domingo, 28 de setembro de 2014

Um conto perfeito



Esperando meus filhos e minha esposa saírem do culto, sentado na praça em frente à igreja, debaixo de um ipê amarelo. Choveu toda a noite e o domingo é glorioso, alegre e tranquilo. Peguei um livro quase a esmo na estante para me fazer companhia, e coube que tal livro fosse o volume de contos policiais de William Faulkner, Lance mortal, lançado pela editora Benvirá. Procuro o menor conto do livro e o releio: a maravilha de curtas 25 páginas intitulada Um erro de química. Quem me visse acharia que ou eu tivesse algum problema de infantilismo mental ou estava passando por um final de bebedeira da madrugada de sábado. Fiquei pasmo pela excelência da história, desse que sem dúvida é um conto perfeito. Tem tudo lá: True detectives, espantosas maquinações sinestésicas de suspense que cativam a atenção do leitor com uma grande dose de hipnotismo-pânico, a canastrice convincente do exagero que faz homenagem à literatura de gênero, e até uma metalinguagem bem-humorada no último parágrafo bastante típico do virtuosismo de Faulkner. O que me faz, às vezes, me distanciar de Faulkner?, me vi perguntando. Convido qualquer apreciador de literatura a ler esse conto e não ter a absoluta certeza da genialidade de Faulkner. O cara é a raiz daquela excelência feita na literatura do século XX. Eu ria, apertava o livro, olhava para alguns passantes com a fantasia de pensar em dizer "vocês viram isso?, o que esse cara fez?". Não só a escrita perfeita, como um conhecimento humano e uma sabedoria bem acima da média. O tipo de leitura que te faz pensar em muitas e intrincadas coisas; o tipo de prevenção definitiva contra o alzheimer que em poucos anos consumirá epidemicamente uma maioria de cérebros amaciados por entretenimento e cultura ruim. Uma das coisas que eu sempre penso é: esse cara não era um intelectual, não era uma acadêmico, o muito que perigosamente se pode dizer dele com sua aprovação é que não passava de um caipira, e só nessas 25 páginas, que não estão entre o que ele fez de melhor, ele vence o mundo todo. É bom demais ler Bellow e Roth, mas me assola uma consciência de perda de tempo imensa por não estar fazendo como há 20 anos, cotidianamente em contato maciço com o universo de Faulkner.

19 comentários:

  1. Fizeste-me comprar mais um Faulkner (vinte e cinco reais, com frete). Nunca li seus contos. Mas, admito, já fiz isso que apenas fantasiaste: enchi o saco do pessoal do meu último trabalho nas horas de folga, sublinhando as frases - e parágrafos! - assombrosas desse homem e os obrigando a ler tais trechos de Santuário enquanto dizia entusiasmado "olha só isso, olha que ABSURDO, leia, leia, leia!', para em seguida deparar com as expressões faciais bovinas dos pobres colegas que não se impressionaram com a grandeza contida ali.

    Sim, Roth é muito mais, ahm, divertido, prazeroso e sexy que Faulkner, além de ser muito inteligente e sagaz, porém somente o caipira beberrão, que abandonou o college e que batia na mulher, parece transmitir através das palavras parte da Verdade. Não interessa que fosse um mentiroso ou hipócrita.Já disseste bem uma vez Charlles: quando lemos Faulkner, parece que estamos lendo a bíblia, alguma parte perdida do Velho Testamento. Porque estamos, mesmo.

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    1. Interessante que Faulkner é tão grande que não se enquadra nas catalogações literárias, daí não se ver ninguém dizer que ele foi um grande contista. Mas ele foi um dos maiores contistas do século, ainda que tenha escrito poucos deles. "O urso", por exemplo, é um de seus melhores momentos, é um conto longo. "Folhas vermelhas" é uma das mais impressionantes coisas que li.

      E como te disse no e-mail, suas últimas frases deste comentário adivinham muito o final do conto do post.

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  2. João Antonio Guerra29 de setembro de 2014 14:58

    The Bear... aliás, todo o Go down, Moses me esmigalha.

