sendo que Tupra, do alto de sua indiferença magnética, que tanto seduz e repudia a Deza, apresenta a sua teoria Mansfield-Kennedy, como lenitivo para que Deza não se assuste tanto com as demonstrações de crueldade cometidas por ele na discoteca onde se finaliza o volume antecedente. Para ilustrar melhor suas tentativas de resgatar o colega para a tranquilidade e a racionalidade corriqueiras lesadas, mostra uma foto involuntariamente cômica em que aparece Sophia Loren, sentada diante a mesa de um restaurante, na atitude entre curiosa e invejosa, olhando furtivamente para o interior do largo decote de uma atriz até então no auge da fama, chamada Jayne Mansfield, sentada a seu lado. A foto vem estampada na página 32 da versão brasileira.
Foto que embasa a extravagante teoria Mansfield-Kennedy, sobre a tendência universal humana à ruína, à auto-destruição e à violência

Marías começa por expressar o diálogo em torno dessa foto com um aerado humor descritivo, tão típico de um sterniano carimbado. O leitor vê além da foto; vê através dos olhos de Deza, profissional treinado para enxergar o que está por detrás das armadilhas da superfície ludibriadora, e vê através do olhar incisivo do grande escritor Marías, que, partindo da graça flagrante do olhar cobiçoso de Sophia Loren, algo tão desprovido de transcendência ou de memória prolongada, deriva para a tendência humana à ruína, à auto-destruição e à violência. Com essa foto cômica, Marías constrói uma extravagante mas bem fundamentada teoria sobre a efemeridade das glórias terrestres, o que se vê como um dos temas de todos os seus outros romances ( há um belíssimo ensaio em Literatura y Fantasma, em que ele narra o que os assessores de alguns imperadores romanos assopravam nos ouvidos do monarca no momento da coroação: E no entanto, recorde-se sempre de que és mortal! ). Jayne Mansfield era uma atriz em vertiginosa acensão na época da foto, ainda que seu campo de atuação fosse a de um erotismo bem mais explícito que o de Loren; mas é irrefutável que por onde passava, lançava em uma latente invisibilidade mesmo beldades consolidadas no cânone de Hollywood como Loren, devido à sua beleza exultante, excessiva, esfuziante. Tupra passa a contar o que ocorrera com Mansfield, o que de todo não foge da via sacra das grandes tragédias pessoais de álcool, drogas e sexo que determinou a queda de tantos outros que atravessaram rapidamente o tapete da fama de aparência imorredoura. Mansfield teve seus casamentos e divórcios, suas brigas bêbadas com figurões do cinema que a colocaram nas famigeradas listas negras dos grandes estúdios, se envolveu, mesmo que tangencialmente, com um palhaço que se dizia o papa do diabo, um tal de Anton La Vey, que dizia ter escrito a Bíblia Satânica, e acabou seu último dia de vida nos destroços de um carro, num acidente fatal numa estrada que matou a ela e ao amante. Por que o nome de Kennedy nesta sua teoria?, pergunta Deza. Ao que Tupra responde:

"Teria servido qualquer um desses outros nomes (que morreram drasticamente: Lincoln, Keats, James Dean, Cristo), e muitos mais, não são poucos os que devem sua celebridade máxima ou seu não esquecimento à sua forma de morrer, ou à sua hora, quando se diria que ainda não era a vez deles, ou que era injusto. Como se a morte entendesse de justiça ou se preocupasse com ministrá-la, ou quisesse entender, é absurdo. No máximo é arbitrária, é caprichosa, quero dizer que estabelece uma ordem que nem sempre cumpre, e escolhe ou descarta: às vezes vem decidida e, com todas as probabilidades, se aproxima, nos sobrevoa, olha, e de repente decide deixar para outro dia. Há que ter muita memória para se lembrar da cada vivo sem deixar escapar ninguém. Sua tarefa é infinita, e mesmo assim a realiza com uma minúcia exemplar há séculos. Que servo eficaz, que nunca cruza os braços nem se cansa. Nem se esquece."

Marías está a nos dizer como aquele filósofo que afirmou que o grande mal da história é o homem querer sair para fora do umbral de sua casa. Deza, que sempre suspeitou que seu talento para ver o futuro no rosto dos chefes militares do terceiro mundo e artistas decadentes não passava de um engodo pessoal alimentado pela necessidade de seus contratantes, não consegue ver seu próprio rosto amanhã. Explora mesmo o psiquismo profundo e velado de há séculos falecidos rostos de condes e condessas retratados nos quadros do Museu do Prado, mas não adivinha que o repúdio que lhe causa a violência de Tupra não o impedirá de cometer a mesma extrema violência com o amante de sua ex-esposa Luisa, o pintor de falsificações Custardoy. Suspeitando que Custardoy espanca Luisa, e temendo que, em decorrência, este venha e ocupar em definitivo o espaço que a separação deixara junto a Luisa, acarretando em uma ameaça para a segurança de seus filhos, Deza se lança em um plano de vingança que ocupa o suspense de grande parte de SRA 3.

Marías conclui esse esplêndido romance contradizendo a norma filosófica que abre o livro e se repete ao longo de suas infinitas páginas, a necessidade de se calar, a vanidade da fala e o total desplante do verbo. O leitor fica querendo ouvir mais e mais as perorações de Marías/Deza. Mas Marías nos dá um ingrediente final de seu já vasto universo de recolhimento livresco: nos apresenta, enfim, os verdadeiros Peter Wheeler e o pai de Deza. Uma foto nos mostra o encanecido Wheeler, que foi Peter Russell na vida real, e o pai de Deza, com todas as suas confissões de dignidade de exilado incorruptível e estoico, é o pai do escritor, o filósofo Julián Marías.