    Tem também Wash, que talvez seja o meu favorito junto com The Bear, e Barn Burning, e as duas estórias que compõem entrelaçadas o Se eu esquecer de ti, Jerusalem: as estórias Palmeiras Selvagens (que erroneamente se tornou o nome do livro, deixando o tema da obra inacessível por umas décadas nos U.S., mas esse erro depois foi corrigido por lá, especificamente nos anos 70, enquanto que aqui nós o continuamos: não há uma menção sequer ao título verdadeiro na edição da Cosac) e O Velho.

    Aproveitando: daqui a duas semanas vou apresentar um trabalho à banca da jornada de iniciação científica da Ufrj sobre o Se eu esquecer de ti, Jerusalém. São só quinze minutos de fala, mas eu vou fazer um textinho base e aí posto aqui; se algum amigo gravar a sessão, posto também. E vou apresentar outro trabalho sobre o livro mais recente do Mia Couto no dia seguinte, no mesmo formato. Fim da propaganda.

    Não li esse Folhas Vermelhas e nem nenhum desse Lance mortal. Vou corrigir.

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    1. posta aqui, não vai só mandar email pro charlles
      os emails ainda vão acabar com o blog (nenhum sentido)

      leiam essa entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e da filósofa Déborah Danowski para a Eliane Brum: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.html

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    2. Isso mesmo! Posta aqui. Sabendo como funcionam essas jornadas científicas, é provável que terás mais leitores e ouvintes aqui que acolá ;D

      E João, já que lês e escreves sobre Faulkner por prazer e academicamente, conheces o livro 'Faulkner e a técnica do romance', de Assis Brasil (Francisco Assis Almeida Brasil, não o gaúcho)? Nem o nosso amigo Faulkner de Itapurangawpha conhecia.

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    3. João Antonio Guerra29 de setembro de 2014 18:04

      Arbo e Matheus, podem deixar que eu passo o texto. Melhor por email mesmo, que, porque a banca não entra em contato direto com o texto e apenas me ouve palestrando, tomei a liberdade de fazer tudo em longas sentenças bem familiares, cheias de itálicos que não iam aparecer por aqui, e tem também as notas de rodapé que são um vício que estou pra consertar desde que li os ensaios do David Foster Wallace... Eu mando email pra todo mundo quando ele estiver 100%, podem deixar.

      E Matheus, eu conheço de capa só, que tem uma edição dele lá na biblioteca José de Alencar da Ufrj, mas não peguei pra ler ainda. O que gostei muito de ler foram os dois volumes do Arthur Kinney, um sobre os McCaslin e outro sobre os Compson. Não tem nada excepcional ali, mas aparentemente ele fez um livro para cada família do condado, e isso é um projeto maravilhoso. Vou dar uma olhada nesse do Assis Brasil quando estiver lá de novo.

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    4. arbomenna (arbouba) gmail.com

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    5. Claro que seria maravilhoso publicar esse seu texto aqui, e, ainda, mais um vídeo, João. Esteja à vontade (se for do seu agrado, fazemos um post). E seria bom ver qual dos frequentadores do blog tem mais cara de nerd. :-))

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  3. Charlles, esse "Folhas Vermelhas" foi editado no Brasil? Raramente vejo volumes de contos dele por aqui (Lance Mortal eu desconhecia completamente). Os contos que li ou foram baixados em inglês, ou foram publicados esparsamente em antologias, revistas e sites. Alguém aí chegou a ler "Setembro Seco" (o favorito de Milton Hatoum)?

    Há muito tempo achei para baixar duas boas traduções de contos dele:
    http://www.literal.com.br/acervodoportal/wash-de-william-faulkner-12716/

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  4. Acabei de achar isso:
    http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/03/faulkner-no-brasil.html

    Ele tem muitos contos soltos no Brasil, mas poucos em livro (ainda mais sabendo que escreveu tantos, 125!).

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    1. Paulo, não sabia que ele escreveu tantos. Tentei somar os que conheço, mas chega a umas poucas dezenas. Tem-se que averiguar se a fonte dessa informação não contou os tantos esquetes que ele escreveu durante sua fase de jornalista (tem uma tradução nacional recente para esses esquetes).