"No limiar da gordura, ou nem tanto (uma mulher larga, em todo caso), sua expressão era muito ausente ou nada vivaz, embora tivesse em seu olhar um vestígio de sossego, de quase indiferente determinação", Deza usa seus poderes para deslindar a há muito falecida Condessa de San Segundo, Camilla Gonzaga.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Um Presente

Eu postei esse texto aqui ontem, a título de agradecimento ao Luiz que, de todas as outras maneiras virtuais, não conseguia (ou parecia que não conseguia) comunicar-me com ele para informar o recebimento do livro. Como algumas pessoas devem ter visto, o texto durou uma ou duas horas e, logo após, o retirei "do ar". Tocou aqui na cachola o alarme de que talvez eu tivesse me excedido e o humor com propósito simpático era apenas e tristemente um deboche mal educado. Muitas vezes meu nível de alacridade é descompassado ao andamento cotidiano e essas más interpretações acontecem. Mas, ufa!, o Luiz me respondeu por e-mail e deu mostras de que entendeu a brincadeira, me fazendo ver que o exagerado estava sendo eu, por ver assombrações. Posto-o de novo. É uma bobagem! Tirando a parte do agradecimento e a alegria do presente.

Olha, seu eu fosse empresário e me visse enrodado com o mercado livresco, aproveitaria a grande ideia que meu amigo Luiz Ribeiro me mandou, muito provavelmente de forma involuntária, e que me foi entregue hoje pelo carteiro na hora do almoço. Luiz me mandou a primeira edição canadense (Luiz mora em Toronto), em capa dura com sobrecapa radiante, de Sabbath`s Theater, o inigualável grande romance de Philip Roth_ um volume belíssimo, suntuoso! A encomenda veio cercada de mistérios, a começar pelo distante anúncio de Luiz de que iria me presentear com o romance, mas que os meses iam se passando e ele demonstrava certo constrangimento diante a demora da chegada do presente, e eu, a parte passiva prometida, era acometido pelo constrangimento em feedback de ver que o Luiz ficava constrangido pela suspeita levantada de que não poderia corresponder ao trato da oferta. Blog é uma coisa recompensadora; cada um dos que comentam aqui há algum tempo e com certa constância para alimentar a crença de que não são simples visitantes mas leitores do blog, traz uma personalidade própria que me dá a certeza de intimidade, ainda que nós, os leitores e eu, não nos conheçamos pessoalmente. A presença do Luiz nos comentários sempre foi edificante e bastante desejada, não só pelo autor do blog, mas, com certeza, pelos outros quatro frequentadores desse espaço (não ouso dizer que eu esteja no mesmo patamar de sete leitores do Milton Ribeiro), de forma que eu queria, a título de acabar com quaisquer pressões subjetivas, por mais singelas que fossem, arranjar uma maneira de desobrigar o cavalheiro Luiz de cumprir a sua promessa anunciada, acabando, pois, com certas e avoadas atmosferas de que houvesse uma pressão senciente de obrigação de débito. 

Mas como disse, o Luiz é um cavalheiro, e eu já imaginava que seria difícil desmotivá-lo da aventura de mandar um volume pesado por meio mundo, sem que isso deixasse de ser um presente e fosse um rombo em suas contas particulares diante a exorbitante despesa que envio de tal objeto suscitaria. E aqui a segunda parte do mistério: minha esposa recebe a grande caixa quadrada dos correios, enquanto eu estava no banho, e me grita na porta do banheiro: "Quem é essa tal de Barbara Baby, e o que é isso que ela te mandou?". Eu, curioso compulsivo, entremeio a porta e pego o pacote, olho-o assustado, pois o nome do remetente era mesmo Barbara Baby, e a coisa vinha de Brasília. Fico aflito quanto ao tom de voz da Dani, brincalhão mas com aquela brecha de desgraça anunciada em que tudo poderia virar de ponta cabeça se eu, em pleno meio dia, não sustentasse o clima de humor inofensivo e viesse atrapalhar o cotidiano com alguma confissão dramalhona de que eu tinha uma vida secreta incorporada por uma amante com o nome de artista de pole dance. Tento achar algum ponto de contato, mas nada me vem: eu não conhecia ninguém em Brasília que pudesse me mandar uma encomenda de tal porte, nem tampouco uma Barbara Baby. Me enxugo rapidamente e rasgo a caixa para acabar logo com aquilo, e eis que vejo lá o vermelho da pintura do judeu maquiavélico que é a capa mais conhecida mundialmente do Sabbath de Roth, e respiro aliviado. É o Luiz, amor! Respondo. Ela já intui que é coisa do blog. A Dani viveu um período de alucinação em que me achava mais fatal que o Brad Pitt, e tinha uma ciumeira danada; passou; e hoje o melhor exemplo de que curou sua miopia conjugal é que tudo que vem do blog é digno de absoluta confiança (o que tem algo de inerentemente insultuoso, pois na entrada da meia-idade, eu deveria despertar nela ao menos o temor de que alguém pudesse ficar apaixonado por mim pelas minhas ideias...). A Caminhante já me mandou dois livros, e o segundo já me foi entregue pela Dani como da sua amiga de Curitiba. Pois bem, voltando ao assunto, o livro é belíssimo, e imagino que o Luiz solucionou o impasse enviando-o por algum amigo que partiu do Canadá até Brasília e lhe fez o valioso favor de traze-lo na mala e, em consequência, postá-lo do DF até minha cidade, Itapuranga, o que diminui consideravelmente os custos. E esse amigo (ou amiga, o que me parece mais provável), num arroubo de desconfiança ou simples humor do cerrado, usou o pseudônimo de remetente Barbara Baby. Fim do mistério.

O último mistério, e o que despertou meus nunca sonhados dotes empresariais, é que o Sabbath, além de formidável objeto de mesa de centro em sala de estar, também expele um delicioso odor de tutti frutti quando é aberto, por todas as páginas. Repito: todas as quase quinhentas páginas emitem uma suave e acalentadora informação nasal de tutti frutti. Minha filha, que adora cheiros e, principalmente, cheiros de livros, sendo que a primeira coisa que faz quando tem um livro em mãos é cheirá-lo, se embriagou com a novidade e me olhava admirada ao dizer: "Morango! Morango!". E isso me deixou fascinado! Não sei se é uma coleção em que, deliberadamente, o editor quis fazer viajar o leitor para instâncias ainda mais inusitadas que a carga de convoluções que esse Roth traz, através de aromas_ e se for isso, o volume é uma primeira edição (o Luiz sabe mesmo dar presentes), de 1995; em 17 anos o odor não deveria ter se mitigado? A outra hipótese, mais plausível, é que, na mala da Barbara Baby, havia algum outro objeto acompanhante muito próximo do Roth, um perfume, um desodorizador, um creme para pele, uma calcinha comestível (para o caso de que, afinal, realmente exista uma Barbara Baby, com todos os insurgentes esteriótipos que tal verdade inclua), e que tal fragrância tenha cambiado para o livro nas tantas horas em que esses vizinhos ficaram compactados no voo entre Toronto e Brasília. A outra hipótese, um tanto paranoica, é que os shoppings do Canadá tenham um sistema de calefação interna contra os invernos rigorosos e que com isso, algo do brilho mercadológico das lojas se instala osmoticamente em uma transcodificação campesina de frutas em objetos de materiais tão porosos quanto páginas de livros. 