      Eu não tenho o "Folhas vermelhas". Li-o em uma coletânea antiga, creio que da década de 70, de contos norte-americanos. É um conto absolutamente sensacional, tem o clima de massacre inescapável do filme Apolypto, do Mel Gibson, e traz uma inversão genial do imaginário sobre índios e negros americanos (os negros são os fugitivos que querem a liberdade mas não tem coragem para a luta, os índios são corrompidos ao extremo pela sociedade branca em sua preguiça e mesquinhez). Já procurei esse volume em sebos, mas não o achei. Caso alguém o ache, por favor, escaneie e me mande por e-mail.

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    2. tu poderia escanear esse conto, Um erro de química, e me mandar por email neh? hehe

      me passaram há pouco o link desta livraria virtual: http://30porcento.com.br/

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  5. Quem diz que são 125 é Denise Bottman, no link acima. Não sei, porque ela também menciona ensaios dele, e eu nunca ouvi falar de nenhum. Não li sequer uma dezena de seus contos, e só ouvi falar de uns 15, 20. Não estou conseguindo achar esse conto (Red leaves) nem em inglês.

    O certo mesmo seria traduzirem logo aqui These 13, volume com pelo menos quatro de seus contos mais famosos (Red Leaves, A Rose for Emily, Dry Setember, e That Evening Sun).

    João, seria mesmo muito mais prático publicar o texto logo aqui.

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    1. Ou mandar pro Charlles, que postaria com os itálicos e etc. sendo admin.

      Bem, do jeito que for, meu email e fácil de achar: só clicar em meu nome.

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  6. João Antonio Guerra29 de setembro de 2014 22:44

    Não esperem por muita coisa não, gente, que são só quinze minutos, nem quatro páginas de texto -- e como eu sei que a banca e a plateia não é de leitores de Faulkner, metade do trabalho sou eu explicando apressado o significado do nome Yoknapatawpha e a confusão que deu a troca do título original por Wild Palms, antes de entrar propriamente no meu tema: Henry Wilbourne e o Homem Alto como personagens que só poderiam existir fora de Yoknapatawpha, por causa dos seus destinos. Eu ainda estou picotando o texto nesse formato e nem mandei pra orientadora.

    Quanto aos contos do Faulkner, eu tenho esta edição aqui:https://archive.org/details/collectedstories030393mbp , com quarenta e dois contos mas acho que sem incluir os de Go down, Moses e Knight's Gambit e If I forget thee, Jerusalem e New Orleans sketches e etc. -- só tem contos inicialmente publicados avulsos, pelo jeito, e certamente não inclui juvenília e outras miudezas. Acho que somando tudo tudinho mesmo dá pra dar uns cem contos. Eu passo por email pra quem quiser.

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    1. O Lance Mortal é a tradução Knight´s Gambit. São contos policiais, mas policiais pelas mãos de Faulkner (o que, quem já leu Faulkner sabe o que quer dizer). Lembro que eu morria de vontade de ler esse livro em inglês, mas naqueles idos de 90 em que importar um livro era praticamente impossível. Dos livros ainda não traduzidos de Faulkner, li o Pylon, uma obra menor e totalmente extravagante na bibliografia dele. Quem leu um conto chamado Noblesse Oblige vai saber que dessas peças exóticas da literatura faulkneriana nasceu boa parte do que Pynchon escreve (este conto, incrivelmente, parece escrito por Pynchon, pelo humor e o non-sense, e não por Faulkner).

      Borges escreveu que Faulkner é maior que Dostoiévski, por, além do tema, ter o estilo. E outra coisa absolutamente verdadeira que Borges escreveu é que mesmo uma obra menor de Faulkner (se referindo à coletânea de contos sequenciados The unvanquished) transforma para sempre o leitor.

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  7. Watch the first teaser trailer for ‘Inherent Vice’ in UK cinemas January 30th.
    “Inherent Vice,” is the seventh feature from Paul Thomas Anderson and the first ever film adaption of a Thomas Pynchon novel.

    https://www.youtube.com/watch?v=wmK4uS8HaA8&feature=youtu.be

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  8. ESFORÇO
    by ramiro conceição
    *
    *
    Ah, como é preciso uma coragem
    de rir de si para que seja possível
    efetivamente chorar com vontade.
    *
    Quantos fracassos…
    Quantas noites mal dormidas…
    Quantos amores potenciais…
    Quantos amigos perdidos…
    *
    Mas vale o esforço… Porque
    quanto mais velho é o corpo
    mais… o poema é moço.

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