Mas, independente dessas questões, a ideia é fenomenal e deveria ser desenvolvida por alguma editora: pegando o mote dos idiomas aromáticos do Walt Whitman. Livros aromáticos. Imagine ler Thomas Bernhard sentindo odor de canela; Hemingway com odor de daiquiri e abacaxi; Faulkner com um bem tolerável cheiro de couro de boi, ou de suor de cavalo; Thomas Mann com cheiro de neve; Bellow com o cheiro do jardim meio abandonado do Herzog, ou com o odor de apartamento fechado, meio mofo e poeira, do sr. Sammler; Ulysses com cheiro de mar, ou com o perfume da Molly Bloom; Proust com cheiro de madeleines...

Mandei um e-mail pelo bol agradecendo ao Luiz, e abri um endereço de e-mail pelo hotmail (charllesfaulkner@hotmail.com) para também mandar meu agradecimento. Fica aqui, no caso dessas mensagens terem se perdido pela malha ectoplásmica entre dois continentes, mais no mesmo intento: muito obrigado pelo carinho, Luiz! O livro_ junto ao Kobo Abe, que lerei no mês que vem_ é parte indissociável e um dos melhores componentes da minha biblioteca. Forte abraço!

Na Espera


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Mel Está Lendo Ulysses



Quando não tenho nada para fazer, visito a livraria da minha cidade. Minha cidade tem 25 mil habitantes e é um milagre que tenha uma livraria. E uma livraria de considerável porte, diga-se de passagem. Nesses 9 anos que moro aqui, ela sofreu inúmeras modificações estruturais: enlargueceu, encurtou, trocou de lugar, voltou para o antigo lugar, distendeu, tornou dependente de uma lotérica que fica ao lado, e, por final, pelo tempo que dura o ocaso da imaginação de sua proprietária, hoje descansa em um corredor de sete metros afundado entre dois estabelecimentos numa espécie de requintado mercado árabe, com suas luzes fluorescentes e estantes que nunca conseguem ter a dignidade de distinção de gêneros que a implacável atração das funcionárias para a entropia as negam. Dessa forma, as estantes são forradas de livros evangélicos, pornôs, best-sellers e clássicos de bolso, no mesmo espaço, como se fosse uma comunhão marcial de cores cândidas e lombadas desinfetadas de malícia ou intenções espirituais de qualquer tipo que se subtraem altivamente dos preconceitos que os olhares dos visitantes querem colar a elas. Nesses 9 anos, devo admitir sem modéstia, foram muitas as contribuições minhas para que o pequeno estabelecimento se mantivesse na ativa. Já sou alguém da casa, como se diz, e tenho a convicção que meu nome ali virou uma referência estatutária de gosto que tanto serve para o caminho oposto, o de espantar possíveis leitores de um livro, quanto para a benesse de aproxima-los de algumas publicações que chegam ali aventureiramente. Como sou uma das três excêntricas pessoas que são vistas constantemente na companhia de livros, alguns dizem que seria loucura levar para casa um dos calhamaços de 400 páginas que com certeza estão por detrás da minha aparência indelével de insensatez. Já os livros de história que eu recomendo às livreiras que tragam são muito apreciados pela muitas vezes facilmente impressionável classe de universitários locais.

Mas no início as coisas não eram tão fáceis assim. Como sempre repito, o casamento e a paternidade restituíram algo que meio mundo julgava perdido por completo para mim_ a outra metade acreditava que eu nunca havia possuído para poder perder_ : a normalidade cívica. Entrar na livraria como um solteirão semi-recluso, sem muita disposição à conversa além de piadinhas triviais sobre o tempo, e gastar longos minutos a ficar vendo atentamente somente e espetacularmente livros (!!!), era algo que não descia pelas gargantas em alerta das vendedoras. Mesmo na porraloquice daqueles tempos, eu tinha uma vestigial bússola de minha situação para perceber que a tão cantada reputação social dependia em parte da impressão que aquelas moças tinham de mim, daí que, somente anos depois (para minha sorte), vim a descobrir, através de uma amiga, que haviam diversos Charlles itinerantes e paralelos trafegando por essa minúscula mas sempre verbalmente ativa cidade: um consumidor contumaz de ervas proibidas pela legislação, que chegava a estocar fardos odorificamente fumáveis em sua casa; um comunista à espera de seja qual oportunidade para seja qual ato de terrorismo que iria acabar de vez com a modorra cotidiana da cidade; um pederasta ultra-discreto que se sentava nas praças trajando roupas negras e portando um dos disfarçáveis livros nas mãos; um homem sem coração a quem atribuíam gravidezes indesejadas e cujo passatempo insensato era perverter mulheres casadas, e, por último, o mais estranho, um Charlles que era um policial a paisana que estava ali para treinar a elite das polícias em técnicas ultra-secretas franquiadas pelo exército de Israel. Além da esposa e filhos, a calvície e a gordura abdominal me tornaram amplamente aceito, às custas da extirpação definitiva dessas cogitações românticas. A aproximação da velhice tem suas vantagens tristes: deixei de despertar as apreensões de bucaneiro despatriado capaz de tudo para ser apenas o dono honorável e por direito de uma confortável poltrona, que entra ali para diversificar as histórias e os enredos que irão balançar seus sonhos de fuga enquanto a digestão do jantar se realiza da maneira mais aprazível possível.

Isso sempre me pareceu parte da graça: que alguém submetido à força compulsiva da leitura se defronte com duas moças treinadas para receberem-me que veem os livros como bijuterias sem a mínima transcendência que não a de misterioso e particular uso doméstico que não lhes importa nem um pouco intuir qual seja, assim como não lhes importariam saber se ali se vendessem algemas, bastões de beisebol e incensórios, e eu toda semana comprasse maniacamente um bastão de beisebol e um incensório e elas não dirigissem entre si, enquanto empacotam a mercadoria e me perguntam pela saúde dos filhos ou assinalam na mais sincera preocupação a quantas andam as variações do clima, nenhum sorriso velado nem sinais cifrados por debaixo da mesa. Elas vivem em um tempo bíblico antes da queda e parecem inalcançavelmente felizes, não-tocáveis e imunes em suas intenções e tocabilidades e aparentes entregas. Talvez, por esse desconhecimento virginal tocante que as atuais atendentes apresentam, me passa ao entrar ali que elas são entidades flutuantes embrenhadas neste lado de cá em esmerada educação e sorrisos, mas cujas atenções reais estão dispersas em uma outra dimensão em que prescindem daqueles livros e daquelas revistas, daqueles tormentos de condensação temporal que para elas são alvo de completa indiferença. Por isso, eu penso, está aqui um compêndio de trezentas páginas dos melhores contos eróticos de uma revista masculina, o best-seller de um padre adaptado para crianças, as primeiras estórias de Guimarães Rosa, e um Vade-Mecum com o códigos inapetitosos do direito, todos lado e lado e com o semblante de inarredável impunidade. Assim, ao encomendar o Ulysses de Galindo e tê-lo em mãos, enquanto observava as caixas de livros empilhadas para serem depositados a esmo nas estoicas estantes, uma das atendentes escora-se na parede e me pergunta de que trata Ulysses. Eu fico bem meio minuto procurando com afinco o que lhe responder, penso no judeu errante pela Dublin concupiscente, as sempre maravilhosas energias espirituais transitando em incrível generosidade pelo livro, as frases as quais me dá vontade de abnegar-me fantasiosamente de tudo e me mudar para dentro delas, habitar o centro do discurso, como disse um escritor americano, o riso libertador... tento concentrar todo o amor que sinto por esse livro naquele prólogo de angustiado silêncio, que deve quase turgir meu rosto de vermelho, consciente da completa leviandade de minha parte em levar a sério o questionamento de uma moça que só me pergunta por coqueterismo comercial.

Daí, ela mostra que a pergunta era ainda mais retórica que eu imaginava, era uma ponte para que me informasse que haviam sido encomendados dois Ulysses pela livraria. Penso rapidamente nos dois ou três amigos que poderiam ter feito essa abominação, e cito em voz alta seus nomes. Não, a livreira me responde, quem encomendou-o foi a Mel. Fico transtornado e sem palavras, a mesma reação que se tivessem dito que um disco voador havia descido nos campos da cidade noite passada e dele saído uma alienígena. A funcionária fala com a mais prosaica das vozes, como se necessitasse morder as unhas para condizer-se com a sensaboria que era para ela aquela tremenda notícia que me passava. Mel?, quem é essa Mel? Aluna de Letras?, pergunto. Não, ah! Vai me dizer que você não conhece a Mel, ela está sempre por aqui olhando os livros. Questiono pela sua aparência física, ao que ela me responde: uma menina assim (aponta para a sua testa), dessa altura... não acredito que não conhece a Mel??

Daí que estou em estado de beatitude sabendo que uma moça, a Mel, está lendo Ulysses, na mesma cidade onde moro, dividindo o mesmo calor cruel de setembro, se aportando com o mesmo carinho e deslumbre para aquelas mil páginas revigorantes. A Mel reservou 47 reais para comprar Ulysses, passou na livraria antes de mim, pois seu volume já não estava lá quando cheguei, o que pode demonstrar o grau de ansiedade que estava para ter o Ulysses. Quando eu era um nababo que me intoxicava de canabis, pulava as cercas das casas das mulheres já não tão bem casadas, me deitava com rapazes capturados das dissimuladas leituras nas praças públicas, e ensinava os homens da força técnicas de muay thai, saber que a Mel existe teria despertado minha paixão platônica. Hoje, o senhor da poltrona cola os olhos e suspira, apostando que sua filha, assim como a Mel, breve estará fazendo fila entre os que amam Ulysses.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Aqueles Estúpidos 4 Metros



Ontem li um maravilhoso artigo de David Foster Wallace, intitulado Pense na Lagosta, e publicado na edição deste mês da revista Piauí. Conheço pouquíssimo de Wallace _ o quanto, apenas, o mercado editorial nacional permite conhecer, por enquanto _, mas o suficiente para ceder ao seu inevitável carisma, à sua voz deslocada de jovem precocemente envelhecido que suporta bem e lucidamente as emanações de uma verdade senciente quase secreta, quase indeterminada, mas que lhe permite ver claro demais a grande intrusão da barbárie e da burrice que se fez no núcleo do se portar humano. Wallace tem esse talento dos grandes xamãs da escrita em revelar o alienismo institucionalizado e aceito sem previsões e auto-críticas nas trivialidades de uma espécie que vem descartando o poder das altas intuições para se refestelar no óbvio babilônico. Seus textos falam de um Homem com o qual o constrangimento diante sua ausência legitimada no mundo o faz o mais inerte  dos seres, com sua pura existência protocolar, sua ira, sua festividade tribal incontornável, sua desfaçatez autóctone e robótica dirigida por uma gratuidade sem drama e sem o mais relativo ou eufemístico dos méritos. Cada vez que eu estou em meu carro, parado ao longo de uma extensa fila de congestionamento, à espera, e vejo algum outro carro acelerando brutalmente e ultrapassando uma migalha de asfalto à frente, penso na frase de Wallace em um discurso que se tornou famoso por ser quase seu canto de despedida, penso naqueles estúpidos 4 metros que meu parceiro de espécie, instalado em seu veículo automotivo poluente, em seu cotidiano insípido imposto por uma pressa estúpida atrás de propósitos ainda mais estúpidos, julga ganhar como vantagem em uma tripa de 20 quilômetros de carros imóveis. Todo dia que tenho que enfrentar o trânsito de uma grande cidade, ou mesmo da pequena e agora não tão pacífica cidade interiorana onde moro, acontece de alguém furar a fila de carros e avançar seus estúpidos 4 metros à frente, me fazendo lembrar automaticamente da vacina de Wallace, de seu engolir em seco e sua súbita prostração. Sabemos que Wallace, afinal, não tolerou bem, não suportou o peso de todo seu gigantesco estoicismo; sua enorme energia verbal, a grande alegria que transparece em seu texto pelo pensar e pela dissuasão, repete a febrilidade extasiante de todo suicida que repudia o suicídio e diz que viverá até o fim, até a idade avançada e a cama na UTI; repete o hinário de Maiacóvski em dizer que o verdadeiro desafio é a vida e as desgraças que se colam a ela. Difícil mesmo acreditar que Wallace se privou do inferno para o qual estava tão bem preparado, tão vantajosamente municiado em relação à maioria das outras pessoas que se contenta como o cão que persegue o automóvel em movimento mas quando esse para ele não sabe o que fazer (os estúpidos 4 metros). Neste texto da Piauí, escrito, olhem só, para uma revista de gastronomia, Wallace expõe de maneira épica a carnificina da Festa da Lagosta do Maine, a crueldade da fervura da lagosta viva, que tenta escapar pelas bordas da panela e que o cozinhante tem que se esconder na sala até que o animal esteja morto, tamanho a carga de sofrimento que a lagosta revela e que retóricas e concepções relativizantes da dor em sistemas neurológicos primitivos não consegue acobertar. Deste texto retiro  o excerto abaixo, bem condizente à expectativa das matanças que as estatísticas dos feriadões inevitavelmente reportará na segunda-feira.

"Minha experiência pessoal não é a de que viajar pelo país seja relaxante ou amplie os horizontes, ou de que mudanças radicais de lugar e contexto tenham um efeito salutar, mas sim de que o turismo intranacional é radicalmente constritivo e humilhante da pior forma _ hostil à minha fantasia de ser um indivíduo genuíno, de viver de algum modo fora e acima de todo o resto. Ser um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contemporâneo: alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá admitir. É macular, através de pura ontologia, a própria imaculabilidade que se foi experimentar. É se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores sem a sua presença. É confrontar, em filas e engarrafamentos, transação após transação, uma dimensão de si mesmo tão inescapável quanto dolorosa: na condição de turista você se torna economicamente significativo mas existencialmente detestável."

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Todas as Almas, de Javier Marías



O mítico ambiente de saber da Oxford inglesa, com sua sisudez esmerada e seus méritos científicos , sua imobilidade secular de produzir eruditos especialistas em Shakespeare para governar o mercado financeiro mundial, é traduzido por Javier Marías em seu misto de romance e ensaio psicológico, Todas as Almas. Nesse romance, Oxford é uma fortaleza desolada em que os mendigos são em igual ou maior número que o de professores, com jantares cerimoniais maçantes, lotada de personagens entre dickensianos e as entidades hirsutas e pomposas de Henry James. Marías empreende uma visão de estrangeiro exilado entre aqueles ferruginosos portões patrícios, sem direitos efetivos de prorrogação de tempo e mesmo sem pretender a isso, e alcança a profundidade de tom que reivindica para si desse hermetismo de classe, para sua voz de escritor, um entendimento pessoal poderoso da solidão, da transitoriedade da existência, da erraticidade dos convívios humanos, das falhas congênitas da ternura, da riqueza interior entrevista nos semblantes presos e empobrecidos nas armadilhas da distinção institucional. Os que identificam uma semelhança no modo de escrever de Marías com o de Thomas Bernhard_ naquilo que os dois tem de um distanciamento semântico da coisa manejada, a ponto de poderem estender a visão da coisa por páginas e páginas onde a repetição produz minimalismo musical requintado_, poderão distinguir que o que em Bernhard é raiva condensada e uma quase santificação da resistência contra o prosaísmo patológico de qualquer ambiente humano (dos mais triviais aos mais campesinos castelos das famílias tradicionais alemãs), em Marías assoma como uma espécie de ironia basal serena, da mesma forma bernhardiana não-coaptável mas sem sua acidez anti-social, sem o abatimento combativo diante a ruína espiritual refletida na geografia e na arquitetura. Para Marías, Oxford é uma terra de abandono, onde os domingos "desterrados do infinito" (expressão baudelariana empregada pelo narrador inominado) tem a capacidade de concentrar tanto desamparo que leva os menos preparados à loucura. Uma das melhores e mais sublimes partes do romance é sua descrição dos professores outrora famosos e veneráveis, que escreveram livros de elevada importância, mas  cujo marasmo opressivo e os domingos desterrados decaíram em mendigos. É a narrativa densa sobre o teólogo que perde família e prestígio e se refugia nas ruas oxfordianas, ou do historiador que compôs três tomos capitais sobre determinada época medieval e agora briga com os outros esfarrapados por um canto para dormir, que oferece a verdadeira divisa de pensador independente de fórmulas e atos de ofício que é esse antigo oxoniano chamado Javier Marías, ele mesmo se revelando ali como sobrevivente na figura de seu narrador que enfrenta o tédio de maneira estoica.

Marías, aqui, se aproxima das não de todo involuntárias escolas literárias modísticas aperfeiçoadas por Sebald e Vila-Matas. Embora Todas as Almas seja contemporâneo às obras desses dois autores_ o romance foi lançado em 1988_, nesta obra vemos o flaneurismo dos principais livros de Sebald, a maneira de Sebald de redigir uma prosa do ambiente em que os personagens servem para evidenciar a perpetuidade da locação e serem agentes de uma história que não passa de uma sistemática vaidosa inventada para dar uma validade esotérica para a efemeridade de suas existências; o que vale em Sebald e neste Marías é a indiferença primordial da paisagem, seja ela povoada ou não pelo homem, sua constância selvagem que aparece no que tem de frio e indiferente às mentes mais calibradas para a percepção do que está acima das regras cotidianas, o que está acima do trabalho e da civilização. Essa selvageria, pois, é similar em cenas como a de Austerlitz, em que o narrador, dentro de um bote em um extenso lago, imagina toda a cidade submersa pelas águas abaixo dele, apresentando as fotos das crianças e pais em preto-e-branco que não mais existiam e posaram um dia para uma lente que os registrou diante a casa que seria levada pela futura hecatombe; similar à estação ferroviária entre Londres e Oxford onde o narrador de Todas as Almas espera por um trem que sempre se atrasa, e que seus mudos e desconhecidos colegas de espera tem como norma inviolável jamais falarem um com o outro e mesmo demonstrarem que se percebem, e que o narrador explora as sombras das cercas ao longe, no campo escuro, o povoado morto que parece pertencer à estação, e a indefinível mulher sentada em um banco a alguns metros dele e que ele procura pelas ruas de Oxford e julga vislumbrá-la em uma perdida oportunidade em uma boate, mas que nunca realmente a vê. Esse niilismo além da filosofia_ não se presta, felizmente, a incorporar uma dogmática acadêmica, como o existencialismo sartreano_, expõe-se algo cansado de orgulhos ou proezas espirituais, cansado das genuflexões diante altares da ciência e dos compêndios de qualquer tipo, cansado_ e aqui há a ponta de uma provável revolução_ de ser descrito como pós-século XX, como pós-morte das ideias ou princípios ou sonhos. Marías se revela com a total independência do escritor superior que, apesar de sua gravata, seu terno, seus títulos, suas amplas estantes recheadas de livros, está à frente desse comodismo egrégio, num local de absoluto silêncio e solidão: não há alienismos kafkianos, nem distorções beckettianas, somente a mente imaginosa trabalhando por si mesma, o pulso realizando as obrigações de reverter para a escrita o que a extenuação da percepção pega dessa supremacia da leveza. Nisso a explicação de Sebald e Marías, tirado raras exceções, empregar sempre a primeira pessoa em seus livros: afora as leituras tecnicizantes, eles tem apenas o eu para se firmarem. A mais solitária e independente das funções: a escrita, para a qual se pode valer apenas um lápis e uma folha; daí que a escrita de Marías parece ser feita apenas no recolhimento do lápis e da pauta em branco, sem se importar com a compreensão imediata de seu emissário_ porque, não é feita para se ter um emissário_, daí seu erroneamente definido rebuscamento. (Daí, também, a semelhança entre Proust e Marías, no que tem de absoluto recolhimento, pois reconstroem o mundo dentro da total entrega a si mesmos que, num caso, a iminência da morte avalizava, e noutro, avaliza a propensão inexorável de morar no vagar das coisas inapreensíveis.)

De Vila-Matas, Marías tem, neste romance mais que nos demais (mesmo na continuação deste, Seu Rosto Amanhã, que este é um prólogo, à maneira de o Hobbit o é para o Senhor dos Anéis_ comparação valiosa que devo ao fã incondicional de Marías, Aguinaldo Medici Severino) o uso não superfaturado da metalinguagem e do culto a escritores fracassados e quase definitivamente esquecidos. As duas fotos que Todas as Almas apresenta tem a impressionante força retórica da escrita que as deslindam: a foto do jovem escritor John Gawsworth, no auge de sua passageira fama, quando era amante da mãe da amante oxoniana do narrador e um diplomata que viajava por Túnis, Argélia, Itália, Egito e Índia, e a foto de sua máscara mortuária, em que a argila não esconde o inchaço do álcool e a crueza das desditas. O narrador lembra de uma visão do já derrotado escritor, maltrapilho e sem teto, empurrando um carrinho de bebê cheio de garrafas de bebidas, pelas ruas de Londres. A dor e o sonambulismo da existência aparecem em Todas as Almas com um impacto das grandes obras. Desde quando conheci Marías, através de Coração Tão Branco, na metade final do ano passado, venho compulsivamente lendo tudo dele, e Todas as Almas exerceu um poder de calar diante o mistério do homem que só penso no peso semelhante daquele único grande romance de Kundera. Ao contrário do porteiro nonagenário Will, que aparece no livro guardando uma das faculdades de Oxford, e que tem surtos de memória que o retornam ao dia longínquo em que morreu sua esposa, ou ao dia da capitulação do Eixo, ou a dias de sua infância de bermudas_ e para cada qual os professores tem que adivinhar o sumo da viagem do tempo e dar-lhe os pêsames, ou fingir que soltam fogos pelo anúncio do fim da guerra_, eu posso afirmar que por boas décadas não esquecerei desse inigualável romance.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Guebrídguma



Recebo uma chamada em uma tarde quente de agosto em idos de 8 a 9 anos atrás, a voz de mulher do outro lado da linha tornada indistinguível pela mecânica que tinha que passar toda a sua firmeza e protocolo pelos furinhos da caixa de som do celular. Alô, é o professor Charlles?, pergunta; sim, sou eu, respondo. Professor Charlles, aqui é a Luiza, a coordenadora do Colégio Rudyard Kipling. Teria como você vir aqui ao colégio às 15 horas de hoje? Penso um pouco, o suficiente para identificar na minha lista de personas non gratas a tal Luiza, invoco o instantâneo de possíveis erros que cometi em minha disciplina de biologia para a turma do terceiro ano, não me vindo nada de condenável, o que torna a sensação de temor um tanto mais acentuada. A senhora poderia me dizer sobre o que se trata?, pergunto. É um assunto de certa urgência, você vindo aqui na hora proposta discutiremos._ Está bom, respondo e desligo. 

Atravesso a longa avenida em supino ao sol severo da tarde, com meus diários em mãos. O que diabos a coordenadora queria comigo, era a pergunta martelando na cabeça, ao mesmo ritmo que uma artéria ia motorizando em minha têmpora enquanto as mangas da camisa ficavam molhadas de suor. Luiza, uma mulher de uns 40 anos, semblante rígido, voz determinada das pessoas acostumadas com o comando, alguém temido pelos alunos e evitado pelos professores, ou ao menos por mim, que sempre mantinha uma soviética distância dela, restringindo-me a assuntos meramente protocolares. E houvera um incidente meio desagradável que aumentara ainda mais minha indisposição com ela: na época, eu me lançara numa loucura involuntariamente neoliberalista de manter três empregos, o que podara todo meu tempo livre; eu era, além de funcionário público, veterinário de campo e professor de biologia em colégio particular. Até então essa mazela tresloucada parecia molestar apenas a mim, que era solteiro e desimpedido em tudo, mas a tal Luiza, um dia, invocou a psicóloga do colégio para que me chamasse em particular e me colocasse a par de que esse transtorno de comportamento também privava os alunos da harmonia sanitária ideal das salas de aula. Trocando em miúdos, uma aluna flagrou em certa aula um filete de sangue em meu braço, enquanto eu expunha, com esse braço em riste em frente ao quadro negro, uma daquelas fatídicas cadeias de interações genéticas, e essa aluna me delatou junto à coordenadoria. O fato é que eu saía do frigorífico e corria para o colégio, sempre muito preocupado em não chegar atrasado, e nesse dia em particular mal tive tempo de tomar um banho, o que deu origem ao delito. A verdade mesmo é que nessa correria, grande parte das vezes eu só dispunha de tempo para uma higiene satisfatória quando chegava em casa, lá pelas 11:30 da manhã, até essa hora eu devia mesmo exalar um singelo odor de sangue coagulado, fezes, vômito, e gás do sistema de ar condicionado, que são componentes infusos no ambiente de um frigorífico que abate mil animais por dia, e no qual eu ficava submetido desde as quatro horas da madrugada.

A psicóloga me chama, ficamos um de frente ao outro, percebo o desassossego e constrangimento dela ao, enfim, ter coragem de me dizer que eu, um rapaz tão bonito, deveria ter alguém para zelar de mim, contratar uma empregada doméstica, ou, melhor, quem sabe, arranjar uma esposa, e assim vai. Meia hora de conselhos e nada de me dizer que a razão da piedade excessiva era que um filete de sangue fora visto em seu traçado nauseabundo percorrendo todo meu antebraço, como a muralha da China pelos olhos lunares do falecido Neil Armstrong. Saí da sala da psicóloga crente de que ela me usara, em seu longo expediente morto, para preencher uma das suas fichas burocráticas de atendimento mensal, que justificava seu salário, mas duas semanas depois a própria Luiza me encara, em seu gabinete, me dizendo, curto e grosso, que certos alunos haviam reclamado de detalhes perfunctórios em minha indumentária pessoal. Alguém aqui que tenha caído de gaiato nesse blog é veterinário? Não? Pois entendam, leigos, que cheiros, sabores, máculas em tecidos, filetes de sangue em braço, estão longe de poderem constranger um veterinário. Fiz estágios por longos meses em granjas de suínos, e ainda hoje, quando sinto aquela acidez característica, misto de ureia, enxofre, dejetos biológicos de todo tipo, sou tomado por uma lírica nostalgia, da mesma intensidade que quando minhas narinas são surpreendidas por um certo perfume colossal que minha primeira namorada da adolescência usava, que me para com o que eu estiver fazendo e me descentraliza, ou o rescender da relva apreendido na volta para casa pelas janelas semi-abertas do carro me devasta de saudades de uma antiga casa de campo da infância. Aprendemos sobre uma certa poesia dos cheiros na faculdade de veterinária, o que não é nem um pouco assustador para os profissionais das áreas médicas de qualquer tipo_ semana passada mesmo, meu dentista retirava as agulhas coloridas que inseria no canal do meu dente e as passavam pela averiguação de seu nariz de degustação apurada e deleitosa, tal qual um sommelier. (Aperfeiçoa-se nessa filosofia aromática as pessoas que tem filhos ou são donos devotos de animais domésticos, para quem toda escatologia envolvida são íntimos estudos e caminhos revisitados à farta ao conhecimento recolhido do alvo de seus amores.)

Pois bem, a tal Luiza estava longe de poder tirar de mim rubores de qualquer tipo, daí que eu respondi, na mais cordial das distâncias, que o problema seria resolvido se ela atendesse minha antiga recomendação de que passasse minhas aulas para mais tarde, que não fossem as primeiras, das sete da manhã, mas lá pelas nove, ou quem sabe à tarde, tendo tempo então para voltar para minha casa e me dignificar a esfregar meu couro com a mais bruta das esponjas naturais até que meu sangue minasse de saúde asséptica pelos poros. Ela assim o fez; eu, que melhorei muito da minha doce estupidez retaliativa, continuei do mesmo jeito, atento apenas para manchas visíveis, mas só tomando banho depois que voltava do colégio, no intuito de provar que aquelas sensibilidades ou eram psicossomáticas de quem não se dava bem nas notas de minha disciplina, ou eram de fontes erráticas (um adolescente padrão emana odores francamente desagradáveis, os quais eu mesmo não tolero), ou eram simplesmente birras com as quais meu nível de apreensão dos mistérios administrativos colegiais pouco se interessava. Talvez fosse isso, pensei ao dobrar a esquina em direção ao colégio: o reascender dessas antigas questiúnculas, que a tal Luiza queria mais uma vez me jogar na cara, inadmissível foi para ela que eu não me importasse ou não me vexasse. Entro pelos portões do colégio pronto para dizer sem meias palavras que eu iria abrir mão daquilo e me demitir, avanço para a porta da administração, não me faltando a percepção de que era um tanto estranho que não houvesse viva alma ali, nem o porteiro, nem as faxineiras, nem os professores ou monitores das aulas vespertinas de reforço. E eis que, nesse deserto todo, me aparece a tal Luiza, que surge da sala de administração com uma leveza ectoplásmica e se encaixa ali no umbral da porta com algo de fada ou ninfa do vale, cabelos molhados ineditamente soltos, mostrando o quanto eram longos e negros; os lábios, tão rotineiramente adeptos de um fordianismo de discursos produtivos, estavam moldados com um batom vermelho cordial e não-aberrante (lembro que meu senso de observador apurado teve tempo, naquele micro-minuto de tensão, de reconhecer esse mérito feminino nela: era um batom equilibrado, que se condicionava com precisão elegante ao seu espectro de emanação mulheril, mostrava um auto-conhecimento orgulhoso, seguro e de extrema perícia, não são todas as mulheres que tem isso, isso é uma arte invejável_ de modos que naquela fagulha de racionalização que precede a catástrofe me passou cristalinamente pela cabeça: se eu cair hoje, se eu não aguentar e ceder, se eu me trair e me mostrar fraco e cediço, será por causa desse batom). Ela usava um vestido cuja barra ia até os joelhos, mostrando pernas bonitas, lisas, bem torneadas, pernas de uma mulher que envelhecia com uma lascívia concentrada e não de todo secreta (lembrei que haviam os comentários entre colegas professores que evidenciavam uma curiosidade sobre sua vida de divorciada reservada). Não era a mesma mulher, eram o que as faculdades do senso comum diante o inesperado queriam que eu pensasse naquela hora, mas o que eu tinha firme ao me estacar diante aquela visão era a convicção de que era a mesma mulher; talvez a outra, a intrusa e metade debilitada, fosse a que tinha que se confrontar com a psicopatologia do cotidiano de um colégio como aquele, a Luiza das calças jeans e do rosto sem maquiagem e despersonalizadamente assexuado das reuniões de fechamento de diário que a cada dois meses tínhamos que nos submeter; e a  Luiza legítima fosse aquela revelação noturna que se mostrava para mim em pleno dia, como um convite a uma iniciação a uma ciência privilegiada. Ela me disse_ a voz doce, calibradamente trêmula (meu deus, ela era profissional, pensei, daí que sempre me pareceu altiva a sua indiferença ao atravessar aqueles corredores com beldades ingênuas e assustadas de mocinhas de 16 anos): Charlles, eu te vejo sempre sozinho, sem companhia. Pensei se nós, nós dois, não poderíamos, sei lá, um dia, sairmos juntos para jantar, tomarmos um vinho.

Recordo que Bernard Shaw dizia que nada engrandece mais a experiência de uma pessoa do que os momentos de intenso constrangimento pelos quais ela passa. As gafes de Shaw são antológicas, as vaias e ovações que recebeu ao longo de seus 90 anos de vida: lembro que certa vez, ao entrar por uma sala até um bastidor de onde iria discursar para um grande público, tropeçou e rolou pelo chão, sendo que imediatamente se levantou e continuou caminhando como se absolutamente nada tivesse acontecido. Em certa medida, meu comportamento sempre foi inspirado em Shaw, ainda mais pela atitude desabrida que o irlandês possuía em não se importar em não usar as palavras aprazíveis exigidas pelos atos sociais. E meu histórico de momentos ruins inesquecíveis é arrepiantemente extenso; mas estar de frente à escritorial coordenadora Luiza e ter que suportar friamente que ela estivesse me passando uma cantada, às 3 horas da tarde desses verões inglórios do aquecimento global, tendo urdido uma espetacular e na certa dificultosa evasão de todo mundo para que o colégio servisse inteiramente ao seu intento (apenas ela e eu, eu e ela ali), era algo que exorbitava em muito meu estômago de avestruz para digerir impavidamente o constrangimento. Eu desconversei da melhor maneira que pude, mas tudo foi um grande desastre. Disse a ela que eu já tinha uma namorada, que me sentia envaidecido pelo seu convite, mas eu tinha que recusar. Foi uma auto-violência extrema, ainda hoje, ao pensar nisso, faço uma careta e digo comigo "Cacilda!". Analisei ali que nada há de pior do que uma mulher rejeitada, é o mais cruel dos inimigos que se pretenda ter. Era meu ultimato para abandonar o colégio.

E olha só as coincidências: relatei o fato a um amigo apenas, numa noite de bebedeira que ambos tivemos em um bar da cidade. Esse amigo, um tipo aragonês baixinho, barrigudo, careca e com uma falha num dos incisivos, dado a um riso de alegria suprema que lhe é um acometimento natural desde que acorda até o horário em que vai dormir (alguém que nunca, nem na circunstância do falecimento de seu pai, vi de mau-humor), me disse, após cinco minutos de prefácio monologal hilário recheado de frases como "não acredito", "não pode ser", que fazia um ano que ele e a Luiza eram amantes. Olhei-o embasbacado: "sério?". Tive uma dessas decepções egoístas que prescinde de controle mental, em que vi a altiva Luiza pega por aquele amigo descarado e mandrião; ela merecia algo melhor, pensei e disse a ele. Ele concordou, bebendo mais um copo de cerveja e fazendo sua voz em soprano de quem finge se importar para que outros não lhe ouvissem e preservasse a honra de sua vítima: ela é insaciável, precisa de ver! Pôs-se a contar detalhes picantes que fizeram a noite se estender por mais duas horas além do previsto. Era tão simpático em sua canastrice, tão detentor de uma auto-depreciação adstringente, que no final achei que havia algo de dignamente romântico nas farras pantagruélicas que os dois realizavam juntos, fazia mais que um ano, em segredo tão bem guardado que nem as duas filhas que moravam com ela sabiam. Ainda faltavam dois meses para fechar o ano, e eu havia informado ao colégio que só cumpriria a agenda e sairia dali. Via a Luiza em seu jeans e camisas formais, séria, constrita, e imaginava-a dizendo o que meu amigo afirmava que ela dizia, e se posicionando nos malabarismos que ele descrevia prontamente que fazia.

E eis que, para concluir, encontro um tesouro no último volume de Seu Rosto Amanhã, de Javier Marías. Na página 139, do terceiro volume, da edição da Companhia das Letras, encontro a supracitada definição, que é sobre o quase delével grau de parentesco que surge entre homens que se deitaram com a mesma mulher. Marías não trata do assunto de forma grotesca nem masculinista, como pode parecer a uma primeira impressão, mas o faz com sua elegância costumeira e sua erudição. Diz que_ na verdade é seu personagem narrador quem diz, Jacobo Deza_, segundo leu em um livro de um seu compatriota espanhol, o termo achado para definir o parentesco da "co-foda" (sinônimo "grosseiro e contemporâneo", ele admite), ou do "co-jazer", era uma derivação do vocábulo anglo-saxão medieval ge-bryd-guma, que se declina a ser escrito como "guebrídguma". Se eu tivesse me deitado com Luiza, eu teria passado a ser guebrídguma de meu amigo aragonês. É o tipo de coisa que eu não irei falar para ele_ não compartilharei esse tesouro encravado. Ele jura de pés junto, como se diz, que eu me encontrei depois com a Luiza, e nós jazemos juntos. Para ele, nós já temos esse parentesco primal de sermos posse memorialística do conjunto de recordações sexuais de uma mesma mulher. Sempre que nos encontramos, os mesmos usuais achaques são repetidos, de que cada um não voltou a aguar mais aquela horta depois que soube que o outro passara por ali, que a mulher estava estragada para sempre e seria uma vergonha que o outro tivesse coragem de aparecer com a mixaria que deus lhe havia dado,etc.